
Capítulo 382
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
Inara ainda estava no chão, afastando qualquer cobra que ousasse se aproximar dela, até que um pensamento de repente surgiu em sua cabeça.
"E quanto às criaturas ao redor?" ela perguntou, lançando um olhar para sua mãe, "E até mesmo Kaleith?"
"Difícil dizer." Medusa sussurrou. "Encontramos Kaleith duas vezes, mas cada encontro não trouxe boas notícias."
Ela fechou os olhos, frustrada, lembrando-se do encontro com o Pastor.
Aquele homem olhava e conversava com elas como se fossem seres perdidos na vida, precisando de orientação rumo à verdade.
E, para ele, ou melhor, para todos eles, a verdade deles estava em seguir o Profeta e adorar seu deus, o "Eu".
Nem é preciso dizer que nem o Rei Progeny nem sua esposa Serena gostaram dessa ideia. Mesmo Lady Heaven e ela mesma se sentiram, de alguma forma, ofendidas.
Nunca era uma boa ideia tentar impor uma crença a um grupo de pessoas que até então viviam bem com suas próprias convicções. Por mais bárbaro e estranho que parecesse.
O Pastor era condescendente. E sempre era um desafio encontrar um ponto de equilíbrio com seres que consideravam você inferior.
Pensando nisso, Ouroboros soltou, através da boca, um vapor verde de irritação.
Inara observava quieta, adivinhando o peso que sua mãe provavelmente carregava.
"Quanto às criaturas," Medusa prosseguiu, "A Colmeia é traiçoeira. São exponencialmente fortes também. Sua força está na habilidade de lutar como um só. Tentei ver a Rainha de Todas."
Um sorriso irônico curvou seus lábios.
"Fui rejeitada."
Ela fez uma pausa, deixando Inara digerir. Depois, lentamente, sua voz escorregou...
"Para as Raposas Nirvana," Medusa cutucou a língua em irritação, "Elas atacaram nossos homens no momento em que entraram em seu território."
"E aí?" Inara levantou uma sobrancelha.
"E daí? Todos estão mortos, claro."
"Você não fez nada?" A Mãe dos Monstros questionou surpresa, agora sentando-se ereta, com a testa franzida.
O Progeny, que ela conhecia, teria destruído toda a colônia de criaturas em um instante assustador.
Mas nada disso aconteceu. Como isso pôde?
A Senhora Ouroboros lançou um olhar rígido para sua filha, os lábios se contorcendo de irritação. "As Raposas Nirvana," ela falou com amargor, "têm poder sobre um conceito que nem eu entendo. Uma delas, uma raposa de sete caudas, poderia nos igualar."
Ela fez uma pausa, então sua voz saiu superficial e tensa...
"E há uma raposa de nove caudas."
Inara involuntariamente estremeceram.
"E isso ainda não é o fim." Medusa exalou. "Estão em aliança mútua com Kaleith. Então, dá para entender por que não fizemos nada além de lamentar nossos mortos?"
A Princesa da Serpente assentiu lentamente.
Ela não sabia que a situação estivesse tão grave assim.
"Mas há pelo menos um lado positivo nisso tudo." Medusa continuou. "As raças-tronco estão dispostas a se aliar a nós. Mas mesmo assim, suas condições são duras e restritivas."
Ela passou a mão lentamente pelos cabelos.
"Ainda estamos debatendo o que fazer. Mas precisamos agir. E, mais cedo do que gostaríamos."
"Em tempos de paz, Waverith viu um aumento no número de nascimentos. As fazendas e o gado já não são suficientes. E, com nossas relações tímidas com Kaleith, os comerciantes estão ficandorelutantes em nos procurar."
"Você precisa de minha ajuda?" Inara perguntou, com o rosto sério. "Posso—!"
"Você ainda é uma Mestra." Medusa a encarou com dureza. "Seja forte primeiro e volte para nos ajudar."
Inara concordou, aceitando as palavras da mãe. Ela sabia que, com os monstros que reuniu nesses dois anos, poderia ser útil, mas sua mãe não queria saber disso.
Ainda assim, admitiu que tinha ficado tempo demais ali.
Todo esse tempo havia convencido a si mesma de que era para descansar e se preparar…
Mas ela sabia bem o que era. Um motivo era o medo de que, ao voltar, ela não conseguisse mais retornar.
O outro motivo era um certo homem. Ela… ela não queria partir com feridas não cicatrizadas. E a única forma de se curar era confrontá-lo.
Olhou para a carta carmesim, ainda brilhando como estrelas rubras, cheia do cheiro e da aura dele. Dobrou a carta e a entregou a um pequeno rato gordo que apareceu por entre um pedaço de sua carne.
'Mais um na minha coleção.'
Inara pensou, apenas para se repreender por sua nova obsessão de enfrentamento.
Maldiçoou mais uma vez.
…
Enquanto isso, ainda em Darklore, em um lugar estranho onde tudo era areia e o uivo do pó.
A areia era de um preto imaculado, dura ao toque e pesada, com dunas que se erguiam até onde a vista alcançava.
Acima, um sol branco se pendurava no céu negro, adornado por nuvens raivosas.
Apesar do clima aparente, o vento era congelante, congelando o interior de qualquer um fraco o suficiente para caminhar ali.
Porém, uma criatura caminhava.
Parecia ser um homem, vestindo roupas azuis diluídas, que flutuavam atrás como uma capa. Algumas partes de suas roupas estavam negras, com sangue seco. Ele mancando, com o rosto oculto sob uma touca.
Dentro da touca, nada podia ser visto, apesar da luz intensa, exceto um par de olhos frios, azul céu.
