Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!

Capítulo 304

Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!

"Pai! Pare!" Uma voz jovem, quase infantil, rasgou o cômodo luxuoso, decorado em rosa e cheio de brinquedos, seguida por uma risada alegre.

Era uma menina pequena, com cabelos como rosas vermelhas esmagadas emoldurando sua cabeça, e olhos negros que pareciam ter sombras derramadas neles. Ela vestia roupas nobres fofas e luxuosas, brancas e de mangas, com desenhos de rosas vermelhas bordados sobre o peito.

Ela era insuportavelmente fofa. A vontade de mimá-la pesaria no coração de qualquer um.

Ela sorria e chorava ao mesmo tempo, parecendo uma pequena boneca quebrada destinada a atormentar os vivos. Seus pezinhos pulavam sobre o tapete vermelho enquanto ela estendia as mãos, tentando desesperadamente recuperar seu brinquedo do homem que estava na sua frente.

Ou melhor, do pai dela… Asael Shadeborn.

"Chorar não vai te ajudar, minha querida. Você consegue pegar, não consegue?" Asael zombou, sua voz amavelmente brincalhona. "Está ao seu alcance, minha filha! Você consegue! Pule mais alto! Pule!" ele incentivou, com um tom animado, tão carregado de entusiasmo que Valentine mesma se motivou a pular mais alto, com o rosto sério, mas isso só a deixava mais adorável.

Asael estava derretendo por dentro.

Os dedos de Valentine tocaram a escultura de madeira de uma espada enquanto ela se esforçava para puxá-la de volta das mãos do pai.

Ela agarrou as roupas dele, tentando subir nele, usando-o como escada, mas Asael apenas sorriu de canto, deixando que ela chegasse a um centímetro de tirar o objeto. Seu rosto já se abria numa expressão de vitória, antes que uma sombra pequena fosse lançada ao ar sob o brinquedo e a espada de madeira desaparecesse.

Silêncio.

O pai e a filha se olharam naquele estranho momento de silêncio. Então, lentamente, Valentine estreitou os olhos negros para Asael, cheios de confusão e suspeita.

"Fui eu, pai…?!" ela murmurou, duvidando inicialmente de suas próprias palavras.

"Eu?" Asael exclamou, apontando para si mesmo. "De jeito nenhum, minha filha," disse, fingindo inocência, mas Valentine era uma criança, sim, mas era filha de dois super-humanos absurdamente poderosos… e neta de uma mulher que era melhor deixar sem menção.

"Você usou seus poderes!" ela gritou, começando a arranhar o rosto dele como um gato bravo que foi tocado no ponto que acabara de limpar. "Vagabundo!"

Asael explodiu em risadas, que ecoaram agudas pelo cômodo, enquanto tentava proteger seu rosto com uma seriedade fingida.

Naquele momento, com a filha no colo dele se contorcendo como uma minhoca fofa… o coração de Asael estava tranquilo, sua mente flutuando pacificamente ao som de suas palavras ofendidas, sentindo o calor do corpo da filha, sua pele livre de feridas ou manchas.

Ele estava mais feliz, especialmente ao notar o quão jovem, fofa e saudável ela era, não só mentalmente, mas também fisicamente.

Ele sorriu levemente, e, numa explosão de emoções irreprimíveis, apertou Valentine com força, fazendo ela parar seus movimentos erráticos, encostando a cabeça no seu peito enquanto seu queixo descansava sobre a dela.

Valentine imediatamente se acalmou, sentindo o calor do pai envolver seu corpo de uma forma que nenhuma roupa poderia oferecer.

Era um calor que ela buscava há tanto tempo, um calor que constantemente pedia à mãe.

Um calor que somente o pai poderia dar.

Era estranho porque o corpo de Asael é naturalmente frio — como sombras insondáveis, como um morto — e ainda assim Valentine encontrou nessa frieza um calor que até o sol na pele não poderia oferecer.

Ela o abraçou de volta, enfiando a cabeça ainda mais fundo em seu peito. Parecia querer se fundir com ele, com medo de que ele fosse embora novamente.

Seu sentimento não passou despercebido.

"Eu vou compensar você, prometo," Asael sussurrou, beijando carinhosamente o topo da cabeça dela.

Não era a primeira vez que seu pai dizia essas palavras. E, toda vez, Valentine repetia as palavras que sua mãe dizia todas as noites antes de dormir… palavras que ela sentia que não eram só destinadas a ela.

"Eu te amo, aconteça o que acontecer," repetiu inocentemente.

Asael sorriu e, incapaz de segurar, gritou: "MINHA FILHA É A MAIS FOFA!!"

O som estrondoso de sua voz ecoou pelo cômodo e dentro de sua cabeça, fazendo Valentine estremecer. Ela rosnou e arranhou o rosto dele mais uma vez.

"NÃO GRITE, PAI!"

Asael riu alto, lágrimas surgindo nos cantos dos olhos.

Se o preço que tinha que pagar para sua filha arranhar seu rosto e ela crescer fosse sua liberdade…

Ele sorriu por dentro.

