
Capítulo 341
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
A dor de luto de uma mulher desfeita era algo que cortava o coração de ouvir. Juntando-se à atmosfera já sombria e carregada de medo, era uma que fazia alguns seres estremecerem de pavor, rezando com mais força por um alívio dessa pesadelo sem fim.
Neila Cerveau era apenas uma recém-despertada na época, mas, por alguma razão, seu grito ecoava por toda a capital de Asterion, acompanhado pelo som de rachaduras no céu, como se o próprio mundo estivesse dando sua voz.
E aquela voz de luto conseguiu chegar a um ser, que permanecia ereta e firme no meio da escuridão contorcida, um uniforme de criada moldando seu corpo perfeitamente.
Seu cabelo vermelho-branco caía suavemente sobre o rosto, cobrindo o olho esquerdo, deixando o direito aberto para o mundo testemunhar o roxo que brilhava com um brilho encantado.
Um guarda-chuva estava em sua mão de luva, colocado acima da cabeça para proteger-se dos ataques desviados de sua dona, a Imperatriz do Sol, que combatia contra a Lua.
Ela suspirou tristemente, sentindo algo que raramente havia experimentado em seus mil anos de vida. Sentiu tristeza e dor ao ver o estado deste império, tudo por causa da podridão oculta que permitiram que fermentasse por tempo demais na linhagem Asterion.
Achava aquilo uma vergonha, que uma linhagem que veio diretamente de um deus pudesse cair tão baixo e tornar-se tão miserável.
Ela lentamente ergueu a cabeça para o céu, vendo como ele se despedaçava e como fogo, gelo e trevas dançavam mortalmente ali.
Ela fez uma pausa, absorvendo aquela visão e perguntando o que Aster, o Celeste, diria ao ver seus descendentes nesse estado. Ou mesmo, o que Vesper Asterion, Primogênito de Aster, diria ao ver o império que ele tanto perdeu para construir.
Tão lamentável. Tão patético. Tão miserável.
Tudo por causa de regras e leis que deveriam ter sido descartadas nesta nova era. Mas não, os arrogantes eram teimosos demais. Até a chegada de sua ruína, eles nunca compreenderiam que tempos de mudança significam mudança de regras.
Evolução.
Esse era o tema de Fokay. Ainda assim, eles nunca perceberam isso.
E agora, veja o que você permitiu que acessassem, pensou ela, olhando para as sombras verdadeiras que se contorciam e se moviam lambendo seus pés.
Não eram sombras comuns. Eram sombras que vinham diretamente de OmbreNuit, a própria deusa das Sombras.
Ela deveria estar com medo delas, mas sentia apenas paz naquele novo estado do império, pois seu afinco com sombras e dissimulação atuava fortemente naquele ambiente.
Ela fechou os olhos para se estabilizar, forçando a calar os sussurros, quando uma voz suave atrás dela a interrompeu.
"Uma visão dessas, não é, Melantha Drought?"
A criada da Imperatriz do Sol — Melantha — não se virou ao ouvir seu nome.
"Você demorou, Sora," ela respondeu, agora olhando para baixo.
A Senhora Sora se aproximou com passos leves. Cada passo fazia com que as Verdadeiras Sombras se afastassem, como se tivessem medo ou relutância em se aproximar de algo dentro dela.
Sora apenas sorriu, dentes aparecendo, enquanto se posicionava ao lado de Melantha, seu olhar deslizando também para baixo. Seus lábios se abriram numa expressão suave e cheia de afeição.
"Então é ele," ela sussurrou, olhando para o garoto enrolado aos pés de Melantha. Era pequeno, aparentando uns sete anos, com cabelos dourados brilhando intensamente mesmo na escuridão pesada.
Ele parecía dormir tranquilamente, graças à presença de Melantha, que bloqueava qualquer sombra ou ataque desviado de tocá-lo.
