
Capítulo 293
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
Um Warborn pegou algo que não era dele… o próprio irmão, nisso.
Por mais que esses pensamentos passassem pela cabeça de Kaden várias vezes, ele não conseguia entender direito a revelação. Não porque fosse algum enigma do nível da Esfinge ou uma profecia misteriosa, mas porque aquilo não correspondia à imagem que tinha do irmão dele, ou de um Warborn em geral.
Nenhum deles teria roubado algo. Isso nunca faria parte da natureza deles.
Exceto ele, é claro, pois tinha certeza de que faria, se fosse preciso. Mas esse era ele. E, novamente, não era o melhor exemplo de um Warborn.
E, felizmente — ou não, dependendo da perspectiva — Dain estava muito longe de ser como ele. Ele era um Warborn em seu âmago.
Ele se parecia demais com o pai, um homem que preferia cantar sobre a beleza e a glória do honor através de sua arma do que escrever poemas sobre a maravilha da vida. Do tipo de homem que acreditava que coragem era uma virtude e que honra valia a pena morrer por ela.
Levando tudo isso em consideração, Kaden não conseguia enxergar uma razão para seu irmão ter roubado. Talvez ele tivesse mudado nesse tempo por causa de algum acontecimento que pudesse ter alterado seu caráter. Ou talvez…
'Alguém o enganou para ele fazer isso', pensou Kaden ao encarar quatro seres. Dois deles radiavam uma força tão avassaladora, tão abrangente, que Kaden tinha certeza de que esses dois não eram humanos.
Não podiam ser.
Havia algo neles que fazia ele se sentir como se estivesse diante de estrelas… quentes demais ou frias demais para se aproximar.
Sem dúvidas, esses dois poderiam dar um verdadeiro desafio aos seus pais.
Porém, eles não estavam sozinhos.
O terceiro, embora fosse apenas do rank Mestre Grandioso, possuía uma aura que fazia Kaden ter certeza de que nem mesmo cento de Steelbeast Laye — incluindo o próprio Laye — conseguiriam enfrentá-lo. E, para constar, Laye era um Mestre Grandioso.
Os olhos azuis do homem brilhavam com uma arrogância fria que parecia esculpida em seus ossos. O sorriso constante naquele rosto absurdamente bonito era doloroso de olhar.
Ele era bonito de um jeito que quase deixava Kaden com ciúmes.
O último era uma garota que ele agora conhecia bastante bem, aquela a quem chamava de Voz de Ouro. Ela estava com uma postura meio desajeitada, mas se esforçava tanto para parecer intimidadora.
Ela era fofinha, pensou Kaden, mesmo no meio da situação.
Sim, Kaden estava de frente para toda a família Asterion, dentro da sala do trono.
Era magnífico, exalava grandiosidade e riqueza.
As paredes eram pintadas de um dourado tão ofuscante que chegava a doer os olhos. Retratos de imperadores passados — ou suponho que fossem eles — e figuras importantes decoravam cada canto. No teto, o sigilo de Asterion estava pintado em letras audaciosas, brilhando com luz de estrelas que fez Kaden lembrar daquela noite estrelada meses atrás.
O chão era coberto por uma tapeçaria dourada tão macia que ele sentia o toque mesmo com as botas.
Luminary e Mahina, cada um em seus respectivos tronos, estavam lá em cima — um com olhos dourados, a outra com olhos azuis — ambos com expressões que queimavam e congelavam Kaden ao mesmo tempo.
Sirius ficava perto, sorrindo com diversão, fixando seu olhar em Kaden, enquanto Sora cerrava os punhos ao seu lado, lutando para manter o olhar nele, sem se envergonhar.
Kaden ficava no centro da sala, sem correntes. Se alguém não fosse muito atento, acreditaria que ele estava ali para buscar a bênção dos pais de sua amada.
Mas eles estavam muito enganados. Kaden sabia que não importava se ele estava preso ou não — duas dessas criaturas poderiam matá-lo com a mesma facilidade que um homem espanta uma criança, e uma delas realmente o faria lutar com seriedade.
Pela lógica, era uma situação na qual ele nunca deveria ter aceitado estar. Mas tinha aceitado.
E, pelo menos para ele, por uma boa razão.
Ele queria saber mais sobre a história.
E queria encontrar seu irmão.
Então, e se eles encontrassem Dain com a ajuda dele? Ele só precisava do local. Depois, encontraria uma forma de morrer e chegar antes de qualquer um deles, sem que soubessem.
