
Capítulo 360
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
Após a conversa com Vaela, Kaden havia questionado sobre seus olhos esquisitos, totalmente vazios. Apesar de serem belos em seu rosto deslumbrante, ainda assim diferentes do que ele lembrava.
Naquela época, Vaela hesitou por um instante, perguntando-se se seria uma boa ideia revelar o custo de usar seu poder.
Mas essa preocupação foi desnecessária, pois seu poder evoluíra além daquela condição. Ela não perderia mais a visão ao usar sua magia.
Ela perderia algo mais. Algo mais pesado, de certa forma. Algo que preferiria não sobrecarregar sua querida com.
Então ela sorriu, sua beleza uma blasfêmia para este mundo, contando-lhe que sua visão estava sendo consumida por seu poder de enxergar o futuro.
Kaden ficou surpreso na época, mas não por muito tempo. Agora, ele havia amadurecido. E, com isso, veio a compreensão de um aspecto crucial da vida… ou melhor, daqueles que trilham o caminho rumo à transcendência.
Nada é de graça. E poder, ainda menos.
Ele precisava passar por mortes cruéis para ficar mais forte. Precisava arriscar sua própria vida para usar seu domínio. E, se fracassasse nisso, mergulharia fundo no vazio.
No esquecimento.
Esse era o preço. E era um que qualquer um que desejasse ir mais alto devia estar disposto a suportar, independentemente dos efeitos terríveis que isso traria.
Porém, se houvesse uma maneira de reduzir esse custo, ninguém hesitaria.
E Kaden certamente não hesitou.
Naquele momento, em um lampejo de percepção, Prometheus lembrou-se de uma das recompensas que havia obtido com Aurora sacrificando-se por ele.
Olhos de Estrelas Carmesim (Transferíveis)
Finalmente entendeu por que esses olhos eram transferíveis. Nunca foram feitos especialmente para ele. Ele era apenas a mão confiada para possibilitar a transferência.
Esses olhos eram de Vaela.
Por isso, Kaden não hesitou em entregá-los a ela. Transferiu os olhos para ela, e agora os olhos de Vaela brilhavam com o mesmo brilho de seus próprios olhos.
Olhos estrelados de vermelho. Ah, que olhos vermelhos e cheios de estrelas.
Dois seres ligados pelo destino. Dois seres ligados pelo destino. Dois seres ligados pela causalidade. Dois seres ligados pelo amor. Dois seres ligados pelo respeito.
O elo deles era algo que ninguém poderia compreender completamente, pois suas raízes eram mais profundas do que qualquer um poderia imaginar.
Eles eram companheiros eternos.
Oh… realmente eram.
E naquele momento, seu vínculo foi selado mais uma vez.
Não por palavras fáceis, pois palavras poderiam ser distorcidas.
Mas por algo mais profundo que o Mundo Visível.
Ligados por suas próprias Origens.
…
O tempo passou numa velocidade vertiginosa. Um piscar de olhos, e um dia inteiro havia se ido, nunca mais vivido.
Kaden passou aquelas horas ao lado de seu irmão, Dain, esperando que o panda roncador despertasse de seu sono profundo.
E mesmo agora, ele ainda estava lá, sentado numa cadeira ensanguentada, com as costas apoiadas confortavelmente, olhos fechados em paz, pernas cruzadas, enquanto imagens passavam dentro de sua cabeça como um filme.
Muito tinha acontecido, e Kaden precisava entender melhor seus novos poderes.
Havia sua Nova Origem, suas estatísticas, e suas inúmeras habilidades para estudar e inspecionar.
Além disso, seu domínio e a Semente de Prometheus exigiam atenção especial. Ambos eram diferentes em suas próprias formas difíceis de lidar.
Prometheus adquirira diversos tipos de poder, o que significava que ele precisava de tempo para dominá-los adequadamente.
Já via de longe as horas de treinamento exaustivo se aproximando.
Kaden sentiu um calafrio.
Depois, sacudiu a cabeça, dissipando sua apreensão, pensando no próximo passo. Após o treinamento, claro.
Havia a Igreja do Luto, pelo assunto de Rea. A Bruxa, pelo Aspecto da Morte. E o Oceano de Sangue, que despertava sua curiosidade.
Ele se sentia mais atraído pela Bruxa, cujo nome sozinho fazia seu coração queimar de curiosidade. Mas, ao mesmo tempo, seu coração também ardia de perigo mortal.
'Eu não estou pronto,' percebeu, clicando a língua com certa irritação.
Porém, isso não era tudo. Kaden também sentia uma atração pela Igreja. Inicialmente, achava que era porque queria ajudar Rea em alguma coisa. Mas agora, com sua percepção e força muito maiores do que antes…
Kaden sabia que era algo diferente.
Algo desagradável. Algo que tinha cheiro de deuses.
Mais uma vez, soltou um suspiro. 'Deveria dormir, mas não consigo. Desde quando foi a última vez que dormi?'
De fato, Kaden já não conseguia se lembrar disso com clareza.
