
Capítulo 383
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
A sala, pintada de cinza, era ampla e envolta por uma sensação inexplicável de solidão. Os móveis lá dentro eram organizados, limpos e belos.
E isso, mais especificamente, valia para a jovem mulher que estava no centro dela.
Rea permanecia ereta diante do espelho, olhando para seu reflexo com olhos curiosos.
Ela tinha ficado mais alta, com pernas longas e esbeltas. Seus cabelos brancos cresceram ainda mais, agora alcançando a metade das costas, adornados com anéis dourados brilhantes que tilintavam a cada movimento.
Seus olhos eram vermelhos como rubis celestiais, brilhando de forma monstruosa.
Havia algo neles que fazia as pessoas se encolherem, como se o que estavam testemunhando não fossem olhos humanos.
Eles eram os olhos de algo maior. Algo semelhante a um conceito prestes a engolir você por completo.
Rea tinha se tornado cada vez mais uma com o medo, e isso, mesmo estando agora, ainda na condição de Mestre.
Seu nível não subia, mas dentro da Igreja todos sabiam que não se devia cruzar o caminho do Julgador Abissal.
Ela era a personificação do medo.
Seus ouvidos, cada um deles, estavam perfurados por quatro brincos. Seu nariz, no lado esquerdo, também tinha um piercing, em forma de pássaro, de brilho cinza.
Em cada um de seus dedos finos, usava anéis de formas e cores diferentes, que brilhavam em uma luz hipnotizante.
Agora, ali, com a túnica cinza da Igreja da Tristeza realçando seu corpo agora maduro e pecaminoso… Rea contemplou sua transformação.
'Você é tão bonita, minha linda Rea!' Einar, o Discípulo da Tristeza,roufenou em sua cabeça.
Ela ainda tinha a forma de uma lágrima pendurada na orelha esquerda de Rea.
Ao ouvir suas palavras, Rea deixou um fraco sorriso florescer em seu rosto hipnotizante. "Você também acha, Einar?"
'Claro que sim!'
Rea deu uma risadinha suave.
Agora, em toda a Igreja, todos sabiam que tocar em Rea era tocar em Einar, o Discípulo da Perda.
Era algo que poucos ousavam fazer.
Rumores espalhavam-se de que Rea seria a próxima Discípula. Com isso, ela teria a chance de disputar a posição de Santa.
Nem todos estavam felizes com essa situação. E nem todos eram tímidos em eliminar seus concorrentes. Como consequência, Rea passou por várias tentativas de assassinato nesses dois anos.
Ela eliminou todos eles.
Mas só depois de torturá-los por dias sem parar. Alguns foram pendurados no meio da Cidade da Tristeza, corpos negros de sangue seco, declarando ser pessoas que desafiaram o decreto divino da deusa.
Seus atos eram brutais e implacáveis, ganhando uma reputação que os pais usavam para fazer seus filhos dormirem à noite.
Algo como:
‘Se você dormir depois da meia-noite, o Julgador Abissal virá te buscar. Seus maiores medos serão sua maior esperança. Pois algo pior os substituirá.’
Outro dizia:
‘Se você se comportar mal, o Abismo virá. E você viverá em medo eterno.’
Todos esses contos funcionavam maravilhosamente nas crianças, mas só pioravam a reputação de Rea. Ou talvez a melhorassem, dependendo do ponto de vista.
Porém, a Encantada por Deus não se importava. Reputação era reputação. Suspeitas eram suspeitas.
Havia uma verdade exagerada em tudo, mas ela não reclamava.
Deixem que extrapolem. Que temam mais. Assim, ela poderia engoli-los por completo.
Um sorriso malicioso cruzou seu rosto por um momento, antes de ela rapidamente esconder essa expressão.
Lentamente, Rea despir-se-rou de suas vestes da igreja. Ficou nua, exceto por sua lingerie vermelha.
Seu corpo era sinuoso. Curvas nos lugares certos, com uma bunda arredondada que rebolava a cada passo e seios de tamanho perfeito. Nem grandes, nem pequenos. Só perfeitos.
Einar engolia saliva. Ela mal conseguiu impedir que seu dedo alcançasse seu lugar molhado.
Não era hora, pensou ela, mordendo os lábios na abstinência dolorosa.
A Encantada por Deus virou seu corpo em direção à grande cama de madeira. Lá, um par de roupas estava disposto de forma estética.
