
Capítulo 308
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
Kaden e Aurora finalmente estavam prontos para sair da casa abandonada. Kaden nunca imaginou que se sentiria tão feliz só por estar indo embora.
Como a vida era humilde.
Antes de partir, Aurora tingiu o cabelo de preto e usou óculos escuros que cobriam as estrelas que brilhavam em seus olhos.
Ela mal conseguiu.
Nem mesmo as lentes negras conseguiam esconder algo tão belo. Parecia um crime.
Ela vestia uma simples túnica branca que chegava até os tornozelos, com flores gravadas em ouro pelo tecido, de mangas compridas, combinando com sapatilhas brancas não visíveis.
Já Kaden tinha a intenção de sair vestindo a armadura dourada tradicional de Asterion, a mesma que usava desde que começou sua jornada, mas Aurora reclamou que era muito chamativa. Então, ela o fez trocar por calças pretas e uma camisa de mangas compridas, com botas escuras.
Seu cabelo negro estava preso com uma fita dourada dada por Aurora, fazendo seus olhos carmesim ficarem ainda mais destacados e marcantes.
Naquele momento, Aurora olhou fixamente para ele antes que um sorriso se formasse nos lábios dela.
"A velhinha tinha razão," ela disse. "Você é bonito, Fraud." Então, seu rosto ficou orgulhoso, quase infantilamente satisfeito. "E ainda assim, meu príncipe é mais bonito do que você," acrescentou com grande confiança.
Kaden deu de ombros com desprezo. "Pode ficar com isso. Acredito que ser bonito não vai salvá-lo de seguir os passos de seus antepassados."
Os olhos de Aurora se arregalaram ainda mais, seu olhar ficando mais afiado e deliberado. "Você não considera o príncipe tão importante, né?"
"É perigoso falar assim, minha senhora," Kaden respondeu calmamente. "Se as paredes pudessem falar, eu já estaria morto."
"Só morrerá se eu permitir, Fraud," Aurora disse com um sorriso maroto. "Sua tarefa não é fazer a corte ao príncipe, para isso já tenho o suficiente. Seu trabalho é me proteger e atender às minhas necessidades."
Seu sorriso se aprofundou. "E até agora, você não me decepcionou."
Depois, ela acrescentou: "Mas vamos ver, hein?"
Ela começou a se afastar.
Observando suas costas, Kaden se perguntava como uma única pessoa poderia esconder tantas facetas, tantos disfarces em um rosto só. Em um momento, Aurora era infantil… no outro, era insuportável e barulhenta… e em outro ainda, era calma, sábia e concentrada.
Além de pedir por suas barras de chocolate, leite, chá e ferramentas de pintura, Aurora nunca lhe pediu mais nada. Ela gostava de fazer tudo sozinha.
Ele tinha notado que ela adorava usar as mãos.
Ela gostava de pintar, de passear pela casa com chocolate nos lábios, de alimentar as criaturas menores. Gostava também de costurar, como mostra a camisa de mangas longas preta que ela mesma fez.
Kaden se perguntava se seria solidão o motivo que a levava a aprender e dominar tantas coisas. Afinal, a solidão pode levar as pessoas a fazerem de tudo só para preencher o vazio que ameaça consumi-las.
Será que era o mesmo com Aurora? Mas ela não era amante de Solaris?
Como ela poderia estar sozinha?
E como ele, só de observar a forma como ela caminhava, podia sentir aquela dor estranha de quietude e solidão escondida por trás de tantas máscaras?
Kaden suspirou suavemente e seguiu atrás dela, enquanto a bela Senhora o conduzia ao local onde comprava suas ferramentas de pintura.
Não parecia ser a primeira vez que ela saía na rua disfarçada.
Enquanto caminhavam entre as pessoas sob o sol brilhante do meio-dia em Asterion, Kaden percebeu como os moradores sorriam para Aurora, cumprimentando-a calorosamente e perguntando sobre seu bem-estar de tempos em tempos.
Chamavam-na de Senhora Sorriso, homenageando seu hábito de sempre estar sorrindo e de cumprimentar todos que cruzavam seu caminho.