A exaustão impregnava cada fibra do seu corpo, mas o sono parecia escapar dele.
Ele amaldiçoou, irritado, passando a mão pelo rosto.
"Preocupado?"
De repente, uma voz soou. Uma voz forte e pesada, que fazia Kaden sentir sua vibração até os ossos.
Ele virou a cabeça lentamente para a esquerda e viu Dain já acordado. O homem estava sentado na cama de madeira, com as costas encostadas na parede.
Dain era alto. Extremamente alto, pelo menos oito pés. Seu cabelo preto estava trançado em fios grossos amarrados atrás, fazendo-o parecer um viking antigo, com a respiração pesada e músculos assustados em seu corpo.
Seus olhos vermelhos eram intensos, brilhando com fogo amarelo.
Comparado ao dia anterior, ele não parecia nada como o palhaço descontraído que fingia ser.
Kaden deu de ombros levemente, com um sorriso: "Preocupado? De jeito nenhum. Eu só estava pensando."
"Alguma coisa te incomoda, mais novo?" Dain inclinou a cabeça e sorriu, "Só dizer pro mano mais velho! Ele faz tudo parecer sem importância! Hahaha!"
As paredes da sala tremeram com sua risada.
Kaden rolou os olhos com um sorriso maroto, "O grande irmão que eu precisava salvar?" disse, colocando uma mão no queixo, "Parece muito convincente."
O lábio de Dain virou, "É isso que dizem? Com um erro só, todo mundo esquece dos sucessos que teve?"
"Nunca ouvi falar dos seus sucessos, aliás." Kaden respondeu com um sorriso de provocação, "Quer me entreter?"
Dain imediatamente riu, sentando-se ereto, com os olhos ardendo de vontade de mostrar sua grandeza ao mais novo.
Ele precisava proteger sua reputação de irmão confiável.
Assim, com a seriedade que o momento exigia, começou a contar suas histórias. Desde suas aventuras incontáveis, seus duelos aventureiros, até os momentos em que quase morreu, e por aí vai.
Suas palavras eram acompanhadas de mãos inquietas, e suas risadas incessantes faziam Kaden estremecer toda vez que surgiam.
Kaden ficou genuinamente impressionado com seu irmão. Mas todas as histórias confirmaram uma coisa sobre Dain…
Ele era um completo tolo, que faria qualquer coisa que passasse pela cabeça, mesmo que isso implicasse invadir a capital de um império poderoso e desafiar todo mundo para duelos.
Mesmo que isso significasse enfrentar sozinho as provas destinadas ao herdeiro do sangue Asterion e acabar destruindo todas as bestas até que nenhuma sobrasse.
Dain não era um humano.
Ele era uma fera envolta em carne humana.
Kaden balanceou a cabeça, "Não tenho palavras para te descrever, irmão."
Dain riu alto, "Hahahah! Claro, mais novo. Mas você também cresceu." Disse, olhando nos olhos de Kaden, com expressão de repente séria.
"Seus olhos mudaram, mais novo." Dain observou, com a voz carregada, "Não pela parte que tem estrelas dentro, mas pela profundidade delas. Vi que você viveu coisas, isso vejo."
Kaden apenas sorriu, "Como todos nós."
Dain assentiu, retornando o sorriso, "Sim. Todos nós vivemos coisas. Mas o que aprendemos com o que vivemos, aí sim é que importa."
Kaden ergueu uma sobrancelha, "Agora, isso eu não esperava de você, irmão. Principalmente depois das histórias recentes."
Dain soltou uma risada e olhou para o teto, fixando o olhar nas estrelas vermelhas.
"Somos o que escolhemos ser, mais novo." Disse, "Somos uma linhagem de guerreiros. Não somos bastardos de intriga. Nem filósofos. Nem poetas. Não porque não possamos, mas porque essa senda de sangue e combate combina melhor com nossa origem."
Olhou de novo para Kaden, com dentes à mostra, num sorriso largo, "Mas isso não quer dizer que sejamos idiotas."
"Ainda assim, você se deixou manipular pela imperatriz. E agora está preso com uma fada que só quer te matar." retrucou Kaden, recebendo uma expressão de ferida por parte de Dain.
O homem apertou o peito como se tivesse sido atingido fisicamente, depois sorriu de lado, "Não ser idiota não significa que somos inteligentes, né? Ainda mais eu."
"Você se conhece," disse Kaden secamente, reprimindo uma risada, "Isso é bom."
"Eu só estava ansioso para te dar alguma coisa pelo seu despertar bem-sucedido." Dain falou entre risadas, "E a pedra de sangue foi perfeita para sua afinidade com o sangue. Então saltei de cabeça."'
Ele suspirou, sua voz subitamente mais baixa: "Mas acabei te causando um problema, não foi?"
Kaden ficou surpreso com a mudança repentina, percebendo uma leve vergonha na fala de Dain.
