
Capítulo 370
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
Kaden não dava muita importância por sua intromissão no quarto de uma mulher, muito menos na casa de Mayari. Sua mente estava totalmente focada em alcançar Meris, sem saber exatamente o que estava acontecendo.
Com sua Atributo de Ausência, Kaden se deslocava pelos corredores do prédio de Elamin com uma stealth inacreditável. Em pouco tempo, chegou à porta prateada.
A frieza que emanava dela era escaldante. Prometeus respirou pelo nariz, um som gorgolejante escapando de sua forma em forma de sangue, e, então, passou pela porta, finalmente entrando na sala.
Mas será que era mesmo uma sala?
Estava tudo espalhado pelo chão. O piso coberto de manchas de neve, mas encharcado de água pesada. Gelo se espalhava pelos cantos do cômodo, mergulhando-o numa friagem digna do inferno.
Havia roupas, objetos comuns como mantas e joias, flutuando sobre a água como peixes a nadar.
Meris jazia no centro da cama, com os cabelos ásperos e úmidos de geada e água, grudados ao rosto. Seus olhos, de cara marejada, fixavam-se no teto com apatia.
Ao lado dela, Lari — sua fiel empregada — permanecia de mãos unidas atrás das costas. Seus lábios estavam pressionados numa expressão de linha fina, dor evidente em seus olhos verdes enquanto olhava para sua senhora.
Nunca tinha visto sua senhora tão desesperada. Desde que voltou de sua missão, Meris só ficava dentro do próprio quarto.
Recusava-se a ver alguém, a comer qualquer coisa, mesmo que sua mãe fosse até ela.
Ela era como gelo.
Por isso, seu quarto virou um lugar frio e morto como ela mesma, causado pelo poder que ela tinha acabado de evoluir.
Meris parecia alguém à beira de se tornar algo monstruoso. Seus olhos estavam lentamente se tornando mortos, suas emoções anestesiadas por uma geada mais fria que a do próprio ambiente.
A pele dela agora estava extremamente pálida, como se carregasse apenas uma vastidão de branco por dentro. Quem olhasse poderia imaginar o que sairia de seu corpo se fosse cortada.
Por algum motivo, a empregada sabia que aquilo não seria sangue. Pelo menos, não do tipo que ela conhecia.
Lari tinha cometido o erro de tocar em Meris uma vez. Somente de lembrar daquele dia, ela congelava de horror interno.
Aquele dia, ela tinha fugido instinctivamente de sua senhora, assustada com a friagem que se espalhava por ela. E parecia que foi naquele dia que a situação de Meris piorou.
Lari mordeu os lábios até o sangue escorrer, a cabeça curvada em autoprejuízo. Foi então que seus olhos notaram uma poça de sangue rastejando na água.
Ela parou, confusa. Pisca os olhos, achando que delirava. Mas, ao abrir de novo, a poça de sangue tinha desaparecido.
Em seu lugar, Kaden estava ao lado dela, seus olhos vermelhos e estrelados fixos em Meris. Uma expressão de séria desconfiança marcava seu rosto extremamente bonito.
Lari pulou de susto. "Senhor Kaden!" ela berrou, logo abaixando a cabeça em sinal de respeito.
"Saúdo a Coroa Vermelha!"
Com a voz alta de Lari, Meris se moveu de leve. Seus olhos piscaram lentamente, recuperando a clareza. Depois, de forma mecânica, ela virou a cabeça em direção a eles.
Quando seus olhos se deitaram nos olhos de Kaden, eles se arregalaram.
Kaden lhe deu uma breve reverência com a cabeça e um sorriso forçado, quase de canto de boca. Sem precisar que dissessem nada, Lari deu um giro nos calcanhares e saiu apressada da sala.
Kaden não disse palavra alguma e se aproximou da cama ao lado de Meris. A Filha do Gelo tremeu, instintivamente tentando se afastar dele.
"O-Que você está fazendo aqui?" Meris gaguejou, a voz parecendo de alguém que não falava há meses.
Ao ver aquela cena, Kaden ficou ainda mais sério. Meris nunca foi de agir assim.
As coisas estavam ficando mais estranhas, ele percebeu.
Era como se ela tivesse medo de algo. Alguma coisa suficientemente horrenda para fazê-la recuar dele.