Kaden ficou impressionado.
Receber tanto carinho por Aurora significava que ele também recebia, embora de uma forma diferente. Não que ele não estivesse acostumado com atenção, mas esse sentimento era estranho, quase desconfortável.
As pessoas olhavam para ele como se fosse uma mancha manchando a radiância de Aurora.
Seu lábio quase tremeu. Ele não estava acostumado com isso. Estava acostumado à admiração, ao respeito e até ao medo.
Mais uma vez, pela segunda vez, Kaden sentiu que a vida era humilde.
Então, eles continuaram.
Aurora fazia compras sem se importar, pagando muito mais do que deveria, ganhando o largo sorriso dourado do comerciante e um beijo excessivamente elegante na mão.
Depois de pegar as ferramentas de pintura, seguiram para a chocolataria.
Kaden, naquele momento, amaldiçoou alto, pois Aurora comprou tantos chocolates que as sacolas começaram a transbordar.
Quando uma barra caiu, Aurora bufinhou com ele, repreendendo-o por não ter cuidado. Irritado, perguntou por que ela não usava um anel de espaço, em vez disso.
Aquela mulher teve a audácia de responder: "Porque eu não quero nenhum anel no dedo, exceto o que meu príncipe vai me dar."
Kaden, pela enésima vez, amaldiçoou. Dessa vez, diretamente na cara dela.
A senhora apenas riu e continuou, completamente indiferente à sua irritação.
E, no entanto, não tinha acabado.
Quando Aurora passou por um beco escuro, imerso em água de favelas e sombras, o cheiro de podridão, urina e grades enferrujadas preenchia o ar tão pesadamente que praticamente dava para provar.
Lá, muitos sentados no chão — velhos e jovens, homens e mulheres — com roupas rasgadas grudadas em ossos magros, rostos cansados e tensos, alguns deitados, outros olhando fixamente para o nada.
Mas, no momento em que Aurora e Kaden apareceram, todos eles voltaram suas cabeças para olhá-los… ou melhor, para olhá-la.
Seus lábios rachados se abriram em sorrisos largos, exibindo dentes amarelados e quebrados, os olhos brilhando de alegria repentina.
"Senhora Chocolate!" gritavam em uníssono, tropeçando para os pés e correndo em direção a ela, parando a uma distância respeitosa.
O sorriso de Aurora se ampliou, sua alegria combinando perfeitamente com a deles.
"Trouxe bastante chocolate para vocês hoje! E leite para as crianças!" anunciou, depois riu suavemente, "Talvez para os idosos também?"
"Senhora Chocolate é a melhor!" exclamou uma garotinha. Num momento de felicidade, ela saiu do grupo e correu direto para os braços de Aurora, a abraçando forte.
Os olhos de Kaden se estreitaram instantaneamente ao ver a cena. Uma leve pressão pairou no ar, antes de desaparecer como se nunca tivesse existido.
Porém, os mendigos sentiram. Uma das idosas rapidamente puxou a garotinha de volta, tentando afastá-la de Aurora.
"Não toquem no—!"
"Está tudo bem," Aurora interrompeu suavemente. Ela entregou uma barra de chocolate à menina, retribuiu o abraço e até bagunçou o cabelo dela, que estava coberto por vermes fininhos, sem demonstrar nojo.
"Aqui, isso é para você," falou com suavidade.
A menina começou a chorar de alegria.
O cenário seguiu até que todo o chocolate dentro das sacolas de Kaden acabou. Aurora despediu-se, prometendo voltar nos próximos dias, e foi embora com Kaden logo atrás, ainda em silêncio.
Mas parecia que ele não conseguia se segurar. Quando passaram pelo coração da cidade de Asterion, onde a estátua de Vesper Asterion erguia-se alta e orgulhosa, ele aproveitou a oportunidade — enquanto Aurora se sentava na borda do lago dourado — para finalmente falar.
"Sua segurança está em risco, minha senhora," disse Kaden. "Não é muito inteligente deixar alguém tocar em você."