Ao ouvir as palavras de Sora, Melantha apenas fez um som de reconhecimento, sentindo ao mesmo tempo os sussurros que havia bloqueado retornarem mais fortes dentro de sua cabeça.
Um sussurro de um Império. De um condenado.
Ela beliscou os lábios e ignorou o sussurro que a deusa tentava transmitir, concentrando-se novamente na situação atual.
"Qual é o nome dele?" perguntou Sora de novo, agachando-se e acariciando carinhosamente a bochecha do sobrinho.
"Apolo," Melantha Drought respondeu, sua voz de repente carregada, "Apolo Luminary Asterion, a Esperança do Império Celestial."
O sorriso de Sora se alargou, dentes caindo mais rápido,
"Apolo Luminary," ela repetiu,
"Que nome pesado você lhe deu, irmã."
…
Enquanto isso, na cidade de Prata destruída, Kaden permanecia entre os cadáveres de cavaleiros, seu corpo banhado em sangue, embora nenhum fosse seu.
Senhor Prata ainda pairava no céu, observando-o com seus olhos prateados que pareciam apodrecer tudo que tocavam.
Desta vez, com a ajuda de seu Domínio Ausência e do uso de sua Vontade — que devorava todo sangue e almas daqueles que matava — tornando-o mais forte, Kaden conseguiu destruir toda a equipe de Cavaleiros, deixando apenas Lord Silver, intacto, lá no alto.
Ele ainda não agiu, os dois se encarando enquanto sentiam as sombras opressivas dançando ao redor deles.
Kaden notou o desaparecimento do sol e da lua no céu, fazendo-o questionar e temer o que estaria acontecendo, mas não tinha tempo para pensar nisso.
Ele precisava matar seu inimigo. Mas primeiro, precisava lamentar a perda dos gêmeos.
Ele suspirou, inclinando ligeiramente a cabeça.
Sentira a morte deles, afinal, estavam ligados ao seu voto de sangue e tinham uma centelha de seu poder injetada neles.
Sabia que eles escolheram esse caminho, com ele apenas fornecendo os meios para que buscassem vingança contra a mãe violada.
Mas também sabia que poderia ter lhes dado outra chance, outra oportunidade de uma vida melhor. Uma longe do veneno que a vingança representa.
Beliscou os lábios, sentindo o sentimento de nojo e desprezo por si próprio deslizar dentro de seu coração.
Percebeu que era hipócrita, dolorosamente.
E não havia nada pior neste mundo do que um bastardo sanguinário e hipócrita.
Podia dizer que fez aquilo porque não era forte o suficiente para terminar essa missão sozinho, sem usar outras pessoas para alcançar seus objetivos, mas Kaden sabia que não faria isso com as pessoas que amava e se importava.
Verdade, havia feito as pazes com isso. Aceitava sacrificar outros pelos seus objetivos, se necessário. Pela sua família. Pelos seus queridos.
No entanto, sentia um amargo estranho, quase uma vergonha, por fazer exatamente o que dizia que não faria.
Ao pensar nisso, enquanto permanecia ali, entre uma muralha de carne rasgada, montanhas de corpos e um mar de sangue, Kaden lembrou-se das últimas palavras de seu mestre.
"Você é bastante sentimental para um assassino", tinha dito o Escravo, rindo enquanto morria.
Kaden deu uma risada sem humor, reconhecendo a verdade nas palavras do mestre.
Em seu âmago, Kaden era um garoto sensível e gentil, criado em uma família amorosa.
Era o mais novo. O favorito de seu pai, de sua mãe, de sua irmã, de seu irmão.
Era o centro de seus olhares.
E esses sentimentos penetraram profundamente nele, transformando-o no homem chamado Kaden Warborn, que salvou sua irmã das mãos de bestas.
O homem chamado O Ceifador, que salvou uma fortaleza inteira e um punhado de crianças mantidas em cativeiro por um bastardo manipulador de mentes.
E o homem chamado Prometeu. Um homem disposto a lutar contra um império por uma mulher.
