
Capítulo 366
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
As horas seguintes passaram em uma névoa de diversão. Inara arrastou Kaden por todos os lados, enquanto sua mente sussurrava para ela, fazendo Kaden passar por várias situações no processo.
Elas passaram o dia juntas, rindo, brincando e realizando algumas atividades que seres de seu poder jamais imaginariam fazer.
Não apenas por sua força, suas próprias identidades não permitiam que aproveitassem a vida de forma tão despreocupada e tranquila.
Para o povo de Waverith, uma delas era uma princesa com o poder de fazer monstros se ajoelharem em submissão. A outra era uma heroína que os salvou da perdição e foi abençoada pelos Céus.
Mas isso era apenas em Waverith.
Em Fokay, suas identidades iam muito além de simples fantasias criadas pelos mortais para se entreterem e motivar os jovens a serem grandiosos.
Inara e Kaden eram seres de responsabilidade.
No entanto, às vezes as pessoas esqueciam que eles não eram nada além de crianças de quinze anos, às quais o mundo tinha confiado peso demais.
Por isso, naquele dia, eles decidiram esquecer.
Decidiram, implicitamente, que não eram mais a Mãe dos monstros ou O Fardo.
O futuro se tornou uma névoa confusa, bloqueada por nuvens espessas de despreocupação. O passado virou uma parede de esquecimento, da qual já não conseguiam passar.
Focaram no presente, tornando-se simplesmente Inara e Kaden. Dois jovens com tendências infantis e sentimentos como qualquer outro mortal, chorando quando o quarto ficava escuro demais.
Assim, o dia passou, e pelas ruas de Waverith muitos puderam testemunhar dois jovens aproveitando sua jornada.
Seus sorrisos eram radiantes. Tão brilhantes que as pessoas ao redor sorriam de volta ao ver aquela cena. Era contagioso.
Mas a vida é feita de despedidas. Amargas ou doces. E, eventualmente, aquele dia chegou ao fim, com Inara e Kaden caminhando pelas ruas da fortaleza, um monte de comida nas mãos.
O dia foi doce. Agora, uma despedida amargou a cena.
O sol tinha se despedido há horas, entregando seu lugar à lua com seu céu sem estrelas.
As ruas estavam iluminadas por luzes amarelas brilhantes, alimentadas por mana. Era possível ver patrulhas dos soldados Warborn, e algumas cobras se escondendo aqui e ali.
Os dois jovens passeavam pelas ruas de pedra, Inara envolvendo sua mão direita ao redor do braço de Kaden.
Naquele momento, ela já não escondia mais seus sentimentos. Ainda assim, permanecia insatisfeita, pois Kaden nada fazia além de observá-la e deixar que ela fizesse tudo o que queria.
Ela queria que ele reagisse. Que dissesse algo sobre suas ações. Sobre como ela sempre segurava sua mão, sempre o abraçava, sempre olhava em seus olhos como se procurasse algo escondido por trás deles, algo que fazia seus monstros tremerem de medo.
Ela queria saber o que ele sentia por ela.
Claramente, Kaden apreciava sua companhia. Mas Inara não conseguia sentir mais do que isso. Era frustrante.
Mesmo assim, ela não queria pensar nisso, muito menos perguntar. O medo de ser rejeitada a sufocava por dentro.
A Herdeira da Mãe dos Monstros não sabia o que faria se Kaden a rejeitasse. Mas, na verdade, ela sabia. Ela só choraria e tentaria rir da situação.
Depois de tudo, eles já tinham um bom relacionamento. Ela não queria que isso se desgastasse só porque ousou sentir algo além do que deveria.
Ela não queria perder essa relação. Mesmo desejando algo mais do que isso.
Então, Inara mordeu o interior dos lábios e continuou sorrindo, falando de forma animada com Kaden, na esperança de afogar suas inseguranças.
Seus monstros sentiam suas emoções. E todos eles não conseguiam deixar de se perguntar como sua mãe assustadora, que amaldiçoava, podia ser tão doce e tímida na frente daquele estranho.
Mas eles não sabiam. O amor tem uma maneira bem cruel de fazer até a pessoa mais dura desabar como um castelo de cartas diante do certo.
Disseram que o amor é uma vadia sanguenta; que irá condenar todos nós. Mas, ironicamente... essa é a única coisa capaz de nos salvar.