Assim que falou, sua sobrancelha se contraiu. Discretamente, olhou ao redor, passando o olhar pelos plebeus que caminhavam tranquilamente nas proximidades.
"E o que esses povos, que mal conseguem andar, poderiam fazer a mim?" disse Aurora, trazendo seu olhar de volta para ela. "São pessoas comuns, do povo comum."
"Seu corpo é anormalmente fraco para alguém que trilha o caminho do poder," retrucou Kaden. "Você sangra com facilidade. Cansa com facilidade. E às vezes seu sono é tão profundo que acho que sua alma saiu do corpo."
"Por várias razões que não vou perder tempo em explicar, você parece mais uma pessoa comum do que eles. Não tenho dúvidas de que um golpe bem dado mataria você," falou sem rodeios, sem esconder nada.
Sua missão era proteger aquela mulher, mas quanto mais o tempo passava, mais ele percebia o quão assustador era realmente esse trabalho.
Aurora era como vidro. Se alguém não tomasse cuidado, podia se despedaçar antes mesmo de perceberem.
Aurora não respondeu imediatamente. Apenas sorriu de leve e olhou para um pequeno trecho de terra perto da borda do lago.
"Eles não vão me matar," ela disse ao fim. "Acredito que minha morte será muito mais espetacular do que ser derrubada na rua."
Kaden ergueu uma sobrancelha. Ia falar alguma coisa, mas Aurora foi quem falou primeiro.
"Não é lindo?" ela murmurou maravilhada, com o olhar fixo no solo, onde uma pequena flor conseguira se esgueirar por entre a terra perto da parede de pedra do lago.
Seu tronco era negro, suas pétalas de um vermelho profundo, com forma de disco.
"Ela está ressecada," comentou Kaden com seus olhos atentos. "Vai morrer logo."
"Não é exatamente por isso que é bonita?" respondeu Aurora suavemente, os olhos ainda brilhando, e Kaden então franziu a testa.
Ah…
Havia mais uma coisa que Kaden tinha percebido ao passar algum tempo com Aurora, e era seu amor perturbador por coisas imperfeitas.
Ele não costumava julgar as inclinações de alguém, mas não podia deixar de se perguntar… o que tinha de tão bonito na imperfeição?
Então, disse simplesmente: "Não entendo."
Aurora continuou a olhar para a flor com um sorriso gentil, cutucando-a brincando.
"O que há de bonito em coisas perfeitas?" ela perguntou. "O que há de interessante em assistir ou ser algo sem falhas?"
Ela balançou a cabeça levemente. "É sem graça, Fraud."
"Pelo menos na imperfeição, há algo a aprender. Uma história, um sentimento, uma atração que te puxa."
"Para mim, um cachorro com cicatriz no rosto diz mais, ensina mais, do que um sem cicatrizes."
"Uma pessoa com dentes que não param de cair tem mais chances de despertar minha curiosidade, de fazer eu querer saber mais, do que alguém sem manchas e sem graça."
"Uma flor prestes a morrer é mais capaz de conquistar minha compaixão e amor do que uma que está intacta e imaculada."
Ela então se virou, os lábios se curvando para cima enquanto seu olhar estrelado cruzava com o dele.
"E um Cavaleiro Fraud que não consegue manter a boca fechada nem esconder suas expressões é muito mais provável de chamar minha atenção do que qualquer outra coisa."
Os olhos de Kaden se arregalaram um pouco. Seu coração bateu mais forte, mais do que deveria.
"Então… agora você me entende, né, Fraud?" Aurora riu e lentamente se levantou, ficando ereta sob o sol de Asterion.
"A vida é cheia de imperfeições," ela disse suavemente. "É exatamente isso que a torna interessante."
Seus olhos passaram a brilhar levemente.
"Então me diga, Fraud… por que os humanos sempre buscam a perfeição? Por que desejam a transcendência em tudo?"
O coração de Kaden tremeu. Havia algo na voz de Aurora que lhe tocava fundo, algo que atingia um lugar que nenhuma espada ou vontade jamais poderia alcançar.
Sua Gema da Transcendência começou a mexer-se, estremecendo e revoltando-se contra as palavras dela.
