
Capítulo 384
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
O Festival de Sangue de Lótus Sul tinha começado.
Por toda Waverith, lanternas em formato de gotas de sangue flutuavam como águas-vivas, iluminando as ruas com um tom avermelhado.
Lótuses vermelhos cobriam o chão, parecendo um mar de sangue, com pessoas cantando e dançando no meio deles.
No dia do Sangue de Lótus Sul, todos na fortaleza comiam a mesma refeição. Não importava se eram pobres. Ou mesmo se eram ricos.
Todos aproveitavam o Tamtam, uma comida especial criada pelos cozinheiros de Waverith em homenagem a Kaden, após pedir sua ideia.
Kaden, naquele dia, não levou tão a sério. Sem pensar muito, falou a primeira coisa que veio à cabeça, como se fosse uma ideia surgida de uma cela de pensamento.
Como era de se esperar, foi desastroso.
Agora, as pessoas comeriam purê de batatas misturado com arroz vermelho feito do próprio jardim de Kaden. E ainda incluíam leite de gado misturado na mistura.
Era tudo muito aleatório.
Apesar disso, os cozinheiros garantiram que ficasse bom, acrescentando temperos e outros ingredientes.
Neste dia do Festival, todos em Waverith vestiam roupas vermelhas, e era comum ver uma tulipa vermelha presa entre a orelha e a têmpora.
De manhã, nada aconteceria além de algumas trocas de cumprimentos e a parada da Coroa Vermelha, seguidas pela da Coroa Prateada.
Era à noite, quando o sol começava a se recolher para dormir, que as verdadeiras comemorações começavam. Poetas começariam a recitar seus poemas.
Uma nova profissão, o Gryo, surgiria para enaltecê-las com palavras floridas, homenageando suas ações e linhagens. Eles também começariam a contar histórias e jogar alguns jogos para animar o público.
Peças teatrais também seriam apresentadas.
E, por ser um dia de amor… todos os apaixonados, ou aqueles que desejavam estar com alguém, teriam a oportunidade de dançar sob a luz da lua, com a Canção do Fogo e do Sangue ecoando por toda a fortaleza.
Era para ser um dia magnífico. E Kaden esperava que fosse mesmo.
Afinal, sempre que ele decidia voltar para Fokay, nunca sabia quanto tempo ficaria lá.
Então, talvez fosse melhor partir levando boas lembranças como companhia.
E parecia que o começo não tinha sido tão ruim assim.
"FELIZ ANIVERSÁRIO, MAIS NOVO!!!" Dain exclamou, sua voz sacudindo a carruagem enquanto abraçava seu irmãozinho com força monstruosa.
Kaden estava preparado, então desta vez devolveu o abraço sem fazer muita careta.
"Por que você é sempre tão barulhento, Dain?" reclamou, com um sorriso no rosto.
"Por que você não pergunta ao pai sobre isso?" retrucou Dain, sorrindo.
Kaden fez careta.
"Prefiro não."
Ambos soltaram risadas, até que Daela os empurrou com força para o lado.
Ele quase caiu da poltrona revestida de couro vermelho, olhando para Daela com uma expressão machucada.
Ela simplesmente o ignorou totalmente.
Kaden, por sua vez, olhava Daela. Ela usava um vestido vermelho com listras pretas por toda parte, com uma pequena fenda entre as pernas.
Mostrava as pernas, mas de forma bastante discreta.
Pouca pele aparecia, e ela usava luvas vermelhas.
Seu olho borgne não estava escondido, exatamente como ela gostava. Havia também um colar ao redor do pescoço.
Era moldado como uma cruz feita de duas espadas.
Foi presente de Kaden, após perceber que nunca tinha dado nada à irmã. O colar era feito com sua manipulação de sangue, brilhando como estrelas carmesim.
Dain também tinha recebido algo de Kaden. Uma pequena adaga vermelha.
Sem dizer uma palavra, Daela apertou o irmãozinho em um abraço apertado, cheirando seu aroma ao mesmo tempo. Seu corpo relaxou bastante, e ela se aninhou nele como se nunca tivesse o bastante.
Dain observava, balançando a cabeça. Achava que se acostumaria ao amor imenso de Daela por Kaden, mas era difícil quando ela era tão fria com qualquer outra pessoa.
Ele encolheu os ombros de forma relaxed, sorriu amplamente, e começou a brincar com sua adaga. Dentro de sua cabeça, as vozes de Griffin e de Ragnar, sua machadinha de batalha, conversavam e reclamavam dele.
Griffin o repreendia por ser fraco demais para usá-lo corretamente, dizendo que Dain tava cuspindo na sua majestade.
