Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!

Capítulo 307

Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!

Não demorou muito para Kaden se acostumbrar à sua nova rotina dentro da Casa do Estelado, silenciosa.

Todo manhã, antes mesmo de sair do quarto, Kaden passava duas horas meditando sobre a formação de seu Domínio. Reservava tempo para pensar cuidadosamente, passo a passo, sobre o tipo de Domínio que desejava criar.

Seus pais já lhe deram conselhos, dizendo que às vezes a simplicidade era a melhor estratégia. Ele levou isso a sério e refletia de forma simples, mas profunda.

Para ele, seu Domínio só poderia estar relacionado à morte e ao sangue. Essa era sua natureza. Era quem ele era. Mas a questão era: qual tipo? Com sua estatística de inteligência operando ao máximo, a evolução de Kaden ia muito além do normal.

Ele podia perceber… algo chamava por ele lá no fundo, algo que estava cada vez mais próximo de entender.

No entanto, algo dentro dele tinha medo de se aproximar demais. Kaden ficava intrigado com esse sentimento, mas estava determinado a descobrir o que ele significava.

Após terminar sua meditação matinal, foi atender Aurora. Entrou no quarto dela sem bater, jogou a coberta de lado, jogou água em seu rosto delicado e bonito, e então lhe entregou barras de chocolate, pão de morango com mel e café com leite, para acordá-la completamente.

Não o julgue, era assim que Aurora queria ser acordada.

Não era uma rotina exatamente saudável, ele admitia, mas toda vez que Kaden sugeria algo diferente, Aurora gritava para que ele esclarecesse seus próprios assuntos, chamando-o de “Fraude” repetidas vezes… só para se acalmar segundos depois, sorrindo docemente e agindo como se não tivesse ficado histérica há pouco.

Kaden sempre amaldiçoava internamente, convencido de que essa mulher poderia fazer seu propósito fracassar com suas brincadeiras estranhas muito antes de qualquer assassino aparecer.

Também toda manhã, ele tinha que beijar a mão de Lady Sora — algo que a fazia sorrir de orelha a orelha e se abrir para ele — e alimentar o cachorro que Aurora carinhosamente chamava de Solaris.

Kaden frequentemente se perguntava se o verdadeiro Solaris sabia que seu suposto amante tinha nomeado um cachorro em sua homenagem. De alguma forma, ele simplesmente sabia que o príncipe não ia gostar nada dessa homenagem.

Além de tudo isso, Kaden tinha se aproximado de Lady Sora e encontrava grande conforto em conversar com ela sobre qualquer coisa. Era estranho, fascinante até, falar com alguém cujo sorriso parecia interminável, mas que nunca acabava.

Mais de uma vez, Kaden ficou tentado a perguntar como aquilo era possível, e mais de uma, ele se segurou. Não queria fazer uma pergunta que não devia. Seria um gosto amargo na boca se Lady Sora passasse a desgostar dele por uma dúvida eivada de descuido.

Ele odiava admitir, mas ela era a única naquela casa com um pouco de sensatez e lógica.

Porém, não era só isso. Havia também o fato estranho de que essa mulher lembrava demais a Voz Dourada.

Era impressionante.

Compartilhavam o mesmo nome e, mais importante, a mesma paixão pela música, pelo canto.

Kaden se lembrava da primeira conversa sobre isso.

“Foi você que estava cantando naquele dia?” havia perguntado, curioso, enquanto se sentava ao lado dela no jardim de prata, embora seu foco ainda estivesse levemente fixo na sala de Aurora.

“Ah?” Lady Sora exclamou, os olhos se arregalando levemente. “Você conhece? Música?”

Ela parecia verdadeiramente surpresa com a sua percepção, mas ao mesmo tempo, seus olhos dourados começaram a brilhar de excitação.

Kaden deduziu que, naquele tempo, a música nem de longe era tão conhecida quanto era em seu próprio mundo.

Ele então concordou com a cabeça. “Sim, eu conheço. Tenho uma amiga um pouco problemática, que adora cantar,” disse com um sorriso suave, antes de olhar para ela. “Não duvido que ela adoraria te conhecer, se pudesse.”

“Ah? Por que ela não pode?”

“Ela mora bem longe daqui, Lady Sora.”

“Que pena, de fato,” ela falou suavemente. “Seria ótimo encontrar alguém que compartilha do amor pela música nesta cidade tão esquecida.” Sua voz parecia estranhamente pequena.

“Pois é. Não estou aqui só de passagem,” brincou Kaden com leveza. “Eu talvez não seja um grande fã, mas quero aprender mais sobre isso. E quando reencontrar aquela garota, vou compartilhar seus ensinamentos com ela.”

Ele sorriu brilhantemente e deu um sinal de positivo para Lady Sora. “Sua voz será ouvida, Lady Sora.”

Por um instante, Lady Sora ficou pasma com as palavras de Kaden. Por um breve momento, ela parecia esquecer como usar a boca, depois lentamente sorriu. O sorriso se alargou, seus olhos dourados formando crescentes enquanto dentes começavam a cair como uma cachoeira de ossos.

“Então, você vai aprender a cantar comigo, belo cavaleiro?” ela perguntou animadamente.

