
Capítulo 369
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
Medusa observava Inara que dormia. O rosto de sua filha estava marcado por lágrimas secas, os olhos inchados de tanto chorar, com o rosto inchado de tanto soluçar.
Inara segurava a mão de Medusa com força, tão apertado que, se fosse uma criatura de nível Mestre, a mão teria se quebrado.
Tudo isso como se estivesse buscando algo para se agarrar. Algo que pudesse ajudá-la a não afundar tão fundo na tristeza.
Ao ver aquilo, Medusa não pôde deixar de balançar a cabeça de lado, contrariada. A rainha das serpentes ainda estava nua, incapaz de fazer qualquer coisa enquanto sua filha apoiava todo o peso em cima dela.
Ela tinha tentado se mover horas atrás, mas Inara despertou imediatamente e começou a chorar novamente até dormir de novo.
Medusa não queria reviver aquilo.
Era dolorido e irritava.
Ela suspirou, soltando uma névoa de vapor verde entrelaçada com serpentes sem forma que escapou de sua boca.
"Às vezes me pergunto se foi a decisão certa", pensou, balançando a cabeça mais uma vez.
Nesse instante, seus olhos mudaram de forma, assumindo o símbolo do Ouroboros. Por um breve momento, o tempo pareceu atrasar e visões começaram a surgir.
Mostraram várias cenas. Uma delas foi a primeira vez que Inara entrou em Fokay, e seu encontro com—!
Medusa piscou. Seus olhos retornaram ao normal, e as visões se dispersaram na escuridão do esquecimento.
Ela passou a mão cansada pelo rosto.
A Senhora Ouroboros não queria pensar nisso, pois seu coração iria se encher de preocupação por sua filha. Mas Medusa realmente questionava se Inara era a escolha certa.
Não por ela ser fraca. Ela não era. Mas, por mais rude que fosse e por mais que gostasse de soltar palavrões…
Inara era uma menina delicada por dentro. Uma verdadeira chorona.
"Mas o que foi feito, está feito, não é?" Seus lábios se pressionaram numa linha invisível. Ela levantou a mão e limpou uma lágrima do rosto de Inara.
"Seja forte, minha filha", refletiu, inclinando-se para dar um beijo na testa dela. "Infelizmente, um coração partido é a menos dolorosa das coisas que te aguardam."
Ela afastou os lábios da testa de Inara, notando sua respiração ficando mais calma.
Medusa sorriu, achando sua filha fofa quando dormia.
Ela levantou a mão novamente, prestes a puxar a bochecha dela, mas parou no meio do movimento.
Seu ferrovia rúnico brilhou com uma luz verde intensa. Ela virou a cabeça, vendo-o repousar na borda da banheira, pulsando de forma intermitente.
Com um gesto de chamamento, o instrumento rúnico foi envolvido por uma luz verde antes de voar em direção a ela.
Com um som semelhante a um estalo, ele repousou na mão de Medusa. Ela respondeu.
"Espero não estar incomodando você nesta noite."
Uma voz severa ecoou do dispositivo, com tom firme.
"Você não, Céus", respondeu Ouroboros a Mayari Elamin. "Mas é estranho você ligar nessa hora…"
Inara se mexeu sob ela com a voz alta. Medusa acariciou sua cabeça para acalmá-la e fazê-la voltar a dormir.
Ela abaixou a voz. "…qual é o problema?"
"Algo com minha filha me fez esquecer de te informar sobre a reunião de amanhã com Progeny e Serena", a voz de Mayari soava exausta. "Vamos falar sobre os assentamentos de bestas ao redor de nós. Além disso, a questão do Forte de Kaleith precisa ser considerada. Nossa posição em relação a ele deve ser decidida."
"O Profeta é uma questão séria. Ainda mais se vermos os rumores."
"Mas rumores são rumores", disse Medusa. "Você conhece melhor como eles funcionam. Um sussurro na orelha de um fofoqueiro, e no dia seguinte uma lenda nasce."
"Por isso mesmo", respondeu Mayari. "A maioria dos rumores tem uma verdade no núcleo. E isso já basta para não negligenciá-los."
Ouroboros assentiu suavemente, sua mão ainda acariciando Inara. "Concordo", ela sussurrou. "Bem, tenho informações sobre algumas tribos de bestas por aí. Vou compartilhar com vocês."
"Que horas?" perguntou em seguida.
"Nove da manhã", disse Céus. "Até amanhã. Desculpe a chamada tardia."
A ligação foi encerrada rapidamente.
Medusa olhou para a ferramenta de comunicação e a colocou de lado. Então, inclinou a cabeça para trás, observando o teto tingido de verde. Lentamente, fechou os olhos. Logo, já sentia as nuvens de tribulação cobrindo o céu de Waverith.
Ela não sabia como decidiriam sobre as bestas ou Kaleith, mas tinha certeza de que o caminho não seria fácil.
Interesses estariam envolvidos. E se interesses estavam envolvidos… então o conflito seria inevitável.
Mais uma vez, Medusa suspirou, sua mão ainda acariciando sua filha.
"Minha doce chorona…" ela sussurrou,
"…seja forte. Pois precisará disso. E, da esperança…"
'Eu também precisarei ser forte…'
Pois vou precisar.