'Então vale a pena. Que me prendam. Que me usem. Mas, acima de tudo, que eu seja pai.'

Essa era sua linha de limites.

E isso…

"Eu não sou tola. Não vou passar dessa linha, Rose," disse Lydia, observando a cena de Asael e Valentine através da janela, ao lado de Rose.

Suas presenças estavam completamente ocultas, flutuando facilmente no ar.

Acima, o sol pálido do Império dos Condenados banhava a cidade como água sobre o solo, tingindo o céu de um tom laranja.

O ar era quente e carregado de poeira, desconfortável para quem não estivesse acostumado a viver ali.

"E eu não me atrevo a acreditar nas suas mentiras, mãe," retrucou Rose com tom cortante, sinal de irritação na voz.

Lydia virou a cabeça lentamente e deu uma olhada na filha, com olhos zombeteiros e frios ao mesmo tempo. "Você está brava com a pessoa errada, minha querida," ela disse. "Deveria estar brava com seu amante por esconder Valentine só pra si."

Rose fez um som de raiva, como um rugido feroz. "Asael não fez nada de errado. É sua culpa!" ela cuspiu, olhos vermelhos brilhando como uma rosa em flor inflamável. Apontou para a cena dentro da sala. "Se não fosse você, eu estaria lá, rindo com eles, não aqui assistindo a risada deles!"

"Foi você quem pediu para assistir?" disse Lydia, e depois, com uma voz gélida, "Você escolheu isso. Agora baisse sua voz enquanto fala comigo, antes que minha paciência acabe e eu quebre seu pescoço."

Rose não baixou a voz.

"Então, faça!" ela rosnou. "Faça, e por uma vez, você estará me fazendo um favor, mãe. Por uma vez, você vai me libertar dessa vida miserável que me deu e me impôs!"

Se aproximou mais, com o rosto a apenas um polegar de distância do dela, os olhos vermelhos fixos nos dourados e escarlates de Lydia.

"Eu te desafio, mãe, a me matar. Adoraria ver quem vai lutar suas guerras então." Seus olhos cuspiam veneno. "Por favor, faça isso, mãe. Eu posso até me ajoelhar, suavizar seu ego de merda e implorar para que me deixe em paz."

Rose já tinha chegado ao limite. Chega de ver o homem que amava e sua filha ao mesmo tempo, e nunca poder estar com os dois juntas.

Asael nunca aceitou estar no mesmo lugar que ela. Às vezes só Valentine conseguia fazê-lo ficar. E ela usava a filha, no começo, tentando persuadi-lo a ficar quando ela estivesse por perto.

Mas agora, Asael já sabia o suficiente para evitar esses cenários por completo.

Quão doloroso era, finalmente poder estar com sua família e ser negado dela.

Por quê? Porque a mãe dela tinha estragado tudo, e o amor dela não confiava mais nela, nem suportava mais vê-la.

Ela queria explicar, mas se Asael não estivesse com Valentine, estaria nos treinos. Ele nunca lhe dava oportunidade de se explicar.

Sem chance.

Ela estava cansada. Exausta.

Sentia-se sozinha.

Lydia observava calmamente a filha, compreendendo seus sentimentos perfeitamente.

E, mesmo assim, ela não se importava.

"Você mesma disse, matar você só me deixaria incapaz. Então, prefiro não fazer," ela respondeu, e então, com um sorriso, "mas acho que não preciso fazer nada com você."

Apontou para a cena de Asael e Valentine juntos.

"O fato de você não ter uma família, apesar de ter uma, já é uma punição suficiente. Não só por agir como uma vadia e engravidar fora de casamento, mas também por sua desobediência."

"Mas talvez," ela zombou, "deva agradecer sua atitude devassa; acabou me arranjando um sombra bonito, afinal."

Disse isso, lentamente virou e começou a se afastar, com os pés deslizando pelo ar como se estivesse pisando em chão sólido.

Rose apertou os punhos com força, as juntas ficaram brancas. "Eu não atuei como uma vadia," ela disse à costas dela. "Eu o amei. Amo ele. Ainda vou amá-lo. E não me arrependo de ter lhe dado um filho."

Ela mordeu os lábios com força.

"Só me arrependo de ter você como avó da filha dele," cuspiu, a voz tremendo de raiva.

Lydia sorriu, ainda andando com calma. "Então acho que é recíproco."

Ela parou por um momento, depois acrescentou…

"Pare de ser ingênua e aceite seu destino. Asael te odeia, e logo verá sua filha se aproximando mais dele do que de você. Você não sabe? Filhas costumam preferir os pais às mães."

"E pense na minha proposta, filha," ela sorriu maliciosamente. "Preciso do apoio do Reino do Rio, e eles têm um príncipe da sua idade. Pelo que ouvi, ele é bem bonito."

"Que coincidência, hein?"

Depois disso, desapareceu lentamente, deixando para trás uma Rose fervorosa, lágrimas escorrendo, o corpo tremendo de raiva contida e tristeza, enquanto uma sombra invisível de mudança se agarrava na ponta de suas roupas.