Ele era um homem de amor, de peso, de honra.
E era exatamente por isso…
"Eu te fiz esperar muito, não foi?", finalmente falou Kaden, olhando para Lord Silver no céu. Sua voz estava rouca e carregada, como se estivesse sendo forçada por emoções conflitantes dentro dele.
"Você me surpreendeu, Prometeu", disse Lord Silver, "E também nos surpreendeu. Você chamou nossa atenção e respeito."
Ele estendeu a mão direita em sua direção, "Seu talento é incomparável, e Ele viu em você uma Semente da Morte como nunca antes. Uma com pureza inigualável em Sua vida imortal."
A voz de Lord Silver agora parecia a de trinta e três pessoas falando ao mesmo tempo. Era assustadora e arrepiante.
"Junte-se a nós, Prometeu. Junte-se a nós nesta busca por glória, poder, completude e Imortalidade Verdadeira."
Gradualmente, o rosto de Silver começou a brilhar, suas pupilas começaram a se transformar e tomar a forma do número 33.
"Tudo isso," continuou, fazendo um gesto em direção aos seus cavaleiros caídos, "poderá ser perdoado se você aceitar. E vou explicar o que está acontecendo e qual deus está tentando transformar o Império Celestial numa terra dos condenados agora que a influência da Celeste diminuiu."
Ao escutar todas essas palavras, Kaden não respondeu imediatamente, sua mente, emoções e corpo se conectando lentamente, revelando a formação completa de seu domínio.
Ele estava próximo. Muito próximo.
Levantar a cabeça e olhar para os olhos em formato de 33 de Lord Silver, tendo a sensação instintiva de que não estava mais falando com um homem, mas, ao menos, não era mais o tipo de pessoa que conhecia.
"O que você é?" perguntou Kaden.
Lord Silver sorriu de forma lunática, "Sou Castria Silver, o escolhido dos Trinta e Três, o Buscador da Ascensão."
"Um escolhido?" repetiu Kaden, então sorriu, "Fico decepcionado. Achava que era o único escolhido. Mas diga, quem o escolheu?"
Ele inclinou a cabeça, "Um deus?"
Silver franziu a testa, "Claro que é um deus."
Kaden ficou em silêncio de repente, finalmente compreendendo seu domínio e o que precisava deixar para invocá-lo.
Seu domínio era vazio.
Então, todas as emoções, peso e turbulentos pensamentos deviam ir embora. Tudo que o perturbava tinha que ser afogado no silêncio vazio.
E ao abandonar tudo isso, ele se entregaria.
Seria vazio, livre de qualquer coisa.
E percebeu que quanto mais coisas deixava para trás em sua jornada de abraçar o vazio…
…mais forte seu domínio se tornaria.
Então, Kaden alcançou a renúncia completa e, com um sorriso largo no rosto, levantou a cabeça e olhou para Lord Silver, sua pele começando a se mover como se serpentes deslizando por dentro, seus olhos lentamente perdendo qualquer sentimento, pensamento ou emoção.
"Se você foi escolhido por um deus, Lord Silver," disse ele, seu sorriso feliz lentamente se tornando uma expressão vazia, "então eu, Prometeu, sou escolhido pelo próprio universo."
Lord Silver franziu a testa, então seus olhos se arregalaram de choque absoluto quando uma luz invisível aterrorizante explodiu de Kaden, envolvendo toda a Cidade Prateada em um vazio repentino, sua voz ecoando como de um deus.
Uma voz vazia de qualquer coisa.
Lord Silver tremeu, o medo surgindo fundo em seus olhos, "H-Como? Vazio? Como? Como pode isso te escolher? Como o vazio—!"
Kaden ergueu seu dedo indicador e o colocou sobre a boca.
Instintivamente, Lord Silver silenciou-se. Ia abrir a boca para falar, mas—!
"Ativação do Domínio…"
A cidade desapareceu.
"Berço do Vazio."