Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!

Capítulo 396

Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!

"Diga-me como alguém pode criar seu próprio caminho único."

A voz de Vaela ecoou, e o Antropólogo não pôde evitar pausar, observando de olhos arregalados os olhos frios e assassinos do Vidente.

"O quê?" Ele exclamou, ainda processando a pergunta inesperada em sua mente.

"Você me ouviu bem, Antropólogo." Vaela disse, limpando o sangue do nariz com as costas da mão direita. "Um deus está se intrometendo na minha — na nossa — história. Não preciso te explicar o perigo que isso representa."

"Sei." respondeu o Antropólogo com firmeza, agora mais calmo, mesmo com a testa franzida mais profundamente, demonstrando sua preocupação.

"Sei bem como as ações dos deuses podem transformar uma terra mortal em um banquete de corvos. Mas, Vidente, isso não significa que procurar um caminho divino seja uma boa escolha."

A Vidente Carmesim pressionou as mãos contra o chão frio e liso e se impulsionou para cima. A ação fez alguns ossos dela estalarem audivelmente, resultado dos dias sem se mover.

Alongando o corpo, voltou a encarar o Antropólogo.

Seu rosto era como pedra naquele instante. Vaela ficou surpresa por dentro, considerando que nunca tinha visto uma expressão tão séria nele.

"Uma boa escolha, você diz," ela comentou, soltando uma risada fria, "mas às vezes, Antropólogo, não há outra opção além das ruins. Você conhece isso melhor do que eu. Você é o conhecedor da história passada. Não eu."

"Exatamente por isso estou dizendo," o homem balançou a cabeça levemente, "que podemos encontrar outra—!"

"Não há outra saída." A voz de Vaela era fria, com um tom de sentença definitiva.

As estrelas vermelhas em seus olhos brilhavam, tão intensamente que o mundo ao redor ficava tingido de tons de carmesim.

"Se não hoje," ela começou, "então amanhã, ou até depois de amanhã. Não ficarei eternamente no Reino do Epíteto, Antropólogo. Fazer isso, com o Ceifador ganhando força tão rápido, e seus inimigos se multiplicando, significaria apenas a morte para mim e para todos vocês."

O Antropólogo abaixou lentamente a cabeça, com a mandíbula visivelmente contraída, sabendo muito bem a verdade por trás de suas palavras.

Porém, não conseguiu aceitar a escolha de Vaela.

Ela não sabia, mas ele sabia. Ah, infelizmente, ele sabia.

Qualquer um que ousasse criar um Caminho Divino sem ter pelo menos alguns deuses apoiando, morria enquanto se preocupava constantemente com o modo e o local onde a morte viria.

Os deuses eram impiedosos. E nenhuma pessoa era tão implacável quanto eles.

Outro caminho significava uma nova ligação na estrutura dos mundos e além. Uma escada, de certa forma, para o Topo.

E às vezes — se não a maior parte do tempo — essas escadas invadiam as Zonas de outros deuses, enfraquecendo seu domínio sobre seus Conceitos Divinos.

Ninguém aceitaria isso.

E o caminho da Vidente, independentemente do tipo ou variação, já tinha um deus sobre ele.

"O Ceifador," finalmente falou o Antropólogo, fazendo Vaela olhá-lo com maior atenção. "Daqui a alguns anos, o Ceifador precisará criar seu próprio caminho."

"Espere por ele." Ele disse, com determinação nos olhos. "Espere pelo caminho dele, assim você poderá segui-lo."

"E por quê?" ela perguntou, estreitando os olhos.

"Os deuses vão caçá-la, Vidente. É por isso." o Antropólogo falou com firmeza, quase com raiva na voz. "E acredite, mais do que ninguém, eu conheço suas capacidades. Mas há uma chance muito maior de você morrer tentando isso do que do que o próprio Ceifador."

Ele fez uma pausa, observando-a.

"Você sabe disso melhor do que eu." sua voz abaixou. "O Destino dele é muito mais forte. Matá-lo não é tarefa fácil. Mas o mesmo não posso dizer de você."

Um silêncio tenso, quase claustrofóbico, caiu entre eles. Era tão silencioso que se podia ouvir os passos faintos, distantes, de crianças.

Seus olhares estavam fixamente presos um no outro.

E se as palavras do Antropólogo a feriram de alguma forma, Vaela não deixou demonstrar nada em seu rosto.

