
Capítulo 309
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
Kaden nem chegou a usar a Reditha, isso teria sido exagero demais. Ele até desprezava a ideia de liberá-la contra vagabundos indignos que poderiam ser silenciados apenas com seu Intento. Vagabundos que nem conseguiam esconder sua presença direito.
Ah… talvez estivesse sendo duro demais? Afinal, sua percepção era especial.
Kaden soube que estavam presos a uma ilusão no instante em que pisaram na área da estátua de Vesper. Sua atuação era sutil e fraca, mas seus sentidos captaram a diferença no sabor do ar na pele dele antes e depois da ilusão ser lançada.
No começo, ele não fez nada, apenas aguardou pacientemente enquanto eles se mexiam, conversando com Aurora. Mas o que ele não esperava era que a própria Aurélia estivesse ciente da presença deles.
E isso não era tudo: a coisa mais surpreendente era como ela não vacilava, como não ficava nervosa ou assustada, e como parecia confiante nele, sem sequer hesitar para pensar se ele conseguiria lidar com eles sem matar.
Kaden não sabia se deveria ficar feliz ou desconfiar da ingenuidade de Aurora.
Ele balançou a cabeça para afastar esse pensamento e olhou, em vez disso, para os corpos espalhados dos homens de capuz preto, espadas etéreas de vermilho entalhadas profundamente em seus peitos, parecendo um pequeno cemitério.
Eles se contorciam no chão como minhocas na lama, seus espasmos rasgavam os capuzes para trás, revelando rostos com bocas costuradas em chapas de aço, olhos machucados, escavados em buracos negros, ouvidos completamente arrancados.
As sobrancelhas de Kaden se franziram em uma expressão de surpresa, um gosto de nojo subiu pela garganta e ele o engoliu silenciosamente.
"O que é isso?" perguntou, estreitando seus olhos de sabre de frio ao ver aquela cena angustiante.
Aurora avançou calmamente e ficou ao lado dele, observando com a mesma indiferença casual que ela costumava usar como um manto. "Os melhores assassinos são aqueles que não conseguem falar, nem ver, nem ouvir," ela disse.
"Isso os torna mais fáceis de enviar a qualquer lugar, fazer qualquer coisa, sem risco de vazamento."
Ela balançou a cabeça com um sorriso de pena e, então, apontou para o topo da cabeça de um dos corpos, onde uma tatuagem preta — o número 33 — tinha sido gravada. "Eles obedecem apenas às ordens injetadas diretamente no cérebro, provavelmente por essas marcas, sem sentir nada, sem entender por que fazem o que fazem."
"Ferramentas perfeitas para usar e dispensar, entendeu?"
Kaden se moveu lentamente entre eles, com passos tão silenciosos quanto os de um espectro. Ele não matou nenhum deles. Em vez disso, usou seu Intento para esmagar os músculos, deixando-os impossibilitados de se mover ou de usar os membros.
Ele se agachou ao lado de um deles, uma mulher, presumivelmente, na mesma condição de todos os outros. A calmamente pousou a mão na testa dela, devagar.
Sua expressão se aprofundou.
O corpo estava frio. Não como o frio que o gelo traz, não… era um frio que somente os mortos podiam usar.
"Eles não estão vivos," disse Kaden, e balançou a cabeça como se estivesse corrigindo um pensamento, "pelo menos, não no sentido que conhecemos."
Aurora assentiu, os olhos brilhando. "Acredito," ela começou, "que eles são chamados doundou, seres que, em todos os sentidos, estão mortos, exceto que seus corações ainda batem como os de qualquer outro humano."
Ela deu uma risada, intrigada, e adicionou: "Me faz pensar no que realmente faz um humano estar vivo. É o coração…"
Ela sorriu de lado.
"…ou a mente? Ou até mesmo as memórias?"
