Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!

Capítulo 422

Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!

Kaden e Rea estavam do lado de fora da sala de Rudolph, o homem dormindo como um bebê recém-nascido graças à influência de Kaden sobre seu cérebro, momentaneamente suprimindo sua consciência.

Agora estavam ali, Kaden encostado na porta de superfície áspera do aposento com as costas; Rea o observava, fazendo uma careta.

Estava começando a virar hábito.

— "Não consigo entender por que você está pensando tanto nisso," disse Rea, suspirando. "Estou acostumada a convencer as pessoas. Posso fazer esse homem aceitar a morte enquanto você mata o Alquimista."

Ela deu de ombros, indiferente,

— "O que mais há para pensar?"

Dentro dela, Einar assentiu, concordando com a bonita Rea. Essas coisas, convencer suavemente alguém, eram moleza para Rea. Ela era conhecida como a Juíza Hollow (Juíza oca). Esse título não era só para parecer estiloso.

Ela conseguia fazer alguém optar pela morte por vontade própria, e fazê-lo sorrindo.

No entanto,

— "Bem, Rea, esse aí é um plano adorável," Kaden rolou os olhos, "mas acho que você está esquecendo de um ponto importante. Estamos prestes a condenar um homem através do portão da morte, sem ter a chance de realizar seu sonho; morrer sem nunca aprender a caminhar..."

Kaden parou nessas palavras, surpreso por um sonho tão simples e mundano.

Rudolph só queria caminhar. Caminhar.

Kaden nunca imaginou que houvesse alguém com uma aspiração tão básica assim.

Porém, aqui estava, sonhando em ser o mais forte, em fazer isso e aquilo…

Enquanto isso, outros apenas desejavam caminhar normalmente, como fazia naturalmente desde a infância, sem pensar duas vezes.

Inconsciente até mesmo para si, a percepção de Kaden começou a mudar. Sua mente se expandiu, compreendendo as cruéis complexidades da realidade.

Ele respirou fundo, buscando alguma paz, e prosseguiu,

— "Vamos fazer certo, então." Ele finalmente disse, olhando fixamente para Rea, "Se vamos mentir abertamente para ele, dizendo que vamos salvá-lo — quando na verdade estamos condenando — então vamos fazer direito."

— "Você já mentiu," respondeu Rea, com a voz sem nenhuma empatia, "Como é que você vai fazer certo alguma coisa que começou com uma mentira? E, diga-me, existe alguma maneira de matar alguém de forma correta?"

Kaden sorriu finamente. Havia verdade nas palavras de Rea, e isso doeu profundamente.

Se não fosse o fato de ele saber que Rudolph se tornaria um tipo de pessoa, Kaden teria, pelo menos, tentado ajudá-lo usando suas habilidades de fogo, sangue e até síntese.

Porém, ele seria o Deviador de Almas—with—!

Foi então que algo atingiu Kaden como um golpe penetrante na cabeça.

Seus olhos se dilataram ao olhar para Rea. Ele se moveu mais rápido do que ela pôde acompanhar, apertando os ombros dela com força, em suas mãos agitadas.

Os olhos de Rea arregalaram-se de surpresa ao contato repentino da carne.

— "Rea, me diga!" O rosto de Kaden estava a um centímetro do dela, fazendo os olhos vazios da jovem se apagarem como tinta na água, enquanto seu rosto ficava ruborizado de vergonha.

Kaden nem percebeu, sua mente num estado de transe, continuando a falar,

— "Digamos que, no primeiro caso, eu te salvei e depois você mudou e virou outra pessoa." Ele falou, fazendo Rea assentir timidamente,

— "S-Sim?"

— "Agora, no segundo caso, alguém te salvou e, mais tarde, você mudou e virou outra pessoa."

Ele fixou o olhar fundo nos olhos dela,

— "Suas identidades do primeiro e do segundo caso serão as mesmas?"

A testa de Rea franziu. Sua mente tentou pensar na questão com seriedade. Contudo, os olhos de Kaden não a desgrudavam, dificultando sua concentração.

Ela sentiu o coração bater forte contra o peito, o estômago se torcer de forma estranha e sua pressão arterial subir.

Essas eram reações físicas que normalmente experimentava quando tinha medo de algo.

Mas, então, por que seu corpo reagia da mesma forma, enquanto suas emoções, inundando seu coração, eram completamente diferentes?

Antes mesmo de conseguir uma resposta consciente, Rea percebeu que estava respondendo a Kaden,

— "Não," murmurou, sacudindo a cabeça, "Eu não serei a mesma pessoa."

O sorriso de Kaden floresceu como uma girassol em meio a bastante luz solar.

Naquele instante, o coração de Rea quase parou, seu maxilar quase caiu, ao testemunhar um sorriso tão honesto e bonito vindo de Kaden.

— "Sabia que ia dar nisso!" sussurrou Kaden, soltando Rea e se virando, andando de um lado para o outro, com seus pensamentos girando em círculos atordoados, até encontrar uma saída daquela situação.

Se Kaden não tivesse certeza de que poderia salvar Rudolph, teria decidido deixá-lo morrer, ao invés de se tornar alguém como o Deviador de Almas.

Porém, ele poderia salvá-lo. E, de algum modo, Kaden quis tentar.