Ragnar reclamava que seu dono usava uma arma diferente dele. Queria também amaldiçoar Kaden, mas sabia que não devia.
Dain não se importava com desrespeitos. Se alguém ria dele, acabava rindo junto.
Mas tudo o que envolvesse Kaden ou sua família, ele se tornaria a fera que os dois sabiam que ele podia ser.
"Feliz aniversário, irmãozinho." Daela murmurou, ainda o abraçando, "Você cresce rápido."
Kaden sorriu. "Não estou? "Ele riu. "Prepare-se, estou lentamente ficando mais alto que você, irmã. Só mais um ano."
Ela bufou. "Nunca."
"Vamos ver." Ele riu, retribuindo o abraço.
Um silêncio confortável se instaurou na carruagem. Suave e acolhedor. Daqueles que fazem o mundo ao redor desaparecer numa névoa difusa.
Logo, eles teriam que sair e desfilar pelas ruas por dezenas de minutos.
Uma exibição, eles reclamaram amargamente.
Era algo que nenhum deles gostava, mas os pais não lhes davam escolha.
"Você vai voltar para Fokay?" questionou Kaden, quebrando o silêncio.
"Sim," respondeu Daela, "logo depois de você."
"Vai ficar bem?" ele perguntou novamente, "Os elfos provavelmente vão esperar por você depois do que fez."
"Sei. Por isso, estarei pronta antes de voltar."
Kaden assentiu lentamente, franzindo a testa um pouco, algo lhe serpenteava dentro do coração.
Ele de forma instintiva apertou Daela com mais força e sussurrou com uma carga de emoção pesada, que não esperava sentir naquele momento,
"Não tire o colar."
"Você foi quem me deu." Ela sorriu de lado. "Nunca vou tirar."
"E não deixe nada acontecer com você." acrescentou Kaden.
"E se algo acontecer comigo?"
"Verei pelo Reino dos Elfos, e estrelas carmesim choverão sobre todos eles."
Daela deu uma risadinha leve, seu coração cheio de calma e amor. Ela o abraçou ainda mais forte.
"Adoraria ver essa cena." ela sussurrou.
"Não—!"
"E EU?" Dain se intrometeu, abraçando os dois com seus braços enormes.
"E eu, mais novo?" repetiu, rindo descontroladamente. "O que você faria se acontecer alguma coisa comigo?"
"Você vai correr risco?" Kaden conseguiu falar, apertado pelo forte abraço.
"Sou o herdeiro," Dain exibia os dentes como uma fera selvagem, "Estarei na linha de frente quando qualquer animal perto ou Kaleith decidir atacar."
Daela e Kaden acenaram, esperando o pior. A situação era grave, e Kaden até pensou em ficar para ajudar.
Mas Dain mandou ele ir embora, gritando que era hora dele finalmente fazer seu papel de herdeiro.
Kaden, na época, não respondeu. Mas por dentro, sabia. Não precisava estar aqui para ajudar.
Mesmo assim, acenou para o irmão, sentindo sua força esmagadora sobre si, "Se algo acontecer com você, vou te ajudar."
"Como?"
"Sangue e Cinzas, Dain." Kaden sorriu, lembrando do credo de Blanche que ressoava estranhamente nele, "Sangue e Cinzas."
Naquele momento, eles não entenderam, mas aceitaram suas palavras, sorrindo enquanto se abraçavam.
O silêncio os envolveu, mas logo foi interrompido pela parada repentina da carruagem.
Era hora do desfile, pelo jeito.
Pouco a pouco, eles começaram a se soltar do abraço.
E ali, eles conversaram.
"Se algo acontecer com você, mais novo." Dain começou, com uma voz tão séria que, Por um instante, Kaden nem percebeu quem falava.
Seus olhos brilhavam com uma chama escaldante de ouro-amarelo. Lá no fundo, Griffin e Ragnar podiam ser vistos, assustadores e ansiosos por sangue.
"Só cinzas irão sobrar."
Daela assentiu, beijando suavemente a face esquerda dele.
Por um breve momento, seu olho borgne abriu, uma luz branca ardeu de dentro dele, antes de ela fechá-lo rapidamente. Sua voz ecoou naquela silêncio estranho.
"Eles procurarão a morte. Mas a morte nunca virá."
O rosto de Daela era sério.
"Só o silêncio..." disse ela, "Só o silêncio virá até eles."
Kaden sorriu: "E você é o Silêncio."
Daela o imitou.
"Eu sou."
E assim, o festival continuou enquanto os Warborns desfilavam pelas ruas.