Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!

Capítulo 388

Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!

O beijo foi brutal.

Num impulso de força inesperada, Inara já estava em cima de Kaden, beijando-o do jeito que ela sempre sonhara.

Ela colocou toda a sua emoção naquele beijo — suas frustrações, sua dor, suas inseguranças e, acima de tudo, seu amor.

A Princesa Serpente desejava que Kaden a entendesse. Queria que ele soubesse que tudo o que ela fazia, e estava disposta a fazer, era só resultado de seus sentimentos não correspondidos.

Os últimos dois anos foram um inferno na Terra para Inara. Muito mais do que qualquer um poderia acreditar.

De várias formas, Inara gostaria que monstros estivessem pinicando sua carne ao invés disso. Pelo menos, isso era algo com que estava acostumada.

Primeiro, ela havia decidido desistir de Kaden, esquecê-lo, afastar-se e nunca mais voltar.

Mas essa ideia se mostrou inalcançável. Além de ser o homem que ela amava, Kaden era mais do que isso.

Ele foi o responsável por ajudá-la a se tornar quem ela é hoje. Ele a apoiou, ainda que inconscientemente.

Kaden também era o homem para quem ela tinha feito um Juramento de Sangue. Inara não se arrependeu de ter feito isso, mas isso significava que ela não poderia escapar dele.

A próxima ideia era simplesmente aceitar ser apenas amiga. Nada mais. Nada além disso.

Depois de tudo, ela foi quem buscou mais, então a solução mais simples era diminuir suas expectativas.

Assim, tudo ficaria bem.

Mas ser amiga do homem que ela amava? Inara se conhecia. Sabia que não conseguiria fazer isso.

Porra, ela teria preferido deixá-lo do que se contentar com aquilo e vê-lo todo apaixonadinho com Meris.

A morte parecia bem mais lógica do que isso.

Então, após pensar arduamente, tanto que a cabeça girou, ela chegou à única conclusão possível.

Se Kaden não queria ela como amante, ela faria de tudo para que ele quisese. Não importava o que fosse preciso fazer.

Era imprudente, e se sua mãe soubesse, a teria amaldiçoado severamente. Mas a Mãe dos Monstros tinha feito sua escolha.

Então, lá estava ela, beijando Kaden com força, orando para que ele entendesse seu pedido.

Orando para que seu coração se conectasse ao dele, e que ele ouvisse o grito de dor e amor que seu coração cantava por ele.

E foi com esses pensamentos que Inara quebrou o beijo e deu um passo para trás, com a boca coberta de saliva, o peito subindo e descendo, o rosto queimando de vergonha, olhando para Kaden com medo escondido.

O homem retribuiu o olhar. A face de Prometeu estava marcada de surpresa, mas havia uma ponta de compreensão ali.

Inara percebeu. Seus olhos se iluminaram, pensando — talvez — só talvez — seu Herói finalmente estivesse compreendendo ela.

Kaden deixou escapar uma respiração suave pela boca, os lábios ainda rosados pelo beijo dela.

"Prometi que abriria meu coração pra você", ele murmurou, olhando para ela, "e isso exatamente farei."

"E eu entendo seu posicionamento. Sei que nunca é fácil amar alguém, esperar algo mais e ainda ser rejeitada."

"Você realmente entende?" A voz de Inara estava amarga. "Duvido, Kaden. Você nunca sentiu isso. Ou estou enganada? Todo mundo ao seu redor te ama. Você nunca precisou buscar o amor de ninguém."

Ela fez uma pausa, se recompondo, e continuou:

"Meris era a mesma. Ela foi quem te procurou, não o contrário. E aqui estou eu", ela riu sem humor, "fazendo o mesmo. Ainda pior."

"Isso não quer dizer que eu não possa entender", Kaden retrucou.

"Sim, verdade", ela rostou. "Mas seria uma compreensão superficial. Você não consegue se relacionar comigo, Kaden. Você simplesmente não consegue. E não estou pedindo isso."

Ela deu um passo à frente, o olhar firme. "Só quero o seu amor. Quero que você me ame."

"Esse é o problema, Inara", Kaden suspirou. "Você busca o meu amor, mas tem algo que ainda não entende."

Ela franziu a testa com raiva, mas Kaden continuou, mais afiado agora.

"Se você quer ser amada do jeito que deseja, então precisa me amar do jeito que eu quero." A voz dele aumentou, carregada de irritação.

O olhar de Inara se ampliou um pouco, o coração pulsando forte enquanto as palavras dele ecoavam sem misericórdia na cabeça dela.

Ele não tinha terminado.

"É isso que tenho tentado te dizer. Eu te disse que te deixaria entrar no meu coração, pra que você achasse que era por isso, não é?" Ele respirou fundo, exausto. "Foi pra que você pudesse me conhecer melhor. Porque, se acha que já me conhece, está muito enganada."

"Também foi uma forma de me conectar mais profundamente com você. Para construir algo mais forte. Algo que você deseja, mas que claramente ainda não sabe como criar."

Ele balançou a cabeça, e um medo súbito tomou Inara, medo do que ele decidiria, do que poderia fazer naquele momento.

Ela rapidamente estendeu a mão e segurou a dele, com força maior do que pretendia.

Mas já era tarde.

Kaden olhava para ela, exasperado.

