Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!

Capítulo 364

Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!

O retorno do primogênito do Rei Progeny causou um grande alvoroço em Waverith.

As pessoas se reuniam, então começavam a cantar a Canção do Fogo e do Sangue.

Era a única canção que conheciam.

Seres lamentáveis.

Fazia tempo desde a última vez que viram Dain Warborn, então o povo ficou ansioso. Não por ele em si, mas simplesmente porque era uma boa oportunidade de mostrar sua devoção ao seu governante.

E o que poderia ser melhor do que homenagear seu filho como um herói? Sabiam como tocar o coração de um pai.

Assim, para agradecer ao Rei Progeny por sua justiça ao governar e sua proteção inflexível contra as ameaças causadas pelos assentamentos de bestas próximas e outros bastiões, eles propuseram celebrar a data.

Chamaram de Dia do Retorno.

Alguns poetas talentosos entre os plebeus começaram a escrever poemas sobre a jornada heroica de Dain, irmão mais velho do Herói de Waverith.

Sussurravam que seu retorno era acompanhado por uma criatura mítica chamada Grifo, uma besta imersa em glória e divindade.

Quão heroico — gritaram as pessoas, lágrimas escorrendo pelo rosto — o sangue dos Warborn é de fato. Profundamente honrado, carregado de responsabilidade. Ainda assim, seus ombros permaneciam largos e eretos, não curvados e frágeis.

Queglória!

Dentro deles, a admiração fervia como água fervente, e essa admiração aumentava ainda mais quando os irmãos Warborn desfilavam pelas ruas empedradas do bastião lado a lado.

Testemunharam o olho cego de Daela, e disseram que ela havia sacrificado um olho pelo bem do povo.

Choraram de gratidão.

Viram o corpo cheio de cicatrizes de Dain, com um Grifo no topo da cabeça, e choraram de emoção pela dor que ele suportou para guiá-los na direção certa.

E, por fim, contemplaram os olhos vermelhos estrelados de Kaden, ajoelhando-se em submissão, dizendo que até os Céus abençoaram seu Herói.

Tudo isso não passava de rumores e sussurros entretidos por homens entediados que sonhavam com fantasia. Com mitos.

Mas Lady Ouroboros e Lady Céus não aceitaram ficar de braços cruzados se não aproveitassem a oportunidade para reafirmar a posição dos Warborn.

Eles alimentaram esses rumores, pagando alguns para escrever poemas, outros para encenar produções teatrais sobre os irmãos.

Depois disso, os irmãos quase não apareciam em público. Aos poucos e com o tempo, tudo que se sabia deles virou um pouco de verdade coberta por uma camada grossa de mentiras.

Nesse momento, entrou no jogo político Lorde Dever — ou Orador, para alguns —.

Ele tecia suas palavras com uma linha de raciocínio sobre a Princesa da Serpente, a Filha do Medo e a Filha do Gelo, relacionadas ao Herói.

Os mortais adoram um romance. Desejam até. Então, eles extrapolavam esses rumores e criavam até pequenos livros sobre Kaden, Rea, Inara e Meris.

As meninas, também, raramente apareciam em público em suas verdadeiras formas.

O objetivo de tudo isso era claro, e os nobres que ainda permaneciam após a purga assistiam com temor enquanto todos iam sendo lentamente hipnotizados.

Levaria tempo e esforço para que esse plano desse frutos. Mas tempo eles tinham. E paciência era sua maior virtude.

Logo, o povo de Waverith acreditaria nessa realidade imaginada tecida por seus governantes.

Uma vez que acreditassem, tudo estaria resolvido.

O domínio da Coroa Vermelha e das Coroas Prateadas estaria cristalizado, imutável. Porque tentar mudá-lo significava ir contra uma crença comum.

E que tarefa difícil era essa.

As peças estavam colocadas. Os mitos cresciam lentamente.

Pouco tempo depois, os governantes de Waverith seriam desconhecidos, exceto por seus representantes. E o povo só compartilharia suas queixas com eles através de um único ser.

O Orador.

"Me dá arrepio," resmungou Dain, franzindo as sobrancelhas. "Por que temos que fazer essa coisa inútil?"

"Pergunte a Ouroboros e às Céus," disse Garros, dando de ombros. "Eles acharam melhor a ideia de sermos uma incógnita do que estarmos em contato direto com o povo."

