
Capítulo 372
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
"O que você quer dizer?" Daela questionou, encarando a Eimi que se contorcia na sua frente.
Elas estavam no seu quarto, agora reparado pelos construtores da Casa Elamin.
Tinha se passado já um dia desde que Eimi havia despertado. E com isso, surgiu uma aparência nova e todos os sentidos renovados.
A jovem ainda não conseguia se adaptar completamente a eles.
Por exemplo, ela tinha uma sensação intrínseca de que precisava estar na água pelo menos uma hora por dia.
Se ela ignorasse essa vontade, sentiria uma ansiedade crescendo dentro de si, como um balão se enchendo, sufocando-a por dentro.
Além disso, Eimi agora se sentia muito desconfortável em terra firme. Era como se ela não estivesse em seu ambiente natural, deixando seu corpo constantemente coçando.
Era uma dor agonizante.
E essa sensação fazia com que ela inconscientemente tentasse sentir a conexão natural que as pessoas tinham com Fokay.
O que ela descobriu nesse processo fez-a correr imediatamente em direção a Daela.
Seu contorcer aumentava.
"Você não consegue acessar Fokay?" Daela repetiu as palavras de Eimi. "Como assim?"
"Não sei, mestra." Eimi respondeu, mexendo nos dedos, com a cabeça baixa. "Não sinto nada, nem um chamado ou uma ligação com Fokay. Até tentei ir lá, mas não aconteceu nada."
A voz de Eimi carregava um tom de medo. Ela falava como alguém prestes a se desmanchar em lágrimas.
E exatamente era isso.
Ela esperava por esse dia há meses, desde que Zaki foi embora. E agora que achava que a oportunidade finalmente tinha chegado… ela não conseguia nem ir até Fokay?
Algo que todo mundo podia fazer?
O que havia de errado com ela?
Eimi não conseguiu conter as lágrimas que começaram a escorrer. Elas deslizaram rapidamente pelas suas bochechas e atingiram o tapete abaixo.
De imediato, ela levantou as mãos e começou a enxugar os olhos. "Des—desculpe!"sussurrou, limando as lágrimas com força desnecessária.
"Nã—não queria chorar, mestra. Desculpe!"
"Eu—!"
"Está tudo bem." Daela interrompeu sua fala, surgindo a um palmo de distância. Estendeu a mão e colocou sobre as mãos de Eimi, começando a acariciá-las suavemente.
"Está tudo bem." repetiu.
Por alguma razão, Eimi imediatamente começou a se acalmar, uma sensação confortável percorreu todo o seu corpo.
Havia algo em Daela que tornava todo tipo de medo insignificante. Uma silêncio tão profundo e estranho nela, mas para Eimi, tão calmo e gentil.
Aquele silêncio a envolvia como uma mãe abraçando seu filho numa noite tempestuosa. As lágrimas de Eimi voltaram a escorrer.
Naque instante, ela não sabia o que a tinha tomado, mas a Princesa das Baleias fez algo que ela nunca teria coragem de fazer sob circunstâncias normais.
Ela abraçou Daela.
Daela congelou, com os olhos dilatados.
Um impulso instintivo de se afastar de Eimi percorreu seu corpo inteiro, mas ela o reprimiu.
A Imperatriz do Silêncio não gostava de ninguém a não ser de Kaden sendo abraçada por ela. Ela detestava, até. Mas naquele dia… naquele dia, Daela fez uma exceção.
Uma exceção para uma garotinha que precisava de alguém para apoiá-la, e não de alguém que a empurrasse para longe.
Com movimentos hesitantes, Daela retribuiu o abraço de Eimi.
A jovem começou a soluçar.
Se Zaki foi quem deu sentido à sua vida ao ser seu amigo, então Daela era como uma figura materna para ela.
Ela a acolheu sob sua sombra, cuidou dela e treinou-a.
Daela nunca disse não a Eimi, se fosse algo útil. Também não se furtava a repreendê-la se ela cometesse erros.
Mas, após cada repreensão, ela sempre a aconselhava. E nunca impunha suas próprias crenças.
