
Capítulo 365
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
A Santa das Profundezas, com a cabeça ainda abaixada, não disse nada, mas suportou o peso da voz de sua deidade.
A ilha inteira tremeu, o mar agitado batendo vingativamente contra suas praias. Lá em cima, nuvens negras espessas cobriam o céu, pulsando, e então cuspiram relâmpagos azuis chispeantes.
Os relâmpagos eram apocalípticos, parecendo a ira dos deuses descendo dos céus.
Os marinheiros da ilha observavam, com os corações batendo forte contra os peitos. Os mais jovens estavam inquietos, os olhos vasculhando ao redor em busca de algo para segurar, com medo de serem levados pela enxurrada ou atingidos por um raio.
Outros, mais covardes, correram em direção aos anciãos por segurança. E eram poucos.
Os anciãos observavam a cena com um brilho estranho em seus olhos negros. Seus cabelos, semelhantes a ondas do mar, pareciam juncos de grama entrelaçados, cortados agudamente pelo vento uivante.
Na testa deles, havia uma marca de uma gota d'água gravada. E mais, alguns, ao invés de uma gota, tinham um raio.
Outros ainda exibiam ambas as marcas juntas. Para esses seres, uma aura muito particular os envolvia. Calma e firme, mas pesada e esmagadora.
Um desses seres entrou no altar sagrado da deidade, encontrando a Santa ainda ajoelhada, com a cabeça baixa.
Estalou um trovão, o céu se iluminando por um breve instante com um arco de fogo azul.
"Santa," chamou um homem, ajoelhando-se com um joelho no chão, com a cabeça inclinada para dentro. "O mar está agitado, nossas bestas estão tremendo, e os trovões nos falaram com um grito estranho. Parecia um luto. Mas também parecia um grito de raiva. O que está acontecendo?"
A Santa não respondeu imediatamente. Ela não podia. Seu corpo tremia como os arbustos lá fora, na Sala de Oração. Seus esforços estavam concentrados em manter o corpo imóvel.
Ela mordeu os lábios, sentindo seu próprio sangue.
Não havia nada mais perigoso do que um mortal ouvindo diretamente a voz de um deus. Especialmente um deus agitado.
E mais ainda se você não fosse tocado pelos deuses.
Mas logo, seu tremor diminuiu.
Conseguindo se acalmar, a Santa lentamente ergueu a cabeça, observando a estátua da deidade ainda com um brilho tênue.
Ela abriu os lábios secos, com a voz rouca.
"Luto? Raiva?" ela repetiu, balançando a cabeça de forma fraca.
"Nada disso, Marinheiro da Noite."
O homem, que tinha o título de Marinheiro da Noite, franziu a testa.
"Então?" ele desafiou.
A Santa tomou seu tempo, como se as palavras se recusassem a sair. Finalmente, elas saíram à força.
E atingiram o homem como uma pedregulha arremessada na cabeça dele,
"Isto é um sinal de terror."
…
De volta a Darklore, os guerreirodos testemunharam o estranho despertar de Eimi com as sobrancelhas levantadas. Nem mesmo o despertar de Kaden foi tão chamativo.
A luz ao redor da sala se dissipou, revelando Eimi com suas novas cores.
Seu cabelo preto desapareceu; agora era azul, da cor do mar, parecendo flores míticas alisadas, encontradas apenas em cavernas secretas subaquáticas. Seu cabelo cresceu, atingindo a metade das costas.
Até seu cheiro agora tinha aroma de peixe. E, mesmo assim, alguém poderia se perguntar por que era tão celestial.
Seus olhos, que antes eram dourados, agora misturavam azul e dourado, irradiando um brilho encantador.
Daela fixou o olhar na testa de Eimi. Ali, podiam-se ver as marcas de uma gota d’água e de um raio azul. Mais que isso, esses dois sinais estavam cercados por uma tempestade que parecia se formar ao redor.
Daela piscou. E as marcas desapareceram da testa de Eimi.
"Interessante," comentou Kaden, com os braços cruzados no peito, seus olhos escarlates brilhando de forma estranha.
Naquele instante, uma lembrança cruzou sua mente.
Aquele dia fatídico em que salvaram duas crianças prestes a serem mortas por goblins miseráveis. Uma delas se tornou portadora de um artefato mítico, algo que Kaden agora sabia ser muito além do que pensava inicialmente.
E a outra era ainda mais intrigante.
Kaden nunca tinha visto um despertar que alterasse a aparência de um ser.
Mas aconteceu com Eimi.
'Interessante, de fato. Quem ou o que salvamos naquele dia?' ponderou Kaden, com um sorriso suave.
Mas só se soubesse. Só se soubesse que Daela tinha conhecido esses tipos de pessoas, chamadas Marinheiros, na primeira vez que foi a Fokay.
No entanto, anos depois, acabou acolhendo, sem nem saber, um ser daquela raça sob sua proteção.
A Imperatriz do Silêncio não era de ficar pensando nos mistérios da vida, mas até ela achou a situação estranha.
