Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!

Capítulo 362

Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!

Inara observava de cima com seu último olho direito. A venda preta ainda ocultava Oeil, seu monstro.

Enquanto ela permanecia ali, braços cruzados sobre o peito, seus longos cabelos verdes esvoaçavam atrás dela como um mar de folhas aglomeradas, suas botas altas, calças justas e top verde sem mangas abraçando sua silhueta...

…Inara era uma visão impressionante.

Havia algo ao mesmo tempo sagrado e grotesco nela. Sua aura atual de Mestre já era suficiente para fazer até os mais durões estremecerem.

A herdeira da Mãe dos Monstros estreitou os lábios. Finalmente, ela tinha força suficiente para perceber a barreira que cercava o Cemitério dos Monstros.

As barreiras erguiam-se altas acima, em formato retangular, tecidas com a carne dos monstros e os vestígios de suas almas.

Era possível ouvir os lamentos dos monstros, suas almas angustiadaes gritando por estarem sendo tratadas assim.

Almas jamais deveriam permanecer no Mundo Visível. Tal ato era uma blasfêmia para a Árvore, e só podiam imaginar como Echidna conseguiu cortar o controle que as almas de seus monstros um dia tiveram sob Sua autoridade.

Mas aquilo não lhe dizia respeito.

O que ocupava seus pensamentos era a simples e aterradora verdade de que a barreira não duraria muito mais.

Algumas partes começavam a vacilar, dissipando-se lentamente em uma névoa fina.

Existe um limite para quanto uma alma pode ser explorada antes de se partir completamente.

Inara via que a maioria delas já estava no limite.

Ela amaldiçoou silenciosamente, passando a mão pelos cabelos com frustração.

"Lombriga", chamou.

Uma larva preto e branca saiu de seu ouvido esquerdo.

"Sim, mãe", respondeu Maggot, contorcendo-se, brilhando como óleo sob o sol.

Ela também tinha optado por ser chamada de "ela" ao invés de "ele". Por um instante, Inara se perguntou por que todas pareciam tão afeitas ao gênero feminino.

Ela balançou a cabeça, descartando o pensamento inútil, entreabriu os lábios, seu olho ainda fixo na barreira.

"Vocês ficarão aqui. Você, Focinho e Blue Bird", ordenou. "Preciso voltar para Darklore por um tempo. Minha mãe deve estar preocupada."

"Enquanto isso", seu olho direito escureceu, "comece a criação de uma nova barreira. Do mesmo tamanho da atual."

"Faça rápido, porque ela não vai suportar por muito tempo. Use tudo o que tiver, especialmente aqueles malditos monstros Grandmaster que me rejeitaram." Ela sibilou a maldição, deixando Maggot contorcer-se empolgado.

O monstro adorava quando a boca da mãe formava palavrões.

Maggot assentiu vigorosamente. "Entendido, mãe."

Depois, um cão negro e um pássaro azul apareceram diante de Inara.

O cão era a forma evoluída do lobo de duas cabeças. Era enorme, completamente preto, com dois olhos diferentes, um preto e um cinza, brilhando. Ele arfou carinhosamente para Inara antes de ajoelhar, com a cabeça no chão.

Com sua nova habilidade de Mestre, Inara podia fundir diferentes monstros para criar outros novos.

O Cão nasceu dessa habilidade.

O custo tinha sido alto. Mas valeu a pena.

O pássaro azul pairava acima do chão, seu corpo todo envolto em chamas azuladas. Ele abriu o bico e soltou um grasnado afiado de respeito.

Inara sorriu e acariciou ambos, explicando suas novas tarefas.

Depois de dar as instruções, a filha de Lady Ouroboros lançou um último olhar para a barreira e voltou sua atenção para Darklore.

Ela podia senti-la.

Na próxima vez que retornasse, encontraria os inimigos que Echidna havia deixado para trás.

E então…

Ela pagaria o preço pelo seu poder.

Estaria ela pronta?

Inara abriu um sorriso profundo, com loucura e medo bem escondidos por trás dele.

"Isso não importa", ela murmurou enquanto a escuridão engolia seus sentidos.

Nunca teria importado.


Enquanto isso, na Cidade de Gelo, feita de gatos, Meris tinha retornado à sua forma humana original. Ela estufou o peito, sentindo a flexibilidade simples que tinha uma vez em seu corpo de gato, junto com seu controle aperfeiçoado sobre a magia.