Daela nunca gritou. Sua voz era sempre plana, mas calma e tranquilizadora.
Para Eimi, Daela era mais do que a própria Besta de Guerra imaginaria.
Por isso, Eimi a abraçou, buscando nela um pouco de calor.
Daela, internamente, suspirou, mas não podia negar o afeto que sentia por Eimi. Continuou a acalmá-la.
"Vamos encontrar uma solução," disse Daela. "Ou talvez seja só uma questão de você estar fraca demais. Começarei a dobrar seu treinamento a partir de amanhã."
Eimi arqueou o corpo. "Q-Quê?"
"Baixa demais?" ela murmurou. "Vou triplicar. Você precisa ser muito forte, Eimi. Você é minha discípula."
"Não! Não!" Eimi se afastou de Daela, olhando para ela como um gato que foi ofendido pela dona. "Não, triplicar o treino, mestra! Por favor!"
Daela deixou aparecer um leve sorriso em seu rosto deslumbrante. "Já está decidido."
Eimi olhou para Daela com horror, então caiu de joelhos no chão, parecendo sem vida.
Daela esticou o pescoço. " Não é nada tão sério."
"É SIM!!" Eimi rugiu, então começou a chorar.
Dessa vez, eram lágrimas pelo sofrimento que poderia enfrentar por causa de Daela.
Por algum motivo, Daela gostava muito dessas lágrimas.
Então, fechou os olhos e ouviu-as como se fosse uma canção de ninar.
"Mestra, por favor!"
"Quer que eu quadruplice?"
"NÃOOOO!!!!"
Parecia que Daela tinha descoberto uma nova vocação.
Além de mimar seu irmão mais novo até o limite, ela parecia gostar de torturar os outros sem piedade.
Equilíbrio.
'Tudo é equilíbrio.'
…
Fokay — Império Celestial
Pelas ruas da cidade de Asterion, ou mesmo por Green City e Morningstar, o assunto mais comentado recentemente entre as pessoas sempre era o mesmo.
A cidade de Prata destruída.
A notícia deixou muitos estupefatos, chocados ao ponto de verem que alguém ousou atacar o próprio Império.
As pessoas começaram a especular.
Alguns duvidavam se tinha sido a Pagoda da Disciplina ou o Reino dos Lobos, os maiores rivais do Império Celestial, quem teria atacado de fato.
Outros até disseram que foi a Igreja da Tristeza, aqueles loucos que adoram agir como deuses entre os mortais.
Mas todas essas suposições se tornaram inúteis, ao silenciar-se completamente quando os civis sobreviventes de Prata chegaram às outras cidades do Império.
Nesse momento, a verdade veio à tona. E era algo que ninguém acreditaria se não fosse por relatos unânimes.
Prata não foi destruída por qualquer dessas superpotências.
Ela foi reduzida a cinzas por dois homens.
Por dois irmãos.
Os irmãos de Guerra.
Kaden e Dain não esconderam suas identidades. Bem, na verdade, foi principalmente Dain quem saiu gritando seus nomes por toda a cidade, obrigando os civis a fugirem de medo.
Isso soou como uma reputação infame dentro do Império Celestial. E logo começaram a chamá-los por um nome estranho.
Principalmente para os habitantes de Prata.
As Bestas Celestiais das Chamas.
Quem olhasse de fora ficaria se perguntando se as pessoas gostavam ou odiavam os dois irmãos.
Era difícil de distinguir. Mas uma coisa era fato: agora, crianças pequenas estavam implorando aos pais que os encontrassem um fênix ou um grifo.
Filhos ignorantes.
…
"As Bestas Celestiais das Chamas." Sirius riu, "Estou tendo dificuldades aqui. Me ajude. Devo ficar feliz ou ofendido?"
Sora cruzou os braços. "Parece que você já escolheu seu posicionamento." Ela comentou, observando o sorriso largo no rosto de Sirius.
"Teatralidades, irmã." Sirius respondeu, com olhos azuis fixos em Sora, as mãos se movendo ao redor dele, "Não sabe? Você deveria entrar na brincadeira."
