
Capítulo 306
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
A mulher, Sora, não era a única.
O cachorro também era uma das pinturas que Kaden tinha visto. Era o mesmo cachorro, aquele com uma cicatriz feia que deixou seu olho esquerdo cego e branco, a ferida brilhando fracamente com um tom vermelho sinistro.
Kaden sentiu uma sensação desconcertante ao perceber que a pintura e o cachorro de verdade eram completamente idênticos. Não havia — absolutamente nada — que os diferenciasse. Ele sabia, porque usou sua percepção para compará-los em detalhes.
Era uma maravilha.
Mas outra coisa que o surpreendia era o quanto o cachorro parecia não gostar dele. Kaden ficava realmente confuso. Não se lembrava de ter feito algo para aquela criatura feia, e mesmo assim ela não parava de rosnar para ele, mostrando dentes afiados e deixando a língua pendurada em clara ameaça.
Ele estava dentro de uma cabana de madeira pequena, descansando em um confortável almofadão de algodão e tecido sedoso macio. Kaden deu um clique de língua, observando-o resmungar em vez de comer. Ignorando, virou-se de costas e murmurou para si mesmo:
"Cão feio."
Parece que o cão o ouviu, pois rosnou e correu em sua direção com pernas curtas, claramente planejando arranhá-lo e morder sua bunda. Kaden desviou-se para a esquerda, evitando com facilidade, deixando a boca entreaberta do cachorro a cuspir ar vazio antes de cair de boca no chão.
Ele gemeu, depois se levantou e o olhou com um gesto de reprovação, seus olhos brancos e pretos fixos intensamente nele.
Kaden torceu o nariz.
"Cachorro feio e burro", zombou, antes de voltar na direção do quarto de Aurora com seus chocolates vermelhos e ferramentas de pintura, fazendo o possível para não acabar matando nenhum dos animais dela pelo caminho.
Foi mais difícil do que imaginava. Tinha muitos deles, e eram pequenos, fracos e frágeis.
Até um toque ou um suspiro dele poderia matá-los facilmente.
Havia vermes, moscas e pequenos pássaros voando e rastejando pela casa desolada. Pelo menos, pensou Kaden, eles davam ao lugar uma sensação um pouco menos fria e sem vida.
E essas criaturas, ao contrário de Lady Sora ou do cachorro, pareciam normais, sem aspectos estranhos ou corrompidos. Kaden se sentiu estranhamente aliviado com isso, embora tivesse visto um pássaro sem pés entre eles.
Ele balançou a cabeça, dissipando a enxurrada eterna de pensamentos, ao chegar diante da porta elegantemente pintada do quarto de Aurora.
Ele levantou a mão, bateu duas vezes e esperou.
"Só entrar. Por que perder tempo batendo?" veio a voz impaciente de Aurora atrás da porta.
Kaden suspirou, segurou a maçaneta, abriu a porta e entrou.
O quarto não tinha mudado. Ainda parecia digno de uma manada de porcos. Agora, com a mente mais tranquila e olhos mais atentos, Kaden percebeu que era a mesma sala desorganizada que tinha visto em uma das pinturas antes de começar sua missão.
As hipóteses começavam a se formar em sua cabeça, mas ele decidiu deixar isso de lado por enquanto, pensando em ponderar melhor depois.
Ele olhou para Aurora e a viu sentada diante de uma tela em branco, com os olhos cheios de estrelas distantes enquanto a contemplava.
Seu nariz havia parado de sangrar, embora ainda escorrendo uma leve gota de sangue.
De repente, ela parecia até fofa, notou Kaden.
Ele balançou a cabeça e se repreendeu: "Foque!"
À sua direita, havia uma pequena mesa redonda vazia. Kaden constatou que ali deveria ficar o lugar para colocar as ferramentas de pintura e os chocolates, então fez exatamente isso.
Ao notar sua ação, Aurora sorriu para ele. "Falso," ela falou suavemente, "um cavaleiro nunca age sem a ordem de seu mestre," ela declarou.
Sua voz agora estava mais calma, mais fundamentada. Kaden achou a mudança quase chocante.
"Mesmo que a ordem que esteja por vir seja óbvia?" ele retorquiu.
"Mesmo assim," ela respondeu, "é assim que você é treinado. Você é treinado para agir sob ordens, e não por conta própria." Ela continuou, pegando uma barra de chocolate, desembrulhou e mordiscou como uma criança.
Seus olhos se fecharam de prazer.
"Deve ser uma vida bastante monótona, ser cavaleiro," disse Kaden, sem se preocupar em fingir. Ele percebia que Aurora não relataria nada a Solaris, nem a Lady Sora.