Ela levantou uma sobrancelha. "Você escolheu essas?"
'Elas irão te ficar bem, minha linda Rea!' disse Einar, balançando a cabeça continuamente. 'Levei uma semana inteira só para escolher!'
Os lábios de Rea contorceram-se. 'Você sempre exagera.'
'Nada é demais para você.'
'Ah, sim, sim,' suspirou Rea, caminhando lentamente até sua cama. Seus passos não fizeram som.
'Quantos dias levaremos para chegar à masmorra?' ela perguntou, com os olhos ficando mais duros.
'Depende de quão rápido viajarmos, minha linda Rea.'
Finalmente, ela conseguiu a localização do Templo Quebrado da Santa Chorosa, a masmorra.
Einar fez isso por ela. E ela contou que era do seu avô, o Sacerdote Brilhante.
Rea achou estranho, mas não se demorou nisso. Por alguma razão, o Sacerdote Brilhante parecia nunca querer encontrá-la.
Não importa.
Ela passou seu tempo confirmando a validade da informação. Agora, tinha certeza.
Hoje, partiria em direção a essa masmorra. Já podia sentir o gosto do deleite malicioso da deusa.
Ela riu consigo mesma. Fria e zombeteira.
Passou a mão em um dos anéis em seu dedo.
Era onde repousava sua Pedra de Evolução.
E esse…
Rea sorriu maliciosamente.
…pois, para esse, ela precisou matar muita gente para conseguir.
'Tomara que valha a pena,' ela sussurrou internamente.
'Ainda assim,' começou Einar, interrompendo os pensamentos de Rea, 'podemos parar no caminho. Em uma cidade.'
Rea chegou até a cama e começou a examinar seu vestido.
'Que cidade? Para quê?'
'Precisamos descansar. E talvez obter mais informações sobre nossa masmorra ou algo relacionado a ela lá. É uma cidade controlada por aqueles lobos fedidos.'
Rea fez um movimento indiferente com a cabeça.
'Também há a coroação da nova imperatriz, minha linda Rea. Você quer ir?'
'Por que eu iria?'
'Dizem que ela tem a mesma idade que você. Só dezoito anos. Mas já prestes a se tornar a líder de um Império,' disse Einar, apressadamente, 'Mas eu sei que você é melhor que ela. Melhor do que qualquer um!'
Rea deu uma risadinha. 'Que bondade sua, então, Einar. Mas não, não tenho interesse em assistir à coroação. O tempo é curto.'
'Mas me diga, qual é o nome dela?'
'Sora,' respondeu Einar. 'Sora Asterion, a Voz de Ouro.'
'Voz de Ouro, hein…' Rea sorriu de forma estranha. 'Um bom título.'
Depois ela balançou a cabeça, dissipando pensamentos inúteis, e vestiu seu vestido. Instantaneamente, a Discípula da Perda gritou como uma fã apaixonada,
'MINHA LINDA REA!!!!'
Rea a ignorou.
…
Fokay — Cidade Verde
Kenan e Lisa estavam de pé no meio de uma floresta verdejante e exuberante.
O céu estava claro, o sol banhava toda a floresta com uma luz amarelada linda, fazendo-a parecer envolvida em chamas.
O som de pássaros cantando, coelhos correndo entre folhas secas, esquilos gritando podia ser ouvido por todos os cantos.
Era uma paz tremenda, e Lisa achou que sorria admirada.
Ela segurava o braço esquerdo de Kenan com força, demonstrando sua tensão apesar do ambiente mágico.
Senti-se deslocada. Como se não fosse para estar ali. Como se não tivesse direito.
Instintivamente, ela se aproximou mais de Kenan, buscando seu calor.
Cabelos castanhos, decorados com uma flor dourada em forma de discos dourados caindo, sua flor preferida.
A Flor de Jearuwy.
Por algum motivo, Lisa sentia uma ligação muito forte com essa flor agora. Não era mera afeição. Não, ela sentia algo mais profundo que isso.
Jurava que, às vezes, sussurros saíam da flor, ressoando dentro de sua cabeça. Mas ela não entendia nada quanto a eles. Sempre, uma frustração apertava seu coração.
E em outros momentos, quando estava estressada, a flor brilhava e envolvia seu corpo com uma luz quente, relaxando-a demais.