"O que eu estou fazendo aqui?" Kaden repetiu, e, num piscar de olhos, apareceu bem atrás de Meris, puxando-a para seu abraço, suas costas contra seu peito.
Meris gritou de surpresa.
Kaden continuou com calma, "Nem mesmo quando você voltou eu ouvi falar de você. Então decidi visitar minha noiva."
Meris estava fria. Muito fria. Kaden ficou surpreso internamente. Essa frieza não era natural.
Por um momento, ele achou que fosse ser congelado por dentro. Era tão anormal assim.
Mas nada transpareceu em seu rosto. Ele manteve-se calmo e firme.
"Eu... eu precisava de um tempo sozinha," Meris sussurrou, de repente sem palavras nessa situação.
"Está incomodando você alguma coisa?"
"N-Não. Quero dizer, sim! Está tudo bem. Mas K-Kaden... você não está frio? Meu corpo está muito frio. Não me abrace! Eu vou machucar você—!"
"Machucar mim?" Kaden riu baixinho, e lentamente seu corpo começou a se envolver em chamas de tons dourados e carmesim, ardendo por toda a sala. O grito de uma fênix ecoou em seu peito, alto e estridente.
Em um instante assustador, todo gelo, neve e água na sala evaporaram, sendo consumidos pelo fogo dele.
Meris observava com olhos prateados, maravilhada. Então gemeu suavemente, sentindo o calor de Kaden se espalhar pelo seu corpo, derretendo o gelo que envolvia seu coração aos poucos.
"Não importa o quão frio você fique," Kaden disse. "Você nunca poderá me congelar, Meris."
Seu rosto tinha ficado mais relaxado, mas a ansiedade e o medo ainda estavam escondidos profundamente em seus olhos.
"Você tem certeza, Kaden?" ela murmurou, levantando a mão para acariciar sua face. "Tem certeza de que consegue aguentar meu frio?"
"Eu falhei com você alguma vez?"
Meris balançou a cabeça. "Você nunca. Mas isso é diferente. Meu gelo não é normal. Eu... eu não sou normal."
A voz de Meris vacilava. Desde que voltou, ela não tinha contado a ninguém sobre a questão de sua alma.
Falar sobre isso significava se expor. Aceitar que poderia ser vista como uma monstro sem alma, que perdia lentamente sua humanidade.
Porém, naquele instante, ela olhou para Kaden e sentiu uma vontade enorme de confessar. A vontade de ser honesta com ele, de dizer que seus sentimentos poderiam ser falsos.
Que tudo o que ela mostrou poderia ser apenas uma mentira para se acalmar. Uma mentira para convencer a si mesma de que também podia amar.
Uma garota com o coração de romance. Uma garota que não era fria e não via todos ao seu redor apenas como sacos de carne e ossos.
Meris realmente queria ser assim. Mas ela se encontrava incapaz de abrir a boca e dizer isso.
Kaden era calor. Quente demais.
Ele a abandonaria se ela dissesse a verdade?
Meris não queria perder esse calor. Então, manteve a boca fechada e forçou um sorriso diante do olhar interrogador de Kaden.
"Não é nada," ela sussurrou, colocando a cabeça contra seu peito. "Nunca falhaste comigo. Nunca falharás."
Ela disse como se estivesse tentando se convencer mais do que qualquer outra coisa.
Kaden permaneceu em silêncio. Ele tinha percebido a hesitação e o medo de Meris, como se ela quisesse dizer algo, mas não tivesse coragem.
Em circunstâncias normais, Prometeus teria aceitado a decisão de Meris. Simplesmente ficaria em silêncio, esperando ela estar pronta para se abrir.
Mas não mais.
Kaden via que aquilo que Meris escondia dentro de seu peito era pesado demais para ela. Ela parecia bem naquele momento, mas não por muito tempo.
E, além disso…
'O Gelo dela...' Blanche sussurrou na cabeça de Kaden, horrorizada. 'O gelo dela é demasiado puro. Cheira como o deles.'
Kaden franziu o cenho. 'Os deles?'
'Os Primordiais.' A voz de Blanche tornou-se séria de repente. 'Uma raça nascida da energia elementar mais pura que pode existir. Seu ser todo é feito dessa energia, dando-lhes controle absoluto e superioridade sobre os outros.'
'O fogo da minha família, dos Fênix, talvez seja único. Mas, diante do Primordial do Fogo, ele pareceria ridiculamente fraco.'
