
Capítulo 358
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
"I-isso..." exclamou Velho Smith, seus olhos negros dilatando-se enquanto olhava para seu corpo com incredulidade total.
Justamente agora, ela sentira a presença onipresente de Mahina ao seu redor desaparecendo completamente, fazendo sua alma — que parecia estar presa numa espécie de sufocamento — finalmente soltar um suspiro de alívio intenso.
A pressão, o medo e a apreensão que estavam dentro dela, azedando sua própria vida, tudo se desfez. De repente, ela sentiu como se tivesse perdido toda energia em seu corpo.
Ela cambaleou, então caiu, seu traseiro beijando o chão com um barulho alto.
Olhos começaram a se voltar para ela, mas Smith não se importou.
Ela encolheu as pernas curtinhas até o peito, ergueu duas mãos e então cobriu o rosto com as mãos suadas. Logo, soluços abafados emergiram do silêncio do calabouço, repletos de felicidade e de uma sensação clara de liberdade.
A liberdade, percebeu Smith entre lágrimas quentes, era a única coisa que valia à pena na vida.
De fato, ninguém poderia entender a sensação angustiante de viver sabendo que, se algum ser acordasse de cabeça para baixo, você seria enterrado sob a terra.
O medo de viver nessa constante ameaça era algo que Smith não queria que sequer seus inimigos experimentassem.
Isso arrancaria sua centelha, deixando-a somente com inseguranças e paranoias. Um farfalhar miserável de quem ela deveria ser.
E há algo pior do que viver a sua vida sem sentir que ela é sua de verdade?
Smith conhecia a resposta para essa questão. Mas preferia não saber, se isso significasse passar por tamanha provação.
Porém, assim é a vida.
Respostas tinham um preço.
E nem todos poderiam pagar por esse preço alto. Ou, simplesmente, nem todos estariam dispostos a pagar por uma resposta que poderia enlouquecer alguém.
O conhecimento era um fardo, como uma vez disse uma Fênix.
Porém, finalmente Smith herdara de volta sua vida, e finalmente pôde chorar sem temer a morte, sob a vontade de outro ser.
Liberdade. Uma palavra. Ainda assim, pesada na língua, ainda mais pesada na mente.
Enquanto isso, o Antropólogo, Arruinado e Abominação observavam aquela cena com diferentes olhares.
O Antropólogo via com olhos melancólicos, compreendendo muito bem o que Nihilia sentia. Na verdade, ele entendia mais do que qualquer um poderia imaginar.
Ele lentamente deslizou seu olhar castanho de Smith para seu próprio corpo, admirando as tatuagens vermelhas que encantadoramente pintavam sua pele morena. Um sorriso torto e irônico surgiu nos lábios dele, desaparecendo assim que apareceu.
'Ah, a ironia da vida, acho que é isso,' pensou, com os pensamentos fervilhando, 'mas valeu a pena. Realmente valeu a pena.'
Ele repetia isso como se estivesse mais convencendo a si mesmo do que qualquer outra coisa.
'Mas quero saber,' continuou o Antropólogo, com os olhos brilhando, 'se o mestre seria capaz de suportar meu fardo e me libertar dessas correntes que prendem minha existência.'
Era um pensamento estranho, e o Antropólogo sabia bem o que isso significaria se seu mestre optasse por esse caminho. Ainda assim, algum sentimento lhe dizia que só ele poderia fazer isso.
'Sim, só ele. O Escravo o escolheu, mas não apenas ele. Muitos fizeram isso.' O Antropólogo sorriu de forma estranha e, então, fechou os olhos em paz.
Por ora, ele precisava esperar. E esperaria, facilmente, pois a paciência fazia parte de sua essência de pedra.
Ele sorriu mais uma vez.
Enquanto isso, a Abominação observava Smith com empatia. Para ela, o que Smith estava passando era muito semelhante ao seu passado.
O passado em que ela era feia — não, em que ela era asquerosa — incapaz de fazer qualquer coisa que desejasse, pois humanos e bestas fugiriam ao ver seu rosto.
A Abominação sempre quis construir conexões com os outros e viver uma vida digna. Talvez porque nasceu com a morte no coração e uma percepção aguçada para uma besta, fazendo-lhe sentir coisas mais intensas que o normal… mas ela realmente desejava alguém para chamar de amigo.
Alguém que estivesse com ela nesta jornada, onde o fim poderia bater à porta a qualquer momento.
Porém, toda vez que tentava algo, era rejeitada por sua aparência física.
Era doloroso ver como seres — bestas e humanos — julgavam apenas pela aparência exterior. Será que não sabiam que o corpo é apenas um vaso para algo mais importante? Algo mais significativo e maior?
Sabiam, mas se importavam mais com o que podia ser falsificado do que com o que não podia.
Mais uma vez, a ironia da vida.
Essas experiências a forçaram a viver uma vida de restrições e infelicidade. Assim, ela virou uma monstro que matava qualquer um sem misericórdia, sabendo que eles só se importariam com o que ela fosse, e não quem realmente era.