Certa vez, Kenan tentou puxar a flor de Jearuwy do cabelo dela.
Nunca conseguiu.
A flor, na época, para Kenan, pesava tanto quanto uma montanha de ouro.
Inquestionavelmente, ele poderia queimá-la com seu fogo negro, mas não faria tal coisa, a não ser que Lisa decidisse matá-lo.
Mesmo assim, era intrigante. Mas, por ora, nada mais se podia saber sobre essas flores aparentemente inúteis.
De repente, passos começaram a ecoar. Os dois amantes pararam seus pensamentos, então levantaram as cabeças em sincronia.
Lá, uma mulher estava de pé.
Ela era extremamente alta, pelo menos dois metros e meio. Seus cabelos verdes, grossos, balançavam a cada quadril dançante.
Seus olhos eram cor de rosa, brilhando com malícia e algo mais profundo, cruel.
A mulher usava um vestido que mostrava completamente suas pernas, deixando o mundo ver o quão grossas elas eram. Seus seios pareciam pesados, mas ela os carregava com graça sem esforço.
Inconscientemente, Kenan engoliu em seco. Lisa imediatamente lhe deu um impacto no cotovelo, com um olhar de reprovação e nojo na face fofa.
O Herdeiro de Noir sorriu apologeticamente. Sacudiu a cabeça, focou, e olhou de volta para a mulher.
Ela sorria de forma maliciosa.
"Você é descendente de Vert Emerald?" Kenan perguntou.
"Descendente?" A mulher sorriu. "Huhuhuh, digamos que sim. Agora, chamem-me Vert."
Então ela olhou mais fundo para Kenan, os olhos brilhando. "Vejo que Estelle ainda é tão gentil, não optando pelo caminho mais fácil. Ela deu a você Noir também. Entendi. Ah, sim, entendi."
Kenan inclinou a cabeça confuso.
Vert Prometheus olhou então para Lisa. A garota tímida tremeu e recuou trêmula, sentindo o olhar pesado e antigo de Vert.
Instintivamente, Lisa quis se esconder, se esconder daquela mulher alta à sua frente.
Mas Vert já tinha virado o rosto para outro lado, já estava se afastando.
"Vamos então," Vert riu baixinho. "Ainda temos um caminho muito, muito longo."
Kenan e Lisa se encararam.
"Você realmente acha que eu posso ir?" Lisa sussurrou, com medo e insegurança. "Eu não vou te atrapalhar?"
Kenanacariciou seu cabelo delicadamente, sorrindo de leve.
"Não, Asas. Você não vai. E eu vou te proteger. Não se preocupe."
"Por isso mesmo estou preocupada, seu idiota!" Ela deu um soco no estômago dele. "Eu sou um peso!"
"Um peso que escolhi carregar," Kenan fez uma expressão de brincadeira, segurando a barriga como se estivesse em dor.
Depois, segurou sua mão e seguiu os passos de Vert. "Asas, vem, Lisa. A única maneira de você morrer é eu morrer primeiro."
Lisa morde os lábios.
"Não ouse morrer!"
Kenan deu uma risada.
"Sangue e cinzas, Lisa."
Ele riu alto, mais forte ainda.
"Sangue e cinzas. Sangue e cinzas. Sangue e cinzas."
Lisa revirou os olhos, agora misteriosamente mais relaxada.
…
"Sangue e cinzas!" exclamou Blanche, batendo suas asas enquanto voava de forma errática ao redor de Kaden.
Os lábios de Kaden tremiam. "Blanche, por favor, pare."
"Você é tão lindo, querido!" a fênix branca gritou, pousando no ombro esquerdo dele, batendo suas asas flamejantes e bicando sem parar, depois beijando a bochecha de Kaden.
Blanche estava fascinada pelo Kaden de sua nova roupa.
"Por que essa coisa é tão alta e barulhenta?" reclamou Reditha, depois abraçando Kaden de trás com carinho.
"Mas hoje, tenho que concordar com ela," ela sussurrou próxima ao ouvido dele, "você é perigosamente bonito, Kaden."
Prometheus apenas sorriu timidamente, olhando para seu reflexo no espelho.
Hoje, dia 24 de Dezembro, Kaden completava dezessete anos.
E naquele dia…
"WOUAHHHHHHHHHHHH!"
Começou o Festival do Sangue da Flor de Lótus Sul.
—Fim do Capítulo 383—