De qualquer forma, não era o fim. Depois de despertar, Eimi tocou o cristal de identificação para saber sua Origem e sua habilidade inicial.
Os Guerreirodos assistiam com atenção.
Algo brilhou diante de Eimi,
[Nome: Naia Melusina]
[Apelido: Eimi.]
[Raça: Marinheiro.]
[Título: Princesa das Baleias.]
[Origem: As Marés do Mar sem Fundo.]
[Tipo: Elemental-Conceitual.]
[Classificação de Origem: ******]
[Primeira Habilidade: Chamada das Águas.]
Eimi, ou melhor, Naia, observou suas informações com surpresa brilhando dentro dos seus novos olhos.
Ela lentamente virou a cabeça, olhando para os Guerreirodos.
Naia forçou um sorriso. "Marinheiro?" ela sussurrou, incerta. "O que... o que é isso?"
Daela balançou a cabeça, mergulhando de novo em seus pensamentos, depois focou na situação atual. Não era hora de se questionar como um ser como Eimi tinha acabado em Darklore.
Por ora, ela faria o mesmo que vinha fazendo até agora. Guiaria Eimi, agora Naia.
"Marinheiro é uma raça única de Fokay," respondeu Daela com a voz neutra. "Sua afinidade com tempestades é a maior que já testemunhei."
Naia escutou, ainda confusa.
Kaden observou com um sorriso contido, depois deu de ombros e seguiu seu caminho.
Ele passou por Eimi e murmurou: "Como devo te chamar agora?"
Eimi ficou parada por um segundo, deixando a pergunta, antes de entender. Ela balançou a cabeça com força. "Eimi!" ela disse com firmeza. "Eimi é meu nome!"
Esse era o nome que Zaki lhe dera quando ela andava pelas ruas sem nome. Ela não ia descartá-lo.
Kaden lhe deu um aceno seco e um toque no ombro.
"Então, Eimi. Parabéns pelo despertar," disse por fim, antes de sair da sala.
"Obrigada!!" Eimi baixou a cabeça, tímida.
Kaden ficou interessado. Mas só isso — interessado.
Ele tinha suas próprias questões para cuidar, e sua irmã ali para ela.
Ainda assim,
'Marinheiro de Fokay, hein…' ele murmurou.
Sua teoria anterior começava a se confirmar lentamente.
'Realmente há um caminho para que pessoas de Fokay venham para Darklore.'
Kaden suspirou pesadamente.
'Ótimo. Só isso mesmo.'
…
Inara estava sentada no topo do prédio Ouroboros. Tinha a forma de uma cobra comendo sua própria cauda, pintada de verde.
Ela havia pensado sobre o design quando o viu pela primeira vez. A resposta de sua mãe foi curta: ela gostava.
Inara achou estranho, por algum motivo. Mas, no final, ela simplesmente deu de ombros e seguiu seu caminho.
Não era tão ruim assim.
O vento naquela altura era forte, rugindo dentro de seus ouvidos sem parar. Ela achava aquilo relaxante.
Como sempre, Inara usava suas botas pretas, calças negras e blusa verde de mangas. Seu cabelo estava amarrado em um rabo de cavalo.
Ela observava os pedestres que se moviam lá embaixo quando uma presença apareceu ao seu lado direito.
"Hm, o que foi? Você também ficou de óculos?" perguntou Kaden, sentando-se nas lajotas verdes. "Tá na moda agora?"
Inara virou a cabeça para Kaden e lhe deu um sorriso diabólico. "Herói! Estou muito estilosa de tapa-olho, né? Morri de saudade de você!"
Sem hesitar, ela se jogou nele, com a cabeça batendo no peito de Kaden. Kaden winceou. Inara nem ligou. Em seguida, deu um abraço apertado nele.
Os olhos de Prometeus se arregalaram um pouco de surpresa, seu corpo tenso por Instinto. Mas logo relaxou, sorrindo levemente enquanto correspondia ao abraço de forma desajeitada.
Silêncio rondava ao redor deles.
Os dois ficaram nessa posição por um bom tempo, apreciando o aroma único um do outro, a respiração rítmica e os batimentos do coração.
O coração de Kaden batia como chamas de fogo crepitando. Suficiente para se sentir no peito.
Inara parecia o rugido de monstros. Terrível, mas a mais jovem achava agradável.
Inara sentia-se estranhamente à vontade com Kaden. Seu medo e apreensão pelo futuro desapareciam por um momento nas chamas do corpo dele.
Ela inconscientemente suspirou aliviada.
"E aí, como foi pra você?" ela perguntou, com a cabeça ainda encostada nele.
"Cheia de rosas."
"Pelos espinhos ou pela beleza?"
"Ambos."
"A beleza valeu a pontada dos espinhos?"
"Valeu," Kaden sorriu. "Embora eu tenha ficado com uma cicatriz nas costas de presente."
"Parece bem romântico. Agora me diga, por que estou morrendo de ciúmes?" Inara fez uma expressão brincalhona.
