
Capítulo 397
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
"Pela Morte sem Morte."
Palavras que enviaram uma descarga de tensão por todos os links neuronais dentro de Vaela. Ela mal conseguiu conter a pressão desconhecida que se infiltrava por sua existência.
Ela inspirou profundamente, de forma expansive, seu coração batendo violentamente contra as costelas.
Fechando os olhos para acalmar seu ritmo frenético, a Vidente os reabriu segundos depois, com o olhar mais firme, fixo na face do Antropólogo.
Expressão dele naquele momento era estranha, mas de algum modo irritante.
Ele olhava para Vaela com aquele tipo de olhar que se daria a um amigo que agora mergulhava em problemas após ter sido alertado claramente sobre como evitá-los.
Vaela compreendeu perfeitamente o significado por trás do olhar dele. Ainda assim, não deixou transparecer nenhuma irritação.
Em vez disso,
"Como?" ela começou, respirando fundo novamente. "Como isso funciona? E o que isso quer dizer, afinal?"
"Não sei." A resposta do Antropólogo foi instantânea.
A Vidente levantou a sobrancelha esquerda, surpresa com sua admissão de ignorância.
Seus olhos mudaram na sequência, carregando algo próximo de... desprezo.
Os lábios do Antropólogo contraíram-se abruptamente a esse gesto. "Eu sei mais do que todos vocês," disse, irritado, "até mais do que a soma de todos. Mas isso não significa que eu saiba tudo. E certamente não sei o que essas palavras significam."
"Então, como devo fazer para alcançá-lo?" Vaela perguntou, a voz carregada de amargura.
"Somente quem chegou a esse estágio pode te guiar e te explicar como." O Antropólogo ergueu os ombros e depois deixou-os cair de forma descompromissada. "Ninguém mais pode."
"E aviso, Vidente, que há dois problemas principais para considerar se pretende trilhar esse caminho." Ele levantou dois dedos. "O primeiro é encontrar alguém que realmente conseguiu chegar ao Mestre."
O Historiador fez uma pausa, estreitando os olhos levemente.
"Não mencionei antes, mas a maioria daqueles que conseguiram estão mortos ou escondidos. Assim, a chance de encontrá-los é praticamente zero."
"Não fale de probabilidade comigo," Vaela respondeu irritada.
O Antropólogo levantou ambas as mãos em um gesto de rendição fingida, claramente divertido com a irritação da sua líder.
Balanceando a cabeça para se recompor, ele continuou calmamente,
"Mas vamos supor, por algum milagre, que você encontre alguém." Ele enfatizou a palavra milagre. "Aí vem o segundo grande problema. Convencer essa pessoa a explicar como chegar lá."
"Nem todo mundo é como eu," disse o Antropólogo, fixando um olhar firme nos olhos de Vaela, "mas eu não diria a ninguém como alcançar um lugar assim. O Umbigo do Mundo é perigoso. Não só para quem entra, mas para o próprio mundo."
Ele parou por ali, tendo dito tudo que podia.
O Antropólogo exalou lentamente, soltando o nó de stress e ansiedade que pressionava seu coração há tempo demais.
Observou Vaela, de onde estava, enquanto as engrenagens de sua mente trabalhavam implacavelmente, buscando uma saída. Ou melhor, buscando o caminho com a menor chance de todos morrerem como cães às mãos de deuses... ou até do próprio mestre.
O Antropólogo não era tolo. Se Vaela morresse, então o Ceifador exterminaria todos eles... se os deuses não o fizessem primeiro.
Não era preciso ser devoto daquele deus gigolô, Cupido, para entender que havia algo entre eles.
Quão profundo fosse isso, entretanto, ele não sabia. E, por uma vez, não quis saber.
Já carregava conhecimento demais. O peso era mais do que suficiente.
"Você deve conhecer alguém," disse Vaela, quebrando os pensamentos dispersos do Antropólogo e trazendo-o de volta ao presente.
Ele a olhou, confuso. "O quê?"
"Eu disse," ela repetiu, caminhando lentamente na direção dele, passos firmes, leves contra o chão, "você deve conhecer alguém que conseguiu chegar ao Mestre. Uma pessoa que possamos encontrar. Com quem possamos conversar."
Ela parou a alguns metros, com os braços cruzados sobre o peito.
"Fala logo."
O Antropólogo encarou-a por um longo momento, depois inclinou levemente a cabeça para a direita.
"Então você não sabia?" ele perguntou, fazendo Vaela franzir a testa em confusão.
"Soube de quê?"
"Você realmente não sabia," disse o Antropólogo, com um sorriso tentado a rir, "mas já ia direto ao encontro disso. É essa a vantagem de ser uma Vidente?"
'Ah… odeio e amo as habilidades das Videntes,' pensou consigo mesmo.
"Corta essa conversa enigmática," Vaela retrucou, carrancuda. "Quem?"
"Vidente," ele disse, seu olhar desviando para uma direção distante, de repente pensativo.
Vaela suspirou internamente. Conhecia aquele olhar.
O Antropólogo estava prestes a lançar uma aula de história de uma hora.
E, de fato,
"Você conhece o início do Reino dos Lobos?"
