
Capítulo 399
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
"Por que não você?"
Loup ficou pasmo, seus olhos negros tremendo de forma irregular enquanto observava os olhos brancos da mulher à sua frente, olhos que pareciam se curvar em risada.
"Q-Quem—!" Ele mal conseguiu falar, suas palavras cortadas pelo ofego entrecortado. Lágrimas começaram a escorrer mais rápido, e Loup abandonou completamente a tentativa de falar.
Em vez disso, tentou se afastar da mulher, mesmo estando bloqueado pelo pilar brilhante.
A mulher pálida não respondeu. Ela agachou-se e pegou algo do bolso de sua túnica simples, porém luxuosa.
Era uma caixa metálica carmesim, enfeitada com ruínas que serpenteavam ao seu redor, formando uma visão assustadora.
Ela colocou a caixa no chão entre ela e Loup, e imediatamente o jovem lobo sentiu como se o mundo ao seu redor ficasse turvo, inundado por barreiras invisíveis.
Por alguma razão inexplicável, ele começou a acreditar que naquele momento… ele realmente estava sozinho.
Totalmente sozinho diante de uma mulher estranha.
Seu coração começou a martelar contra as costelas, batendo nelas como um cavalo louco assustado.
Loup cerrava os punhos, os olhos se estreitando enquanto tentava parecer ameaçador, ao invés de parecer uma ovelha.
Ele falhou miseravelmente.
A mulher deu uma risada. E Loup se encolheu ainda mais.
"Você ainda não respondeu à minha pergunta," disse a jovem. "Por que não você?"
Ela se ajoelhou na sua frente, com olhos pálidos fixos nos dele tão profundamente que Loup sentiu que nada poderia estar oculto para eles.
"Eu—!" Ele moveu os lábios, a voz áspera. "Eu—! não merecia."
Como se uma represa tivesse se rompido…
Como se agora existisse uma alma neste mundo que pudesse ver seu sofrimento e estivesse disposta a ouvi-lo com atenção… as palavras jorreram sem interrupção.
"Eu — nós — não fizemos nada para merecer isso!" ele gritou, os olhos vermelhos de raiva. "Minha avó trabalhava duro todos os dias! Ela era apenas uma mortal, uma Desperdiçada sem Origem, mas todas as noites e dias ela trabalhava no palácio real, destruindo sua saúde só para ganhar um pouco de dinheiro!"
Lágrimas embaciaram sua visão. Ele mordia os lábios e limpava o rosto com força com a parte de trás da mão.
"Ela nunca incomodou ninguém! E nunca aceitou ajuda de ninguém para cuidar de mim! Ela fez tudo sozinha, sem ajuda, e fez isso mesmo estando velha e doente!!!"
As palavras de Loup saiu como o uivo de uma besta ferida. Havia uma dor indescritível se entrelaçando dentro dele, mas também um profundo sentimento de miséria que pareciam congelá-lo por dentro.
O rosto da jovem mulher não vacilou. Ela ainda carregava seu sorriso como uma máscara.
Porém, ela escutava.
Loup sentia isso. Naquele instante, ele era o único foco de sua atenção.
Nada mais existia além dele.
Ele foi visto.
Finalmente, ele foi visto.
"P-por quê?" ele gemeu, a cabeça inclinada. "Por que eu? Por que tenho que ser eu a sofrer se não fiz nada? Por que minha avó tem que morrer, sendo ela inocente? Uma mulher trabalhadora?"
Ele riu amargamente.
"E sabe o que é pior?" Ele levantou lentamente a cabeça para olhar para a mulher de cabelos brancos. "Ela estava planejando parar de trabalhar em duas semanas. Eu já estou crescido, acordei com uma Origem, e consegui um emprego como caçador."
Ele sorriu tristemente.
"Então me diga, por quê eu? Por quê nós? Por que agora, justamente na hora mais errada?"
"É o jeito que o mundo funciona, sabe," disse a garota suavemente, sorrindo. "O mundo, e as pessoas que nele vivem, não precisam de motivo para te machucar. Na maioria das vezes, pelo menos."
"E você não é o único."
"Huh?" Loup exclamou, levantando o rosto embebido em lágrimas em direção a ela.
"Você não é o único que vive uma vida de dor, de miséria, uma vida onde nada parece valer a pena. Você não é o único vivendo algo que nunca pediu. Você não é o único que sofre por injustiça."
Quanto mais ela falava, mais o rosto de Loup se contorcia de raiva ardente, como se estivesse se perguntando por que tudo isso deveria importar para ele.
"Não é para invalidar sua experiência," sussurrou a mulher pálida. "É somente para te ensinar algo que me ensinaram quando tudo era apenas escuridão."
Ela fez uma pausa, inspirou lentamente, e então continuou,
"Sinta a dor que precisa sentir, mas nunca permaneça nela por tempo demais. Como pode ver, o mundo não para para te deixar lamentar, e o que aconteceu hoje pode acontecer amanhã também."
O respirar de Loup se acalmou sob sua voz suave. "O que… o que você quer que eu faça?"