Rea logo intuiu sua intenção. Ela fez uma careta, balançando a cabeça, internamente ordenando a Einar que usasse seu poder para manter seu coração firme na frente de Kaden.

Depois, deu um passo a mais em direção a ele e falou,

— "Por favor, prove que estou errada. Não me diga que pretende ajudá-lo?" A voz de Rea recuperou sua tonalidade oca. Ela suspirou de alívio internamente.

— "Você leu bem as ordens de A Vontade."

— "Quem se importa," disse Kaden, "A Vontade quer que eu faça algo. Quem disse que eu preciso fazer se não estou a fim?"

— "Agora você está no modo herói?" Rea revirou os olhos, "Dói-me ver você, Kaden, só deixando ele morrer. A morte é bem melhor que essa vida cheia de tristeza. Você sabe disso. Eu sei. Então—!"

— "Eu sei disso," interrompeu Kaden, olhando por cima do ombro para ela, "mas Rudolph quer viver. Quem sou eu para tirá-lo isso?"

A boca de Rea se fechou em uma linha fina, olhando irritada para Kaden. Quanto mais o tempo passava, mais a Tocado por Deus percebia o quanto ele complicava as coisas — e, por extensão, ela também — onde não precisava.

— "Então, como?" perguntou ela cansada, "Como você vai salvá-lo, se a Vontade quer outro resultado?" Ela olhou em volta, "Será que vamos ficar presos aqui pra sempre? Kaden, tenho meus objetivos. E agora, você está me atrasando."

Kaden assentiu, reconhecendo suas palavras,

— "Sei. Mas não vai levar muito tempo. A Vontade quer que ensinemos Rudolph a aceitar seu destino. E é exatamente isso que faremos, do nosso jeito."

Rea ficou em silêncio, observando-o por um tempo, até bufar e dizer, "Droga, Kaden!"

Ela resmungou, passando uma mão pelos cabelos adornados com anéis. Um som de metal se chocando ecoou ao redor deles.

Kaden sorriu, depois balançou a cabeça,

— "Não sou o Kaden." ele falou, de repente sentindo um impulso estranho em sua mente e coração, "Aqui, eu não sou mais Kaden."

— "Hã?" Rea sentiu vontade de lhe dar um tapa.

— "Agora sou um Alquimista, alguém com habilidades únicas para curar o ferido, o machucado, o morto."

Kaden lançou um sorriso baixo para Rea,

— "Me chame de Asclépio."

Rea fez uma careta.

Enquanto isso, no Reino dos Lobos, dentro da sala do trono do Rei Fenrir, o próprio homem estava sentado em seu trono.

Seu rosto só podia ser visto por seus olhos animalescos. O resto era uma massa escura de sombras contorcidas que se recusava a desaparecer, mesmo sob a luz intensa da sala.

Aos seus pés, estava seu lobo — seu mensageiro — rosnando, resmungando e mostrando os dentes para os dois homens que estavam ali dentro.

Um deles era Bari, o Primeiro Dente, com a cabeça abaixada de vergonha e medo.

O outro era um homem mais velho, de natureza lupina como qualquer outro, vestindo uma camisola cor-de-rosa. Seus olhos laranja estavam cheios de confusão, fixos na face oculta do Rei, em evidente terror.

Naquele instante, o chão, envolto pelo fino pelo preto de uma criatura mítica desconhecida, parecia se abrir, prestes a engolir os dois numa cova.

A atmosfera estava pesada, com um cheiro de pavor que cobria o ambiente, cujas paredes estavam marcadas por arranhões semelhantes a garras, o suficiente para gelar até os ossos.

Por fim, o Rei — ou melhor, o lobo — falou.

— "Você foi a carta escolhida, Koftilo, filho de Mamut Radal." A voz do lobo era como um uivo, "Você sabe qual é seu destino agora?"

Koftilo mal sabia o que dizer, sua mente congelada em completo quasto. Seus lábios se abriram e fecharam, sem palavras para expressar a sensação de impotência que o consumia.

Porém, o lobo não era uma criatura paciente.

— "Bari, Primeiro Dente, como criador deste jogo," o lobo parecia sorrir, "essa vida será tomada por você. Seu sangue quente será a lembrança, assim como você tomou a vida dela."

O lobo recuou, entregando suas últimas palavras enquanto o Rei observava, com um brilho malicioso nos olhos,

— "Trinta segundos. Depois disso, você será a próxima carta escolhida."

As palavras pareceram um céu desabando sobre os ombros de Bari. Sua postura se curvou, sob um peso invisível.

Ele virou a cabeça em direção a Koftilo, com os olhos fundos de tristeza e dor.

— "Sinto muito, velho amigo."

Sua espada saiu de sua bainha, com a lâmina brilhando sob a luz carmesma da sala.

Koftilo olhou para ela e, pela última vez, viu seu próprio reflexo na lâmina imaculada. Era um rosto distorcido pelo medo.

Segundos depois, Bari limpou o sangue do amigo da espada, recusando-se a olhar para o corpo morto estendido aos seus pés.

E assim,

— "A próxima carta escolhida será em duas semanas, se o dedo do Rei permanecer nu."

O lobo uivou. E todos os outros lobos na Cidade de Fenrir seguiram-no.

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