Os monstros talvez não soubessem disso por sua natureza intrínseca. Mas nem eles conseguiam suportar ver Inara assim.
'Mãe! Faça isso!' Oeil gritou dentro da mente de Inara, exatamente quando Kaden e ela pararam em frente ao prédio do Ouroboros.
Cobras entravam e saíam da porta gigante, serpenteante, de cor esverdeada. Havia humanos também, mas em menor quantidade.
'Feche sua boca, Oeil! Não me faça ficar estranha na frente do Herói!' Inara pensou internamente, controlando uma sobrancelha que tremia de raiva.
Mas Oeil ia parar? Ela nunca.
Ela agora era a porta-voz de todos os monstros dentro de Inara.
Inara não tinha o costume de esconder seus pensamentos do mundo. Ela era direta, dura e grosseira.
Então, se ela não dissesse nada a Kaden, depois os monstros teriam que aguentar seu humor fedido.
Elas nunca permitiriam isso. Melhor brigar com o diabo agora e fazê-la desestabilizar do que deixar que ela aprimore sua boca profana depois.
Disseram para escolher suas batalhas. Os monstros escolheram a delas.
E estavam absolutamente prontos.
'Ah, ficar em silêncio não é algo que eu consiga, Mãe!' Oeil gritou, com uma voz forte e inspiradora. 'Tenho o direito de falar! E falarei por todos os meus irmãos!'
'SIM! OEIL! OEIL! OEIL!' gritaram as sanguessugas dentro dela, apoiando a irmã mais nova, mas mais corajosa.
Ah, como eles amavam Oeil naquela hora! Com certeza beijariam seus pés e lhe enviariam um beijo, se fosse possível.
Mas Inara tremia de fúria. Tanto que Kaden percebeu.
Ele lançou um olhar de relance nela, com as sobrancelhas arqueadas, de curiosidade. "Tá tudo bem?"
Inara abriu a boca, depois a fechou novamente, enquanto Oeil gritava dentro da sua cabeça mais uma vez. Era preciso uma força de vontade enorme para não xingar, e isso pesava na alma dela.
Porém, os monstros não desistiam.
Kaden apenas observava, parecendo entender que aquilo tinha relação com seus monstros. Ele se perguntava se eles sentiam o mesmo ao ouvir Reditha e Blanche conversando dentro da sua cabeça.
Elas pareciam não gostar uma da outra, de modo estranho. Bem, principalmente Reditha.
O caso de Kaden era de fato similar ao de Inara. Mas bem pior.
No final, após o esforço incessante de Oeil, Inara cedeu às suas próprias palavras. Xingou baixinho, prometendo que daria uma lição para todas elas mais tarde.
Ela olhou para Kaden com um sorriso de canto, de repente envergonhada. "Um último lugar para visitar?"
Kaden fez uma careta. "Cadê?"
"Aonde tudo começou," Murmurou Inara.
Kaden ficou ali, confuso. Olhou para o céu noturno, hesitando um pouco, mas por fim... concordou.
"Estou logo atrás de você."
Inara sorriu, pegou sua mão, virou e disparou pelas ruas de Waverith.
Em pouco tempo, estavam fora da fortaleza, rumo à floresta ao lado de Waverith.
Aonde tudo começou.
Pelo menos, para Inara.
…
Andaram. Ao redor, árvores se erguiam ameaçadoras, quase tocando o céu escuro. Sussurros suaves e o movimento de pequenas criaturas podiam ser ouvidos enquanto os dois caminhavam pela floresta.
A atmosfera estava úmida, porém fresca na pele. Respirar ficou mais fácil, e as árvores ao redor transmitiam uma sensação revigorante.
Seus passos no chão de folhas mansas eram silenciosos, como se o próprio mundo não reconhecesse sua presença.
Inara não sabia quanto tempo tinham caminhado. Nem quantas vezes duvidou de sua ação repentina e imprudente.
Era estranho, ela percebeu, como toda vez que estava com Kaden ela deixava de ser quem aprendeu a ser agora.
Ela voltava a ser aquela garotinha que chorava na frente dos lobos. Aquela princesa-serpente que desejava força para fazer sua mãe se orgulhar, mas que se via totalmente incapaz.
Tudo começou naquele único dia.
Aquele dia, um ser além de sua mãe estendeu a mão para ela. Um ato simples. Ainda assim, seu significado era algo que poucos podiam entender.
