
Capítulo 323
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
A vida raramente dava a você a oportunidade de escolher seu caminho. De um jeito ou de outro, você sempre se encontrava em lugares que nunca planejou estar, perguntando-se como tinha chegado ali.
Era como ser jogado numa competição de dança, esperando-se que você realizasse passos que nunca aprendeu, com a música alta demais, as luzes brilhando demais, e tudo o que podia fazer era tentar se mover no tempo.
E ainda… se a vida negava a você o direito de escolher o caminho, ela ainda lhe concedia uma liberdade… a de escolher como você iria trilhá-lo.
Foi difícil para Sora.
Ela não desejava o trono, mas de alguma forma a vida fez com que ela precisasse dele, e agora ela se via no meio de uma confusão política pela qual não tinha vontade alguma.
Agora, ela não tinha escolha.
Não podia mais assistir sua mãe fazer o que bem entendesse. Não podia mais deixar seu irmão ultrapassá-la nesse jogo de tronos. Não podia mais permitir que seu pai ditasse sua vida, impedindo-a de fazer o que amava.
Eles queriam ela nessa confusão?
Então… que assim seja.
Ela jogaria do seu jeito.
Deixe a moeda girar.
"Vou precisar que você vá até a Cidade Verde e converse com a Senhora de Verde," disse Sora, seus olhos dourados fixos em Kenan e seu pai, Lewin Fireborn.
"Você será minha porta-voz e diga a ela que a Herdeira do Sol pede sua lealdade, e em troca, ela receberá minha proteção e meu apoio para seus esforços. Também reconhecerei o projeto que ela propôs, embora minha mãe tenha recusado."
Kenan a observava com olhar neutro, seu terno preto perfeitamente ajustado, sua postura totalmente diferente de meses atrás.
"Entendo," ele falou de forma seca. "Mas e se ela recusar?"
Sora o encarou, então desviou seu olhar ligeiramente para Lewin, seus olhos dourados carregando uma pergunta silenciosa e clara.
Lewin sorriu educadamente. “Perdão se ofendi você, Princesa, mas Kenan é meu herdeiro. Ele precisa aprender,” disse com calma e respeito. “De qualquer forma, estou aqui para corrigí-lo.” Ao terminar, fez uma leve reverência em direção a ela.
Sora apenas assentiu, com Rome ao seu lado como um guardião de ouro, seus olhos severos e insensíveis.
Ela voltou sua atenção para Kenan e viu o quanto ele estava diferente daquela última vez que o vira.
'Acho que a vida é imparcial com todos,' pensou antes de abrir os lábios.
"O que você sugeriria se ela recusar?"
Sem se importar, Kenan deu de ombros. "Cinzas," murmurou. Depois, com aqueles olhos negros e frios, completou: "Transformar o verde em cinzas é nossa especialidade, Princesa."
Sora deu um sorriso. "Sim," ela concordou. "Ou ela aceita minha proposta, ou o sol vai queimar mais forte do que a cidade dela consegue suportar."
Lewin não respondeu, apenas sorriu lentamente com a troca de palavras.
Para ele, não fazia diferença. Se a Princesa quisesse a Cidade Verde queimada, assim fosse. Sua lealdade, afinal, era dela.
"Quando vamos salvar Kaden Warborn, Princesa?" perguntou em seguida.
Ele já tinha falhado como amigo de Dain ao deixá-lo ser enganado pelas maquinações da Lua. Agora, não podia suportar que o mesmo acontecesse com Kaden.
Ele precisava salvá-lo; ao menos assim, poderia levantar a cabeça quando encontrasse Dain novamente.
Ao ouvir a pergunta, um fogo dourado começou a lamber o rosto de Sora, transformando-o metade carne, metade chamas. A temperatura na sala subiu drasticamente, mas nenhum deles suou.
Devagar, ela fechou os olhos e expirou, acalmando seus pensamentos turbulentos antes de falar,
"Apenas meu pai poderia enfrentar minha mãe," ela disse com frieza. "E meu pai só me ouvirá se eu trouxer resultados."
Ela fez uma pausa, depois acrescentou sem pressa,
"Então, vamos cuidar da Cidade Verde antes que meu irmão tome o controle de Cidade Estrela do Amanhã."
Era uma verdade dura, mas verdadeira. Assim, Lewin concordou com a cabeça.
Enquanto isso, Kenan pensava em algo completamente diferente.
Se seu pai estava fazendo tudo isso pelo amigo dele…
E a Princesa pelo orgulho ou qualquer coisa que circulasse dentro daquelas mentes arrogantes de Asterion…
Então ele estava fazendo isso por alguém.
'Lisa, por favor, espere por mim,' sussurrou internamente, seu punho cerrando-se firmemente.
A brincadeira tinha acabado.
Era hora de transformar esse jogo todo de tronos em cinzas e voltar para a garota que ele amava e sentia muita saudade.
Cinzas.
Eles diziam que uma mulher é a maior fraqueza de um homem.
O que eles esqueciam de dizer… é que é o amor dela que pode transformar essa fraqueza na maior força dele.
E assim…
'Cinzas…'
…
A batalha foi apocalíptica.
Toda a floresta foi cortada em milhares de galhos fragmentados, o chão já não parecia um só, mas moldado como se uma besta proibida tivesse arranhado tudo com ferocidade sinistra.
