Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!

Capítulo 398

Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!

"Agora, diga-me: por quê?"

A voz ecoou pelo escuro, reverberando como uivos distantes de milhares de lobos ao mesmo tempo.

O homem — aquele que havia matou a velha — com olhos amarelos, em formato de fenda de lobo, cabelo preto e corpo esguio, precisou apertar os dentes firmemente para não se ajoelhar ao ouvir aquilo.

Ele estava em pé no meio de um espaço onde quase nada podia ser visto, exceto a escuridão. Uma escuridão tão profunda e palpável que parecia vesti-lo por dentro, sufocando-o de dentro para fora.

O único elemento perceptível naquele lugar estranho eram dois olhos brancos, intensos, com pupilas cinzentas em forma de fenda, penetrando a noite e fixando nele.

Abaixo desses olhos, estava o mesmo lobo cinza que tinha arrancado a cabeça da velha. O mensageiro do Rei, e o próprio Rei.

"Estou assustado, Grande Pai, não entendo sua pergunta." disse Bari Wolfson, Primeiro Príncipe do Reino, conhecido como A Primeira Presa.

"Como vocês chegaram a um acordo sobre esse assunto?" perguntou novamente o Rei, com paciência. "Como escolheram a Velha Sara como cordeiro sacrificial?"

A sobrancelha grossa e preta de Bari arqueou-se sutilmente. Logo após, ele se recompôs, escondendo a surpresa que relampejava em sua expressão.

"Não entendo." repetiu, abaixando levemente a cabeça. "A velha era culpada—!"

"Bari."

O Primeiro Príncipe tremeu diante do tom frio e impassível do pai.

"Não me tome por idiota na sua jogada. Perguntei-lhe duas vezes. Vou fazer a terceira."

Ele pausou, suas pupilas cinzentas em fenda estreitando-se. Sob ele, o lobo cinza abriu seus olhos espelhados e rosnou, dentes afiados ainda vermelhos de sangue, enviando um calafríe na espinha de Bari.

Um suor frio escorria por suas costas.

"Como vocês chegaram a um consenso quanto a ela?"

Bari ficou em silêncio, torcendo seus lábios repetidas vezes para acalmar o coração acelerado.

'Então ele sabia.'

Seu pai sabia que a velha era inocente, mas não hesitou nem por um segundo em mandá-la matar.

Por um instante breve, Bari sentiu o medo típico de quem encara o desconhecido.

Algo, alguém, um conceito ao qual nenhuma informação ou padrão se aplicava.

Era assim que o Rei Fenrir parecia para Bari. Como um vazio.

Se Bari não conhecia nada do seu pai, então ficar diante dele parecia como se nada pudesse estar oculto ao Rei.

Não havia nada mais aterrorizante do que encarar o pai dele, o Rei Fenrir.

Nada mesmo.

E, mesmo assim, lá estava ele.

Com um movimento sutil nos dedos, o Primeiro Príncipe recolheu-se e respondeu à pergunta do Rei.

"Foi através de um jogo de cartas." disse, suspirando logo em seguida.

"Conte-me os detalhes." ordenou o Rei.

Assentindo, o Primeira Presa prosseguiu. "Reunimos todos os servos da corte real, e depois os dividimos entre aqueles com acesso às camadas mais profundas do palácio e os que não tinham."

O lobo cinza rosnou fravemente, depois fechou os olhos de novo.

'Nenhuma mentira detectada.' pensou Bari, e seguiu em frente.

"Após selecionar aqueles que tinham acesso, atribuímos uma carta a cada um. Então, uma carta foi escolhida para determinar o culpado."

"E a Velha Sara foi a azarada que saiu com a carta?" a voz do Rei soou quase divertida, embora cruel.

"Sim." Bari assentiu. "Foi tudo por acaso."

"Por acaso?" Os olhos do Rei estreitaram-se. "Você se mostra tolo pensando assim. Mas não importa, filho. Não importa."

"A questão é: você conhece o culpado?"

"Não, pai." respondeu Bari, rapidamente acrescentando: "Mas estamos procurando. Nós—!"

"Você é uma das cartas." interrompeu sharply o Rei, de forma seca.

Bari parou, o coração acelerado no peito. "O quê?"

"Você é uma das cartas, filho. Informe sua facção também. Cada um deles representa uma carta. E, em duas semanas, se meu Anel do Ragnarok não retornar ao meu dedo..."

Os olhos do Rei estreitaram-se, demonstrando pura crueldade.

"Então, uma carta será escolhida. E não preciso te lembrar, meu filho, do que acontece com a carta escolhida. Você criou o jogo, se bem me lembro."

Bari ficou atônito, com os olhos arregalados, encarando o pai que ameaçava sua vida por um anel.

Um maldito anel.