"Fico pensando, Fraude, se um dia eu der meu último suspiro, mas meu amor ainda se lembrar de mim, eu realmente estarei morta?" ela perguntou, logo abafando a dúvida com uma risada casual, como se fosse algo insignificante, relutante em pensar no assunto.
"E o que você acha deles?" ela perguntou a seguir, inclinando a cabeça na direção dos doundou.
Kaden virou o rosto por trás do ombro para olhá-la, seu cérebro ainda repetindo as palavras dela. Como ela não insistiu mais, ele se levantou e respondeu:
"São assustadores," disse, encarando seus olhos. "Por que você me pediu para não matá-los?"
"Fui atacada," Aurora respondeu simplesmente, "não deveria revidar?" Ela soltou uma risada, os olhos brilhando — como estrelas — e enigmáticos.
"Você sabe quem está por trás disso?" Kaden perguntou mais uma vez, "O irmão do príncipe?" ele adivinhou.
Aurora balançou a cabeça. "Não ele. Mas provavelmente algum dos seus queridos amigos."
"Não entendo," Kaden disse, franzindo a testa. "Por que eles querem te matar? Só para fazer o príncipe perder a compostura?" ele perguntou, a dúvida que mais queimava na sua mente.
Saber a resposta o ajudaria a planejar melhor sua missão.
"Por que matariam mim?" Aurora sussurrou. "Você não iria matar quem soubesse o caminho, se esse caminho levasse à sua ruína?" ela perguntou, lançando uma introspecção lenta.
Nas palavras dela, os pensamentos de Kaden congelaram. Sua estatística de inteligência disparou, processando a declaração dela com precisão assustadora enquanto tudo começava a se encaixar.
O Espírito tinha perguntado o que acontece com um homem que perde seu caminho.
Solaris queria proteger Aurora.
E Aurora tinha acabado de sugerir que seu poder era de conhecer o caminho.
O enigma começou a tomar forma, peça por peça, até que uma tapeçaria de entendimento se formasse na sua mente.
'O objetivo de Solaris? Sem dúvida, ele quer ser imperador. Aurora conhece o caminho até esse trono. E assim, o irmão do príncipe quer matá-la, para apagar esse caminho antes que ele seja trilhado.'
E se isso fosse verdade… então, extrapolando mais, usando o que ele sabia do futuro…
'Aurora morrerá às mãos dos inimigos do príncipe. E Solaris, destruído pela dor, se tornará o Imperador Sol Louco.'
Kaden franziu levemente o cenho. "É isso?" pensou. "É essa a situação em que estou nesta missão?"
"Você parece ter entendido," Aurora interrompeu seus pensamentos com um sorriso pequeno e divertido. "Agora você sabe que sua tarefa não será apenas beijar a mão de uma velhinha, não é?" ela provocou levemente.
"Pois não só protegerá mim dos assassinos," ela disse, "mas também ajudará a colocar o caminho no lugar."
Kaden a olhou com um olhar estranho e desconfiado.
"E o caminho já está na nossa frente. As coisas já começaram, Fraude," ela cochichou, os olhos concentrados no corpo dos doundou. "O que você acha que as pessoas acreditariam se eu mostrasse que o príncipe que veneram comanda subordinados que tratam humanos assim?"
Ela soltou uma risada suave.
"Não acham que isso poderia acontecer com elas também?"
"Acredito que esses corpos não serão suficientes para convencerem eles," Kaden interrompeu, com a voz firme, mas com a mente mais afiada do que antes, agora que tudo estava claro.
"Não vão," Aurora concordou. "Mas esses corpos nos ajudarão a encontrar o local onde realmente está a evidência."
Ela clicou os dedos, e instantaneamente os corpos foram envoltos por uma luz estrelada dourada-prateada, sutil mas magnífica.
O rosto de Aurora ficou concentrado — a mesma expressão serena e absorta que ela usa ao pintar — e então fez um gesto de puxar com a mão. A luz estelar brilha, desprendendo-se dos corpos e flutuando em fragmentos rodopiantes até que os corpos fiquem completamente imóveis.
