
Capítulo 385
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
A festa continuou.
Após o desfile da Coroa Vermelha, que fez toda a fortaleza tremer de excitação como se um terremoto estivesse sacudindo o próprio solo, chegou a vez das Coroas Prateadas.
Kaden e seus irmãos não assistiram ao desfile deles, seguiram seu caminho e continuaram suas tarefas. Como membros de Warborn, suas responsabilidades não eram poucas.
Enquanto isso, o povo gritava. Tão alto que se podiam ver veias serpenteando ao redor de seus pescoços e testas, inchadas como se fossem explodir.
Cada um deles participava de forma intensa, fazendo o seu melhor absoluto para manter o festival tranquilo e agradável para todos.
Crianças corriam livremente, com sorrisos contagiantes estampados nos rostos, rindo alegremente enquanto brincavam com outras crianças que nem sequer conheciam.
Elas não se importavam. Apenas brincavam com quem estivesse disposto. E naquele dia, muitos estavam.
Até mesmo os mendigos.
Primeiro, eles estavam inseguros, questionando-se conscientemente se seriam aceitos. Mas com o passar do tempo, conseguiram superar a falta de confiança e brincar livremente.
Ao meio-dia — quando o sol acima ardia impiedoso sobre eles, o suor escorria de seus rostos, pingando no chão como chuva — a comida estava pronta para ser servida.
Ninguém comia em suas casas. Nenhum deles. Nem mesmo os nobres, com roupas luxuosas de cor carmesim e joias reluzentes.
Todos começaram a comer o Tamtam do lado de fora de suas muralhas, misturando-se aos outros, enquanto ao mesmo tempo distribuíam alimentos àqueles que não podiam pagar pelos ingredientes ou cozinhar por si mesmos.
Era um momento de alegria. E os líderes de Waverith observavam a cena com orgulho e satisfação brilhando em seus olhos.
Estavam no topo do edifício mais alto, que era a Casa Vermelha — Moradia dos Warborn — olhando para o festival que se desenrolava pacificamente.
"Então," disse Serena, sorrindo, com seu traje de batalha carmesim aderindo ao corpo pecaminoso, "isso tudo vale a pena proteger, não acha?"
Os céus, Ouroboros, Dever e o Herdeiro do Rei escutaram com sorrisos nos rostos.
"Sim," disse Dever, "vale."
Estavam cercados por tensões e conflitos iminentes de todos os lados. Tornava-se cada vez mais difícil manter uma postura positiva quanto a uma possível paz com as bestas e Kaleith.
Agora, praticamente, era uma questão de paradigma de vida, religião, fé.
Kaleith os considerava ignorantes, procurando de maneiras sutis forçar sua filosofia sobre eles.
Waverith não se deixaria vencer por isso. E com isso, chegava ao único resultado possível diante dessas circunstâncias.
Algo com que o Herdeiro do Rei e Serena não se importariam. Afinal, eles eram Warborn. Foram feitos para travar guerras e nadar em rios de sangue de inimigos.
Mas já não eram mais uma casa de loucos.
No instante exato, eram os líderes de toda uma fortaleza, carregando sobre suas costas a vida de milhares que pressionavam sobre eles.
Não era fácil. Só agora, eles percebiam completamente: ser líder não é tarefa simples.
O Herdeiro do Rei não queria isso. Não fazia parte de sua natureza.
No entanto, aproveitou a oportunidade para tornar sua linhagem maior. Mais profunda. Para que pudesse deixar algo digno para seu filho.
Ele não se arrependeu. Garros nunca se arrependeu de nada que fez na vida.
Ele apenas riia disso. Porque rir é muito melhor do que lamentar uma situação enquanto nada se faz.
Naquele instante, ao observar os rostos jubilosos de seu povo — aqueles que os veneravam como deuses vindo dos céus — as Coroas cerraram os punhos até as unhas ficarem brancas, fazendo o possível para deixar a maré de inquietação em seus corações se acalmar em correntes pacíficas.
Se o povo os via como deuses, então eles seriam seus deuses.
Mesmo que chorassem como eles. Mesmo que sangrassem como eles. Mesmo que temessem o futuro como eles. Mesmo que morressem como eles.
Mas isso não importava. Nunca importou.
Eles os honrariam. E, assim como o povo de Waverith sempre dizia,
"Seja honrado como um Warborn. E você não lutará suas batalhas sozinho."
"Seja forte como uma Coroa Vermelha. E morrerá sem manchas nas costas."
