Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!

Capítulo 389

Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!

A festividade do Sangue de Lótus de Inara terminou, mas a celebração em si não acabou, e a noite ainda parecia longa.

Ela desapareceu, sentindo-se de alguma forma um pouco melhor após a última conversa com Kaden.

Nada ainda havia se definido entre eles. Era cheio de incertezas, daquele tipo que o mundo adorava derrubar e destruir.

Ainda assim, pelo menos agora, havia a promessa de algo mais entre eles.

Podia dar certo. Também podia não dar.

O tempo diria.

Inara esperava que sim, e para poder saber disso, ela precisava voltar viva de tudo o que estivesse esperando por ela.

Motivada e de repente revigorada, a Mãe dos Monstros retornou para se preparar para mais uma viagem a Fokay.

Enquanto isso, os amantes de Waverith ainda dançavam, com passos em perfeita sintonia, movimentos fluidos.

Eles dançavam como o vento que passeia ao redor, suave e doce, com sorrisos radiantes que iluminavam tudo ao redor.

Era possível ouvir risadinhas constantes, com fogo rubi surgindo de vez em quando, acompanhadas de risadas explosivas.

Porém, dentre todas essas pessoas sorridentes, havia um casal que parecia estar um pouco perdido.

"O que está acontecendo com vocês?" Orien levantou uma sobrancelha para Sabine, perplexo.

Ao questionamento do marido, Sabine ficou confusa, incapaz de dizer alguma coisa.

Estavam no meio do espaço de dança, pretendendo, como qualquer outro casal ao redor, mover seus corpos juntos em busca de calor um do outro.

Porém, algo estava estranho.

'Eu — eu esqueci como se dança?' pensou Sabine, com o coração acelerado de repente, tomado de pavor. 'Mas como?'

Ela vinha treinando essa dança há dias sem parar, tudo para agradar seu marido.

Mas hoje... tudo parecia escapar de sua memória.

Nada vinha à cabeça quando ela tentava mover o corpo, e mesmo ao olhar para os outros, a visão deles dançando parecia algo que ela nunca tinha visto antes.

Seu peito sufocou em alarme, o sangue congelou dentro dela, transformando seu corpo numa escultura de medo.

Instintivamente, deu um passo para trás, cambaleando. Mas, com Orien segurando suas mãos firmemente, ela não conseguiu recuar muito.

Ainda assim, sua reação deixou seu marido ainda mais preocupado. Ele viu como o rosto de Sabine ia ficando lentamente sem cor, o medo tomando conta de cada linha do rosto dela como tinta viscosa.

Seu corpo tremia, e lágrimas começavam a se formar nos olhos dela, ameaçando borrá-la por completo.

Olhos de Orien se dilataram, o coração batendo forte no peito até começar a doer. Num passo, ele se aproximou mais de Sabine, envolvendo-a em um abraço apertado.

"Ei, ei, ei!" ele sussurrou repetidamente, segurando-a com mais força. "Fica calma. Eu juro que está tudo bem. Você não precisa saber dançar, tá?"

Ao redor deles, a música continuava, o fogo ainda crepitava por perto.

Absorvidos em seu próprio mundo, ninguém parecia dar atenção ao casal, cada um ocupando-se em criar seu próprio universo com o parceiro.

O corpo de Sabine não parava de tremer com as palavras do marido. Pelo contrário, ficou ainda pior. Seus dentes batiam uns contra os outros com força e violência, tão fortemente que Orien pensou que poderiam quebrar.

"Eu — eu aprendi, Orien! Eu sabia dançar. Eu sabia de tudo. Mas... mas…" Sabine engasgou com o medo, e Orien observou com apreensão o que parecia estar sendo consumida por algo que até mesmo ele não podia nomear.

"Está tudo bem, amor. Eu vou te ensinar a dançar, tá? Você me escuta?" ele disse, segurando seus ombros com firmeza, forçando Sabine a olhá-lo.

Finalmente, ela pareceu lentamente se acalmar. "V-Você... vai me ensinar?"

Suas palavras saíam trêmulas, como de um bebê tentando falar pela primeira vez.

Orien cerrava a mandíbula, tentando suprimir o horror que ameaçava invadir sua mente e corpo.

Ele forçou um sorriso, que tremia e se tensionava com esforço.

"Sim," ele respondeu, "vou te ensinar, amor. Não se preocupa."

Sabine assentiu. Uma vez. Duas vezes. Depois, mais rápido, como um frango bicando de forma incessante o chão.

"F-Apaixone-se", ela sussurrou, com os olhos implorando.

Orien mordeu a parte interna do lábio e segurou suavemente as mãos dela. Com carinho, começou a guiá-la, mostrando os passos, os giros, o ritmo.

No começo foi estranho, mas aos poucos ela começou a pegar o jeito.

Sabine começou a sorrir, sua expressão habitual voltando lentamente.

Orien sentiu a esperança florescer dentro dele, embora seu medo ainda não quisesse desaparecer.

Ele olhou fundo nos olhos de Sabine, e por um breve instante, achou que viu um lampejo de azul intenso, como um céu carregado de raios, passando por eles.

Ele lambeu os lábios secos, engolindo a saliva, antes de forçar um sorriso de volta para Sabine.

'Socorro... Preciso de ajuda', pensou Orien interiormente.