O homem marchava incessantemente pelo estranho lugar, o Deserto dos Perdidos, por horas incontáveis.
Seus passos não produziam som de esmagamento e não deixavam marcas, poupando-o das criaturas que nadavam pelas areias, esperando uma presa para devorar.
De repente, o homem parou.
À sua frente e ao seu redor, o vazio persistia. Contudo, ele olhava para frente como se visse coisas que olhos mortais não poderiam perceber.
"Sei que pode me ver," ele falou, com voz robótica. "Abra o caminho. Preciso te ver."
Nenhuma resposta foi dada, exceto o vento sussurrando tentativamente em seus ouvidos e o movimento lento das areias-criatura, que se aproximavam na direção dele.
Ele percebeu. Seus olhos permaneceram indiferentes.
Ele abriu novamente a boca.
"Abra o caminho," sua voz ficou ainda mais fria. "Alquimista Proibido."
Imediatamente, o ar ao redor ficou tranquilo.
O homem ergueu a cabeça, percebendo algo.
Lá, seus olhos descansaram sobre um homem sentado no ar. Não, não era ar. Ele estava sentado na ponta de uma pirâmide feita de runas que mudavam de forma.
Com o tempo, as runas desapareceriam, fazendo a pirâmide parecer como se tivesse sido apagada da existência.
Era um homem de pele negra, cabelo cinza trançado, olhos negros profundos como um vazio. Ele exibia um sorriso largo e acolhedor.
Mas o homem de olhos azuis não.
"Onde está o Alquimista Proibido?" ele exigiu. "Você não é. Você—!"
"De fato, um clone." Forbidden falou. "Mas clone não significa que não saiba quem você é e por que está aqui, Neila Cerveau."
Neila Cerveau inclinou o pescoço.
"Minha verdadeira essência percebeu que está vivendo em outra linha do tempo. Uma linha que foi alterada por alguém. Por uma entidade."
"Não estou aqui por essa informação. Já sei desse fato." Neila interveio.
"Ops! Que dura essa, garotinha."
"Você me prometeu vingança, Forbidden," ela continuou com suavidade. "Estou aqui para exigir o que você prometeu."
A capa caiu, revelando o rosto bonito de Nuke Cerveau. Mas quem falava não era nada parecido com ele.
Ele levantou a mão e mostrou um anel. O mesmo anel que Nuke tinha recebido de um familiar.
"Isso está incompleto e sem graça," Neila disse. "Preciso da versão completa da pesquisa."
"Qual preço você está disposta a pagar, garotinha?" Forbidden sorriu. "Já ajudamos você. Ou esqueceu?"
"Se for o caso, deixe-me te lembrar, garotinha."
Ele riu, balançando os pés como uma criança.
"Ajudamos você a criar a linhagem Cerveau com nosso querido Sem Alma. E isso me faz pensar, por que você não pergunta pelo seu amado?"
CRACK—!
O espaço ao redor rachou, se fragmentou em estilhaços, e explodiu violentamente para fora.
Por um momento, Neila ficou no meio de uma zona de vazio, mas seus olhos azuis não vacilaram.
"Dou um desafio: repita isso, clone inútil," Neila rangeu, seu poder telecinético envolvendo o espaço ao redor até fazer o tempo parecer atrasar, cansado pelo poder de sua consciência.
"Sem Alma não passou de um parceiro de reprodução," ela exertou. "Meu amor é Solaris."
Apontou para ele com o indicador. "Da próxima vez que falar besteiras na minha frente, eu te mato."
O sorriso de Forbidden não vacilou um só instante.
Depois, ele deu uma risada, achando a situação tão divertida que lágrimas escorreram por suas bochechas.
"Posso ser um clone," ele disse entre risadas, "mas seria um erro subestimá-lo, garotinha."
A risada morreu de repente. "Ainda assim, vou te entreter."
Ele encarou Neila com olhos zombeteiros, o espaço agora reparado.
Durante sua explosão de raiva, todas as criaturas de areia ao redor se transformaram em chuva de sangue, pintando a vastidão negra de preto e verde.
"Vamos te entregar a versão completa, Cabeça Quebrada," ele falou, brincando com as runas com o dedo. "Não apenas isso, vamos ajudar ainda mais, entregando-te uma aliada interessante."
Ele sorriu. Neila inclinou a cabeça, franzindo a testa.
"Procure pela Ascendente do Caminho da Tristeza, Joandor." Ele estalou os dedos, e um novo anel apareceu na mão de Neila. "Ela irá ajudar você. Parece que o Malagor está mais uma vez na sua gananciosa busca por—!"
"Não me importa." Neila interrompeu rapidamente. "Consegui o que precisava. Vou voltar."
Forbidden sorriu com sarcasmo. "Você realmente não vai perguntar sobre Sem Alma? Vai se surpreender com o que ele virou."
"Ele pode ir pro inferno."
"Ai! Receio que nem esses demônios queiram ele." Ele deu uma risada, batendo as pernas. "De qualquer forma, vou contar pra ele."
Ele sorriu de forma estranha. "Espero que não se arrependa."
Neila o ignorou. Seu corpo começou a se dissolver, como sal na água, voltando para Fokay.
Antes que a transição fosse concluída, as últimas palavras de Forbidden chegaram aos seus ouvidos — frias, mas profundamente irônicas.
"Tudo tem um preço, Neila."
"Tudo."
"Hoje você veio e me tirou. Amanhã, eu irei te tirar também."
"Agora..."
Ele riu de forma maliciosa.
"Que as duas vadias da Sorte estejam contigo, Cabeça Quebrada."