
Capítulo 394
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
Os dois predestinados continuaram a dançar, mergulhados na música alta e nos uivos ocasionais dos lobos ao redor.
O cheiro da taverna era intenso no olfato. O piso de dança, em alguns trechos, escorregava, causado pelo vômito e urina dos clientes.
Às vezes, surgiam brigas, levando a outra metade da taverna ao caos, com mesas de madeira quebradas e manchas de sangue momentaneamente pintando o ar.
Porém, o estranho é que nenhuma dessas brigas chegava à pista de dança.
Na verdade, eles pessoalmente tinham certeza de que nunca iriam interromper o evento de dança, como se fosse algum tipo de acordo sagrado entre eles.
Tudo isso era coisa na qual nem Kaden nem Rea prestavam atenção.
Seus pensamentos pareciam estar em névoa, ligados por uma espécie de conexão impossível enquanto se moviam de forma harmônica pelo salão, como piscinas de yin e yang, sem trocar de pares mesmo quando deveriam — ganhando alguns resmungos e xingamentos de outras pessoas.
Os dois pareciam se reconectar após tanto tempo longe um do outro.
Desde a proposta do baile, nenhuma palavra foi dita.
Pelo contrário, olhavam um para o outro, absorvendo as diferenças na aparência física em relação ao que lembravam.
A mudança era drástica.
Estaria a aparência enganando até a pessoa mais sábia na sala, costumavam dizer. Mas, às vezes — na maior parte do tempo, até — as roupas, os adornos e a postura de alguém podiam dar uma pista do próprio ser.
Podia revelar muitas coisas. Coisas que a maioria ignoraria, mas que olhos treinados percebiam como tudo.
A aparência podia mostrar a você a cultura de uma pessoa. E, uma vez que você entendesse a cultura de alguém… já compreenderia o núcleo de quem ela é.
Então, Rea observava — não, analisava — as roupas pretas refinadas e simples de Kaden, combinando com botas pretas altas que, surpreendentemente, não faziam ruído algum.
Havia seus olhos estrelados carmesim, que brilhavam com uma luz tão radiante que Rea sentia como se dançasse entre estrelas ao olhá-los.
Acolhedores e convidativos.
Outro detalhe era como seu olhar era silencioso e firme. Kaden a observava, dando toda sua atenção — e, mesmo assim, Rea sentia que nada na taverna escapava do seu olhar.
Para completar, havia uma espécie de calor impossível de não notar em Kaden.
Um calor que fazia seu coração bater acelerado, como as asas de uma borboleta. Sua respiração sempre ficava mais rápida toda vez que seus corpos se tocavam levemente. Ainda mais quando sentia o ar quente de sua respiração roçar seu pescoço.
Diante dessas ações, Rea sentia uma vontade instintiva de se afastar dele.
Kaden era como um sol ardente e escaldante, ameaçando queimar todas as barreiras mentais que ela havia construído para manter sua sanidade — e a deusa irada — intactas, prontas a desmoronar como areia.
Ela se sentia tão à vontade que tinha vontade de abrir a boca e deixar sua alma ferida falar.
Ah, como ela desejava que alguém soubesse o peso que carregava. Que pudesse deixar um ser dentro dela revelar quem ela realmente era agora.
Alguém diferente de Einar, que era tão destruído — ou até mais — do que ela.
Rea então começou a se arrepender do bailE. Mas amava tanto quanto, suprimindo um gemido de satisfação enquanto a ilusão de tranquilidade após tanto tempo envolvia todo seu corpo.
Dentro dela, uma tensão terrível de opostos se formava. Sua existência parecia ser puxada em direções opostas, tornando-a ao mesmo tempo com medo e feliz por finalmente ver seu noivo.
Porém, apesar de tudo esses sentimentos aflitos, Rea não deixou que nenhuma de suas tormentas internas se vissem em seu rosto.
Pelo contrário, só se via a expressão de uma jovem mulher gentil e feliz. Uma que dançava, acompanhada pelos sons de sinetes nas argolas amarradas no cabelo.
Se Rea observava Kaden com tanta profundidade, conseguindo captar aspectos dele através da aparência e do jeito que ele se comportava, então certamente ele era capaz de fazer o mesmo com ela.
Kaden ficou bastante surpreso ao ver a nova expressão de Rea. Ela estava tão diferente de dois anos atrás, naquele encontro com Meris e Nuke.
Mas, ao pensar nisso, ele internalmente deu uma risadinha seca. “Claro, ela teria mudado.”
Dois anos se passaram. E nenhum ser poderia permanecer igual após tanto tempo.
O principal que Kaden queria saber era como Rea tinha mudado.
Que tipo de ser ela havia se tornado? Qual era sua filosofia agora?
Ela finalmente sabia o que estava disposta a perder pelos seus sonhos? Ou seus objetivos ainda eram os mesmos que ela lhe contou?
Se não, Kaden gostaria de saber mais sobre eles.
Se sim, por que ela não tinha voltado a Waverith?
Seria por causa dele? Por não querer se casar com ele?
Por que, após todo esse tempo, a única coisa que ela enviava era dinheiro ao pai, como se fosse a única ligação que restava para sua casa, sua família?
Tantas perguntas. Tantos questionamentos.
Porém, Kaden não podia deixar de sentir o sentimento sombrio que crescia ao perceber os vários anéis nos dedos de Rea, seus piercings, seu cabelo, e…
Seus olhos.
Que pareciam dançar de alegria.
Mas a percepção de Kaden era incomparável, muito singular. Ele podia enxergar além do que sua noiva queria mostrar ao mundo.
O que ele via fez com que ele suprimisse uma carranca. Mas seus lábios se contorceram levemente.
Novamente, tantas perguntas. A música e tudo ao redor estavam lá muito alto.
Então, com um passo rápido, Kaden praticamente colou seu corpo ao dela, fazendo ela soltar um grito surpreso, e sussurrou suavemente em seu ouvido:
"Que tal uma conversa de verdade?" ele perguntou. "Num lugar onde eu não precise suportar esses gritos irritantes o tempo todo." Acrescentou com um tom brincalhão.
A tocada por Deus sorriu de leve. "Claro", respondeu, dando um passo instintivo para trás, tentando se distanciar de Kaden. Ao perceber o que fazia, congelou de repente, os olhos se arregalando por um segundo, mas logo começou a se inclinar adiante novamente.
Ela tremia sutilmente.
Kaden inclinou a cabeça, confuso, mas antes que pudesse dizer algo,
"Vamos," disse Rea, pegando delicadamente sua mão direita, girando seu corpo e começando a conduzir Kaden pelos grupos de seres dentro da taverna em direção às escadas que subiam. "Aluguei um cômodo aqui."
Dentro da sua mente, Einar, o Discípulo da Perda, observava a mão de Rea no corpo de Kaden com olhos repletos de ira.
No canto de sua percepção, ela viu uma roda quebrada rolando e rolando e…
…rolando.
…