"Como assim? Precisamos estar em contato com aqueles que governamos para melhor administrá-los!"

"Logicamente," assentiu Garros, "e foi minha primeira impressão também. Mas essas duas senhoras disseram algo que me fez pensar mais profundamente."

Dain franziu o cenho, mas escutou.

"Elas disseram," continuou Garros, "e cito: Os humanos deixam de temer algo de que já estão acostumados. Faça-os se acostumar com sua presença, e eles irão pensar que você é um mortal como eles. Um que podem controlar. Um que podem enfrentar se uma ideia ousada e imprudente surgir."

"É assim que uma sociedade começa a virar contra seus governantes."

Dain ficou em silêncio com as palavras. Mesmo que não fosse do tipo mais brilhante, encontrou uma certa verdade nelas.

Contudo, isso não queria dizer que ele gostava da ideia de ser temido apenas por meio de rumores.

Ele queria ser temido por suas próprias ações. Como um verdadeiro guerreiro. Através de sangue e dor. Pela morte e renascimento.

"Você vai se acostumar," disse Serena com um sorriso. "E não é como se mentíssemos. Tudo que lhes dissemos foram coisas que você fez. Foram eles que distorceram e tornaram maior do que devia."

"É assim que o mito funciona," acrescentou Kaden, de lado. "Uma aparência de verdade recoberta por uma camada espessa de mentiras extrapoladas."

"Verdade, mas..." Dain riu de repente. "Hahaha! Impossível, mais jovem, você está mexendo com três mulheres."

Dain virou a cabeça na direção dos pais. "Como assim? Como vocês aceitaram ele ter mais de uma esposa?"

Serena deu de ombros. "Não posso negar ao meu filhote."

Garros refletiu a sua esposa. "Eu não posso negar à minha mulher."

Dain virou o rosto para Daela.

Ela também deu de ombros. "Sempre sim para o irmão mais novo."

Dain olhou para Kaden, seus olhos rubros julgando duramente.

O sorriso de Kaden cambaleou. "Sou inocente," defendeu-se, virando o rosto envergonhado para o lado.

"Preciso conhecê-los," acrescentou Dain. "Tenho que perguntar o que eles veem em você!"

"Ciúmes? Não se preocupe. Conheço uma abominação linda. Quer que eu te ajude?"

Dain ignorou o irmão com um estalido de língua.

"E sim. Ouvi dizer que eles também voltaram," continuou Kaden, com a voz mais baixa, franzindo a testa levemente.

"Inara entrou em contato comigo, e a verei hoje após o despertar da Eimi. Mas Meris..."

Ele fez uma pausa novamente,

"...Meris está misteriosamente silenciosa. Não é de seu costume."

O tom de sua voz carregava preocupação, e todos podiam sentir isso.

Naquele exato momento, a porta da sala de despertar rangeu, depois se abriu de repente. Passos leves começaram a ecoar.

"Procure por ela depois disso," disse Serena, observando Eimi se aproximar. "Talvez algo tenha acontecido."

"Se precisar de ajuda, estou aqui," acrescentou Dain, fazendo sinal de positivo com o polegar.

Garros assentiu simplesmente, enquanto Daela, ao seu lado, segurava a mão dele gentilmente.

Kaden concordou. "Vou procurar," disse, olhando para a Eimi que se aproximava.

Hoje era seu 10º aniversário. O dia do seu despertar.

O coração de Eimi batia forte contra o peito, uma ansiedade que corroía seu estômago. Essa nervosege aumentou ao entrar na sala, diante dos olhos dos Warborn.

A menina quase caiu.

Eimi ficou contente em saber que tinham a valor suficiente para deixarem tudo de lado para sua cerimônia de despertar. Certamente, era por causa de sua mestra, Daela.

Ainda assim, Eimi teria preferido que eles não estivessem ali.

'Eles são tão assustadores!' pensou Eimi internamente, esforçando-se para não chorar de nervoso.

Ela mal conseguiu segurar.

Os olhos vermelhos dessa família eram intensos demais.

Ela se recompôs, deu um passo. Outro. Até que, com passos firmes, avançou com determinação.

Depois de uma eternidade, ela finalmente chegou em frente à bola de despertar.

Se posicionou ereta, e fez uma reverência de noventa graus.

"Saúdo a Coroa Vermelha!" gritou, com a voz tremendo.

"Não precisa disso," explicou Serena com um sorriso maternal. "Você pode começar quando se sentir pronta."

