
Capítulo 393
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
Depois de abandonar a Igreja da Dor para seguir rumo à masmorra, Rea passou dias lá fora, sem companhia além de Einar e do próprio mundo.
Em vez de usar qualquer tipo de transporte — seja carruagem ou teletransporte até o local mais próximo da masmorra — ela decidiu seguir a pé.
A razão para isso era algo que nem mesmo Einar, o Discípulo da Perda, esperava especialmente.
"Só conheço a Cidade da Dor e a Cidade da Tristeza desde o dia em que nasci em Fokay." Rea tinha dito, sua voz calma e firme, apesar de carregar uma tênue nota de tristeza, "E olhe bem, Einar, já faz pouco mais de dois anos que estou aqui."
"Então sim, quero aprender um pouco mais sobre este mundo. Vamos caminhando, e nos prepararmos para o que quer que nos aguarde ao chegarmos ao destino."
Ao ouvir essas palavras, Einar sentiu apenas uma ardente piedade por sua bela Rea. E, na sua tentativa fofa de animar a amiga, começou a contar algumas lendas de Fokay.
Rea não era de se importar com essas histórias tolas. Mas toda vez que havia uma chance de ouvir algum tipo de narrativa, ela sempre perguntava sobre uma criatura.
"A Mulher de Ouro." Rea dizia empolgada, "me conte sobre ela, aquela que dizem ser a criatura mais rica do mundo."
Tudo relacionado a dinheiro era algo que Rea desejava muito ouvir.
Sensibilizada pelo entusiasmo dela, Einar começou a sussurrar dentro dos ouvidos de Rea o que sabia sobre o mito da Mulher de Ouro.
Não era nada demais, Einar dizia, além do fato de que ela era uma jovem princesa que morava em um reino bem remoto ao sul de Fokay.
A princesa era conhecida por ser gentil e amável com todos, uma alma pura que não carregava nos olhos as riquezas do mundo.
Havia muitas citações que as pessoas alegavam ter ouvido a ela, a mais famosa delas era:
"Perseguir as riquezas deste mundo terrestre cega quem busca o que realmente importa. Buscar apenas prazeres efêmeros para preencher um vazio na alma levará ao caminho do mundo celestial."
Muitos seres encontravam verdade em suas palavras, outros desprezavam suas ideias superficiais com grande desdém.
Suspiros de escárnio circulavam, comentando o quão fácil era para alguém nascido entre riquezas proferir tais palavras grandiosas!
Uma princesa que não sabia nada sobre a crueldade do mundo. E tudo que ela conhecia fora do castelo dourado eram meros nomes, nomes que ela considerava fictícios.
Porém,
"Que estranho," comentou Rea, enquanto se apoiava nas costas de um grande cervo, aliviando suas pernas cansadas após longas caminhadas.
Com seu controle do medo, ela podia comandar até a mente de animais para amarrá-los.
Ao seu redor, nada existia além de florestas de árvores apodrecidas, com folhas totalmente amareladas.
"O que há de estranho, minha linda Rea?" perguntou Einar, curiosa com os pensamentos de Rea.
"Você está me descrevendo uma criatura que não dava valor ao dinheiro no coração dela. Mas ela se tornou — ou melhor, é conhecida — a ser a mais rica que já existiu neste mundo."
Um sorriso silencioso surgiu nos lábios de Rea, "Não é irônico? Ou ela era hipócrita como qualquer governante de verdade?"
"A história ainda não acabou, minha linda Rea." disse Einar, com uma voz que parecia uma risadinha, "Só falamos da Mulher de Ouro quando ela era jovem. Ainda não falamos sobre a família dela."
"O que há de errado com a família dela?"
"O pai dela, precisamente." Einar explicou, "Se a jovem princesa não ligava para o dinheiro e desejava apenas conexões verdadeiras e meditação, as lendas não diziam o mesmo dele."
"Um rei ganancioso, então? Que coisa mais comum. Nada demais." Rea riu baixinho.
"Ah, isso foi além. O pai dela, Midas, era um homem obcecado por ouro. Sua obsessão era tamanha, tão profunda, que diziam que ele implorou por anos aos deuses um poder. Um poder de transformar qualquer coisa que tocasse em ouro."
Rea parou por um instante, surpresa por tamanha ganância. Mas então, franzindo as sobrancelhas, acrescentou:
"Os deuses nunca aceitariam isso." ela comentou. "Sei que só tenho uma coisa na cabeça... aquela vadia…"
Rea denunciou um hei de dor nesse momento, sentindo a deusa gritar dentro dela. Ela a amaldiçoou silenciosamente e continuou de forma suave:
"…mas aposto que nenhum deles daria tal poder a um mortal."
"De fato, eles deram." Einar sorriu disfarçando uma risada. "Os deuses concederam o poder. E adivinha o que ele fez assim que conseguiu aquilo que tanto desejava?"
"Acho que foi tocar na própria filha." Rea imediatamente conectou o resto da história.