Ele sorriu, balançando a mão de leve, "Tudo bem. De verdade." Cruzou os braços, "Não foi nada. E consegui a pedra de sangue. Portanto, seu presente foi bem recebido, irmão."
"A única coisa que falta é voltarmos ao Darklore." continuou Kaden, com Dain assentindo. "Pai, mãe e irmã ficarão muito felizes em te ver depois de tantos anos."
"Irmã?" Dain zombou, "Vamos falar da mesma? Aquela garota nem percebia se eu desaparecesse para sempre."
Os lábios de Kaden se contorceram: "Não fale assim. Daela é só tímida. Não ligue na atitude silenciosa dela."
"Não, não, não," Dain negou veementemente, "Eu conheço minha irmã! Estive com ela mesmo quando pai e mãe não estavam em casa."
A voz de Dain ficou mais baixa, "Sei que ela me odeia."
"Mas por quê?" Kaden tentou segurar a risada, "Fez alguma coisa?"
Dain ficou em silêncio, inclinando a cabeça pensativamente, "Fiz muitas coisas, mais novo. Você precisa ser mais preciso nisso."
A sobrancelha de Kaden se ergueu, "O que você fez com a irmã?"
"Só com Daela?" Dain refletiu, depois assentiu, "Bom, quando éramos jovens, forcei ela a brincar comigo numa disputa de força. É claro que eu sempre vencia, então toda vez que ela perdia, tinha que fazer flexões nas minhas costas."
Os olhos de Kaden se arregalaram, "Você não teve coragem…?"
Dain inclinou a cabeça com um sorriso radiante, parecendo encantado com a lembrança do tormento que infligia em Daela, "Era um jogo justo, mais novo."
"Jogo justo que nem a sua puta merda." Kaden zombou, olhando para seu corpo musculoso e para o corpo esguio de Daela.
Ele ficou verdadeiramente chocado. Mas então…
"Tenho dúvidas de como você vai se sair com ela agora," Kaden sorriu maliciosamente, "Aposto que não consegue mais intimidá-la."
Dain respondeu com um sorriso, com seus braços robustos atravessados, cheio de cicatrizes que cruzavam seu peito, "Vamos ver. E não, mais novo, não era intimidação. Era um jogo justo, tá bom? Jogo justo!"
Voltaram a conversar por um tempo breve, risadas ecoando de leve, até que as vozes foram desaparecendo aos poucos.
Nenhum deles falou por um momento, até que uma coisa estranha cruzou a cabeça de Kaden.
Ele sorriu, de forma lentamente maliciosa.
"Antes de voltarmos ao Darklore," disse, "que tal criarmos uma memória compartilhada entre nós?"
Olhos de Dain brilharam com ansiedade repentina, "Claro, mais novo. Mas que tipo de memória? O que vamos fazer?"
Kaden levantou-se lentamente da cadeira, alongando seu corpo tenso.
"O que mais?" respondeu, sua forma começando a liquefazer-se em sangue.
"Fazemos o que sabemos fazer de melhor."
Ele virou a cabeça, olhando por cima do ombro esquerdo para Dain, "Espero que ainda consiga lutar."
Dain sorriu, fogo amarelo começando a se enrolar ao redor do corpo como vapor. Dentro de seus olhos, piscava a silhueta de uma colossal machadada de batalha flamejante de duas mãos.
"O alvo?"
O corpo de Kaden começou a desaparecer.
"Cidade de Prata."
Ele desapareceu.
Dain riu alto, então explodiu numa tempestade de fogo. Quando as chamas se apagaram, ele também havia sumido.
…
Por cima da Cidade de Prata, duas criaturas surgiram do nada.
Senhor de Prata, dentro de seu estudo, ficou tenso, seu olhar subitamente se dirigindo para cima. Sentindo o poder esmagador que emanava do alto, amaldiçoou e se levantou abruptamente.
"Não resta mais nada dentro deste império. Vou completar os trabalhos de meus antepassados!" soltou, antes de desaparecer por trás de camadas de defesas mágicas.
Enquanto isso, lá no alto, Kaden e Dain observavam a cidade destruída com calma.
"Mostre do que é capaz. Proteja os inocentes." pediu Kaden à Blanche, que então detonou para fora.
Fogo irrompeu no céu, condensando-se em uma águia fênix colossal, de cor rubi-dourada.
Vento fervente atingiu a cidade abaixo. Imediatamente, as pessoas olharam para cima assustadas e aterrorizadas.
A fênix ergueu a cabeça, esticou o bico, e soltou um grito arrepiante. Depois, batendo suas asas flamejantes, jorrou chamas para fora e mergulhou direto na cidade.
Gritos de horror ecoaram.
Dain assistia com um sorriso: "Não me envergonhe, grifo."
Grifo bufou mentalmente: 'Sou melhor que uma porra de galinha, seu desgraçado.'
Sem dizer mais nada, o grifo quebrou o contato com o corpo de Dain e abriu suas asas.
Um segundo sol acendeu no céu.
E o mundo queimou sob o olhar dos irmãos Guerreiros.