Era um plano só ele poderia pensar, que exigia que fosse tão insuportável quanto possível.
Então ele sorriu, olhando de volta para os dois pares de olhos dourados e dois pares de azuis fixos nele.
"Acho que," começou, seus olhos vermelhos piscando entre eles, "deve ser uma honra conhecer o Asterion, governantes do glorioso Império Celestial." Sua voz carregava um tom de zombaria reverente.
Sirius sorriu ainda mais, seus olhos azuis cintilando como uma criança que acaba de ganhar um brinquedo novo. Ele não falou, mas deu a entender que queria.
Sora arregalou os olhos diante da ousadia de Kaden.
Mahina permaneceu impassível, inexpressiva.
Porém, Luminary levantou as sobrancelhas em indignação.
"Vejo que é um louco corajoso," disse ele, e Kaden sentiu seu interior aquecer.
"Ainda assim, algo bem típico de um Warborn."
'Droga,' amaldiçoou Kaden consigo mesmo, embora sua expressão permanecesse calma.
Luminary e Mahina perceberam isso.
"Diga-me, Kaden Warborn," Luminary retomou, "você sabe por que está aqui?"
"Sei," respondeu Kaden. "A princesa já me explicou tudo isso. Mas, com licença, não entendo exatamente o porquê."
"O que há para entender?" interveio Mahina, com seus olhos glaciais fixos nele, como se ameaçasse enviá-lo a uma tempestade de gelo.
Mais uma vez, Kaden fez um gesto de indiferença com os ombros, olhou para ela com calma e falou: "Tudo, Senhora, se me permitir chamá-la assim, claro." Ele prosseguiu, "Vocês já devem nos conhecer… se não, deixe-me dizer algo sobre nós…" ele fez uma pausa, "…não roubamos. Nunca fomos ladrões e não seremos."
"E, mesmo assim…" Sirius finalmente falou, com voz bastante divertida, "…seu irmão ainda roubou algo de nós, pequeno Warborn." Ele disse, deixando Sora dar um bufado de reprovação.
"Como ele roubou isso?" perguntou Kaden, inclinando a cabeça. "Como meu irmão, que tenho certeza de que não estava acima do rank Mestre Grandioso, conseguiu roubar algo tão importante para o Glorioso Asterion a ponto de me sequestrar?"
Ele balançou a cabeça.
"Diga-me, suas defesas são tão fracas que um Mestre Grandioso consegue invadir seu território, roubar e sair de lá sãos e salvos?" Kaden zombou. "Cérebro grande talvez não seja nossa arma mais forte, mas temos instinto de batalha suficiente para sentir a mentira quando ela aparece."
Sora teve uma parada cardíaca, os olhos arregalados de horror. Ela se virou para o pai para implorar por Kaden, esperando que ele explodisse de fúria e transformasse Kaden em cinzas douradas.
Porém, nada disso aconteceu. Pelo menos, nada que ela esperasse.
Luminary permaneceu sentado, calmo, com seus olhos dourados fixos em Kaden, cuja pele ficou toda vermelha como aço em um incêndio. Vapor saía dele em ondas, envolvendo-o em uma névoa densa, deixando apenas seus olhos vermelhos visíveis através da dor.
"Pai!!" Sora gritou alarmada, apenas para ser silenciada por um único olhar dele.
Luminary olhou para baixo, no Kaden, cujo sangue parecia queimando lentamente, de forma terrível. A dor era insuportável, mas Kaden não fez barulho. Nem sequer torceu o rosto, apenas tossiu, abriu a boca e lambeu os lábios secos.
Suas papilas já estavam destruídas pelo fogo.
Seus olhos vermelhos o encaravam impassíveis, o que fez todos olharem para ele com surpresa variada.
Porém, Luminary mal parecia impressionado.
"Você tem um Will forte, garoto incômodo, vou lhe dar isso," disse Luminary. "Embora isso não o proteja se a temperatura estiver alta demais, não é?"
"É mesmo?" a voz de Kaden saiu seca como algodão.
Sorrido de Luminary se curvou. "Talvez você queira testar isso se estiver em dúvida?"
Kaden soltou uma risada fria. "Proposta interessante. E eu toparia qualquer dia, mas hoje…"
Sua corpo começou a se recuperar lentamente, fazendo-o estalar o pescoço e alongar-se preguiçosamente.
"…Primeiro, quero falar do meu irmão. Não foi por isso que vocês me sequestraram?"