Elas pareciam estranhamente satisfeitas com sua falta de virtudes de cavaleiro.
"Exatamente!" Aurora disse, olhando para ele, com o tom de voz de repente mais brilhante. "Muito monótona! Muito, muito monótona!"
Depois, sua voz ficou mais suave. "Mas é assim que é," ela murmurou. "Eles te tiram a capacidade de agir sem ordens. E, ao fazerem isso, também tiram sua capacidade de pensar e, consequentemente, de decidir por si próprio."
Ela sorriu de leve.
"E se você perder aquilo que faz de você um humano, então não passa de uma marionete, um boneco que só se move quando o marionetista pisca um olho."
Kaden ouviu atentamente, depois sorriu. "A senhora não parece muito fã de como os cavaleiros são feitos, minha senhora."
Aurora deu de ombros, com os olhos cheios de estrelas fixos na tábua vazia, como se estivesse imaginando sua próxima pintura. "Talvez. Talvez não," ela respondeu. "Eu apenas te contei como os cavaleiros são feitos."
"Nunca disse como me sinto em relação a isso."
"Às vezes, não precisa dizer para alguém entender," respondeu Kaden em voz baixa. "O silêncio às vezes fala mais alto que palavras."
Aurora parou por um instante, depois virou lentamente a cabeça para olhá-lo. "O silêncio às vezes fala mais alto que palavras," ela repetiu, com os olhos brilhando intensamente antes de assentir várias vezes, como uma criança elogiada por compreender algo importante.
"Suas palavras têm verdades, Falso," ela falou. "Você me intriga. E, assim, vocês me deixam curiosa. Diga-me, Falso, o que você acha deles?"
Kaden instantaneamente franziu a testa, inclinando levemente a cabeça em confusão. "Dessas pessoas?" ele repetiu.
"Da governanta e do meu cachorro," ela clarificou.
Kaden hesitou, percebendo que podia ser algum tipo de teste. Mas não conseguia entender exatamente o que ela queria ouvir ou qual resposta ela esperava dele.
Seus pensamentos giraram até...
BUM!
Aurora bateu com a mão na mesa, fazendo tudo nela balançar e algumas coisas caírem no chão. O som agudo rasgou o fluxo de pensamentos de Kaden.
"Pensamentos demais, Falso! Pensamentos demais!" disse Aurora, com irritação evidente na voz por ser obrigada a esperar.
"Responda minha pergunta! No que você está pensando tão profundamente? Como você os acha?"
"Eles são… únicos," respondeu Kaden após um momento. "Lady Sora é calma, pacífica e acolhedora, como o sol de longe. Quanto ao cachorro…" ele encolheu os ombros, "parece que ele não gosta muito de mim."
Aurora finalmente se acalmou, e Kaden amaldiçoou silenciosamente.
"Você a chama de Lady Sora? Deve ter ficado feliz," ela disse, sua voz suavizando novamente, calma e quase gentil.
"E meu cachorro não gosta de você por causa do seu desconforto evidente perto dele. Se tentar enxergar mais do que a cicatriz, ele vai gostar de você."
"Tenho que ver mais do que a cicatriz no cachorro?" respondeu instantaneamente, logo se calando.
Aurora sorriu. "Você parece muito mais honesto e menos calculista quando responde espontaneamente, Falso."
"E o que mais você consegue ver?" ela voltou para sua mesa. "Beleza, é claro," ela falou simplesmente. Então, sem pausa…
"Me dê uma fera."
"Gavião," respondeu Kaden.
Aurora não disse mais nada. Com calma, comeu cinco barras de chocolate, pegou suas ferramentas de pintura e começou a pintar.
Kaden observou, curioso e ansioso para ver se ela realmente era a artista. E, se fosse, por que ela tinha tanta reverência por coisas imperfeitas e defeituosas?
Ele concentrou-se.
Viu a escova de Aurora deslizar pelo painel, traços lentamente formando a silhueta de um gavião, enquanto lá fora ouvia-se uma voz cantando suavemente.
Era estranhamente pacífico, e ainda assim…
O coração e a mente de Kaden não estavam em paz.
…
"Olhar pra mim assim não muda o que já foi feito," disse Mahina, percebendo a raiva que sua filha exalava como vapor saindo de uma comida quente.
Elas estavam à mesa de jantar feita de madeira dourada, retirada da Floresta do Sol Eterno. Era apenas elas — mãe e filha — frente a frente com pratos de comida fumegante diante de si. Para Sora, um copo de leite com mel; para Mahina, uma xícara de café com aroma forte e amargo.
Nenhum Luminar ou Sirius estavam presentes. Um ocupado demais em manter o Império unido, o outro de coração em conspiração para tirá-lo do pai.