Eimi se curvou ainda mais. "Obrigada por presenciar meu despertar!"

Os Warborn apenas assentiram com um sorriso.

"Ei! Essa Eimi é bonitinha," riu Dain, "mas, ei, espera!! Eu lembro que tinha um doce!"

Começou a procurar nos bolsos, girando em volta de si mesmo, quase como um palhaço.

"Aqui!" Dain encontrou, sorrindo de orelha a orelha. Pegou o doce e atirou em Eimi.

A pequena conseguiu pegar facilmente.

Ela olhou para ele. Um doce de morango, em formato de coração.

De forma inconsciente, um sorriso furtivo surgiu nos lábios dela.

Seu coração se acalmou de imediato, sua respiração se regularizou. Ela levantou o rosto e encarou Dain. O homem estava sorrindo livremente, sua aparência nada parecida com os sussurros que vinha ouvindo ultimamente.

O homem diante dela não era um divino ou um homem qualquer. Um conquistador das Velhas eras. Não. O homem na sua frente era gentil e doce.

Mais do que Kaden, de algum modo.

Estranhamente — ou talvez por causa do seu estado emocional — Dain lembrou Eimi de Zaki.

O primeiro que lhe deu um doce quando ela era simplesmente uma mendiga.

O primeiro disposto a ser seu amigo, quando ela nada mais era do que uma garotinha fedida, suja, dormindo no chão encharcado de xixi e vômito.

O único que lhe deu comida quando seu estômago começava a devorar a si mesmo.

Zaki, seu primeiro amigo, fez tudo isso.

Faz tanto tempo que Eimi não o via. Todas as noites, ela pensava nele antes de dormir. E toda manhã, sentia a solidão a consumir sem a presença dele.

Em alguns momentos, Eimi até ressentia-se dos dias na rua. Zaki era tudo para ela.

Por isso, ela estaria disposta a morrer por ele. Disposta a ser violada por goblins por causa dele.

E hoje era o dia. Hoje ela finalmente teria a oportunidade de seguir sua cauda, e quem sabe, pegá-la.

Ela não iria desistir. Encontraria Zaki, e estaria com ele. Esse era seu objetivo.

Essa era sua força motriz.

Assim, com um sorriso grato para Dain, Eimi guardou o doce no bolso. Com a mão fina, cheia de cicatrizes, colocou a mão na bola de despertar.

O ambiente ficou silencioso. Todos assistiam intensamente.

A bola de despertar pulsou uma vez, duas, e uma luz azul brilhante emergiu dela, invadindo toda a sala com uma escuridão oceânica.

O aroma de sal, carregado por um vento sussurrante, impregnava tudo ao redor, seguido pelo som de uma água respiração.

Pacífica, a família Warborn sentiu, assistindo surpresa. A aparência de Eimi mudava lentamente.

Brânquias — semelhantes às de um peixe — apareceram dos dois lados do seu pescoço. Elas se abriram, depois fecharam-se, como se sentissem sua inutilidade no ambiente atual.

Ao ver aquilo, os olhos de Kaden e Daela se arregalaram.

Prometeu reconheceu isso na Masmorra Arruinada, em um dos inúmeros cadáveres arruinados com Asael.

E Daela recordou esse aspecto na sua primeira vez em Fokay. Seu primeiro local de nascimento.

A Ilha dos Marinheiros.

"Como assim?" sussurrou, atônita, a evidência de choque na voz.

Enquanto isso, em Fokay, numa ilha cercada por barcos de todas as cores e tamanhos, o oceano de repente começou a tremer.

O céu escureceu, cheio de nuvens espessas e sombrias que pareciam se retorcer de raiva. Relâmpagos, seguidos de chuva, começaram a trovejar sobre o mar e a ilha.

Marés agitadas surgiam, criaturas das profundezas fugindo em pânico.

No fundo da ilha, em um lugar criado para venerar a Deusa das Profundidades Sem Fim, a estátua da deusa irradiava uma luz oceânica radiantemente brilhante.

A Santa, ajoelhada sob a estátua, ergueu seu rosto velado ao céu.

Sangue escorria de seus ouvidos, boca e olhos, enquanto a voz da deusa urrava dentro de sua cabeça:

"Não morta!"

A Profundidade bradou.

"NÃO MORTA!!"

—Fim do Capítulo 364—

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