Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!

Capítulo 359

Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!

"Foi difícil?" perguntou Vaela, com a voz tão suave quanto neve derretendo.

Dain já tinha voltado a dormir após cumprimentar o irmão, sorrindo como um bobo, prometendo uma conversa séria depois de uma soneca bem merecida.

Restava apenas Vaela e Kaden, os demais tendo a inteligência suficiente para saber quando surgia de repente uma tarefa a cumprir.

Agora, Vaela estava com Kaden em uma parte do calabouço, em completo silêncio. Kaden estava sentado em uma cadeira feita de sangue, enquanto ela se acomodava na terra entre suas pernas, oferecendo-lhe seus longos cabelos sedosos e escarlates.

Sua máscara desaparecera do rosto, assim como a de Kaden. Lá, podia-se ver que os olhos de Vaela agora eram completamente brancos, como uma tela em branco, esperando que algo os pintasse com brilho estrelado.

Kaden estava trançando seus cabelos, com mãos ágeis e estranhamente profissionais, um pequeno sorriso estampado no rosto bonito.

O vento ao redor era suave e delicado, sussurrando dentro de seus ouvidos como uma canção de ninar.

O ar tinha um gosto suave e doce. O sol artificial do calabouço tinha se recolhido ao esquecimento, agora permitindo que um céu estrelado colorisse a noite.

À frente de Vaela havia uma tela em branco, e ao seu lado, à direita, estava o conjunto completo de suas ferramentas de pintura.

Ela lambeu os lábios, ansiosa para começar a pintar.

Sua pergunta ecoou na cabeça de Kaden, e sua mente cintilou por um momento, voltando a tudo o que passara.

Ele havia vindo para Asterion somente para ir à Igreja da Dor, com a intenção de resolver um mistério relacionado à sua noiva, Rea.

Mas tanta coisa aconteceu apenas com aquela decisão simples.

Não era sempre assim? Uma decisão, aparentemente simples na superfície, levando a um destino que ninguém poderia prever?

Foi o que aconteceu com Kaden.

Ele foi capturado, preso na Casa deLoucos, morreu várias vezes para evoluir suas duas intenções, iniciou uma busca mítica, conheceu os dois príncipes de Asterion, viu Aurora... e assim por diante.

Muitas coisas aconteceram.

Mas…

Foi difícil?

Honestamente, essa era uma pergunta que Kaden teria entregado um sorriso de deboche se fosse qualquer outra pessoa.

Mas naquele momento… Kaden estava exausto. Aceitou o fardo, mas precisava liberar um pouco dele. E se nem mesmo podia abrir seu coração para quem dividia sua vida e morte, então a quem mais poderia confiar?

Então, abriu lentamente os lábios, com movimentos calmos e suaves enquanto trançava os cabelos de Vaela em lindas tranças,

"Sim." sussurrou Kaden, "Foi difícil."

"Valeu a pena?" perguntou Vaela mais uma vez, com as mãos ágeis mudando a imagem na tela, "E você conseguiu tudo o que buscava?"

"Valeu a pena?" repetiu Kaden, assentindo levemente, "Realmente valeu o esforço e a dor. Mas mesmo assim, não consegui fazer uma coisa que deveria."

"Qual foi?" perguntou Vaela.

Kaden fez uma pausa. Olhou profundamente para Vaela e sua forma de pintar. Memórias vieram à tona.

Agora, ele entendia por que sentia uma aura familiar nela. Somente Aurora poderia pintar daquela forma, e o perfume de Aurora estava por toda parte na Vaela, como um véu envolvendo-a.

Na mesma respiração, percebeu como, na busca mítica, Aurora era assombrosamente similar a Vaela em algum aspecto surpreendente. Às vezes, ela dizia as mesmas palavras que Vaela uma vez dissera a ele, e o desejo de ser seus olhos era idêntico ao de Vaela também.

Kaden começou a questionar, mas não durou muito. Ele travou seu raciocínio com força, e simplesmente respondeu. Seu coração começou a acelerar, vindo de uma caminhada até uma corrida completa.