Os pássaros entoaram seu canto matinal, batendo vigorosamente suas asas enquanto voavam em busca do alimento do dia.
Prometeus invejava a liberdade deles. Havia algo poético na fé que tinham de encontrarem algo para comer a cada dia, mesmo sem saber se encontrariam.
Tal crença no invisível. Kaden ficou realmente impressionado.
Seus pensamentos involuntariamente retornaram ao seu mestre, O Escravo. Lembrou-se de que na empunhadura de sua espada havia um entalhe de um pássaro.
Liberdade. Escravo.
O desejo de liberdade do seu mestre era realmente imenso.
Kaden exalou pelo nariz.
Ele estava deitado no telhado de azulejos do prédio de Elamin, com sua Habilidade de Ausência ainda ativada.
Passou a noite toda caminhando, colocando seus pensamentos no lugar certo.
Com as palavras duras de Reditha, Kaden refletiu bastante sobre suas ações passadas com as mulheres ao seu redor, tomando consciência de seus erros.
Achava que ficar quieto e apenas observar era neutralidade. Não era. No seu caso, silêncio era fugir da responsabilidade pelos sentimentos das mulheres.
Ele escolheu apenas suportar seus sentimentos, deixando que influenciassem os dele.
Isso não significava que não as amava. Ele amava Meris. Amava Vaela. Mas, de certa forma, seu amor não era genuíno, porque ele simplesmente concordava com ele.
E agora, Kaden entendia que amor só se torna real quando se faz por vontade própria. Assim como Inara fazia.
Essas reflexões fizeram-o entender muitas coisas. E, consciente ou não, Kaden começou a olhar diferente para seus relacionamentos com as mulheres.
Pela primeira vez, ele passou a pensar seriamente nisso. Até então, nunca tinha feito.
Mas não podia continuar assim. Gostando ou não, esses relacionamentos eram parte dele. Negligenciá-los significava se ferir a longo prazo.
Ele não podia se dar a esse luxo. Prometheus já tinha o suficiente para se preocupar. Precisava evitar problemas que consumissem sua mente, corroessem seu coração e o tornassem desatento.
Fechando os olhos, Kaden deu uma respiração profunda. Depois, abriu-os lentamente, com o rosto focado.
"Certo, Kaden. Você cometeu erros. Não se esqueça deles. E não repita." Você ainda está incerto sobre Inara. Vou dar a ela tempo. Mas farei o meu melhor por Meris, Vaela e, eventualmente, Rea."
Ao pensar nisso, Kaden percebeu como ter várias mulheres era uma coisa bastante incômoda.
Ele se perguntou por que havia procurado um harém para começar. Essa coisa não era para todo mundo.
Mesmo assim,
"Já estou mergulhado fundo na cova do amor. E, apesar de minha passividade, já as amo demais para desistir delas. Só posso ser um homem melhor. Um homem responsável."
"Você tem apenas quinze anos", interrompeu Reditha.
"Cale a boca."
Reditha riu sutilmente. Desde sua evolução em Mito, a espada tinha ficado bastante audaciosa.
"Não fale assim com o mestre", acrescentou Blanche, tentando ajudar Kaden.
"Por que essa galinha está falando, Kaden?"
"Eu não sou uma galinha! Sou uma Fênix! A Fênix Branca da Grande Família das Fênixes. Uma família de Mito!"
"Sou venerada em várias partes de Fokay!"
"Nunca presenciei uma cena assim", zombou Reditha.
"Você não entende nada de Fokay! Mal conhece Darklore."
"Você conhece?" Kaden perguntou, devagar, se levantando com o corpo rangeu, os músculos estalando como balões. Ele reprimiu um gemido.
"Você conhece Darklore? E sabe se há alguma ligação entre os dois? Algo para que os habitantes de Fokay entrem?"
"Claro que isso existe", Blanche acenou com a cabeça.
"Como?" Kaden franziu a testa.
"Não sei", disse Blanche. "Fiquei na maior parte do tempo dormindo, e quando acordei, estava amarrada por aquela garotinha, Shamsi."
"Tudo que sei é que é através de masmorras."
Kaden olhou para cima, com expressão pensativa. Já tinha pensado nessa possibilidade. Mas agora, com as palavras de Blanche, ela foi confirmada.
Ainda assim, havia muitas coisas a considerar. Que tipo de masmorra? Por que masmorras? Se aquela masmorra for destruída, os seres poderão voltar a Fokay do mesmo jeito que os habitantes de Darklore fizeram, ou não?
Muitas perguntas. Poucas respostas.
Como sempre.
Kaden estalou a língua, irritado. Fechou os olhos para reunir suas emoções e expandiu sua percepção para dentro, em direção ao prédio abaixo dele.
Sua percepção mergulhou e começou a se espalhar como teias de aranha. Com sua Vontade, ele passou facilmente pelas barreiras que o bloqueavam.
Em pouco tempo, localizou a posição de Meris.
Então seus olhos se arregalaram, o coração pulou uma batida ao vê-la.
'O que está acontecendo?' pensou, antes de se transformar numa poça de sangue e desaparecer, indo direto ao encontro dela.
—Fim do Capítulo 369—