Sob o Rei, o lobo abriu os olhos mais uma vez, estendeu as mandíbulas e uivou da profundidade da garganta.

O som reverberou por toda a Capital do Reino, e, num coro aterrorizante, os uivos de incontáveis lobos responderam, ecoando infinitamente.

Bari cravou suas garras afiadas nas palmas das mãos.

Sangue espalhou-se pelo chão.

Ele entendia o significado daquele uivo. E era algo que não se desejava presenciar: um pesadelo real.

A palavra do Rei tinha sido dita. E nada o impediria de cumprir sua ameaça.

Bari abaixou sua cabeça profundamente e falou, forçando a voz a manter-se firme.

"Compreendido, Grande Pai."

Depois, virou-se e foi embora, sentindo o olhar penetrante do pai queimando em suas costas.

Ele amaldiçoou internamente, os olhos cheios de um nó de medo e ódio.

De um lado de Fenrir City, na ponte que separa a capital dos Lobos Podres, um jovem — o neto da Velha Sara — assistia ao corpo da avó sendo devorado por dezenas de lobos.

Ele não fez nada. Simplesmente observou, os olhos ficando mais mortos e vermelhos a cada momento que passava.

Ele não assistia porque gostasse de ver a avó sendo devorada, mas porque não tinha escolha.

Ninguém na cidade tinha direito de adentrar o território dos Lobos Podres. Era o lado da capital destinado às criaturas que nasciam com alguma deficiência.

Ao olhá-los, nenhum deles parecia completo.

Alguns tinham apenas uma perna, outros eram cegos, outros mancavam, e por aí vai.

Era o território deles, e suas únicas refeições eram os corpos daqueles condenados à morte pelo Rei.

Lentamente, o corpo da velha começou a diminuir, sua carne sendo consumida por mandíbulas impiedosas e famintas.

Um lobo rasgou-lhe o estômago, deixando seus órgãos e intestinos escorrerem pelo chão como água em terra seca. Então, começaram a roer com ânimo sombrio.

O jovem, chamado Loup, assistia silenciosamente ao ocorrido.

Não derramou lágrimas, mas parecia que ninguém no mundo estava mais triste do que ele naquele momento.

Ele lentamente virou a cabeça para olhar atrás de si. Lá, viu as pessoas de Fenrir caminhando tranquilamente, seguindo com suas vidas como se nada tivesse acontecido.

Alguns sorriam, como se a própria vida fosse uma piada feita só para eles. Crianças corriam brincando, com alegria brilhando nos olhos, e pequenos lobinhos os seguindo.

Loup absorveu tudo aquilo e uma certeza caiu como um golpe forte.

'O mundo… não para.'

Parecia óbvio, mas não para Loup.

Sua avó, sua única família, morreu impiedosamente, seu corpo sendo engolido por lobos famintos.

Ele estava sozinho no mundo, de todas as formas, seu coração se despedaçando em milhares de pedaços, os olhos vendo apenas escuridão e medo à frente.

Parecia que o próprio mundo estava acabando.

E, mesmo assim, o mundo continuava.

As pessoas não pararam suas atividades por causa de sua dor.

Não deixaram de sorrir nem de brincar porque ele morria por dentro.

Não cessaram a busca por seus sonhos enquanto os dele tinham sido apagados.

E não deixaram de amar, mesmo enquanto seu coração secava de qualquer sentimento, exceto tristeza sem fim.

Ao perceber tudo isso — essa compreensão profundamente humilhante de que sua dor não importava para o mundo — uma pergunta inevitavelmente surgiu na cabeça de Loup, enquanto suas pernas fraquejavam e ele caía no chão.

Ele se encostou, enterrando a cabeça no peito, ofegando enquanto lágrimas quentes e pesadas finalmente escapavam de seus olhos.

— Por quê eu? —

Ele fez a pergunta enquanto chorava como um bebê abandonado ao nascer.

Por que ele, entre todas as pessoas?

Por que todos os outros tinham uma família feliz, mais um dia para viver com um sorriso, enquanto ele não?

Seus soluços tornaram-se audíveis.

"P-Por quê…" Loup chorou. "Por quê m—!"

"Por quê não você?"

Tudo congelou quando uma voz suave, quase brincalhona, interrompeu a espiral de desespero de Loup.

Espantado, ele levantou a cabeça de súbito e se deparou face a face com uma jovem linda, de cabelo branco e olhos brancos, com um sorriso nos lábios.

"Q-Que?" Loup gaguejou, recuando em pânico, as mãos ficando vermelhas no chão.

A garota o seguiu com passos leves, as mãos cruzadas atrás das costas, até que as costas de Loup bateram em uma coluna luminosa e alta.

Ela parou a um centímetro dele, inclinou a cabeça, e olhou para baixo, até chegar ao seu nível.

Seu sorriso se alargou.

"Por que não você?"

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