Sirius conteve uma risada alta. Estava adorando isso, era mais divertido do que esperava.
'Esse cara é irmão do Dain? Meu Deus, quão diferentes eles são!' pensou ele internamente.
'Chantageador…' Sora pensou, incerta se tinha que ficar impressionada ou preocupada com Kaden.
'Para um mestre, ele tem um Will demasiado alto,' comentou Mahina internamente, com seus olhos azuis como a lua estreitando-se levemente.
Somente Luminary não demonstrava nada; suas emoções já estavam claramente impressas no rosto.
Ele sorriu e voltou a falar. "Sobre suas suspeitas de que seu irmão seja culpado…" ele começou. "Por que um homem inocente sumiria?"
"Ora," disse Kaden, "quem disse que ele sumiu? Ou, mesmo que tenha, que foi de propósito?"
"Vamos considerar todas as possibilidades, certo?"
"Então você acredita na inocência do seu irmão?" questionou Mahina.
Kaden virou a cabeça lentamente e olhou para ela. "Claro que sim. Meu irmão nunca roubaria algo de vocês, nem que fosse algo que ele precisasse."
"Pois, nesse caso, ele te desafiaria abertamente para um duelo e te levaria a sério." Seus olhos ficaram frios. "Então, mais uma vez," ele encarou todos, "meu irmão. Não. Roubou. Nada. De. Vocês." Ele pronunciou cada palavra com atenção e força.
Sora olhou para Kaden, de repente, entendendo que suas palavras faziam sentido.
Sirius apenas sorriu, achando a troca divertida.
"Se você acredita tanto nele," disse Luminary, "então seja um bom rapaz e nos dê uma gota do seu sangue para encontrar ele."
"E se ele realmente não roubou nada de nós…" ele fez uma pausa, "…então a compensação será feita. Mas, se ele for culpado do que acusamos, que arque com a punição por pegar algo que não é dele."
Ele parou, deixando as palavras se assentarem.
"E qual seria essa punição?" perguntou Kaden, em troca.
"A única que cabe para quem pega o que não é seu," respondeu Mahina fria. "Ele vai morrer."
Kaden não reagiu. Apenas a olhou, sorrindo com diversão.
"Você é uma personagem divertida, Senhora."
O rosto de Mahina se curvou numa expressão de sorriso sutil e misterioso. "Sou mesmo?"
O mundo se pintou imediatamente de azul. O corpo de Kaden reagiu mais rápido que seu cérebro, sua postura se ajustou com uma clareza e velocidade incompreensíveis. Ele ergueu a mão direita, palma aberta, fazendo uma espada surgir nela, e então girou o corpo, fazendo um círculo amplo.
CHUÁN—!
Faíscas espirraram na colisão de Reditha contra uma agulha de gelo fino.
Kaden cambaleou para trás, surpreso com aquela reação inesperada, só para seu pé direito ficar congelado contra o frio. Sem palavras, sua perna inflamou, mas já era tarde demais.
Mahina apareceu atrás dele mais rápido do que ele conseguiu seguir. Sua mão, brilhando com uma luz cortante, disparou em direção à cabeça dele como uma flecha. Tocou a nuca dele, o gelo ganhou vida e perfurou sua mente, congelando seu cérebro num instante. Kaden caiu inconsciente, quase caindo no chão, mas foi pego por Mahina de uma forma estranha, quase delicada.
Sora e Sirius assistiram surpresos, sem entender o que tinha acontecido.
Luminary observou a troca com calma arrogante, seus olhos dourados descendo até os azuis de Mahina.
Procurando uma explicação.
Mahina ofereceu uma. "Precisávamos do sangue dele. Agora temos," ela disse. "Não há necessidade de perder tempo conversando com ele."
"Mãe!" sussurrou Sora, tremendo de medo. "O que vocês estão fazendo com ele?"
Mahina não olhou para Sora, sua atenção permanecia em Luminary, mas ela respondeu: "Este jovem tem um Will enorme. E, enquanto buscamos seu irmão…" ela fez uma pausa, sorrindo friamente,
"…ele será enviado para o Enclausuramento da Casa dos Loucos. O único lugar capaz de conter seu Will."
Luminary ergueu uma sobrancelha, surpreso com a decisão da esposa. "Agora," começou, "por quê?" seu tom de voz era frio e sem emoções.
Sirius sorriu de forma matreira.
