Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!

Capítulo 390

Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!

O festival do Sangue de Lótus de Sul terminou oficialmente, já se passaram três dias.

A atmosfera de alegria anterior se dissipou como fumaça levada por um vento desvairado. As pessoas de Waverith acordaram do sonho que tinha sido o festival, perceberam que a realidade não tinha desaparecido e que a rotina os aguardava.

Sempre era difícil recomeçar após uma pausa.

Mesmo assim, não havia escolha. Então, eles se levantaram, algumas vezes xingando, outras reclamando da falta de dinheiro, algumas com dores nas costas, e outras ainda desejando que a vida fosse uma festa sem fim.

Infelizmente, desejos não faziam os deuses se moverem. E se o fizessem, alguém acabaria se arrependendo de ter atraído sua atenção.

Além dessas notícias, veio a partida de Inara. Ela voltou, deixando uma pequena carta feita de sua própria carne para Kaden, como lembrete de sua promessa.

Kaden achou aquilo uma visão curiosa. Tocar a carta era como tocar Inara, e ele balançou a cabeça de lado, com um sorriso cínico, percebendo a intenção mais profunda por trás de tal ato.

Ele aceitou com prazer.

Kaden também tinha pensado em algo para Inara. Lembrou que a Princesa Serpente tinha reclamado da necessidade urgente de uma bengala.

Ele ria ao se lembrar, perguntando por que ela precisaria de algo assim. A resposta dela o fez rir ainda mais, embora ele tivesse dado a ela a bengala assim mesmo.

"Por quê mais? Preciso corrigir esses malditos monstros. São tão insuportavelmente desobedientes!" ela cuspiu com irritação, explicando a ele o quão difícil era criar crianças.

Inara não parou aí. Aproveitando a deixa, deu a Kaden um sorriso malicioso, aproximando-se dele livremente sob o olhar dos pedestres que passavam, e cochichou em seu ouvido palavras que Kaden nunca esqueceria,

"Viu, Herói, eu já tenho bastante experiência em criar crianças," ela murmurou, soando como uma súcuba querendo devorar sua essência toda. "Então, pode ter certeza de que criarei nossos filhos com perfeição. Não quer tentar? Você não vai se arrepender."

Kaden tossiu tão forte que sua respiração saiu ofegante e trêmula, olhando para Inara em choque absoluto, com o rosto corado de vergonha.

Ela riu como uma louca, usando um artefato para eternizar a expressão de Kaden naquele instante exato.

Kaden viu aquilo, piscou confuso, e imediatamente tentou recuperar o artefato. Não conseguiu.

A Mãe dos Monstros escapuliu — não, ela escorregou como uma cobra sibilante — e, então, enfiou o artefato entre o volume de seus seios.

E, com Kaden olhando para ela, olhos arregalados, sua carne se rompeu grotescamente para dentro, engolindo o artefato por completo.

Neste dia, Kaden realmente descobriu o quão monstruosa Inara era.

Ao remeter àquela noite, Prometeu — agora caminhando pelos corredores vermelhos de sua casa — não pôde deixar de franzir os lábios em silêncio de incredulidade.

'Inara é realmente algo', pensou, lançando um sorriso rápido e um aceno curto aos soldados e criados sempre que eles se curvavam.

Suas botas pretas faziam um som suave contra o chão encarnado, quase como um sussurro gentil.

'Ela é diferente de Meris e Vaela. Mais instável. Mais rude.'

Estar com Inara era diferente de estar com Meris ou Vaela.

Meris era uma romântica de coração. Seus gestos eram doces e delicados, sempre querendo agradá-lo acima de tudo.

Vaela era algo semelhante, mas era tímida, apesar de bem mais velha que ele. Levava a sério seu papel de "mamãe açucarada", e nunca perdia uma oportunidade de mimar o rapaz.

Inara… Inara era diferente. Ela era do tipo que xingava, daria um soco se ele dissesse algo que ela não gostasse, ou brincava e zombava dele sem restrições.

Talvez fosse por isso que ele só a via como uma amiga.

Ainda assim, cada uma era única à sua maneira, e Kaden se via pegando um carinho por todas elas.

Ele piscou rapidamente, percebendo a textura diferente sob seus botas, o que o trouxe de volta ao presente.

Inara tinha voltado para Fokay, pronta para enfrentar seus próprios dilemas. Kaden não desejou sorte a ela; por algum motivo, sentia que não devia dizer algo assim.

Em vez disso, desejou que ela tivesse coragem em suas tarefas. Inara pareceu gostar dessas palavras, acenando com um sorriso antes de lhe mandar um beijo.

Agora era a hora dele partir. Dois anos haviam passado, tempo mais que suficiente para descanso.

Meris tinha sido informada de sua decisão e também estava pronta para partir hoje, embora fossem para locais totalmente diferentes.

De repente, Prometeu parou, suas botas arranhando contra uma pedra fria e dura.

Na sua frente, não havia nada. Ou melhor, um vazio negro girando, ovalado, profundo e aterrorizante, sugando tudo ao redor como uma dezena de criaturas famintas.

Ele tinha caminhado por uma névoa de confusão até então. Agora, Kaden permanecia em um canto deserto da Casa Vermelha. Nada sobrava ali além da massa negra do vazio, tentáculos de sombra se arrastando de suas bordas como filamentos de tentáculos a agarrar.

Enquanto os olhos carmesis de Kaden os encaravam profundamente, ele começou a discernir o contorno de uma lança de ébano, pulsando e tremendo incessantemente.

Ele sabia o que era.