Seu olhar era firme como uma montanha imperturbável. E quanto mais o Antropólogo olhava em seus olhos, mais seu medo aumentava até atingir um pico febril.

"Por favor—!"

"Uma ordem." Vaela o interrompeu friamente. "Agora, Antropólogo, estou ordenando você. Exijo uma resposta."

Ela fez uma pausa, estreitando os olhos.

"Desobedecerá a mim?"

O Antropólogo caiu imediatamente em silêncio, seu corpo levemente tremendo. Naquele instante, Vaela tinha transmutado a natureza da relação entre eles.

Não eram mais dois camaradas que, com o tempo, passaram a apreciar e respeitar um ao outro.

Mas uma líder e um subordinado.

Aquela relação fria, onde nada existia entre eles além da ordem e do reconhecimento dessa ordem.

Então, o Antropólogo escondeu seus temores e todas as suas preocupações por trás do muro de pedra do seu peito, e então abriu a boca:

"Como quiser." ele disse, com a voz quase robótica.

Vaela permaneceu em silêncio, apenas o observando, esperando a resposta à sua pergunta, seu corpo exalando uma aura intimidante.

Exalando pelo nariz, o Antropólogo começou:

"No nível do Epíteto, você obtém um título, e com ele, um aspecto." Ele explicou. "Isso já é algo que você sabe."

Ele hesitou por um momento. Depois prosseguiu:

"Mas, depois disso, para atingir o nível de Elderling, você precisará de um Caminho Divino a seguir. Para isso, você deve dominar um conceito dentro dessa divindade e compreender quinze partes dele, entre centenas, para se tornar um Elderling."

Vaela assentiu sutilmente, seus olhos carregando uma luz pensativa e sutil.

"Por que é necessário um caminho?" ela perguntou, curiosa.

"Um caminho nada mais é do que um meio de alcançar o Topo." ele disse. "É uma trajetória já construída por alguém, então tudo o que você precisa fazer é segui-la, canalizando não só seu próprio poder, mas também o poder do deus que a governa."

"Mas, se a questão é se realmente é necessário..." O Antropólogo fez uma pausa, depois suspirou como alguém resignado, "Não é. Como disse, é apenas um caminho. Você pode se recusar a segui-lo e, ao invés disso, criar o seu próprio, de modo similar."

"E certos seres têm seu próprio Caminho para alcançar o Topo."

"Que seres são esses?"

"Os Primordiais. As Maravilhas…" Ele parou aí, relutante em dizer mais do que o necessário. "São seres com seus próprios Caminhos de transcendência."

A Vidente escutou calmamente, porém com atenção intensa, às palavras do Antropólogo. Ela começou a caminhar pelo aposento, seus passos suaves, embora a inquietação sutil neles fosse inconfundível.

"Eu entendo." ela sussurrou. "E tudo isso nos leva de volta à minha primeira pergunta."

Sem interromper o movimento, ela perguntou novamente:

"Como posso criar meu próprio Caminho Divino?"

Seu questionamento foi recebido por uma silência difícil de romper. Mas Vaela não apressou o ato. Ela apenas andou, esperando.

O relutância do Antropólogo em falar mais do que já tinha dito era evidente na linguagem corporal. Ele não desejava isso, mas sabia que não poderia contrariar a ordem de Vaela.

Se não fosse por ela, não queria arriscar problemas com o Ceifador.

Então, suspirando suavemente, respondeu, enquanto passava uma mão tensa pelo rosto:

"Um Caminho Divino deve ser reconhecido pelo mundo, e por tudo dentro e fora dele." começou. "Você precisa não só escolher um conceito único para ascender à Divindade, mas também obter os materiais necessários para isso."

Neste momento, Vaela parou, virou-se de repente e o encarou.

"Como?" ela perguntou.

"Há apenas uma maneira." O Antropólogo respondeu, com a voz repentinamente séria.

"E é chegar ao Umbigo do Mundo e passar no teste que é dado ali. E, antes que pergunte, o Umbigo do Mundo só pode ser alcançado de uma única forma."

Ele parou, passou a língua pelos lábios secos, e então…

"E essa forma é vencendo o Desafio. Ou seja…"

Ele fez uma pausa de novo, e soltou a frase restante:

"Por Morte sem Morte."

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