Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!

Capítulo 322

Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!

O Antropólogo observava com a concentração e silêncio próprios de uma pedra a cena do homem em chamas, um ser ardente que parecia um deus enlouquecido que tinha provocado a ira dos céus e agora era banhado em fogo por causa disso.

Não restava dúvida de que a dor que aquele homem — cujo nome agora sabia ser Dain Warborn — suportava era suficiente para destruir a mente de qualquer Grande Mestre tão facilmente quanto uma pedra submersa em água por anos.

Enfrentar a fada de um artefato Mítico, afinal, não era tarefa fácil.

Artefatos místicos não podiam ser forjados por mãos mortais, pelo menos, não sem o reconhecimento de um deus e intervenção divina. Em outros casos, as Maravilhas poderiam criá-los, mas o preço seria mais alto do que provavelmente um deus com divindade consolidada estaria disposto a pagar.

Eles eram artefatos gerados apenas a partir de um fragmento da autoridade de um deus ou de NawTewal Karaw — os Anjos dos deuses — sua capacidade de criar um ser vivo completo, com emoções e pensamentos, embora fosse apenas uma massa de mana, vontade, intenção e cinzas da divindade.

Porém, esse homem ria — seu corpo inteiro queimando e se curando ao mesmo tempo, tornando sua dor interminável — tudo enquanto desafiava a criação de um deus, como um mero Grande Mestre.

Ele não sabia exatamente quando aconteceu, mas o Antropólogo percebeu que seu rosto se dividia em um sorriso diante da cena à sua frente.

'Dain Warborn. Ah, o irmão do Ceifador,' ele sussurrou entre dentes, balançando a cabeça levemente enquanto fragmentos de rocha derretida caíam de seu corpo.

'Parece que o Ceifador não é o único monstro,' pensou, fixando seus olhos intensamente em Dain. 'O irmão também… é um demônio. Um demônio sorridente, pelo jeito.'

Sua mente foi puxada de volta ao presente pelo som de Abominação.

"Ah, e agora, como seguimos adiante?" perguntou ela, encarando o pequeno domínio que cercava Dain, sua Origem — o machado — e a fada, todos envolvidos por um inferno de chamas.

O som de metal martelando ecoou com intensidade, fazendo o sangue de Abominação literalmente ferver de medo.

Ela era, afinal, uma Grande Mestre, no mesmo nível de Dain, e, ainda assim, não tinha desejo de dar um passo à frente. Sentia…

…que morreria com o coração em chamas.

Ela agradecia à máscara, pois, com ela, ninguém podia perceber sua profunda apreensão diante do fogo.

Ela suspirou, controlando um calafrio frio antes de se virar para olhar o Antropólogo e então abriu os lábios secos:

"Nos foi ordenado a levá-lo conosco, não foi?" perguntou.

O Antropólogo assentiu. "Sim. A Visionária nos pediu para trazê-lo até ela. Mas…" suas palavras desaceleraram, seu olhar fixo na batalha furiosa que acontecia dentro do domínio de fogo.

Ele sabia que, se interrompessem essa batalha de qualquer forma, Dain certamente desmaiaria. Naquele momento, ele só permanecia de pé graças à sua alta Vontade e ao fato de que seu corpo e mente estavam em alerta máximo, aguçados pelo sussurro da morte que se aproximava, com adrenalina correndo por suas veias e cérebro como ondas de uma maré inquieta.

No instante em que decidissem intervir e levá-lo embora, seu corpo naturalmente se relaxaria, e aí a morte deixaria de sussurrar, ela mandaria que ele se unisse a ela.

E, mesmo que seu corpo não relaxasse como esperado, a intervenção deles o distrairiam o suficiente para que a águia dourada pudesse desferir um golpe fatal.

Afinal, a águia parecia decidida a matá-lo.

Precisavam agir rapidamente, especialmente porque nenhum deles tinha força suficiente para sair ileso se ousassem tocar naquelas chamas.

'Certamente, vou sobreviver. Mas…' O Antropólogo lançou um olhar rápido para Abominação. 'Ela não.' —

E ele preferiria não perder um membro ali. Sem contar que o Ceifador não era o único que precisava cuidar, a própria Visionária faria com que ele pagasse caro por isso.

"Você não pode levá-lo embora!" finalmente falou o Velho Smith, interrompendo os pensamentos do Antropólogo. "Este recinto foi feito para ajudá-lo nesta batalha! Existem runas, poções e artefatos sendo continuamente ingeridos por ele através de formações rúnicas! Se vocês o levarem, vão fazer ele perder a pouca vantagem que ainda tem, e ele vai morrer!" implorou Smith, com as mãos trêmulas gesticulando ao redor do espaço para provar seu ponto.

Embora ela não precisasse fazer tudo aquilo, tanto o Antropólogo quanto a Abominação já haviam percebido, e era exatamente por isso que ainda não tinham agido.

Porém, não podiam perder tempo. Quanto mais esperassem, maior seria o risco de eventos imprevistos.

Precisavam agir. E fazer isso de uma maneira que não matasse o irmão do seu Senhor.

Nenhum deles se permitiu imaginar o que aconteceria se isso ocorresse. A Abominação, por exemplo, certamente tiraria a própria vida, não apenas por medo, mas também por vergonha e sentimento de indignidade por fracassar numa missão tão importante.

Quanto ao Antropólogo, ele não pensava até lá. Não tinha motivo.

Depois de tudo…

"Tenho uma estratégia," disse ele, dando um passo à frente enquanto começava a desenrolar lentamente sua forma humana, seu colossal corpo de golem de rochas retomando sua postura original.