“Com prazer, todas as manhãs, e mostrarei minhas anotações a você.”

Sua voz reluziu como a luz do sol refletida em vidro quebrado… alegre, misteriosa e bela ao mesmo tempo.

Naque instante, Kaden jurou ter visto seus dentes voltarem ao normal. Mas, provavelmente, foi fruto de sua imaginação, pois a chuva de dentes persistia.

Lady Sora estava radiante por finalmente ter alguém que compartilhasse sua paixão, alguém que não a julgasse por fazer sons estranhos com sua boca e voz.

Kaden assentiu. “Seria muito gentil da sua parte, Lady Sora.”

Até hoje, Kaden nunca esqueceu a sensação de euforia e felicidade que irradiava de Lady Sora naquela tarde. E isso o fez se perguntar: será que a Voz Dourada sentia o mesmo ao reconhecer sua paixão algum dia?

Ele não sabia. E... também não fazia diferença.

E…

O cachorro ainda não gostava dele. Mas isso não o incomodava. Já ele também não gostava.

“Cachorro feio,” chamava sem vergonha.

E toda vez, o cachorro rosnava e tentava morder a sua bunda. Nunca conseguiu, mas nunca desistia.

Essa persistência rendeu ao animal um segundo apelido na cabeça de Kaden.

“Cachorro persistente.”

Parecia gostar mais desse nome do que de “cachorro feio”, mas isso só o deixava mais focado, e de forma perturbadora, decidido, a tentar machucá-lo.

Kaden sentia muita vontade de dar uma palmada naquele bicho. Mas era um coração gentil.

Ele não faria isso… ou faria?

Continuando seu dia, ao meio-dia, ele levava para Aurora suas barras de chocolate e uma xícara de chá, junto com suas ferramentas de pintura. E, todos os dias, sem faltar um só, Aurora lhe fazia a mesma pergunta…

“Como você acha isso?”

Ela sempre esperava uma resposta rápida, odiando quando ele demorava até um instante para pensar na resposta. No começo, era difícil, mas com ela gritando, batendo na mesa e exigindo, ele acabou aprendendo a responder logo.

Assim, passava a ser mais sincero com alguém que mal conhecia. Isso não lhe agradava muito.

Mesmo assim, ele gostava.

Toda vez que ela perguntava, ele simplesmente respondia:

“O cachorro ainda é feio, persistente e burro. Gosto da companhia da Lady Sora.”

Aurora nunca comentava sua resposta. Ela só dizia: “Olhe direito na próxima vez.”

Parecia sempre esperar uma resposta bem específica para essa pergunta.

Kaden não fazia ideia do que era. Ou talvez soubesse, mas simplesmente não enxergava as coisas como ela.

Depois, ela começava a pintar, e Kaden tinha que admitir: seu talento ia além da compreensão.

Parecia dar vida às obras, tornando quase impossível diferenciá-las do real.

Era realmente assustador.

Depois disso, à noite, ele buscava água quente para o banho dela, ela comia suas barras de chocolate, bebia seu leite e finalmente ia dormir.

Outro detalhe que Kaden percebeu é que Aurora aparentava ficar mais fraca a cada dia que passava. Como se algo estivesse lentamente sugando sua vida.

Ele perguntou uma vez, preocupado, se ela tinha sofrido algum dano sem seu conhecimento, mas ela sempre se esquivava, dizendo que só estava cansada.

Kaden desconfiava, mas pouco podia fazer além de insistir.

Agora, decidiu que iria limpar o quarto dela e ajustar a alimentação para ajudá-la a recuperar forças.

Ela recusou e perguntou:

“Por que você faria isso?”

“Seu quarto está bagunçado. Sua alimentação está ruim,” disse ele com frieza. “Se você morrer, eu morro também. Prefere que eu vá com você ao túmulo?”

“Para mim,” Aurora explicou, “meu quarto não está bagunçado. Tudo e qualquer coisa está exatamente onde me sinto confortável.”

“Só porque você acha algo bagunçado, não quer dizer que seja para todo mundo.”

Com isso, Kaden simplesmente fechou a boca, reconhecendo a verdade. Mas…

“E sua alimentação?” ele insistiu.

“Sem comentários,” ela respondeu rajada, depois completou: “Agora, Fraude, pode ir embora? Ou prefere dividir a cama comigo?”

Kaden virou os olhos. “E acordar com as tripas queimando até virar carvão?”

“Não seria uma experiência interessante?”

“Então acho melhor você tentar, minha senhora. Parece que adora o sol.”

Aurora riu. “Ah, eu adoro mesmo.”

“Cuidado, pode se queimar,” disse Kaden antes de recuar para seu quarto. Mas a voz de Aurora o acompanhou claramente, suave mas firme.

“Então, queime-se, Fraude,” ela disse suavemente. Depois de uma breve pausa, acrescentou: “Durma bem. Você cumpriu seu dever comigo hoje. Mas amanhã, prepare-se.”

Ela sorriu no escuro, no quarto úmido e bagunçado.

“Vamos visitar a cidade. Preciso reabastecer meus materiais de pintura e fazer algumas atividades.”

Kaden apenas assentiu e saiu.

Num piscar de olhos…

Amanhã virou hoje.

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