"Seja corajoso como uma estrela carmesim solitária no céu escuro e engolente. E não se unirá aos mortos sozinho."
Justo enquanto esses pensamentos passavam por suas mentes, lá embaixo, o povo começava a sussurrar, cantar, rir.
Sejam honrados, gritaram eles, pois a Honra é a maior e mais alta virtude da Coroa Vermelha.
E quem ostentasse essa distinção…
A morte sempre seria doce.
Sempre.
…
O tempo se confundiu, o sol voltou a dormir. A Roda girou, e a lua agora pendia no céu noturno de Waverith, banhando toda a fortaleza com um brilho prateado.
A tensão havia se dissipado. O povo havia se acalmado, assistindo — sentado ou em pé — à linda lua sobre eles.
O ar era suave e levemente úmido, acolhendo-os como um cobertor. Suspiros de alívio e contentamento cruzavam as ruas.
Logo, amantes começaram a caminhar um em direção ao outro, com os rostos involuntariamente sorrindo.
Haviam também aqueles que tinham alguém por quem nutrir afeto, decidindo deixar o medo passar como água por entre rochas secas, ainda assim avançando.
Aquele dia, decidiram ser corajosos. Não covardes.
Não foi fácil, como se poderia esperar.
Alguns voltaram decepcionados, com a cabeça baixa, já que a pessoa que desejavam estar com já tinha alguém ao seu lado.
Isso criou um ciclo de seres insatisfeitos, amando alguém que amava outra pessoa.
No final, continuaram sozinhos, admirando os outros casais felizes sob a luz da lua.
O mundo os negou o amor. Mas não os demais. E enquanto sentiam tristeza, o tempo seguia, sem parar para que pudessem se recuperar.
O mundo prosseguiu como se nada tivesse acontecido.
Mas havia uma beleza nesse cenário. Nessas pequenas rupturas do coração e emoções insatisfeitas.
Uma espécie de beleza que doía. Mas que fazia você sentir que ainda havia esperança.
Após um tempo, poetas, Gryo e todos começaram a invadir as ruas. Recitavam seus poemas dedicados às Coroas, exaltando suas linhagens ancestrais como se estivessem presentes desde o primeiro ancestral na Terra.
"Eles têm línguas afiadas," disse uma voz pequena, enrugada, que parecia secar ao falar, "não têm?"
Kaden, escondido na calçada de um lado da rua, oculto pelas sombras, virou a cabeça para olhar para o homem que tinha falado.
Sua espada de olhos rubros repousava sobre um velho — claramente um mendigo — sentado no chão, com as costas encostadas preguiçosamente na parede.
As roupas vermelhas dele estavam rasgadas e sujas. Seu corpo era coberto de pó, exalava cheiro de urina e fezes.
Kaden pensou brevemente como não tinha notado aquele cheiro antes de continuar observando o mendigo.
Cabelos quase inexistentes, roupas rasgadas, e suas pernas expostas, visíveis através do tecido destruído.
Kaden segurou uma expressão de reprovação.
As pernas dele estavam inchadas de forma anormal, pulsando como se tivessem vida própria, parecendo explodir a qualquer momento.
À primeira vista, Kaden sabia que aquele velho não conseguiria caminhar com aquelas pernas. E foi então que notou as mãos do mendigo.
Estavam tão atrofiadas que doíam ao olhar. A pele pendia como pele de frango em sopa.
As unhas eram vermelhas e quebradas, certamente por arranhar o chão rochoso para tentar caminhar. Se é que se poderia chamar aquilo de caminhar.
Aquele velho estava em um estado deplorável. Mesmo assim, tinha um sorriso no rosto.
E Kaden o reconheceu.
"É você," disse, surpreso, a voz carregada de espanto. "Você ainda não morreu, velho?"
O homem gargalhou, sombreando a parte superior da boca sem dentes com uma inferior cheia de dentes amarelados e curvados para dentro, como se tivesse sido socado forte há muito tempo.
"Você não esqueceu de mim, moleque suicida?" disse entre risadas.
"Tenho uma boa memória," replicou Kaden, enquanto a canção do Fogo e Sangue começava a ecoar lentamente ao redor de Waverith.
Seus olhos permaneciam fixos no velho.
Era o mesmo homem que tinha visto sendo espancado por uma jovem nobre.
A mesma pessoa que lhe dissera na cara que não valorizava a vida, pouco antes de Kaden ir procurar uma besta de morte e ficar preso na masmorra destruída com Asael.