"Claro, você é tão inteligente, minha linda Rea!" entusiasmou-se a Discípula da Perda. Einar não perdia uma chance de demonstrar afeição por sua mestre.
Rea sempre sorria e balançava a cabeça, já acostumada. Mas não podia negar que gostava da atenção de Einar. Era algo tão paradoxal que acalmava sua alma vazia.
"Só isso? É por causa dessa ação que ela se tornou a mais rica?" perguntou Rea, ainda confusa, "Então por que o pai dela, Midas, não ficou conhecido como o homem mais rico?"
"Tudo o que ele tocava se transformava em ouro." disse Einar. "A filha dele virou uma escultura dourada. Mas dizem que ela atingiu um estado de mente além do comum, que ajudou a escapar daquela gaiola dourada."
Einar fez uma pausa, continuando em seguida:
"O pai dela era diferente. Quando a viu como uma escultura dourada, Midas, em seu choque, tocou-se. Ele virou exatamente o que sempre buscou: ouro. Mas, diferente dela, permaneceu apenas uma escultura dourada."
Rea lentamente inclinou a cabeça de um lado ao outro, observando alguma coisa que parecia distante no horizonte.
Sua ação foi acompanhada pelo som de estalos causado pelos anéis trançados em seus cabelos.
De volta ao chão, ela agora caminhava, trocando as árvores desgastadas por alguns assentamentos rústicos e seres errantes com roupas estranhas.
"É o fim da história?" perguntou distraidamente, entreolhando, com os olhos semicerrados, um pouco mais longe, onde via uma floresta de pessoas atrás de uma grande porta negra, ressequida.
"Sim," respondeu Einar com uma voz suave, "e acho que estou no horário certo. Chegamos ao nosso primeiro destino, minha linda Rea, depois de três dias!"
"Essa é a Cidade de Prata que você falou?"
"Cidade de Prata? Não mais, ouvi dizer que agora se chama Moradias Negras, nome dado pelos próprios lobos."
Justamente quando ela chegou à porta, um cheiro muito peculiar bateu em seu olfato. Um aroma que ela não reconhecia como humano.
Com seus olhos rubis, ela começou a perceber homens e mulheres com feições lupinas.
Um sorriso surgiu nos lábios dela, e seus olhos vermelhos brilhavam de curiosidade ao, com passos mais ansiosos, entrar na cidade estranha após passar por alguns protocolos pouco entusiasmados na entrada.
Assim, ela adentrou uma grande e espaçosa taverna chamada Os Uivantes, em sua longa jornada.
E, numa sucessão de eventos ridículos, se viu no meio de uma dança, com um sorriso no rosto enquanto vivenciava, pela primeira vez, algo que não tinha relação com tristeza ou dor.
Por um instante, Rea vislumbrou o que era viver novamente como qualquer outro humano.
Seu coração, de alguma forma, começou a se acalmar, mas ainda havia uma ponta de vazio dentro dela.
Algo que a fazia mais uma observadora de uma alegria do que a própria portadora dela.
Rea começou a sentir a frição que se infiltrava em seu coração, a seca que a impedia de se conectar com as pessoas com quem dançava. De compartilhar seus sorrisos e risadas. De dividir seus olhos brilhantes e seus humores marcantes.
Quanto mais o tempo passava, mais a música alta martelava dentro de seus ouvidos, e mais Rea percebia que tinha perdido uma parte importante de si mesma.
Deixando apenas uma marca como escaldar de ferro, com tristeza e dor.
Não sendo de quem lamenta algo que não deve ser lamentado, Rea abraçou sua nova versão com olhos vazios.
Foi nesse instante que a música parou, sinalizando um novo parceiro.
Querendo interromper aquela pequena dança, ela observou seu novo parceiro para transmitir seus pensamentos gélidos.
E, ah,
BATIDA—!
O coração dela pulou uma batida, depois acelerou perigosamente ao sua visão dilatada repousar no homem à sua frente.
Ela abriu os lábios para falar, percebendo que não estava respirando no processo, até ser surpreendida pela voz incredulamente familiar de seu novo parceiro,
"Droga, arranque meus olhos e limpe-os com água benta. É você mesmo, Rea Thornspire?"
A voz de Kaden ecoou profundamente em sua mente.
Ela notou que a voz dele era diferente da última vez. Não, ele estava diferente.
E, ainda assim…
Rea se pegou sorrindo contra sua própria vontade,
"Rea Thornspire, na carne e osso." ela sorriu, sentindo uma inveja súbita de rir e dançar, "Agora, Filha do Sangue,"
Ela apertou as mãos dele com mais força,
"Espero que saiba dançar."
A música aumentou de intensidade, como se sentisse algo.
A mente de Kaden não podia acreditar no que estava acontecendo. Ainda assim, ele sorriu, mostrando seus dentes brancos perfeitos.
"Vamos ver?" disse, e então começaram a dançar.
Os dois que se encontraram. Em uma taberna fedida, barulhenta, cheia de apenas sinais de líquidos e fezes de lobos selvagens.
Que romântico.
—Fim do Capítulo 393—