Kaden não sorriu para ela. Não a consolou. Apenas disse uma verdade fundamental sobre o mundo e seguiu seu caminho.
Claramente, ele não buscava nada dela, e isso ainda era verdade agora, quando ela era uma entidade especial.
Sem dúvida, tudo o que ele fez foi um ato de boa vontade.
Ah!!
Inara exclamou de repente, o coração pulsando contra o peito como uma fera querendo escapar, parando de repente.
Seus passos pararam exatamente onde Kaden a havia salvado. No mesmo lugar.
E Kaden tinha certeza disso. Naquele instante, ele não era um tolo; ele entendeu o que estava acontecendo.
Ele sorriu de lado, uma ansiedade crescendo dentro dele.
Amor.
'Amor...' Inara ecoou dentro do coração dela.
Ela estava na frente de Kaden, de costas para ele.
Kaden ficou em silêncio.
O amor é um fardo. Uma vadia maldita, como ela diria.
Mas o amor também é uma coisa linda.
Pode parecer difícil de amar alguém. Mas isso é um engano.
O amor é a coisa mais fácil quando acontece por acaso.
Inara era a prova de que isso é verdade.
E como ela não poderia deixar de ser?
Quando ela se afogava, Kaden não a ensinou a nadar. Ele primeiro lhe estendeu a mão, ajudando-a a sair das águas turbulentas, e gravou um conselho na mente dela.
Como uma jovem princesa, como ela poderia ser indiferente a algo assim?
Kaden se tornou seu motivo para seguir em frente, a voz que sussurrava dentro da cabeça dela quando tudo ficava escurecendo sem esperança.
Então, seus sentimentos floresceram e o amor rastejou para dentro do seu coração.
Já fazia tempo.
Mas o amor só se torna real quando se faz por vontade própria.
Então, naquele dia, quando tinham o direito de serem apenas crianças, Inara decidiu tornar isso real.
Era uma coisa assustadora. Mas era ainda mais assustador pensar no "que poderia ter sido" depois que a oportunidade já se esgotou.
O arrependimento a consumiria antes que seus inimigos pudessem.
Então, ela reuniu coragem e abriu os lábios.
— Você lembra daquele dia? — perguntou, com a voz como um sussurro.
— Não é fácil esquecer, chorona — respondeu Kaden com um sorriso.
Inara deu uma risada. — Certo?
— Não sei como explicar o que quero explicar. Eu talvez fosse uma princesa, e ainda sou, mas não tenho nada da sutileza e fofura que elas possuem naturalmente.
— Mas… — Inara levantou a cabeça para o céu e, por alguma razão estranha…
Agora, estrelas brilhavam lá em cima.
De repente, algo passou por sua mente. Era uma história que sua mãe uma vez contou, uma que ela gostava de ouvir antes de dormir. Uma história de amor.
Nessa história, nem o homem nem a mulher declararam seu amor. Ainda assim, acabaram juntos. Inara sempre se perguntara por quê.
Medusa sorriu na época. 'Eu te amo? Ah, minha filha, isso é algo muito rude para uma princesa culta dizer. Nesta história, eles sim disseram "eu te amo", mas de uma forma diferente.'
'Como assim?' Inara perguntou.
'Você não consegue ler? O príncipe disse à princesa que só olhava para a noite estrelada através do reflexo dos olhos dela.'
'Me diga, Inara, isso não é uma declaração de amor?'
'Que? Nem pensar! Que coisa embaraçosa, mãe!'
'Sua língua, Inara!'
Depois disso, sua mãe a deu uma palmada em cheio.
Inara, claramente, não concordava com isso na época.
Porém, agora, ao olhar para o céu noturno, seus lábios se curvaram em um sorriso largo.
Os olhos de Kaden se arregalaram levemente com a sinceridade e a beleza daquele sorriso.
Então, a voz de Inara rebolou por toda parte, como se ajudada pela própria floresta,
"A lua está linda esta noite, não está?"
Kaden ficou em silêncio, compreendendo por algum motivo o significado por trás dessas palavras aleatórias.
Ele balançou a cabeça levemente, divertido, mas com uma ponta de tristeza nos olhos.
Mesmo assim,
"Sim." Kaden concordou, olhando para a lua lá em cima.
"Ela está."