Algo digno de um sorriso. Mas ela não sorriu.

Desde aquele dia, Meris não conseguiu mais puxar os lábios para cima, seu espírito e coração esmagados pelo peso daquela revelação.

Dúvidas sobre ela mesma — sobre quem realmente era — se infiltraram nas rachaduras de seu gelo, corrompendo-a lentamente de medo existencial.

Ela reprimiu um calafrio.

"Você tem certeza de que não quer se despedir?" Solace perguntou, com uma voz carregada de tristeza ao observar o estado de Meris. "Eles ficariam tristes se você fosse embora sem dizer algo. Os pequenos, especialmente. Você é o ídolo deles, como dizem."

Meris forçou um sorriso vazio. "Na próxima vez", prometeu. "Na próxima vou pedir perdão por partir tão de repente. Mas não hoje."

Solace ficou em silêncio, seus olhos felinos roxos brilhando de tristeza inconfundível.

"A Semente do Gelo", ela falou finalmente, quebrando o silêncio tenso, "você vai levá-la? Não temos uso para ela, e ela claramente é para você."

"Você disse isso, vó Solace", sussurrou Meris, com os olhos prateados baixos. "O gelo dentro de mim está selado, me permitindo reter algum tipo de emoção."

Ela lentamente ergueu a cabeça, fixando seu olhar de espelho em Solace.

"O que aconteceria se eu a desprendesse, absorvendo a Semente do Gelo?"

Ela balançou a cabeça veemente.

"Eu não quero perder esse pouco de sentimento que ainda tenho. Não quero me tornar uma monstra sem coração", murmurou, com a voz trembling. "Então, não vou pegar."

Meris sempre soube que suas emoções eram insensíveis desde criança. Aprendeu a conviver com isso, aceitando seu lado frio e monstruoso como parte de si mesma.

Mas agora tudo mudou.

Ela era uma monstra mais profunda do que jamais havia acreditado.

E aceitar isso significava abandonar sua humanidade.

Ela não podia.

E não faria.

Solace permaneceu em silêncio, observando o caos interno de Meris. Lentamente, assentiu com a cabeça.

"Se essa é sua vontade, então assim será, tiny kitty."

Meris devolveu o gesto com um sorriso forçado, depois acenou com a mão. "Voltarei, vó", prometeu. "Diga a eles que sinto muito."

E assim, ela desapareceu, retornando para Darklore.

Solace suspirou, levantando a cabeça para o teto de prata acima.

"Sim… volte, tiny kitty."

Mas, por favor, volte ainda com emoções e travessuras dentro de você.

Não com frieza. Este lugar já está frio e dormente o suficiente.

Ela suspirou mais uma vez, fechando os olhos.


Na capital Asterion, do Império Celestial, em um canto de uma rua ensolarada, uma mulher estava sentada sozinha dentro de um amplo parque, acompanhando crianças brincando.

Ela sorria pacificamente, seus olhos castanhos cheios de calor, o cabelo caramelado preso numa rabeira.

Um doce descansava em seus lábios enquanto ela aproveitava a brisa tranquila que fazia sua saia mexer.

Ela sorriu, mas congelou ao perceber algo que se acendeu na sua frente.

Ela gritou surpresa, fazendo seu doce cair no chão. Ela cambaleou, querendo fugir, mas seus pés se recusaram a se mover, hipnotizados pela cena bonita diante dela.

Uma faísca de fogo negro girava em si mesma, mudando antes de formar uma linda flor.

Uma flor de Jearuwy. Sua flor favorita.

Os olhos de Lisa se arregalaram: "O-que?" ela gaguejou.

"Gostou?"

A voz a despertou de seu estado de choque. Ela virou a cabeça de lado e viu um homem bonito de cabelo laranja com olhos negros dançantes.

Ele sorriu de leve.

"K-Kenan?" Lisa perguntou gaguejando. "Como você—!"

"Muitos ouro," Kenan a interrompeu enquanto se sentava ao lado dela. "Me custou muitos ouro, e diversas reclamações da minha mãe pra te achar."

Ele olhou para ela com um leve sorriso. "Cinzas... você está dificultando minha vida, Lisa."