As tatuagens vermelhas que corriam por todo seu corpo, semelhantes a gotas de água escorrendo, acenderam com uma luminância carmesim cegante, chamando a atenção da águia. A criatura, que até então não tinha percebido os intrusos, virou a cabeça rapidamente para ele, com seus olhos dourados intensamente ardentes, cheios de espanto profundo ao fixarem nas tatuagens.

Parecia perceber algo familiar ali, mas como isso poderia ser possível?

Enquanto se questionava, Dain não parou sua martelada. Continuou golpeando o anel, cada impacto mais impiedoso que o anterior.

A águia gritou de dor e descrença, vacilando por um momento sob o impacto ensurdecedor antes de retomar seu foco implacável, atacando com mais violência, suas asas agitadas tão rápido que se tornaram uma borradura.

A boca se abriu em um largo sorriso e, dentro dela, uma bola de fogo dourada, manchada de branco, se formou. As chamas ficaram tão quentes e intensas que se tornaram líquidas, escorrendo sem parar pelo corpo de Dain, queimando-o de dentro para fora, seus órgãos derretendo.

As formações de cura começaram a fraquejar sob ele, e seu cérebro começou a derreter.

Dain fez uma pausa.

Todos arregalaram os olhos, sem acreditar.

E então, de repente, ele continuou, rindo.

Seu riso era alto e desimpedido, mas era possível sentir claramente a dor escondida por trás dele. Não era uma risada de alegria, mas de necessidade.

Era como se o riso fosse a única coisa que sobrasse para suportar a dor lancinante que rasgava seu corpo.

Apenas rir.

Exatamente como seu pai sempre lhe dizia quando era pequeno.

'Ria, Dain,' dizia Garros, dando-lhe uma palmada suave nas costas. 'Não. Não aquela risada fraca, de menina.'

'Você não sabe como?' ele perguntava antes de sorrir. 'Já te falei, é só rir assim! HAHAHAHAHAHAHA!'

Naquele tempo, Dain ficava confuso. Seu pai raramente estava por perto na infância, e os momentos que compartilhavam eram ainda mais raros.

Então, como uma criança — carente de atenção e que buscava reconhecimento — as palavras do pai eram lei. Ele fazia tudo que Garros mandava, acreditando que, obedecendo, seu pai ficaria orgulhoso e ficaria um pouco mais tempo ao seu lado.

E assim, aprendeu a rir como seu pai. E como Garros lhe dizia:

'Ria acima de tudo, meu menino. Você é herdeiro do Warborn, o primeiro de sua linhagem.'

'Não chore. Não titubeie. Não se esconda.'

'Este mundo vai te achatar, mas ria enquanto for derrotado. Ria ao cair. Ria na dor. Ria no sangue. Ria ao chorar. Ria mesmo quando os deuses desviam o olhar.'

'Ria, meu garoto. Você é o primeiro. Nunca esqueça—!'

"NÃO ESCREVI!" HAHAHAHAHAHAHA!

CLANK! CLANK! CLANK! CLANK! CLANK!

Dain enlouqueceu, suas mãos em velocidade incompreensível, rachaduras e feridas surgindo a cada golpe. Ele já não sentia mais o sangue correr por seu corpo, apenas a dor.

Seus olhos rubros lentamente começaram a derreter, mas ele ria.

Seu interior virou uma massa líquida de sangue e vísceras, e mesmo assim, ele ria.

Sua boca e garganta tornaram-se cinzas, e mesmo assim…

Sua risada ecoava profunda e demoníaca pelo recinto infernal.

O Antropólogo, a Abominação e Smith sentiram arrepios percorrendo suas espinhas.

Por um momento, ficaram paralisados, boquiabertos, ao ver um humano rir na cara de uma criação de um deus, ousando desafiá-la.

A águia gritou de dor e, diante do riso do diabo que lhe enfrentava, algo semelhante ao medo começou a envenenar seus olhos dourados.

Ela se arrepiou. Mas Dain riu, seus golpes se tornaram mais cruéis.

O Antropólogo rapidamente recobrou a consciência e agiu. Num instante, suas tatuagens vermelhas ficaram ainda mais brilhantes, a luz o forçando a fazer uma careta de dor, mas lentamente, devagarzinho, a divindade do Celeste presa dentro de suas tatuagens começou a se mover, envolvendo o artefato Mítico em um abraço de contenção, forçando-o a interromper sua fúria.

Mas, mesmo quando parou, Dain não.

Ele continuava rindo. Continuava golpeando o anel com seu martelo.

Não porque estivesse louco. Nem por desejar fazer a águia sofrer mais. Mas simplesmente porque…

A Velha Smith deu um passo para trás, olhos arregalados de incredulidade diante do que presenciava.

Abominação e Antropólogo ficaram imóveis, incapazes de desviar o olhar dele.

Perceberam que Dain já não estava consciente.

Seu corpo e sua mente haviam se desligado, sua vida pendia por um fio sustentado apenas pelas runas de cura de Smith.

Por todo esse tempo…

Somente sua determinação inabalável o mantinha firme de pé.

Somente sua vontade fria o impulsionava a continuar golpeando.

Somente seu riso fazia dele alguém imparável.

'Ah, sim… claro. Claro,' pensou o Antropólogo, com um sorriso forçado se contorcendo em seu rosto derretido.

Sangue não mente.

O irmão de um monstro só podia ser um monstro.

—Fim do Capítulo 322—

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