Aquele mesmo velho.
Porém, então, Kaden franziu o cenho.
"Antes de sair naquele dia, te dei várias moedas de ouro," ele inclinou a cabeça. "Achava que você viveria bem com aquilo."
"Dar tanta moeda de ouro a um mendigo, menino," o velho riu, "o que você acha que iria acontecer?"
"Mudar sua situação?" disse Kaden, encolhendo os ombros. "Você não queria morrer naquela época. Então, eu te dei uma saída daquela viela fedida onde vivia. Mas agora…"
Kaden olhou para as pernas do velho, sentindo um pressentimento ruim.
"A Morte vem te buscar, velho mendigo. Rápida, mas lenta."
Sua voz soava como um decreto.
"A Morte vem para todos nós," respondeu o velho, agitadamente, com um movimento preguiçoso da mão desgastada. "Simplesmente, ela está mais perto de mim do que de você. Mas ela vem. Ela sempre vem."
"Vamos falar de morte novamente?" Kaden sorriu.
"Só falo com alguém sobre as coisas que ele me inspira," disse o mendigo com um sorriso. "Você, menino suicida, só me inspira a pensar na morte. Então, vou falar de morte com você. Só morte. Até que o dia em que ela não seja mais para você. Até o dia em que ela venha para sua alma."
"Huh?" exclamou Kaden.
"Sabe qual é a pior morte que alguém pode experimentar?" continuou o velho mendigo.
Kaden inclinou levemente a cabeça, olhando para a lua acima. Estava esperando Inara, mas parecia que ela não viria.
Ela devia estar aqui há meia hora. Nenhuma notícia.
Outra recusa.
Kaden suspirou, fechando os olhos para acalmar o coração repleto de arrependimento e dor dilacerante.
Pensando que tinha pedido à Meris para esperar até tarde só para passar um tempo com Inara.
Exalou pelo nariz, com Reditha e Blanche apoiando-o, e então balançou a cabeça, dirigindo-se ao mendigo.
"A pior morte?" Kaden repetiu, cruzando os braços contra a parede, de frente para o velho. "É a morte com arrependimento no coração."
Ele deu sua resposta.
O velho sorriu.
"Emocional, não é, menino?" disse. "Mas não é tão complicado. Nunca foi. Nunca."
Kaden levantou a sobrancelha esquerda. "Ilumina-me, velho mendigo."
O velho apontou para as pernas dele, depois para todo o corpo.
"Você entende como dói ver-se morrendo?" riu, como se divertisse. "Aquele tipo que parece que os deuses zombam de você, deixando você perceber o quanto seu corpo se desintegra lentamente, depois sua mente, até finalmente levar sua alma."
Kaden escutou atentamente.
"Ver-se perdendo a capacidade de caminhar. Precisará de ajuda para se mover, mas se não…" levantou as mãos ensanguentadas, "…terá que rastejar sozinho."
Kaden franziu o cenho.
"Isso é só o começo. Depois, respirar vira uma batalha que você preferiria não lutar. Mas sabe que não lutar significa morte. Então, luta, ofegando, como se o mundo negasse a você aquilo que nunca negou."
O mendigo fez uma pausa, deixando Kaden absorver suas palavras.
Naquele instante, o mais jovem Warborn sentiu-se como se estivesse diante de um mestre.
Um verdadeiro mestre.
Inconscientemente, ficou ainda mais atento.
O velho sorriu e continuou:
"Depois, seus músculos parecem água. Levantar os braços acima do peito vira impossível. Já te disse, não foi? É seu corpo que morre primeiro. Um processo lento e doloroso, no qual você morre mil vezes."
"É o tipo de fim que dá tempo de pensar como a vida escapa. Mas, no meio de tudo isso, há algo pior do que tudo isso. Algo que eu temo mais."
"Quer saber, menino?"
"Estou ouvindo," respondeu Kaden.
"É simples," riu o velho, apontando para o seu traseiro, "um dia, você se sentirá tão fraco, inútil, tão dependente, que precisará de alguém para limpar sua bunda."
Kaden ficou surpreso, ofegante.
Os olhos do mendigo brilhavam de modo estranho.
"Existe morte pior do que isso? Nesse instante, você deixa de ser humano."
Ele olhou para o céu acima.
"Você está morto. Morto sem estar morto."
"Existe algo mais horrível do que isso, Kaden Warborn, menino suicida?"