Seu peito pulsava forte.

"Eu," começou ele, expirando um suspiro espesso para aliviar a tensão no corpo, "não consegui salvar a pessoa que prometi salvar."

Vaela abafou uma risada divertida ao perceber o coração acelerado de Kaden. Ele era realmente fofo. Ainda assim, ela não ficava atrás, concentrando a maior parte de sua energia para acalmar seu coração descompassado e evitar que seu rosto parecesse coberto por uma quantidade excessiva de sangue acumulado.

"Você sabia," disse Vaela, "que salvar alguém, minha querida, nem sempre significa mantê-la viva?"

"O quê?" perguntou Kaden, confuso.

Vaela respirou fundo e explicou:

"Existe algo muito mais profundo do que simplesmente impedir alguém de morrer." Ela disse, "Você pode impedir alguém de morrer, mas isso não significa que pode dar a essa pessoa a vontade e determinação de enfrentar o mundo."

"Então, naquela hora, que importância tinha se você fez aquela criatura escapar da morte? No momento em que você vira as costas, minha querida, essa pessoa saltará na primeira oportunidade para juntar-se ao além."

Ela fez uma breve pausa e, em sussurro suave…

"Pois não havia vontade dentro dela. E não há vida sem a vontade de viver."

Suas mãos aceleraram sobre a tela branca. Lentamente, formas começaram a surgir. Uma costas, dois braços, um abraço.

Kaden ainda trançava seus cabelos, mas seus dedos estavam mais lentos, seus olhos se arregalaram ao perceber a compreensão surgindo.

Mais uma vez, seus olhos estrelados em tom carmesim começaram a brilhar.

Ele amaldiçoou silenciosamente.

Vaela continuou suavemente, com uma voz carregada de uma emoção distinta.

Uma que Kaden conhecia bem de antes.

Aquela que ele sentira de Meris. E que também percebera na sua família, embora de modo diferente.

Era uma sensação que também experimentara durante suas reuniões na busca mítica, com Vert e Estelle. Mas lá também, de outro sabor.

A sensação que transbordava na voz de Vaela era pesada e esmagadora, como se quisesse consumi-lo por completo. Ainda assim, Kaden sentiu-se disposto.

Estranho, pensou, coração acelerando mais uma vez.

"Então, não se cobre tanto, minha querida." murmurou Vaela, "Você tem o direito de ser misericordioso consigo mesmo, assim como é com os outros. Talvez você não tenha prolongado a vida da Aurora…"

Seu coração pulou ao ouvir seu nome,

"…mas você lhe deu a vida, pois o que ela tinha de viver não era uma vida." Você a libertou da escravidão e a seguiu em sua missão de derrubar um império. Mostrou a ela como a vida pode ser cruel e bela ao mesmo tempo, e que vale a pena viver mesmo nos tempos sombrios."

As mãos de Kaden pararam. Sua cabeça ficou baixa.

"Você fez ela desejar viver mais, e com isso veio o desejo de viver com você e por você."

Prometeufo nunca mais falar. Vaela sorriu, sua pintura finalmente terminada.

Ela colocou as ferramentas de pintura no chão, virou-se rapidamente, e encarou Kaden, vendo-o abaixar a cabeça, escondendo as lágrimas.

Tombaram-lhe também lágrimas pelos olhos, ao ver as dele.

Ela levantou lentamente as mãos, com os dedos sujos de tinta, mas não se importou. Firmou o rosto de Kaden entre as palmas, levantou sua cabeça para que pudessem olhar nos olhos um do outro.

Sorriso de Vaela se aprofundou, lindamente triste, em seu rosto embargado de lágrimas.

Mas como poderia não ser lindo?

Depois de tudo, uma mulher apaixonada, como uma autora dramática e inteligente uma vez escreveu, era realmente bela.

Kaden ficou hipnotizado, por um momento viu a imagem de Vaela e Aurora sorrindo para ele antes de se fundirem em um só ser… aquele que estava diante dele.

Seus olhos se arregalaram, finalmente compreendendo.