"Não tenho vontade de brincar com você."
"Isso te deixa sem graça."
"Repita isso?" Sora rosnou, com olhos dourados brilhando como o sol ao meio-dia.
Sirius, claro, não se deixou perturbar. Ignorou a irmã facilmente irritada e lançou um olhar aos pais, que estavam próximos um do outro.
Os Asterions estavam na sala de jantar, embora ainda não houvesse comida sobre a mesa.
"O que acham disso?" Ele perguntou aos pais.
"Nada." Luminary respondeu, depois olhou para Sora. "Se fosse você, Sora, não ficaria tão à toa. Perdemos uma cidade importante nossa. Uma cidade tão antiga quanto o próprio Império, e tudo em um dia. Não. Menos de um dia."
A atmosfera ficou mais séria. Sora mexia-se inquieta na cadeira, sentindo o olhar intenso de seu pai.
Luminary continuou, batendo o dedo ritmicamente na mesa.
"Estranhamente," disse ele, "Senhor Silver não resistiu. Tudo indica que ele fugiu. Então, ele é um traidor."
"Você entende aonde quero chegar?"
Sora ficou confusa, perdida. Olhou para o pai, depois para a mãe, por fim, para Sirius.
Todos pareciam esperar algo dela. Uma espécie de compreensão. Mas a Voz Dourada não sentiu nada disso.
"Humm…" ela começou, sua inquietação aumentando, a voz hesitante, "Quer dizer que preciso encontrar o Senhor Silver para um Julgamento de Lealdade?"
"Na verdade, não." Sirius interferiu. "Quer dizer que as outras superpotências, como a Pagoda ou esses lobos, podem aproveitar essa fraqueza para nos atacar."
Ele sorriu. Sora franziu o cenho.
"E talvez você tenha esquecido," ele continuou, "que agora você é a verdadeira Herdeira do Império. Isso significa que é seu dever encontrar uma saída para essa situação, causada pelos nossos queridos amigos."
Mahina deu de ombros. "Você não queria ser a Imperatriz?"
"Nunca quis." Sora retrucou, com uma expressão de semblante fechado.
"Não faz diferença, minha filha." Mahina afirmou. "Você é a Herdeira. Tudo será oficial amanhã. O Sol governará, como Vesper Asterion queria. Então, prepare-se."
A voz de Mahina virou firme. "Agora você tem responsabilidades. Não é mais uma princesa comum."
Sora se acomodou desconfortavelmente na cadeira. Sem querer, olhou para o irmão em busca de ajuda.
Sirius apenas deu de ombros. "Não olhe para mim. Em breve, deixarei esse Império."
Os olhos de Sora se arregalaram um pouco.
"Então, de verdade, irmã…" Sirius sorriu de canto, sentindo-se de alguma forma mal por Sora, "você está sozinha."
A Voz Dourada ficou em silêncio. Sob circunstâncias normais, ela já teria desabado. Reclamando do quanto nunca pediu por isso.
Ela aprendeu agora.
E passou por toda a vida passada da Lady Sora.
De fato, Lady Sora não foi uma Imperatriz. Mas passou por experiências suficientes que poderiam ser úteis para ela.
Ela só precisava digeri-las completamente.
Sora respirou fundo pelo nariz. Olhou para sua família, seus olhos se embotando de determinação.
"Não vou decepcionar." ela disse, fechando a mão em um punho sob a mesa.
Os Asterions sorriram.
"Sempre estaremos com você." Luminary afirmou. "Nos faça orgulhar."
"Mostre por que a Faísca Estelar escolheu você." Mahina acrescentou.
Sora assentiu, depois olhou para Sirius. Sua expressão ficou triste por um momento, mas ela rapidamente disfarçou. "Para onde vai?" ela perguntou de maneira rude.
"Para onde?" Sirius deu de ombros, sorrindo ironicamente.
"Rumo ao meu destino maldito, irmã querida."
"Chega de fingir que está legal e me diga o lugar!"
Sirius fez uma pausa, então, lentamente…
"Onde os pecados se acumulam."
Sora franziu o cenho.