
Capítulo 340
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
Com sombras verdadeiras — aquelas que vêm somente da própria Origem das Sombras — inundando todo o império por causa do desaparecimento do Sol e da Lua, já não era mais possível dizer quantas vezes o tempo passou.
Era como se o próprio conceito de tempo deixasse de existir com as duas figuras celestiais desaparecidas.
Todos eles, sejam pessoas comuns, nobres inferiores ou seres capazes de raciocínio lógico… todos pareciam ter estado nesse estado de escuridão por um número incalculável de anos, e alguns de mentes mais frágeis começaram a falar de uma nova “Era”.
A Era das Trevas, começaram a sussurrar com medo refletido em cada uma de suas frases, enquanto se agrupavam, tentando buscar calor em um mundo sem ele.
Mas Neila não se importava com tudo o que acontecia no Império Celestial, nem mesmo no mundo como um todo, pois ela estava perdendo seu próprio mundo. E isso, bem diante de seus olhos.
Ela olhou para Solaris e percebeu como, a cada segundo que passava, seu coração — que Neila podia enxergar claramente através da carne quebrada do peito dele — batia mais e mais lentamente.
Neila se viu temerosa, antecipando o próximo segundo, pois o coração de Solaris poderia parar a qualquer momento.
O calor habitual de seu corpo, devido à sua afinidade com o Sol, estava se apagando, dando lugar ao frio gélido da morte.
Neila não conseguiu evitar o calafrio, nem deixou de sentir as lágrimas caírem e escorrerem pelo rosto de Solaris como uma enxurrada.
A ferida na testa dela, que havia parado de sangrar, começou a vazar sangue novamente, manchando suas sobrancelhas e o rosto. Seus olhos azuis começaram a refletir o estado de Solaris, perdendo sua luz do mesmo modo que ele perdia sua vida.
— Por favor… por favor, meu amor, não me deixe sozinha! — Ela inclinou a cabeça e colocou-a sobre a carne queimada e escurecida dele. Estremeceu — Por favor… você é tudo o que eu tenho!
Ela chorava.
— Você é a única pessoa que me viu como humana. A única que me amou, mesmo quando meu corpo era violado todas as noites pelo seu próprio pai. Você foi o único que não me olhou com nojo. Você é o único, Solaris! Então, por favor… — ela soluçou, incapaz de conter a avalanche de emoções que apertava seu peito e a arrastava para baixo — Não me deixe sozinha de novo. Não consigo viver sem—!
— P-Você consegue. — Solaris interrompeu seu discurso, sua voz rouca e trêmula. Cada palavra que surgia piorava seu estado, mais do que ele imaginava. E, com sua mente mergulhada numa lógica de loucura cada vez mais desvairada, ele ia perdendo a sanidade.
Ele realmente estava enlouquecendo, e a única razão pela qual ainda conseguia permanecer de pé era graças a Neila, que era sua âncora.
Porém, ele não podia deixá-la ali, pois o céu do mundo estava rachando junto com um dos tetos, e ambos poderiam desabar a qualquer momento sobre eles.
Ela morreria se permanecesse ali.
— I-irei morrer de qualquer jeito, — Neila sussurrou, inclinando-se totalmente sobre ele, deitando-se ao seu lado, com o corpo nu mais uma vez, pois a cortina já tinha se desintegrado completamente.
Eles se olharam: Solaris com seu olho dourado, e Neila com seus olhos azuis inchados e arregalados.
Ela estendeu a mão e suavemente acariciou a face dele, onde ainda restava carne: — Eu vou morrer de qualquer forma, meu amor. Sou uma Desaproveitada. Não tenho origem, poder ou família. Não tenho nada além de você. E não quero ter nada além de você. Não vou sobreviver, meu amor. Não quero viver essa vida sem você. Então… — ela inclinou o rosto e o beijou nos lábios ossudos, lágrimas caindo ainda mais forte — …deixe-me morrer com você.