"Hahaha." Kaden riu. "E a sua? Você virou uma Mestre, né? Parabéns."
"Para um Grandmaster como você, parece que é só um elogio de alguém mais velho para um moleque," Inara resmungou. "Como você virou Grandmaster com quinze anos?"
"Sou dedicado."
"Verdade."
"Sou um gênio, cara."
"Tsk." Inara apontou a língua e deu um soco brincando no peito de Kaden, que fez uma careta falsa de dor e riu.
Depois de um momento de brincadeiras, Inara suspirou suavemente.
"O meu foi monstruoso," ela disse. "Muito monstruoso."
Kaden olhou para ela, percebendo a aura de tormenta que se espalhava. Não tinha dúvida de suas palavras.
"Você está com medo?" ele perguntou, olhando para as pessoas que caminhavam lá embaixo.
O vento soprou, mexendo com os cabelos delas de forma esporádica.
"De quê?" Inara questionou, segurando firmemente a camisa de Kaden.
"De se tornar um monstro."
Inara riu sem humor.
"Não somos todos monstros de alguma forma? Ou acha que só os monstros são monstros?"
Ela não esperou resposta, balançando a cabeça. "Existem tipos de monstros, Herói. E os que lido são os mais gentis. Porque eles são simples."
Depois, ergueu a cabeça, olhando para Kaden de baixo para cima.
"Os piores monstros são aqueles que nem sabem que são monstros."
"Hm?" Kaden sorriu. "Quer dizer que estou na mira?"
"Quem sabe." Inara devolveu o sorriso. "Deveria estar, Herói?"
Kaden só sorriu, sem responder.
Inara continuou de forma suave.
"Mas, sabe, Herói, eu não me iludo." Inara levantou a venda do olho para mostrar Oeil.
O ambiente mudou, e sua voz se tornou profunda, layered, assustadora.
"Eu sou uma maldita monstro, Herói. Então, não, não tenho medo de ser algo que já sou."
Kaden observava silenciosamente, o olho negro de Inara brilhando de forma sinistra. O globo ocular dentro dele começou a se mover inquietamente.
Ele sentiu o efeito na mente dele, como uma ilusão tentando puxá-lo para dentro. Ele deu um sorriso de descaso, facilmente ignorando.
Kaden lançou um olhar para o olho, sabendo que ele estava vivo. Os lábios dele se ergueram levemente.
"Então, do que você tem medo?" ele perguntou novamente.
Inara sorriu, satisfeita e intrigada. O Oeil estava pedindo para que ela o cobrisso, com medo do olhar de Kaden.
Ela o cobriu de volta e abriu os lábios:
"Do futuro," ela respondeu. "Do que eu vou me tornar? Disse que sou uma monstro, mas seria condenada se quisesse que meus entes queridos me vissem assim."
"Mas não só isso. A questão é… eu ainda estarei aqui? Ainda te verei? Ainda gozarei desse momento de paz e tranquilidade?"
Ela pressionou os lábios numa linha fina.
"Quero saber, Herói. Quero, caramba, saber!"
"Mas não pode," Kaden disse. "Você não pode saber o que vai acontecer. Então, por que se preocupar com algo que não consegue controlar?"
"É como perguntar por que os mortais temem a morte," Inara zombou.
"Boa observação," Kaden riu. "Mas você os viu? Para onde você acha que suas preocupações com a morte os levam?"
"Vivem com medo." Prometeus respondeu a si mesmo. "E não há nada pior do que viver com medo."
Inara permaneceu em silêncio.
"Se você teme o futuro, é porque teme algo que vai acontecer nele. Algo mau. Mas não tema," aconselhou Kaden. "Pois, se o fizer, estará chamando isso pela porta."
"Então, o que devo fazer?" Inara perguntou, finalmente se levantando de Kaden. Depois, endireitou-se e ficou ereta.
Kaden espelhou sua postura, ao seu lado, à beira do edifício, na cabeça da cobra que se devora a si mesma.
"O que mais?" ele deu de ombros. "Viva o presente e esqueça o passado e o futuro."
"Mais fácil falar do que fazer."
"Sempre é mais fácil falar do que fazer, chorão."
"Mas eu tentarei," ela sussurrou com um sorriso suave. "Tentarei com a sua ajuda."
Kaden inclinou a cabeça. "Que ajuda?"
Inara olhou para ele e sorriu. "A única forma de viver o presente é ter algo que valha a pena pela qual viver."
Ela estendeu a mão para ele. "Então vamos, Herói. Faça meu dia. Faça eu esquecer o futuro monstruoso que nos espera!"
"E depois de hoje? Como você vai ficar sozinha?"
Inara sorriu com malícia. "Viva o presente. Não foi exatamente o que você acabou de dizer?"
Kaden piscou, depois riu.
"Tudo bem," ele disse, estendendo a mão na direção de Inara. "Vamos viver o presente então."
Inara riu alto, ignorou a mão e o abraçou apertado antes de mergulhar no ar.
"Espera!"
"Hahaha!"
—Fim do Capítulo 365—