"Quer dizer que buscar perfeição e transcendência é algo ruim?" ele perguntou, seus olhos carmesim brilhando com uma luz vermelha intensa e ardente.
Aurora deu de ombros. "Claro que é uma meta ambiciosa," ela disse. "Mas sem graça,, de qualquer forma."
"Então, qual seria a meta ideal?" ele insistiu. "Não…"
Ele balançou a cabeça lentamente, o olhar ficando mais aguçado. "Qual é a sua meta?"
Ela virou as costas, a voz suave, mas clara.
"Ah… a minha?" ela riu suavemente. "Minha meta é simples… viver. Ser útil para quem me encontrou quando eu tinha perdido tudo. Existir como sou, e ser amada por isso. Pintar coisas que os outros acham bonitas por serem imperfeitas."
Sua expressão ficou triste, suave e sonhadora.
"Porque, se você consegue ver beleza na imperfeição…" ela sussurrou,
"… então pode ver a beleza da vida justamente por causa da feiura da morte."
Sem virar o corpo, ela inclinou a cabeça só o suficiente para lançar um olhar de relance para Kaden por cima do ombro.
"Agora, talvez, você me entenda um pouco mais, Fraud," ela falou com um sorriso malicioso, depois riu, brilhante e livre, a voz ecoando como um tambor em uma noite silenciosa.
"Agora, por favor, faça seu trabalho. Já falei demais."
"Ah, e sim… não mate eles."
A expressão de Kaden permaneceu focada, sua mente relembrando as palavras de Aurora repetidamente.
'Você verá a beleza da vida por causa da feiura da morte…'
Ele sussurrou as palavras por dentro, lentamente, bem lentamente, com os lábios curvados em um sorriso silencioso.
"Ah. Você também, minha senhora," murmurou Kaden, seus olhos carmesim se estreitando até assumirem a forma de espadas. "Você me intriga."
Ele levantou a mão direita, envolta em uma luz vermelha intensa, e a passou suavemente pelo ar ao seu redor.
Seu movimento abriu um portal na própria realidade, rasgando o véu e desfazendo as ilusões em que estavam presos desde o começo.
As pessoas comuns desapareceram como fumaça e, no lugar delas, apareceram figuras vestidas de preto, com os rostos engolidos pela escuridão espessa de capuzes.
Eles os cercaram em silêncio, com armas na mão, lâminas brilhando de lustre negro sob o céu estrelado de Asterion.
Aurora permaneceu calma, seus olhos estrelados levantados em direção ao céu. Então, suavemente…
"Quanto tempo?" ela perguntou.
Kaden sorriu de leve. Seus olhos vermelhos em forma de espada brilhavam tão intensamente que a ilusão de uma lâmina vermelha parecia se formar ao redor dele, perfurando as dobras da própria realidade.
As figuras de capuz mudaram de posição, e então avançaram em velocidade extrema, sem palavras. A escuridão se espalhou do céu e do chão, envolvendo o espaço em uma floresta de lâminas negras.
"Quanto tempo?" repetiu Kaden, sua voz calma em meio ao caos. "Quanto tempo você deseja?"
"Instantâneo," respondeu Aurora, risos dançando em sua voz.
Kaden sorriu de canto.
As lâminas de escuridão estavam a uma polegada de seu pescoço, de seu coração, de seu crânio, mas ele não se moveu. Seu rosto não tremulou. Seus olhos não vacilaram.
Ele lentamente abriu os lábios, sua voz firme enquanto a luz carmesim de seus olhos crescia a ponto de fazer o mundo tremer.
"Eu ouvi…"ele disse, apontando um dedo para o céu.
"Eu obedeço, minha senhora."
Uma lâmina roçou sua pele, sangue escorreu. Ele sorriu de orelha a orelha. Atrás dele, a risada de Aurora soou aguda e clara, cortando a tensão como vidro quebrando o silêncio.
Então…
"Espada Eterna Carmesim."
Um raio de vermelho rasgou a realidade ao meio.
O mundo chorou de horror.
—Fim do Capítulo 308—