A Princesa Serpente percebeu dolorosamente o erro.

Ao invés de tentar entender como seu amor queria ser amado, ela decidiu forçar-se nele.

Ela foi egoísta, Inara se repreendeu com raiva e medo escondidos, e o amor nunca foi algo egoísta.

Ela abriu a boca, mas…

"Preciso ir." Kaden disse, interrompendo suas palavras. Ele se virou, puxando a mão de Inara do seu braço.

Inara cambaleou de surpresa, o coração apertado como um punho, a garganta seca enquanto via Kaden se afastar.

"E-Espera!" Inara tentou gritar atrás dele. "Eu… Eu estava perdida. Não sabia." Ela tentou se justificar.

Kaden não parou. Logo, ele iria se misturar entre as pessoas.

Inara mordeu os lábios, a frustração fervendo dentro dela. Fez um passo, usando seu poder para aparecer na frente de Kaden, como uma cobra se lançando.

Ele arqueou uma sobrancelha para ela.

Kaden era paciente, mas sua paciência não era infinita. Desde o começo, ele tentou fazer o melhor com Inara.

Ele admitiu que errou na forma com que agiu com ela, mas Inara cansava de lidar.

Kaden quase ia seguir seu caminho, mas parou quando a voz dela ecoou.

"Hoje vou voltar para Fokay." Ela disparou. "Depois de te encontrar, decidi que iria voltar. Já perdi tempo demais. Algo está me consumindo por dentro. Meus monstros estão preocupados."

Ela deu uma respiração de teste, depois exalou enquanto falava ao mesmo tempo,

"Não estou dizendo tudo isso para justificar minha rudeza", ela travou a mandíbula, "mas sim, eu não queria voltar sem o seu amor ou a sua promessa de um."

Ela abaixou a cabeça. Kaden a observava, vendo as dificuldades internas que ela enfrentava.

"Eu queria algo, Kaden." Ela respirou.

"O que foi?" Ele perguntou.

"Algo que me fizesse desejar fazer qualquer coisa para voltar viva. Eu já te contei dos meus medos. Tenho medo de ir pra Fokay e morrer lá, sozinha entre monstros, meu corpo apodrecendo."

Ela levantou a cabeça novamente, com uma expressão de tristeza no rosto. "Suas palavras me ajudaram a passar pela minha primeira vez em Fokay. Por isso, queria a mesma coisa de novo."

"Só que desta vez, quero o seu amor. Quero saber que, aconteça o que acontecer quando eu for, se eu voltar, você estará aqui, me esperando. Não como amigo. Mas como meu amante."

Inara falou isso, depois ficou em silêncio, suspirou. Em seguida, deu um passo de lado, abrindo caminho para Kaden.

Ela tinha dito tudo o que precisava dizer.

Kaden seguiu o movimento dela com o olhar, percebendo o que Inara buscava.

Da mesma forma que sua família e entes queridos o faziam apertar os dentes e superar qualquer obstáculo… Inara queria o mesmo.

Mas ela queria isso dele, e dele apenas.

Era uma sensação estranha para Kaden.

Mas será que podia prometer isso a ela?

Ele mesmo não tinha certeza se voltaria vivo. Tinha vantagens que outros não tinham, mas isso não significava que a morte não estivesse à sua espera.

Estava lá. Muito mais do que ele mesmo acreditava.

'Será que esse é o mundo em que vivemos?' Kaden pensou secamente. 'Viver e se despedir de amigos e amantes sem saber se vamos nos ver e rir juntos novamente.'

Isso o fez pensar em Asael, e Kaden orou, temerosamente, para que seu amigo estivesse bem. Para que ele estivesse indo bem, onde quer que estivesse.

Essa realização fez sua irritação e mágoa persistente desaparecerem completamente.

A vida era demais imprevisível para deixar a ira turvar os olhos.

Kaden olhou para Inara novamente, levantou a mão e segurou seu queixo. Lentamente, ergueu até que os olhos deles se encontrassem.

"Eu tenho o mesmo medo, Inara. Então vamos fazer assim."

Sorriu levemente. "Faremos o nosso melhor para voltar vivos, assim poderemos nos ver novamente."

O olho de Inara se arregalou.

"Ainda preciso aprender seu modo de amar. E você ainda precisa aprender o meu."

"Então," ele estendeu a mão em direção a ela, "fechado?"

Inara não respondeu de imediato, surpresa com suas palavras, sua compreensão, sua gentileza. Então lentamente, seu rosto refletiu o dele.

"Sim!" Ela sorriu radiantes, ignorou sua mão e o abraçou forte. "Fechado!"

Kaden deu uma risadinha leve.

Todo mundo precisa de uma motivação para enfrentar as dificuldades pelo caminho.

Pode ser qualquer coisa. Liberdade. Glória. Dinheiro. Destino. Vingança. Força.

O propósito de Inara era força. Mas, além disso, tinha agora algo a mais.

Algo que move mundos.

Algo que faz seres de Fokay e Darklore caçarem dragões, exterminarem famílias inteiras, fecharem negócios com entidades sombrias, manipularem reinos inteiros.

Essa coisa, esse conceito, era conhecido por todos.

Até por uma criança.

E assim, a Sangue de Lótus Sul de Inara se encerrou ali.

—Fim do Capítulo 388—

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