Um monstro.
E isso durou até ela conhecer Kaden, que a libertou de uma vida de tormento interno e autoaversão.
Ela era horrenda, mas por mais que Kaden sentisse algo, seu coração era tão puro que conseguia esconder isso, sabendo que magoaria ela.
Seu mestre foi além e lhe deu uma aparência completamente nova. Era só uma camada de carne, ela costumava dizer, mas era exatamente isso que a ajudou a se abrir e interagir com as pessoas.
Mais uma vez, a ironia da vida.
Em uma frase, Kaden lhe deu uma nova vida. E isso, pensou Abominação, era algo que o próprio homem nem percebia.
Por isso ela o amava. Por isso estaria pronta a entregar toda sua existência por seu mestre.
E também por isso ela sentia uma conexão especial com Smith.
Com esforço consciente, ela se levantou de seu assento e foi em direção a ela. Chegando perto, ajoelhou-se, começando a consolar a forasteira que agora era livre, mas ao mesmo tempo…
"Veja só, anão negro," Abominação disse com tom arrastado, "essa é a grandiosidade do Ceifador. Ele é um homem de honra e integridade. Um que nunca decepciona quem confia nele e nunca abandonaria seu povo."
Abominação sorriu para o anão negro, seus olhos semicerrados de orgulho fanático,
"Ele é o único digno de seguir," ela sussurrou, "Agora, pequenino, acho que nem preciso dizer mais, certo?"
Abominação achou Smith perigosa demais e poderosa demais para simplesmente soltá-la. Precisam dela. Com delicadeza, claro.
'Sim,' ela sorriu maliciosamente por dentro, 'bem devagarzinho.'
Normalmente, essa era a tarefa do Vidente em recrutá-la, mas seu querido capitão ainda dormia.
Ela faria o serviço, então.
Logo, dava para ver a Abominação ministrando uma palestra intensa sobre como só o Ceifador era digno de adoração e poderia guiá-los ao mais alto pico.
O Antropólogo, vendo aquilo, soltou uma risada divertida, enquanto Arruinado observava a cena com aprovação.
Por uma vez, ele estava ao lado da Abominação.
O Cavaleiro também havia sido renascido graças ao poder de Kaden, tendo a oportunidade de viver uma nova vida. E melhor ainda: sua vida agora também estava ligada à do mestre, tornando-o eterno servo dele.
Um que morreria se seu mestre morresse.
Essa era sua maior alegria. Para ele, um Cavaleiro não tinha direito de respirar ou empunhar sua espada se seu mestre se fosse.
O único caminho era segui-lo ao túmulo e continuar sua missão na vida após a morte.
Essa era uma das virtudes de um Cavaleiro.
Todos começaram a refletir sobre como Kaden mudara suas vidas. Nesse processo, perceberam que ele não apenas mudou suas vidas...
Ele lhes deu uma nova vida. E com isso, um novo propósito.
Um propósito simples: segui-lo.
E, por alguma razão, isso era mais gratificante do que tudo o mais.
O mesmo valia para Vaela Aurora Crimson, que, por vontade do destino, despertou após dormir tão tempo exatamente naquele momento.
E as primeiras palavras que saíram de sua boca foram inesperadas: "Ele é assim mesmo." Vaela disse, lentamente se levantando, com a voz estranhamente doce, "É assim que meu querido é."
Lentamente, ela conseguiu ficar de pé. Ergueu seu rosto mascarado para o sol artificial do calabouço, que banhava todo o seu corpo.
Seus olhos ainda estavam enevoados, mas Vaela sabia que não demoraria muito para que se adaptasse.
"Como foi seu sono?" perguntou o Antropólogo, com olhos semicerrados, olhando para Vaela. "Demorou um pouco. O sonho foi interessante, ao menos?"
Vaela sorriu de relance, depois abaixou a cabeça para encarar ele de novo, "Mais do que se esperava."
O Antropólogo assentiu, "De fato." Ele reconheceu, "Você parece diferente agora, Vidente. Como se," ele inclinou a cabeça, "não fosse mais a mesma, embora de algum modo ainda seja."
Ele riu suavemente, enquanto os demais a observavam.
"Confuso, não é?"
Vaela deu de ombros de forma preguiçosa, virou-se de costas e caminhou até onde Dain dormia. Seus passos eram silenciosos, apenas um sussurro contra o chão coberto de mato.
Ao olhar para Dain, ela percebeu que o homem acordaria em breve.
Partiu os lábios:
"Não é assim a vida? Cada segundo que passa nos transforma de uma maneira que nem percebemos. Então, vamos dizer que absorvi dentro de mim inúmeros desses segundos em apenas um."
Ela pediu ao Antropólogo, "Talvez essa seja a razão do seu sentimento."
Na sua trajetória, ela cruzou com Abominação e Smith, dando-lhes um leve aceno de cumprimento.