"Meu mestre uma vez me disse algo," disse a jovem. "O destino pode te forçar a um caminho, mas como você caminha por ele depende apenas de você. Isso é o que é o livre-arbítrio."
Ela sorriu.
"Se o destino é o palco, então o livre-arbítrio é a peça."
"Então você foi obrigato a seguir um caminho. E aí?" ela perguntou, com o olhar profundo e sem piscar. "O que quero saber é como você planeja trilhá-lo."
Loup ainda estava confuso com tudo ao seu redor. Ele não entendia nada dos eventos que se desenrolavam naquele momento, mas de alguma forma sentia que estava diante de um momento crucial de sua vida.
Um cruzamento onde tudo mudaria — para melhor ou para pior.
Loup não se importava com essas coisas. Para ele, nada poderia ser pior do que sua situação atual.
Ele voltou a focar na mulher pálida mais uma vez.
Ela não estendeu a mão para ajudá-lo. Mas ele podia sentir o chamado nela.
E assim, partiu os lábios.
"Forte," ele disse roucamente. "Eu quero ser forte."
"Para quê?"
"Para me proteger," respondeu. "Para proteger aqueles que vir a cuidar."
"Vais buscar vingança?"
Loup hesitou. Abriu a boca para falar, mas então pensou melhor e fechou de novo.
Ele baixou a cabeça, com a mente aparentemente dividida. A menina de cabelos brancos foi paciente. Ela ficou quieta, esperando.
Ao redor deles, as pessoas seguiam com suas tarefas, sem muita atenção ao que acontecia ali.
Por fim, Loup levantou a cabeça novamente e balançou a cabeça. "Minha avó não gostária disso," disse, sem convencer a si mesmo. "Ela sempre quis que eu vivisse bastante e em paz. Que fosse gentil com os outros, assim como ela era com eles."
"Mas o mundo não foi gentil com ela." As palavras da garota foram como uma machadada em Loup. "Então, por que seria com você?"
"Não vou deixar de aprender as lições que ela me passou," rosnou Loup. "Não vou. Isso é tudo que ela deixou de mim."
A garota fez uma pausa, e então sorriu ainda mais. "Tudo bem. Mas você precisa de ajuda para ficar mais forte."
Loup não disse nada, apenas a observou. Ele não era tolo: sabia bem que aquela pessoa tinha um motivo para estar ali.
Então, fixou seu olhar através dos olhos secos e cheios de lágrimas, esperando ela finalmente declarar sua proposta.
"Você não é tão boba assim," ela riu. Depois, seu rosto mudou, assumindo uma expressão mais séria.
"Você foi escolhido, Loup, para ser nosso próximo membro," disse ela. "Você receberá ajuda para ganhar força e alcançar qualquer objetivo que deseje."
"A Fera Primeira," finalmente falou Loup, incapaz de conter um resquício de ódio que começava a surgir. "Quero pelo menos matar aquele que deu o golpe de misericórdia. Posso fazer isso? Minha avó me abandonaria se minhas mãos ficarem ensanguentadas?"
Cada vez mais, sua cabeça pendia, como se estivesse envergonhado por desejar vingar sua própria família.
"Se o mundo te negou justiça, fazer o quê? É natural buscar retribuição."
"Mas… ele é… ele é um príncipe. É da linhagem dos Fundadores."
"E, ainda assim, sangra como qualquer homem," ela acrescentou com um sorriso largo. "E vai sangrar."
Loup levantou a cabeça novamente e viu a mão estendida da jovem sorridente diante dele.
"Vamos ajudar você a cumprir sua vingança, se você se juntar a nós."
"Como?" Loup perguntou, sentindo o perigo de aceitar uma proposta dessas naquele momento da vida, mas ainda assim caminhando na direção dela. "Como posso me juntar a vocês?"
Nesse instante, algo — ou alguém — pareceu sussurrar dentro de sua cabeça. Era como o uivo de um lobo, mas palavras surgiam do nada, dentro da sua mente.
"O caminho à frente é feito apenas de más escolhas. É tudo o que temos. Então, vamos trilhá-lo. E vamos fazê-lo com uma trilha de sangue atrás de nós."
Ele arfou, sua mente momentaneamente zonza, até ser trazido de volta pelo toque suave da jovem mulher.
"É fácil de entrar," ela disse, pegando uma pequena ampola de sangue carmesim de um anel de espaço. "Você só precisa beber isso."
Loup, com a mente ainda nebulosa pela estranha experiência, olhou alternadamente para a ampola de sangue e para o rosto da mulher.
Suspirando, pegou a ampola e engoliu tudo de uma vez.
Instantaneamente, seus olhos se arregalaram, veias vermelhas pulsando através deles e por todo o corpo. Ele caiu de rosto no chão com um baque alto.
Um uivo de dor saiu de seus lábios enquanto sentia sua alma sendo ligada a algo, por um conjunto de regras.
Enquanto isso, a jovem mulher observava a cena com um sorriso cada vez maior, depois abaixou a cabeça até tocá-la no chão mecanicamente.
"Louvado seja o Ceifador!"