Lisa bufou, fez cara feia e virou o rosto, braços cruzados sobre o peito achatado.

"Ninguém te perguntou", ela resmungou, o coração tremendo com uma alegria não dita que o vento carregava.

Kenan deu uma risada.

"Ninguém perguntou, sim. Mas eu quis."

Lisa congelou, ainda sem olhar para ele.

Silêncio se instaurou entre eles.

Então…

"Desculpa pelo que aconteceu na última vez", Kenan sussurrou, os olhos fixos na flor negra de fogo diante dele.

"Eu… eu só estava preocupado com você."

Lisa permaneceu em silêncio. Sua mente voltou àquele dia no restaurante, como ela tinha ficado estranhamente ansiosa para passar tempo com ele, mesmo dizendo para si mesma que não gostava dele.

Era estranho, ela percebeu, como uma pessoa consegue mentir para si mesma mesmo sabendo a verdade.

Ela abriu os lábios, tremendo.

"Tudo correu bem?" ela perguntou suavemente, lembrando-se do peso que Kenan carregava naquele dia.

O Herdeiro de Noir assentiu, brincando com a flor. "Tanto quanto esse mundo cinzento me permitiu."

Lisa não compreendia o significado mais profundo das palavras dele, mas sorriu inconscientemente com a frase escolhida.

Cinzas.

Mesmo assim…

"Por que veio até mim?"

"Senti sua falta."

"Por quê?"

"Por quê?" Kenan deu de ombros. "Cinzas… você diz. Eu sou o que não entende de coração."

Lisa não conseguiu segurar o sorriso que se insinuava nos lábios.

"Acha que voltar com um truque de mágica inútil vai resolver tudo?" ela rosnou.

"Na verdade, foi um truque de alto nível, Lisa", Kenan tentou se justificar.

"Não muda nada."

"O que você quer?"

"Que você me deixe em paz."

"Algo que não apague meu coração, de preferência."

"Seu palavra."

"Minha palavra?" Kenan repetiu.

Lisa fez uma pausa, finalmente se virando para encará-lo.

Seus olhos castanhos tinham uma expressão incomum de seriedade.

"Nunca mais?" ela perguntou.

Kenan ficou em silêncio, entendendo o que ela quis dizer. Sua cabeça lembrou-se imediatamente da missão que seu antepassado lhe havia dado, uma missão tão mortal que lhe tirou o sono.

Será que ele realmente poderia prometer para Lisa que nunca mais se afastaria, sabendo o que o aguardava?

Kenan não sabia. Mas uma coisa ele tinha certeza.

Ele nunca mais queria ficar longe dela.

Lisa franziu a testa com sua ausência de resposta, a raiva começando a ferver dentro de si como óleo alimentando a chama, mas…

"Lisa", Kenan disse, o coração batendo de forma imprudente, "você me acompanharia em uma jornada?"

Toda a raiva que tinha surgido derreteu como neve ao sol escaldante, deixando apenas…

"O-Que?"

No cidade de Prata, a fumaça se espalhava e encobria as ruínas com uma grossa névoa quente.

Tudo havia sido destruído.

Edifícios queimavam com fogo indomável, a terra inundada por um mar de sangue misturado com cinza.

Kaden e Dain estavam juntos, assistindo ao cenário com indiferença marcada em seus olhos vermelhos.

Kaden, alto e imponente, com uma fênix de fogo vermelha-ouro repousando pacificamente sobre o ombro. Blanche piou suavemente, dando um pio quente na cabeça dele.

Dain sentado na ponta de sua colossal machadada flamejante, com Griffin na cabeça. A fada, agora sua besta, admirava a destruição com uma glee sombria.

"Ele escapou?" Dain perguntou.

Kaden assentiu com um sorriso. "Sim."

"Que pena." Dain rangeu a língua. "E agora?"

"Bem", Kaden sussurrou, dando uma estaladinha no pescoço. "Hora de voltar para Darklore. Vamos embora."

Dain fez um gesto de aprovação, levantando o olhar para o céu.

"Claro, mais novo."

Num piscar de olhos, eles desapareceram de Fokay, deixando para trás nada além de cinzas.

Pouco tempo depois, a notícia chegou à capital, e Luminary e Mahina amaldiçoaram os irmãos Warborn por sua imprudência.

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