"Senhorita, por favor, fique quieta," disse Kaden, com voz cansada, para Aurora, que não parava de mexer o corpo e a cabeça numa tentativa irritante de impedir que ele concluísse sua tarefa.

Seu nariz ainda sangrava, e fazia horas que ela tinha caído no chão.

Pensando que era seu dever de cavaleiro — e querendo manter sua cobertura até entender melhor a situação — Kaden decidiu ajudá-la a limpar o sangue, usando o tom mais suave que podia.

Ela se recusou.

Aurora rejeitou, dizendo que não queria ajuda de ninguém em algo que pudesse fazer sozinha.

Que, se fosse verdade, não incomodaria Kaden nem um pouco.

Mas o fato era que Aurora não conseguia fazer nada sozinha. Faziam horas, e ela ainda não tinha limpado o sangue nem usado uma poção para fechar o ferimento.

Kaden não sabia por quê, mas sentia uma frustração enorme com essa mulher. Estava a um passo de puxar a cabeça dela para trás e fazer ele mesmo.

Mas era um cavaleiro.

'Preciso me lembrar disso. Sou um cavaleiro. Um cavaleiro… um cavaleiro infame! Só obedeço ordens!' amaldiçoou internamente, enquanto forçava seu sorriso mais gentil em direção a Aurora.

A mulher fez uma careta diante da expressão dele. "Cavaleiro fraudulento, não pense que consegue me enganar com seu sorriso," zombou. "Posso ver a frustração saindo do seu corpo como água de uma mão fechada."

"E, mesmo assim, você não consegue ver o sangue escorrendo na sua roupa. Maldito seja seu pé," retrucou Kaden, instintivamente.

Seus olhos se arregalaram um pouco. Os olhos de Aurora também, antes de apontar para Kaden com um sorriso vitorioso.

"Sabia!" ela exclamou, enfiando um lenço no nariz para parar o sangue de sair. "Você é um enganador!"

Então, levantou-se, circulando Kaden como uma loba ao redor de uma ovelha, sorrindo. "Como meu amor pode ter cometido um erro tão grande ao te mandar?!" ela perguntou, balançando a cabeça bruscamente. "Não importa," decidiu, sorrindo ainda mais brilhante.

"Agora, obedecerá a mim, Cavaleiro Fraudulento, se quiser continuar vivo," ameaçou descaradamente.

Kaden evitou que seus olhos rolassem de exasperação. "Eu já ia te obedecer e te proteger de qualquer jeito."

'Tenho que passar na minha missão, afinal,' pensou internamente.

Aurora assentiu, achando razoável, mas depois fez uma careta. "Se você falar assim, Cavaleiro Fraudulento, as pessoas vão descobrir que você é um charlatão de verdade. Então, vou perder meu cavaleiro que fala, e meu amor vai mandar um dos dele, silencioso e chato, em seu lugar."

Ela balançou a cabeça abruptamente.

"Isso não pode acontecer," ela disse, passando a mão pelo queixo. "Para minha diversão, vou ensinar você a ser um cavaleiro de verdade!" decidiu.

Seus olhos se iluminaram como os de uma criança.

"Eu vou ensinar!" acrescentou, como se estivesse convencendo a si mesma.

Kaden olhou para ela com cansaço. "Sim, minha senhora," respondeu, provocando que Aurora balançasse a cabeça de novo.

"Não! Não! Não!" ela repetiu. "Eu ouvi, obedeço, minha senhora." corrigiu ela, "e você deve fazer uma reverência de respeito."

Kaden fez exatamente como ela mandou. Satisfeita, Aurora o dispensou com um gesto de desprezo.

"Agora, Cavaleiro Fraudulento, vá buscar minhas barras de chocolate do dia e minhas coisas. É hora do meu quadro."

"Também, seja gentil e alimente minha linda cadela. Não se esqueça de dar uma beijinho na mão da senhora velha, como forma de gratidão pela dedicação em manter essa casa vazia limpa. E, por favor, não mate meus bichinhos fofos," ordenou Aurora.

Kaden ficou confuso, mas perguntou mesmo assim: "Seu nariz, minha senhora?"

"Eu mesma farei isso."

"Perdão, minha senhora, mas duvido que consiga fazer sozinha."

"Primeiro, não perdoo sua afronta. Segundo, audacioso você, ao assumir que não posso limpar meu próprio sangue do rosto. Terceiro, deixe-me ensinar uma grande virtude de um cavaleiro." Ela levantou o dedo delicado e bonito.

Kaden levantou uma sobrancelha.

"Quando as ordens são dadas, você obedece sem necessidade de entender por quê," ela disse, com tom grave.

Kaden a encarou sério e respondeu: "Pois, sou um Cavaleiro Fraudulento." Encolheu os ombros e saiu para cumprir sua tarefa, enquanto a risada exagerada de Aurora ecoava atrás dele.

Ele suspirou.

Já estava exausto.

—Fim do Capítulo 304—

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