Era a Origem de sua mãe, Nixie.

"Oho! Não é o meu sobrinho favorito! Veio me visitar, minha tia preferida?" a voz de Nixie ecoou, fazendo o vazio pulsar mais violentamente.

Kaden passou os olhos. "Dá um passo de lado. Preciso me despedir da mãe."

"Você conhece o combinado!" ela exclamou com uma risada feroz. "E também sabe que não aceitarei menos que isso!"

Os lábios de Kaden se contorceram. "Por quê?" disse irritado. "Não tem nada melhor pra fazer do que me encher de fofoca?"

"Tenho?" Nixie imitou, como se estivesse inclinando a cabeça. "Claro que não! Aquela menina silenciosa, Daela, é entediante. Dain, com toda aquela força, é igual ao pai dele — se eu cutucar demais, posso acabar sendo intimidada por ele."

"Então você admite que está me intimidando?"

"Não foque em detalhes inúteis. O ponto, meu querido sobrinho, é que você é o único que resta. Então, vamos!"

O vazio se fragmentou, suas partes girando de forma hipnotizante antes de se juntarem novamente, formando a figura de uma mulher de pele negra, vestida com um vestido de ébano tecido a partir do nada condensado.

Nixie sorriu para Kaden, abrindo os braços como uma mãe acolhedora, seus olhos negros brilhando fixamente nos dele, vermelhos como brasas.

"Venha dar um abraço e um beijo na tia!" ela exclamou com entusiasmo.

Kaden suspirou, exausto.

Ele se lembrou de todos os dias em que tinha enfiado a cabeça na mãe até ela mostrar sua arma Origin.

Com sua compreensão e poder, Nixie podia manifestar-se junto de sua forma de arma no mundo físico.

Assim como a Reditha.

E essa arma do vazio, por algum motivo insondável, sempre queria abraçá-lo.

Suspirando, sabendo que resistir era inútil, Kaden deu um passo à frente e a abraçou.

Ela fechou os olhos em êxtase, apertando ainda mais Prometeu contra o peito.

"Vou sentir sua falta, sobrinho," ela gemeu. "Vou sentir falta de aquilo cheirar tão puro a vazio em você."

"Sim, sim," disse Kaden, interrompendo o abraço antes de se aprofundar mais na Porta do Vazio. "Já ouvi isso de você muitas vezes. Agora, vai embora."

Nixie agarrou seu pescoço com mãos pontiagudas por unhas afiadas. Kaden parou e amaldiçoou por dentro.

"Você esqueceu o beijo," ela disse, torcendo seu corpo para que ele encarasse seu rosto.

Depois, abaixou a cabeça, apontando para sua bochecha direita com um dedo e sorrindo amplamente.

"Hoje quero um beijinho, sobrinho."

A vontade de acertar um gancho naquela bochecha passou pela cabeça de Kaden, mas ele reprimiu.

Devagar, com resistência, ele a beijou na face. A lança finalmente permitiu sua passagem, ao mesmo tempo em que deklarou que ele era seu favorito entre todos os filhos de Guerra.

Kaden apenas torceu a língua antes de passar pelo portal.

Foi como escorregar por uma fina película de realidade enquanto entrava em um espaço onde só existia o vazio.

Lá, viu sua mãe, vestida com seu traje de batalha, olhando para ele com um sorriso no rosto deslumbrante.

"Não ligue para ela," Serena disse entre risos. "Ela realmente te ama."

"Sei," respondeu Kaden, caminhando em direção a ela. "Ela só é insistente e apegada. Igual a uma certa garota que eu conheço."

"E você não gosta dessas garotas, meu bebê?"

"Não gosto."

"Então por que está sorrindo?" Serena riu.

Kaden hesitou, levantou a mão para tocar o canto dos lábios, só percebendo naquele momento que realmente estava sorrindo.

Seu rosto ficou vermelho instantaneamente.

Vendo aquela cena, Serena apareceu na sua frente num piscar de olhos, puxando sua cabeça contra o peito numa abraço caloroso.

Foi tão repentino que ele ficou sem fôlego por um segundo.

"Meu bebezinho tão fofo!" ela exclamou. "Vou sentir muita sua falta!"

Kaden tentou assentir, mas era impossível com a mãe apertando tanto seu corpo. Até falar se tornou difícil.

Em vez disso, enviou sua intenção e falou através dela.

"Vou sentir sua falta também, mãe," disse. "Não sei quando voltarei…"

Sua voz abaixou, tornando-se um sussurro preocupado ao terminar,

"…tudo ficará bem para você?"

Serena sorriu suavemente. "Está se preocupando conosco?"

"Sim."

Ela riu. "Não se preocupe, meu bebê. Sua mãe não é fraca, nem seu pai. Pode ficar tranquilo: a Fortaleza vai ficar firme, não importa o que aconteça."

"Só tenho uma coisa para pedir, Kaden," Serena continuou, finalmente se afastando para olharem um para o outro.

Seus olhos negros, de vazio, encontraram os olhos vermelhos, estrelados.

"Sim?" disse Kaden, esperando.

"Volte," ela sorriu lindamente, seu amor evidente. "Não importa o que aconteça, faça tudo para voltar para casa."

Ela se inclinou para frente, encostando a testa na dele, fechando os olhos com ternura.

"Você promete isso pra mim?" ela murmurou.

Kaden respirou fundo, então sorriu.

"Sim." Ele fechou os olhos também. "Posso, mãe."

Ele fez uma pausa, e então acrescentou com maior firmeza e determinação,

"Vou voltar, mãe."

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