A luz estelar agora enfraquecida, manchada por um negro profundo e perverso.
Aurora reuniu essa luz corrompida em um único ponto à sua frente, formando uma estrela escura e malévola pulsando com uma luz tênue, tremendo na palma da mão como uma maldição viva.
Então, sem aviso, ela agarrou a mão de Kaden e esmaga a estrela negra.
Antes que ele pudesse reagir, uma enxurrada de informações invadiu sua mente… flashes de um lugar enterrado em algum canto desconhecido, mergulhado em sombras, cheio de inúmeros doundou empilhados como porcos em um matadouro.
A visão se desfez tão rápido quanto surgiu.
Kaden respirou com dificuldade, ofegante, e virou-se para Aurora.
Gotas de suor escorriam pela testa dela. Seus lábios tremiam, pálidos e sem cor.
Ele franziu o cenho. "Você —!"
"O tempo está passando," ela cortou sorrindo de forma seca. "Vamos. Desculpe, mas foi tudo que consegui mostrar sem correr risco de exaustão ainda maior."
Ela caminhou na frente dele, os passos leves, mas instáveis, parecendo pronta para desabar a qualquer momento.
Kaden a olhou por um momento, entonces deu um passo adiante e, num piscar de olhos, apareceu ao lado dela, levantando-a nos braços com facilidade.
Os olhos de Aurora se arregalaram.
"O–O que você está fazendo?" ela gritou, a voz tremendo de choque. "Me coloque no chão, Fraude! Como ousa me tocar assim?! Eu já amo alguém!" ela gritou, se debatendo em protesto.
Mas era inútil. Naquele instante, ela percebeu o quão forte seu cavaleiro realmente era.
Kaden apenas deu um sorriso de lado. "É só para facilitar o movimento, minha senhora. Não pense demais sobre isso."
"Mas Solaris faria," ela retrucou imediatamente, ainda lutando.
"Quem vai contar pra ele?"
Aurora ficou em silêncio por um segundo, palavras presas na garganta, e antes que pudesse recobrá-las, Kaden já se fora. O vento uivava forte ao redor, silenciando sua voz.
Ela mordeu o lábio, mãos inconscientemente segurando na camisa dele.
'Quente…' pensou Aurora instintivamente, sentindo o calor sólido do corpo dele, antes de balançar a cabeça com força e jogar suas ideias de volta sob controle.
"Você vai acabar se matando por causa dessa atitude," ela murmurou, os lábios pressionados numa linha fina.
Acreditava que Kaden não a ouvia por causa do vento forte, mas ele ouviu.
E sorriu.
"Não é tão difícil me matar," ele disse de leve. "Mas é quase impossível me fazer ficar morto de verdade, minha senhora."
"Você é arrogante."
"Sou Kaden."
Aurora soltou a língua irritada por ele sempre ter algo a dizer, mas, mesmo assim, ela não conseguiu segurar o sorriso que ameaçava surgir nos lábios.
Desde quando ela sentiu esse calor?
Não… a verdadeira questão era…
Desde quando seu príncipe deixou de vir vê-la?
Difícil dizer.
Mais difícil ainda de lembrar.
Ainda mais difícil de suportar o peso que pressionava seu coração.
'Você terá tempo para mim assim que eu fizer de você um Imperador?' ela pensou silenciosamente, ciente de que era um sonho frágil.
Seu amor pode até lhe dedicar seu tempo…
…mas ela ainda estará lá para oferecê-lo?
Aurora mordeu por dentro do lábio enquanto a fraqueza em seu corpo aumentava, deixando-a vazia por dentro e por fora, involuntariamente, ela se encolheu mais perto do calor de Kaden.
Sua tremedeira diminuiu. Uma leve sensação de alívio passou pelo peito dela.
E então, chegaram ao destino.
—Fim do Capítulo 309—