O próprio ar tinha gosto de calamidade, a atmosfera tão pesada e impregnada de intenção assassina que se via uma névoa vermelha cobrindo toda a área, obscurecendo o olhar de qualquer observador curioso, uma névoa criada unicamente pela intenção de Daela.
Perante o chão devastado estendia-se um mar de ramos negros profundos cobrindo tudo ao redor. Espalhados entre eles, estavam centenas de cadáveres humanos, retorcidos, como se tivessem sido drenados de sangue e músculo, encarando-a com uma intenção de morte vazia.
Cada corpo irradiava seu próprio poder, fazendo parecer que Daela enfrentava centenas de seres de Nível Grande-Mestre, todos sem seus domínios.
A situação era desesperadora, e a vitória parecia algo impossível de alcançar.
E, ainda assim, o rosto de Daela não se alterou.
Desde o início daquela batalha, nenhuma palavra saiu de seus lábios, nem uma expressão mudou em seu rosto.
Teve uma impressão de que ela permanecia fria e insensível, como se o mundo inteiro estivesse sob ela, sem sequer merecer um lampejo de suas emoções.
Por um momento, diriam que ela era arrogante.
Mas isso era apenas quem ela tinha aprendido a ser, sozinha, com pais ausentes.
E, no entanto, Daela se lembrou de um dia, quando tinha apenas dez anos, após despertar sua Origem. Um dos raros dias em que seus pais estavam realmente com ela.
Ela se recorda da mãe, falando sobre sua atitude fria com todos, até mesmo com eles.
'Seu coração está fechado, minha filha,' ela dissera, olhando para ela, ciente do motivo.
Mas, ao invés de pedir perdão por sua ausência, ao invés de dizer para ela mudar… a mãe apenas sorriu, depois pressionou a testa contra a dela e sussurrou:
'O que foi feito, está feito. Não há volta. Você fechou seu coração para o mundo, mas ainda posso ver dentro de você sentimentos ardendo mais intensamente que qualquer coisa.'
'Então, que eles queimem em silêncio. Que alimentem seu coração e sua alma, enquanto você os esconde atrás de um manto de indiferença e apatia.'
'Aquele que domina o segredo de suas emoções é aquele ninguém consegue controlar, e aquele a quem todos irão aprender a temer.'
'Então vá. Siga o caminho que escolheu por nós, mas faça-o com dignidade e honra de um Guerreiro nato.'
'E nunca se esqueça…'
'Nunca se esqueça de que você é Daela Guerreira. O sangue da guerra corre em suas veias. E…'
Serena sorriu naquele momento, e Daela se lembrou de como aquele dia tinha sido o primeiro e último em que ela chorou na frente de seus pais.
'… e seja como um Eco. Seja como o Tempo. Empunhe sua espada e a encarne por completo. Impiedosa, fria e indiferente às dores do mundo.'
'Não se esqueça—!'
"Ataquem!!" A voz do Espírito da Árvore da Mente gritou com raiva, seu coração de madeira pulsando descontroladamente ao ver o que restava de um olho de Daela, ficando cada vez mais frio a cada segundo.
Ela tinha medo.
Daela olhava para ela como se fosse apenas impureza, e de alguma forma, ela não conseguia deixar de começar a acreditar nisso.
"ATAQUE! TODOS VOCÊS! DERRUBEM-LA!" ela gritou, enviando todos seus bonecos adiante, tremendo ao sentir que o espaço ao redor começava a desacelerar, como se o tempo tivesse virado contra eles.
Daela fechou brevemente os olhos, depois os abriu novamente, observando centenas de inimigos se aproximando de todos os lados.
Ela ergueu suas espadas gêmeas, com as pontas voltadas para baixo, e lentamente as deixou cair.
Em vez de caírem ao chão, as espadas mergulharam na própria trama do espaço, desaparecendo em outra dobra da realidade.
Naquele instante, a Árvore gritou de dor, seus galhos torcendo-se descontroladamente enquanto também começava seu ataque, impulsionada por um medo apocalíptico que devorava toda razão.
Mas já era tarde demais.
"Domínio Ativado…"
'Eu não esqueci, Mãe. Eu não vou esquecer,' ela sussurrou em sua mente, e então lentamente…
"Império do Silêncio."
O tempo parou.
Uma luz branca explodiu de seu coração, envolvendo todo o espaço ao redor da Árvore da Mente, criando um domínio de silêncio absoluto.
Daela vestia roupas dignas de uma Imperatriz — brancas e imaculadas — com uma coroa de espadas fragmentadas flutuando acima de sua cabeça. Atrás dela, sua roupa de outro mundo tremulava como um mar pálido. Seu olho borgne se abriu novamente, revelando não escuridão, mas um olho branco, puro, e dentro dele, bem no centro, suas duas espadas cruzadas formando um X.
Ela levantou sua mão direita naquele mundo congelado e silenciado… um mundo em que só ela poderia se mover, pois era sua imperatriz. Então, sem pressa, abaixou a mão novamente…
E naquela silence mais alta que palavras.
Naquela silence em que ela sempre mergulhou desde menina.
Naquela silence mais aterrorizante que tudo.
Daela invocou cada golpe que já tinha dado desde o primeiro dia em que segurou uma espada.
E o mundo foi cortado no silêncio.
—Fim do Capítulo 323—