…
Enquanto isso,
"Grande Pai, aqui está o culpado." Um homem com orelhas de lobo negro, caninos afiados, pelagem negra e uma cauda disse ao lobo que se encontrava na sua frente.
A Capital do Reino dos Lobos, Fenrir, permaneceu silenciosa.
Os lobisomens rodeavam uma plataforma elevada onde uma velha lobo, na casa dos setenta anos ou mais, ajoelhava no chão com correntes prendendo todos os seus membros.
Ao lado dela, à sua direita, estava o homem que acabara de falar.
Todos tinham os olhos voltados à loba cinza sentada com calma na sua frente, olhos fechados como se estivesse profundamente adormecida.
As pessoas prendiam a respiração, com medo até de suprimir um único som.
Ao ouvir as palavras do homem, o lobo lentamente abriu os olhos, revelando pupilas espelhadas — belas, mas inquietantes.
Ele olhou para a mulher e viu seu rosto banhado em lágrimas, a boca amordaçada por casca de árvore avermelhada que a impedia de falar.
"Reconheço você." Disse o lobo, sua voz soando como se alguém estivesse falando através dele, e não por conta própria.
"Você trabalhou como serva da nossa família desde que eu era criança. Sim, lembro de você bem. Muito bem, até. Você me presenteava com doces escondida pelos meus pais reais."
A velhinha assentiu veementemente.
'Fui eu!' ela gritou internamente, lágrimas escorrendo por seu rosto enrugado. 'Fui eu, meu Rei! Cuidava de você. Amo você como se fosse meu próprio filho! Fui eu, meu Rei!'
'Nunca te fiz mal!'
Ela desejava mais do que tudo dizer isso em voz alta, mas foi silenciada. Ainda assim, mantinha a esperança. Escancaradamente, ela desejava que seu Rei acreditasse nela.
Que ele se lembrasse do tempo que passaram juntos, quando ele se irritava com a família e ela estava ali para cuidar dele, levantando seu ânimo.
Rezava. Mas as próximas palavras do rei fizeram todas as esperanças desaparecerem.
"Que decepção." Disse ele, com voz monótona. "Pensar que você, de todas as pessoas, faria uma coisa dessas. Mas só pode ser você. Como só você entraria tão profundamente nos meus aposentos. E você esteve lá no dia do incidente."
As pessoas ao redor prenderam a respiração ao assistir à velha — com a pele marcada pelos anos de duro trabalho, olhos fundos por falta de sono, costas curvada por escovar as áreas do castelo real constantemente.
Nenhum deles era cego.
Todos sabiam que uma velha dessas, que mal tinha condições de sustentar a si mesma e sua família, nunca descartaria tudo por irritar o Rei.
Perceberam seu corpo trêmulo, sua visão dilatando enquanto ela chorava diante do lobo cinza — mensageiro do rei — esperança esvaindo-se de seu olhar como um sol que volta a dormir.
A maior parte da multidão observadora abaixou a cabeça, incapaz de testemunhar o que estava por acontecer.
"Mate-a." O lobo deu a ordem do seu mestre, depois fechou os olhos novamente.
'EU SOU INOCENTE!' ela gritou em sua mente, lutando com todas as forças para se libertar, quebrando ossos e rasgando sua carne no processo. 'ESTAVA LIMPANDO SUA CASA REAL! NÃO FIZ NADA! NÃO FIZ NADA!'
Ela chorou e chorou e chorou.
Mas ninguém se importou.
O homem ergueu uma espada vermelha que reluzia sob a luz da lua. A levantou em direção ao céu, olhos amarelos de fera ardendo intensamente.
Finalmente, a velha compreendeu o fim de seu destino. Então, enfim, levantou a cabeça e olhou entre a multidão de olhares nele fixados.
A maioria recusou-se a sujar seus olhos com esse espetáculo público, abaixando as cabeças.
Mas alguns não desviaram o olhar, preferindo assistir ao seu fim sem sequer chance de falar.
Porém, ela não buscava esses.
De jeito nenhum.
Seus olhos procuraram por seu neto. E lá, ela o encontrou.
Um jovem de cerca de quinze anos, cabelos grisalhos, olhos negros em fenda, com olhar de lobo, chorando enquanto seus lábios estavam sangrando, mordidos até o osso em um esforço desesperado para silenciar seus gritos.
Seus olhos se encontraram. E, de algum modo, como se o próprio mundo desejasse lhe dar uma última chance de falar antes do fim… suas últimas palavras alcançaram seu neto.
E bem naquele momento…
CORTE—!
Cabeça dela foi decepada do corpo, sangue jorrando como fonte, espalhando pelo ar e respingando no homem que a matou.
Sua cabeça rolou pelo chão como uma pedra no campo até chegar ao lobo que dormia.
Sintindo isso, o lobo abriu preguiçosamente os olhos, esticou a mandíbula e engoliu a rosto da velha de um só golpe antes de voltar a dormir.
Tudo isso aconteceu enquanto o neto assistia, suas últimas palavras — as últimas palavras de sua única família neste mundo — reverberando incessantemente dentro de sua mente:
"Sinto muito por ter te deixado só. Sinto muito."
—Fim do capítulo 397—