Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!

Capítulo 303

Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!

Tudo começa na mente.

Era uma afirmação verdadeira e profunda, sem dúvidas. Zaki sempre acreditou que entendia o real significado disso desde que Kaden lhe dissera, na primeira vez em que se encontraram.

Mas isso estava longe da verdade.

Com o passar dos dias e meses, Zaki passou a sentir ainda mais o poder profundo que os pensamentos podiam exercer sobre a própria realidade.

Era tão simples, e ainda assim a verdadeira capacidade de estar plenamente consciente disso era outra história completamente diferente.

Era fácil sentar na sua sala apertada, olhando para tudo o que tinha, que se resumia a roupas enferrujadas e sobras, e dizer a si mesmo que não queria mais viver assim.

Era fácil olhar ao redor, para as pessoas da sua mesma idade, que mais conseguiam fazer, alcançar o cargo de Mestre ou até de Grande-Mestre, e pensar… que você também queria conquistar algo na vida.

Era fácil acordar um dia e decidir que queria ser um cantor.

Era fácil acordar e dizer que queria ser um excelente pai.

Sim, era realmente simples.

Mas a parte mais difícil de tudo isso era ter coragem e determinação de realmente levantar-se e fazer o que precisava ser feito, de construir sua confiança e treinar seus pensamentos para se ligarem a um tipo muito específico de neurônios.

Talvez fosse mais fácil para Zaki pensar tudo isso por causa do seu poder sobre o pensamento, que lhe permitia visualizar o próprio processo.

Porém, naquele momento, ao segurar firmemente o arco preto na mão, puxando a corda até parecer que ela ia se partir a qualquer momento, em pé no campo de treinamento ao ar livre sob o vento forte e o sol sombrio, e sussurrar entre dentes…

"Esta flecha não vai errar." com grande confiança.

…ele tinha mais que tudo a consciência de quão poderosa era a fé. E, por extensão, por que esse era um poder destinado aos deuses.

Não para mortais como ele.

E, mesmo assim, ele usava isso.

Finalmente, soltou a flecha, e podia-se ouvir o som sibilante do vento rasgando o ar com intensidade ardente antes de se cravar perfeitamente no centro do alvo.

Ele observou o alvo com calma, o arco ainda firme, a postura ainda perfeita, os olhos vermelhos fixos na marca circular a um quilômetro de distância.

E naquela posição…

"Belo garoto é tão bonito!" comentou uma garota, de pele negra, com fios brancos ao redor da cabeça e olhos brancos, murmurrando baixinho, dando um cutucão na amiga ao seu lado direito.

"Laly! Pode falar mais baixo? E se ele nos ouvir?" a amiga respondeu em segredo, também de pele negra, com longas tranças pretas que caíam até a cintura, olhos igualmente escuros.

"Você não precisa se preocupar, Katy," disse Laly, apontando seus dedos magros para Zaki sem vergonha alguma. "Belo garoto já sabe que não gostamos de olhar pra ele com cara feia."

Katy teria desejado se esconder ali mesmo, pois Zaki estava olhando na direção delas, claramente percebendo o dedo apontado na sua direção.

Ela gaguejou, a face queimando de vergonha — e, se sua pele não fosse tão escura, ela estaria completamente vermelho. Mas a vergonha era visível na sua expressão enquanto se escondia atrás de Laly, sem coragem de olhar para o rosto bonito de Zaki.

Laly deu uma risada de leve, divertindo-se com a timidez e reserva da amiga.

Elas vestiam roupas de treino iguais às de Zaki, pretas, que se ajustavam perfeitamente às suas formas, oferecendo máxima liberdade de movimento. No peito e nas costas, o símbolo da Ordem Orion:

Uma flecha banhada em sangue, cravada diretamente em um alvo.

Logo depois, Laly sorriu, os dentes brancos brilhando contra sua pele escura. "Sky," ela chamou, "O Cicatriz de Cinco Estrelas te chamar."