Ao ouvir isso, os olhos de Kaden brilharam de repente com um insight. Começou a imaginar qual seria a natureza do Fogo do Mundo Conhecido a que a Vontade se referia.
Porém, Blanche ainda tinha mais a dizer.
'Mas isso não deveria ser possível. Os Primordiais não podem ter descendentes. Então, por que essa garotinha…?'
Blanche ficou perplexa. Claramente, Meris tinha o cheiro de um Primordial, mas também de um humano. Como uma humana poderia carregar uma criatura de um Primordial? Ou melhor, como um Primordial poderia sequer semear um ser?
Essa menina parecia ter alguma relação com o Primordial do Gelo.
Mas… como?
As perguntas giravam constantemente na cabeça dela, sem uma resposta clara. Mas o que estava claro era que…
'O corpo meio-humano dela não suporta o peso de seu gelo,' disse a Fênix Branca a Kaden. 'Ela poderia morrer por causa disso ou se transformar em algo inimaginável.'
Kaden começou a compreender toda a cena. Agora sabia por que até mesmo ele se sentia ameaçado pelo gelo de Meris.
'Há alguma solução?' ele perguntou, ainda segurando Meris.
'Não.' Blanche balançou a cabeça. 'Ainda não conheço nenhuma.'
Deixou escapar um suspiro longo, pensativo.
Depois, ele pegou cuidadosamente a cabeça de Meris e a afastou um pouco dele.
Seus olhos se encontraram.
"Não tenha medo," Kaden sussurrou, fazendo os olhos dela se arregalarem. "Sou seu noivo, e quero ajudar você. Não vou a nenhum lugar, mesmo que seu corpo se torne a coisa mais fria do mundo."
"Mesmo que eu tenha mentido?" Meris perguntou, quase num sussurrar.
"Mentido?"
Meris apertou os dentes. "Mesmo que eu tenha mentido sobre meus sentimentos por você? Mesmo que tudo o que fiz tenha sido apenas uma falsa fachada para iludir a mim mesma? Para me convencer de que também posso amar?"
Ela apertou a camisa dele com força, as juntas ficaram brancas como osso.
"Perdi o rumo, Kaden," ela respirou, com a voz baixa de repente. "Eu sinto amor por você, mas tenho medo de que tudo seja mentira. Que seja apenas minha imaginação. Meu mecanismo de enfrentamento."
"Tem muita insensibilidade em mim, Kaden. Tanta que minhas lágrimas estão congeladas. Não consigo mais—!"
"Você já não está chorando?" Kaden cortou delicadamente, sorrindo. Suas mãos deslizaram pelas bochechas de Meris, enxugando as lágrimas que escorriam.
Meris ficou paralisada, os olhos bem abertos.
"Você está chorando, Meris. Isso significa que você sente algo. Por menor que seja. E o fato de estar chorando também significa que tem medo. Isso te torna humana."
A Filha do Gelo abriu a boca sem emitir som.
"Quanto ao fato de você duvidar do meu amor…" Prometeus continuou, "…não significa que você se importa o suficiente comigo? Afinal, você só duvida de algo que se importa."
"E mesmo que tudo isso fosse falso…"
Meris começou a soluçar.
"…já te deixei entrar no meu coração, Meris. Agora, não há mais volta."
Kaden sorriu e a apertou com mais força.
O amor era uma vadia maldita.
"E eu odeio amor de lado só. Então melhore, e de verdade, apaixone-se por mim."
"N-Não vai… me abandonar?"
"Não vou."
"Mesmo que eu não seja sincera com você?"
"Sim, mesmo assim."
"Mesmo que eu vire um monstro?"
"Somos todos monstros, Meris."
Meris permaneceu em silêncio, e algo dentro dela se quebrou. A gaiola de gelo que inconscientemente construiu ao redor se tornou um pouco mais fraca. Não desapareceu, mas seu medo diminuiu.
Ela respirou fundo e então…
"Então, serei seu monstro."
"Já está se entregando para mim? Sabia que era bom nisso."
Meris riu.
Seu primeiro riso sincero desde…
Desde quando mesmo?
Meris não sabia. Mas naquele dia, ela riu.
E Kaden riu com ela, embora uma parte do coração dele ainda estivesse preocupada com outra criatura.
—Fim do Capítulo 370—