Sora ficou completamente perdida, sem conseguir acompanhar direito.
Mahina fixou o olhar no marido. "Preciso mesmo da sua permissão para agir agora?"
"Preciso, Mahina," retorquiu Luminary. Sem querer, a temperatura aumentou mais um pouco. "Ou você virou governante deste império sem minha autorização? Faça-me orgulho e diga."
Ele recostou-se na cadeira, parecendo uma deidade nascida da pureza do sol, cujos olhos poderiam matar um Mestre Grandioso com um único olhar, enquanto encarava Mahina.
Mahina simplesmente se manteve ali, segurando o corpo inconsciente de Kaden nos braços, com frieza inabalável. "Apenas agi pelo seu bem. O sol nem sempre fica no auge, e seu brilho não é infinito."
Sorriu. "Assim, cortei essa conversa inútil e ganhei tempo para vocês. Quanto à minha decisão de enviá-lo ao MadHouse, esse menino tem um Will tão forte quanto eu disse. Somente o MadHouse pode contê-lo sem que ele use isso para causar problemas."
"Mas…" ela sorriu friamente, "…se você tiver alternativas melhores, vá em frente, Sol." A última palavra caía carregada de sarcasmo.
Sirius conteve um sorriso.
Sora, por sua vez, sentia como se estivesse entre fogo ardente e gelo estéril. Sua mente girava com tudo acontecendo ao mesmo tempo.
Isso não era o que tinha prometido a Kaden. E, se continuasse assim, ela perderia sua única chance de evitar que ele se tornasse inimigo dela. Então, com toda força que tinha, falou para a mãe.
"Não era isso que havíamos combinado," disse com tom desafiador.
Mahina não o olhou, continuando a encarar Luminary. Mas ele também não prestou atenção nela, virou os olhos dourados para a filha.
O significado era óbvio, e Sora continuou, ciente de que não havia mais volta.
"A forma como agiu, Mãe," continuou, com a voz tremula, "lembra alguém culpado tentando silenciar as provas."
Sirius gargalhou. "Acusando nossa mãe agora, irmã? Meu Deus, será que estou sonhando?" Suas palavras eram relaxadas, mas seus olhos azuis frios eram ameaçadores o suficiente para fazer Sora recuar. E, naquele instante…
"Sirius." A voz de Luminary ecoou, e Sirius congelou de medo. Girou a cabeça mecanicamente para o pai, seu coração pulando uma batida ao ver aqueles olhos dourados de sol.
Eles giravam como loucos.
"Primeiro e último aviso. Use sua intent na minha filha de novo, e você provará a minha."
Sirius sorriu tortamente, levantando as mãos em sinal de rendição fingida. "Sol, foi só uma brincadeira entre irmãos." Sua voz carregava sarcasmo como a de sua mãe.
A tensão na sala era insuportável. Era como se o Sol e a Lua tivessem decidido nascer no mesmo horizonte, fazendo o clima tremer com o choque de suas forças.
"Você não tem outra alternativa, tem?" disse Mahina novamente, calma e composta.
Luminary lançou um olhar para ela, depois disse: "Não sei o que planeja, Mahina. Mas esse garoto tem que estar bem na próxima vez que o ver."
"Está ameaçando sua própria esposa agora?"
"Eu sei bem quem é minha esposa, por isso estou fazendo isso. Não me faça agir."
Sora não aceitou aquilo. "Pai! Não, devemos mantê-lo conosco!" apontou para Kaden, tremendo, com o dedo balançando. "É mais seguro!"
Sirius fez sinal de silêncio, colocando o dedo nos lábios. "Silêncio, irmã. Os adultos estão conversando."
Sora o encarou de surpresa, fazendo uma cara de reprovação. "Se cuide, Sirius. Não estou falando com você."
O menino apenas mandou um beijo com a mão.
Sora rosnou e voltou sua atenção para o Kaden inconsciente, que ela carregava como se fosse uma criança nos braços da mãe, o coração na garganta. Estava prestes a falar novamente com o pai por ajuda…
'Você lidou mal, minha filha,' ecoou sua consciência, a voz de Luminary em sua mente. Sora se assustou instintivamente.
'Deixe essa ser sua primeira lição ao lidar com alguém astuto.'
Então…
"Pode ir." Luminary encerrou a reunião, deixando Sora congelada, surpresa.
Mahina deu um sorriso fraco para Luminary, e então, em uníssono com o filho, disseram…
"Como desejar, Sol."