— V-você vai viver. — Solaris respirou, segurando firmemente a mão dela, seu olho dourado brilhando com mais intensidade — Você vai viver, Neila, e não ficará impotente.
Os olhos de Neila se arregalaram de choque absoluto, sua face perdendo toda a cor enquanto ela sentia algo acontecendo dentro de seu corpo.
Acima, o teto do cômodo foi repentinamente arrancado por um corpo de um colossal lobo azul escuro morto, que caiu com força sobre ele.
O poder liberado de seu corpo foi suficiente para inundar o cômodo com uma escuridão sufocante.
Solaris percebeu que o tempo era escasso e a morte poderia chegar a qualquer momento. Assim, com Neila incapaz de compreender o que acontecia, ele falou rapidamente, sentindo a força da morte puxando-o cada vez mais forte para o mundo dos mortos.
Seus olhos estavam embaçados, sua respiração pesada e superficial, mas ele falou. Seus últimos palavras para a única pessoa que realmente importava neste mundo:
— Não posso te dar minha origem do Sol, pois ela está ligada ao meu sangue, — ele respirou, lágrimas douradas caindo do seu único olho — Mas posso te dar minha Origem da Mente, porque ela é minha e somente minha.
Neila começou a tremer violentamente, — Não, não! Deixa eu morrer! Deixa eu morrer, Solaris! —
— VOCÊ NÃO VAI! — Solaris gritou, tossindo sangue de repente. Neila chorou ainda mais forte, pedindo para ele parar de forçar o corpo,
— Por favor, não grite! — ela soluçou.
— Ouça bem, Neila Cerveau, — Solaris ordenou mais uma vez, fazendo Neila ouvi-lo, machucada — Vou passar para você minha Origem da Mente. Você precisa viver. Precisa viver, meu amor.
O corpo de Neila começou a ser envolvido por uma luz azul cegante, enquanto ela sentia algo entrando profundamente em seu sangue, enquanto Solaris ia ficando cada vez mais fraco.
— N-não morra… — Solaris sussurrou, enquanto o castelo inteiro começava a congelar e a arder ao mesmo tempo.
Sentindo o perigo e vendo Neila ainda absorvendo sua origem, Solaris usou sua última força, seu mana e sua intenção, para envolver Neila em um casulo de proteção de armadura, antes de a lançar para longe do castelo, ouvindo no final o grito agonizante de Neila chamando seu nome.
Por fim, ele permaneceu ali, sozinho, destruído, queimado, aguardando sua morte inevitável. Sua mente estava sendo consumida pela loucura, mas havia consolo na sua morte, pois ele sabia que a pessoa que amava deixaria de ser impotente.
Ela iria viver.
Ela precisa viver. Ela precisa!
Enquanto esses pensamentos permeavam, fogo e gelo inundaram todo o castelo, numa maré de horror, vindo de um reino desconhecido.
Ele abriu a boca para gritar, mas sua garganta primeiro queimou e depois congelou ao mesmo tempo. Seu corpo inteiro logo seguiu o mesmo caminho.
Queimado pelo fogo de sua própria mãe e congelado pelo gelo do seu tio.
Solaris não sabia se devia rir ou chorar pela ironia da sua morte.
No final, Solaris morreu de forma agonizante, seu último pensamento sendo uma súplica partida, um desejo a quem pudesse ouvir a oração de um homem destruído como ele:
Viva, Neila Cerveau! Viva!
Ele orou, não pelo império, nem pela família, nem por Aurora… mas por sua amada, enquanto dava sua última respiração de dor.
E enquanto o grito de luto de sua amada ecoava por toda a capital, profundo e comovente, ela herdava seu poder.
Era uma origem do tipo mental, mas sua mente já estava destruída e quebrada.
Mesmo assim, ela aceitou, pois era a herança daquele que ela mais amava e jamais deixaria de amar.
E assim nasceu Neila Cerveau…
… A Mente Quebrada.
—Fim do Capítulo 340—