Logo atrás, o Antropólogo conteve uma risada, "Hoje está filosófica, hein, Vidente?"
"Acho que sim." Vaela sorriu, parando a poucos centímetros de Dain.
'Ele realmente se parece com o meu querido,' pensou silenciosamente.
"Então—!"
O Antropólogo engoliu as palavras ao sentir uma presença repentina preencher o calabouço instantaneamente.
A presença era silenciosa, mas escaldante e infinita de um modo aterrorizante. Todos instintivamente ergueram suas defesas, expressões tensas, habilidades prontas para explodir, até que, finalmente, voltaram suas cabeças na direção daquela presença.
Lá, viam um homem sendo lentamente reconstruído de cinzas rubro-ouro.
Em pouco tempo, ele estava completamente inteiro.
O homem era alto, com uma máscara simples de sangue no rosto, escondendo tudo, exceto seus olhos estrelados de sangue.
Houve um silêncio súbito que cresceu ao redor. Um silêncio que foi imediatamente rompido pela voz profunda e carregada de emoção de Vaela,
"Meu querido!" Vaela gritou de alegria, e em um piscar de olhos, se viu na frente de Kaden, abraçando-o com força e doçura ao mesmo tempo.
"Senti sua falta." Vaela sussurrou no ouvido dele, "Senti sua falta demais. Tão, tão, tão forte, meu querido!"
Kaden sorriu, sentindo as emoções intensas da sua Vidente, "Senti a sua também. Como você tem estado?" ele respondeu, mas por dentro, ficava perplexo, percebendo uma aura familiar em Vaela.
Porém, seus pensamentos foram interrompidos pelo aumento do coro de vozes que ecoava por todo o calabouço. Vozes cheias de reverência, respeito e amor,
"Saudamos o Ceifador!" disseram os membros dos Véus Vermelhos, então se curvaram.
Smith instintivamente refletiu seus gestos.
Vaela soltou seu abraço com Kaden, ficando ao seu lado, segurando sua mão, deixando que o homem cumprimentasse seus subordinados.
Espera-se uma fala profunda, mas Kaden apenas levantou a mão direita numa saudação simples,
"Olá, pessoal," ele riu, "Faz um tempo, né?"
Ele deu um passo à frente para conversar com eles adequadamente, mas parou ao ouvir uma voz sonolenta,
"Hm..." Dain se mexeu, rosnando.
Ele sentou na cama, olhou ao redor meio zonzeado. Franziu seus olhos vermelhos, meio sonolentos, e viu nada além de seres mascarados e Velho Smith.
Por algum motivo, um silêncio repentino tomou conta do calabouço, todos observando-o atentamente.
Porém, Dain ficou confuso. Torceu o pescoço de um lado, coçando a cabeça com preguiça,
"Estranho," ele sussurrou, com a voz pesada e alta demais mesmo ao sussurrar, "Tenho certeza que ouvi a voz do mais novo."
De repente, o coração de Kaden pulou uma batida. Ele congelou no lugar. Dain percebeu a reação. Mas antes que qualquer um pudesse reagir e impedir que ele revelasse a identidade de Kaden na frente de Smith…
O homem olhou de cima a baixo para Kaden, inclinou a cabeça para os lados, segurando o queixo com expressão pensativa, e então sorriu amplamente,
"Oi, oi, oi!" Ele riu alto, apontando para Kaden, "O que você está fazendo, mais novo? Está brincando de esconde-esconde?"
Sua risada rolou forte,
"Vem! Me dá uma máscara, irmão mais velho, e deixa eu brincar com você! E ah, você cresceu, hein! Quase não reconheci, quase! Ainda bem que seus olhos ajudaram, mesmo com estrelas dentro!"
"Hahaha! Quem se importa! Fica lindo em você, mais novo! Sua irmã iria gostar!"
"HAHAHA—!" ele riu, depois tossiu repentinamente, apertando o peito.
"Droga, Griffin! Faz isso de novo, e eu vou te dar uma surra!"
Ele tossiu outra vez.
Se deu um tapa na própria face.
Kaden assistia com olhos vazios, então lentamente levantou a cabeça, exasperado.
"Maldito irmão," ele murmurou.
O Antropólogo riu sem controle, enquanto a Abominação rolava no chão. Arruinado abaixou a cabeça como se escondesse o rosto, mas seu corpo tremia de rir.
Vaela tossia, mas dava para ouvir gargalhadas dançando a cada tossida.
Tudo isso enquanto Smith olhava para Kaden com choque evidente nos olhos,
"Kaden Guerreiro?" ela sussurrou, atônita.
Kaden virou lentamente o rosto para o outro lado,
"Você confundiu de pessoa," ele resmungou com indignação, seguido por um forte abraço de Dain.
CRASH—!
Seus músculos gritaram.
"Maldição, DAIN!!"
"HAHAHAHA—!"
Tosse! Tosse!
"DROGA, GRIFFIN!"
TAPA—!
—Fim do Capítulo 358—