"Você entende agora?" perguntou Vaela, rindo suavemente, "Você a salvou, meu querido. E eu sou a prova viva do seu esforço e do seu sofrimento."

"Aurora talvez já não esteja mais aqui, mas eu a tenho dentro de mim, e assim sou mais completa."

Ela inclinou a cabeça para frente e colocou a testa contra a dele, "Já não sou mais Vaela Cerveau, A Vidente. Também não sou Aurora Estelar, A Última Estrela…"

Ela fez uma pausa, então…

"…Sou ambas. Sou Vaela Aurora Crimson, A Estrela Carmesim." Ela sorriu marotamente, "e sou seus olhos."

"Então mantenha a cabeça erguida, meu querido."

Sua voz esfriou, e virou um sussurro,

"Aurora morreu com vida dentro dela." Seus olhos estavam fixos, um no outro, "Você não falhou, Kaden. Você não."

Kaden absorveu todas essas palavras, lágrimas escorrendo, compreendendo tudo o que Vaela acabara de dizer.

A Aurora já não existia, mas ela deixou no lugar dela a Vaela à sua frente. Vaela herdara suas memórias, seus sentimentos, toda sua existência.

No final, assim como ele carregava o peso da existência e da morte de Aurora, ela carregava o mesmo — de forma diferente.

Ele sorriu de leve, enxugando lentamente as lágrimas,

"Conseguirá suportar isso?" perguntou, com a voz carregada de emoção.

Vaela sorriu de lado, "Se eu não puder, então ninguém pode."

Kaden riu com força.

"Mas…" continuou Vaela, aproximando ainda mais a cabeça de Kaden, "…reconheço que tenho um desejo que não consigo resistir, meu amor."

Kaden congelou. Vaela estava a apenas um palmo dele, a respiração entrelaçada, os narizes se beijando timidamente, enquanto os lábios sussurravam em uma língua proibida.

Ele fez um sorriso torto,

"Cuidado, Vaela," disse ele, "ainda tenho quinze anos."

Vaela colocou os olhos no alto, "Não sou sua mamãe açucarada?"

"Isso não é o que define uma mamãe de açúcar."

"Então, vou criar a minha própria." ela chegou um pouco mais perto, com os lábios tremendo e o rosto corado mesmo diante de seu ato corajoso.

Ela era mais velha que Kaden, mas Vaela nunca tinha beijado ninguém antes. Essa seria sua primeira vez.

Mas, feliz ou infelizmente, ela não planejava beijá-lo naquele dia.

"Você já tem suas duas noivas." disse Vaela, "Só vou tocar seus lábios quando minha existência for revelada a elas e à sua família. Por enquanto…"

Ela virou o pescoço para um lado e deu um beijo suave na bochecha direita dele.

Os olhos de Kaden se arregalaram.

Ela se afastou do rosto dele, deixando um marcado borrado de lábios em forma de coração vermelho vibrante. Com um sorriso satisfeito, olhou de volta para Kaden, cujos olhos pareciam perdidos e atordoados.

Vaela riu, o coração transbordando de uma sensação de alegria intensa,

"Já disse isso?" perguntou entre risadas.

Kaden olhou para ela, ainda fascinado, "Q-que?"

O rosto de Vaela se abriu num sorriso radiante,

"Eu morro por você, Kaden Warborn." ela disse, "Você sabia disso?"

Kaden ficou em silêncio, compreendendo o significado por trás dessas palavras. Fechou os olhos, os lábios se curvando para cima,

"Eu morro por você também, Vaela."

Ele fez uma pausa, então…

"Mas eu já morri."

"O quê?"

Kaden riu agora. Nesse momento, seus olhos foram involuntariamente atraídos pela pintura que Vaela havia feito.

Ele congelou, dilatando os olhos.

Era uma pintura de suas costas, com a Marca do Peso realista, sendo apertada por Vaela em um abraço apertado e esmagador.

Ao ver aquilo, novamente, ele riu, pois sabia que o peso que carregava…

‘Vale a pena.’

—Fim do Capítulo 359—

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