Enquanto isso, Sabine vivia algo muito mais destrutivo.

'Quando...' pensou internamente enquanto dançava com o marido, 'quando e onde nasci?'

De repente, Sabine pareceu esquecer seu próprio começo.

Ela chorou por dentro, sentindo o fim de um começo.

Chorou mais forte, e riu mais intensamente por causa do marido.

Ao mesmo tempo, Kaden estava sentado no telhado da Casa Vermelha, com a forma de uma ponta de claymore, os pés balançando ao vento sem cuidado.

Ele observava o mundo lá embaixo, as pessoas curtindo a noite, alheias ao perigo rastejando apenas do lado de fora de suas portas.

Era uma coisa que só eles podiam apreciar.

Seu pai, sua mãe, e até Lady Céus, Ouroboros, e Lorde Dever, não tinham esse luxo.

Cada um deles pensava no que fazer ou treinava para ficar mais forte para o que viesse.

Até Dain e Daela tinham recuado para seus campos de treinamento após o desfile matinal.

Não era porque não queriam aproveitar o dia, mas porque, como o velho tinha dito, estavam conscientes.

Conscientes do perigo que pairava sobre eles como nuvens densas de presságios terríveis.

Até Kaden podia senti-lo.

O ar tinha gosto de morte, e esse ameaçava ser mais sangrento do que até mesmo a purga do Cerveau.

Ele exalou, passou a mão pelo rosto, e ergueu a cabeça, olhando para a lua que lentamente se escondia, enquanto estrelas se agrupavam ao seu redor.

Um som de estalos ecoou. Kaden abaixou a cabeça novamente, torcendo o pescoço para ver de onde vinha o som.

Nem precisava. Sua percepção já lhe dizia quem era a presença. Ou melhor, o que era.

Um gato roxo com olhos prateados, mais belo do que palavras podem expressar.

O gato andou silenciosamente pelos azulejos do telhado, aproximou-se de Kaden, e pulou em seu colo.

Depois, aninhou-se profundamente contra seu peito, ronronando contente enquanto cheirava seu cheiro.

Kaden deixou surgir um sorriso no rosto, elevando a mão para repousar suavemente sobre o gato antes de acariciar sua pele com cuidado e carinho.

"Agora você está me fazendo desejar que eu tivesse uma habilidade de transformação, Meris," ele disse com uma risada.

Meris, em sua forma felina, o fitou com um sorriso irônico. "Quem sabe, querido."

Kaden espelhou seu expressão. "Se minha Origem não me dá uma, eu posso criar uma com esforço suficiente."

"Está se exibindo?"

"Sou humilde, na verdade. Eu faria isso sem esforço."

"Por que então, acredito em você?" Meris respondeu. "Você é injusto, querido."

Kaden encolheu os ombros com um sorriso. "A vida é injusta. E você não tem o direito de dizer isso pra mim. Você também não é totalmente justa."

"Meu poder veio acompanhado de muitos riscos, querido," ela disse suavemente. "Forte, mas perigoso."

"Como a maioria de nós," Kaden respondeu. "Então, decidiu o que vai fazer? A Semente do Gelo? Ou quando vai voltar?"

"Sim. Vou correr o risco," Meris respondeu numa voz baixa, quase um ronronar. "E voltarei quando você voltar. Quero aproveitar ao máximo o tempo ao seu lado."

Ela se aconchegou mais contra o peito dele, como se tentasse gravar seu aroma nela. E, na verdade, ela estava mesmo.

Ela era simplesmente gananciosa.

E Kaden amava isso nela.

"Então tá," ele riu, puxando Meris para mais perto e apertando-a contra o peito, soltando uma risada forte e alegre. "O festival vai acabar em breve. Então, que tal criarmos uma lembrança juntos, querido?"

Meris soltou uma risada animada, o coração pulsando de excitação. "Conta pra mim! Conta pra mim!"

A expressão de Kaden se abriu ainda mais. "Vamos dançar?"

Acima, as estrelas decorando o céu começaram a ficar carmesim, despejando poeira estrelada.

"Não somos fortes o suficiente pra dançar entre as estrelas de verdade," Kaden sussurrou, "mas isso já é um bom começo, não é?"

Meris observou a poeira estrelada carmesim cair, suave e delicada, elevando-os ao alto no céu.

Ela voltou à forma humana, seu rosto exibindo um sorriso largo e radiante.

"Você realmente promete me levar pra dançar entre as estrelas um dia?" Meris perguntou, segurando as mãos de Kaden e mantendo-as próximas ao peito.

"Prometo," Kaden respondeu. "Ou a ideia não é de seu agrado?"

"Você brinca!" ela riu alegremente. "Tô esperando por esse dia!"

lentamente, seus corpos começaram a deslizar juntos enquanto dançavam no ar, poeira estrelada girando sob seus pés antes de subir como água, depois caindo em ondas hipnotizantes.

No chão, as pessoas começaram a notar.

Observaram a bela cena de um casal dançando com o céu como testemunha.

Ouviram as risadas felizes de Meris.

E riram com ela, dançando mais fervorosamente com seus próprios parceiros.

Aquele dia nasceu a lenda do casal que dançava sob a luz da lua enquanto a poeira estrelada caía.

E com isso, a festividade do Sangue de Lótus chegou ao fim.

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