Zaki baixou lentamente o arco, olhando para as garotas à sua frente, retribuindo o sorriso.

"Obrigado, Laly. Vou indo então," disse, acenando de leve, com um sorriso de leve divertimento, os olhos voltando para Katy que se escondia. "Você também, Katy. Tenha um bom dia."

"AH! Sim! Sim! Tenha uma ótima noite também… Não, quis dizer, Sky!!" Katy gaguejou, ao perceber seu erro ridículo, agachou-se e cobriu o rosto com os braços, abafando um grito embaraçado.

Zaki reprimiu um sorriso e foi seguindo seu caminho, deixando as duas amigas para trás.

Laly ficou em silêncio, sem falar nada no começo, mas segundos depois…

"Boa noite?" ela repetiu, tremendo, com as mãos fechadas sobre a boca, os olhos brilhando com lágrimas prestes a escorrer.

Katy rangeu os dentes, lágrimas caindo em sua face de tanto constrangimento, e bateu forte na cabeça de Laly, fazendo a amiga gemer de dor.

"Foi tudo culpa sua!" ela disparou, pronta para atacar a amiga e mordê-la por ter feito ela ficar na frente de Zaki — sabendo exatamente o que ela sentia por ele.

Porém, Laly não era fácil de intimidar. Levantou-se de um pulo, torceu o corpo com uma flexibilidade incomum e saiu correndo em direção à saída do campo de treino aberto.

Ela ria alto, seu riso se espalhando pelo vento.

"Vou contar tudo pra todo mundo!" ela gritou antes de desaparecer atrás da porta.

Katy rapidamente entrou em ação, seu corpo cintilando com velocidade inimaginável.

"Vadia! Vou acabar com você!" ela gritou, com a voz cheia de medo pelo modo como suas amigas poderiam zombar dela.

Sua velocidade aumentou ainda mais.

Zaki caminhava pelo corredor do prédio da Ordem, forçando um sorriso leve toda vez que alguém passava por ele.

Ele tinha se tornado bastante famoso meses atrás, quando ousou desafiar um Mestre da Ordem Draco para completar sua missão de evolução.

Não era surpresa que tivesse vencido — e até matado seu adversário. A batalha foi terrível, deixando Zaki com a sensação constante de que a morte própria estava roendo seus tornozelos, pronta para arrastá-lo para o submundo a qualquer momento.

Perdeu a perna esquerda, o braço esquerdo e a visão do olho esquerdo naquela luta. Só conseguiu se recuperar graças ao cuidado especial da Ordem.

Mesmo agora, Zaki não compreendia exatamente como havia vencido. Mas a verdade era… que ele sabia.

Ele simplesmente acreditava. Acreditava com todas as suas forças que não perderia. E, sacrificando tudo — seus membros, sua visão, sua própria segurança — conseguiu conquistar a vitória, matando um membro de nível Mestre da Ordem Draco, mesmo sendo apenas um Desperto.

Sua fama e notoriedade cresceram de forma absurda desde então.

As pessoas passaram a olhá-lo de formas diferentes… algumas com respeito, outras com desafio, e muitas com puro medo.

Não pelo que ele era.

Mas pelo que poderia se tornar se fosse deixado à vontade.

Mesmo assim, alguns ainda o olhavam com desprezo, principalmente os Mestres e seus discípulos prediletos. Aqueles, como ele, que tinham sido escolhidos pessoalmente por um dos Mestres do Jogo.

E, para ele, era…

O Scarred de Cinco Estrelas.

Nesse momento, ele conheceu o nome completo do Scarred — Alaric Orion, seu mentor — e o quanto de monstro ele realmente era.

Porque quem vive tempo suficiente e conquista o bastante para se tornar um Scarred de Cinco Estrelas da Ordem Orion era alguém que ninguém desejava enfrentar… pelo menos, não sem perder um olho numa flecha.