"Por quê?" perguntou Sora pela enésima vez.
"Minha filha," disse Mahina, com a voz calma, "não deveria ser eu a te perguntar por quê?" Ela inclinou a cabeça levemente.
"Por que você está tão fixada nesse menino?"
O rosto de Sora se torceu de irritação. "Eu não estou fixa nele! Por que você acha isso?! Só quero cumprir minha palavra!" ela rosnou, com os punhos cerrados.
Seus olhos incandescentes travaram com os azuis calmos de Mahina. "Você nos conhece, mãe," ela falou entre dentes. "As palavras de um Sol não podem ser quebradas e, ainda assim, você está me fazendo quebrar uma."
Mahina olhava para ela com tranquilidade, bebendo seu café devagar, saboreando. "Eu te conheço. Meu marido é o Sol, afinal, e ele nunca quebrou sua palavra. Mas você sabe por quê?"
Ela fez a pergunta, mas não esperou resposta.
"Porque seu pai é forte, Sora," disse, com a voz mais fria agora. "Ele consegue impor sua vontade e sair impune."
"E odeio decepcioná-la, filha," acrescentou com um leve encolher de ombros, "mas você ainda não é forte o bastante."
Os olhos dourados de Sora começaram a girar lentamente nas órbitas, um sinal claro de sua raiva. "Ainda," ela murmurou. "Você disse, mãe. Pode não ser agora, mas certamente serei."
Mahina sorriu maliciosamente. "Está ameaçando sua mãe? Tudo isso por um menino que te chamou de Voz Dourada? Você é tão fácil assim?"
Os olhos de Sora se arregalaram, e instantaneamente seu rosto ficou vermelho como se sangue tivesse sido derramado sobre ele. As palavras lhe fugiram por um momento antes de ela sacudir a cabeça, retomando o controle de suas emoções.
"De onde você sabe disso?" ela sussurrou.
"Que pergunta idiota," respondeu Mahina sem hesitar. "Por isso você nunca vai vencer seu irmão."
Os olhos de Sora immediately ficaram em chamas, lágrimas de raiva escorrendo deles. "Você não precisa ficar me lembrando. Não precisa me mostrar que ele é sua preferida," ela disparou.
"Só estou dizendo o que todos nós sabemos, Sora," a voz de Mahina estava fria. "Ter seu artefato mítico não vai te ajudar a vencer Sirius." ela insistiu.
"Você acha que conhece seu irmão?" Ela balançou a cabeça. "Realmente acha que viu tudo que ele é capaz de fazer?"
"Não importa," Sora rosnou. "Ele também não me conhece. Nem você, mãe, tem ideia do que sou capaz."
Mahina balançou a cabeça. "As crenças de um ingênuo sempre são divertidas."
"Vou te mostrar quem é o maior ingênuo," retrucou Sora, levantando-se da cadeira. "Kaden, mãe, melhor estar em boa saúde, sem nenhuma marca de ferimento no corpo." Ela ameaçou abertamente sua mãe.
Sorriso de Mahina virou algo frio e sem vida. "Sora," ela declarou, e instantaneamente Sora parou, baixou a cabeça e beijou a mesa, colando o rosto na comida intocada.
Uma colherada de comida manchou a mesa dourada.
"Eu flertei com você, mas é preciso ter noção do momento certo de parar." Sua voz fez Sora ficar petrificada por dentro, a garganta seca, os olhos encobertos por uma escuridão densa. "Sou sua mãe, e você me tratará como tal."
"Agora, continue acreditando que pode vencer seu irmão. Mas saiba que você arcará com as consequências de todas as suas ações."
Ela fez uma pausa, depois lentamente se levantou da cadeira.
"Quanto ao seu namorado," sua voz voltou a ficar mais fria, "ele vai aparecer e te salvar do sofrimento inevitável, ou..."
Ela deixou a frase no ar enquanto saía da sala de jantar, sua voz ecoando atrás de si.
"E ah, não esqueça de lavar o rosto, querida."
E então desapareceu.
Sora rangeu os dentes, com o rosto ainda prensado na prato. Raiva e vergonha ferviam dentro dela como veneno, e ainda assim, sua mente permanecia nas últimas palavras inacabadas da mãe.
Ela mordeu o lábio, os olhos cintilando com uma fúria ardente, mas também com medo… um medo profundo e consumidor que ameaçava esvaziá-la, deixando-lhe apenas uma casca do que era antes.
Ela apertou os punhos com força, as unhas cravadas nas palmas até que sangue dourado começou a escorrer.
"Chantageadora…" ela sussurrou.
—Fim do Capítulo 306—