Na Ordem Orion, o status era medido pelo número de cicatrizes gravadas no rosto de cada um.

Quanto mais cicatrizes, maior sua autoridade, e mais pesado seu nome na Ordem.

Gente como Zaki eram chamados de Sem-Cicatrizes, aqueles que ainda não tinham feito algo digno de lembrança ou conquistado glória para si ou para a Ordem.

Pelo que Zaki ouviu, o maior número de cicatrizes que alguém aqui tinha era doze.

Ele preferiria nem imaginar que tipo de ser aquela pessoa poderia ser.

Suspirando, Zaki deixou esses pensamentos de lado e finalmente parou na porta do seu mentor. Exalou lentamente, bateu duas vezes com força e firmeza.

"Entre," resmungou a voz profunda do Scarred de dentro.

Zaki exalou de novo, abriu lentamente a porta e entrou calmamente. Já estava acostumado com a cena… peles de bestas caçadas espalhadas pelo chão, suas cabeças penduradas nas paredes como troféus, e ao centro, uma mesa de mármore preto polido.

Sentado atrás dela, Alaric Orion observava Zaki com calma, como uma raposa de caça, o olhar fixo, sem piscar, nos olhos vermelhos do jovem.

Zaki pigarreou por dentro, uma sensação de peso estranho crescia no peito à medida que mantinha aquele olhar.

Algo acontecia, ele deduzia.

E, sim…

"Sky," disse o Scarred, "não se incomode com minha sinceridade, mas temo que não posso mais te dar o luxo de se acostumar com sua habilidade intermediária."

As sobrancelhas de Zaki se franziram. "Algo aconteceu, Mestre?"

O Scarred fez um gesto de exasperação com a mão, sua voz ficando fria e cortante. "Algo aconteceu. Algo não aconteceu. Tudo que posso te dizer é que aquelas Esfinges trouxeram notícias que gostaríamos de nunca ter ouvido."

"E ouvimos. E devemos agir."

"Mas isso não te afeta," continuou ele, fazendo uma pausa, e então levantou um dedo. "Exceto em uma coisa."

Zaki aguardou, inquieto, sabendo que uma missão estava para ser dada.

"Você precisa alcançar o nível de Mestre o mais rápido possível, e precisa me trazer sua primeira cicatriz, Sky." Sua voz cortou como uma flecha.

"Os combates vão ficar mais difíceis. Você chamou atenção demais ao matar um dos Draco. O Dragão de Ametista Gorda não gostou, e não vai parar até tirar sua cabeça — e satisfazer seu ego tolo."

Seu olhar se intensificou.

"Você entende o que estou te dizendo, Sky?" perguntou. "Se ainda estiver difícil de entender, vou te explicar de uma forma mais simples."

Ele se inclinou para frente. Os olhos vermelhos de Zaki endureceram como pedra.

"Precisamos que você seja forte — e rápido, Sky. Precisamos que consiga sua primeira cicatriz para que, quando chegar a hora, nosso povo veja você como um de nós, apesar de sua pele pálida."

"Tudo isso por quê?" questionou Zaki, com a voz firme, como se já estivesse preparado para a resposta.

O Scarred ficou um pouco surpreso com a pergunta súbita, mas então sorriu.

"Por quê?" repetiu, seu sorriso se expandindo. "Por liberdade, claro, Sky."

"Pelo mesmo motivo pelo qual você fará o que eu mandei e sem reclamar.".

Zaki ficou em silêncio por alguns segundos, então, devagar, perguntou: "Como faço para conseguir minha primeira cicatriz?"

O Scarred riu.

"Somos caçadores, Sky. Então, caçamos."

"Saia da floresta e vá caçar."

"Você me ouve, Sky?"

"Não estou falando de luta…" os olhos dele brilharam friamente,

"Eu disse caçar."

—Fim do Capítulo 303—

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