
Capítulo 294
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
"Seus olhos estão desconcentrados, mais uma vez", disse o Antropólogo, fazendo Vaela piscar várias vezes seguidas antes que seus olhos azuis finalmente se fixassem nele.
Estavam dentro da masmorra, sentados em cadeiras simples colocadas lado a lado, com uma mesa rochosa entre eles, observando enquanto Abominação, Arruinado e Aranha treinavam os corpos e a consciência das crianças.
A Abominação ria, deliciando-se ao atormentar as crianças miseráveis, que apenas mordiam os lábios de frustração. Enquanto isso, algumas, de forma perturbadora, riam junto com ela. A garota de cabelo vermelho, que Vaela chamara de Escarlate, era a mais barulhenta. Parecia se dar bem com a Abominação.
Arruinado era severo, seus olhos azul-céu invariáveis enquanto treinava seu grupo em coordenação e disciplina, obrigando-os a reforçar sua pegada e flexibilidade. Ele não ria, nem as crianças sob sua supervisão. O homem de pele negra e cabelo raspado — que agora chamavam de Careca — e a mulher de cabelos prateados — que agora eram chamados de Prata — treinavam ao lado dele, com expressões estoicas e inabaláveis, como a do mentor.
Já o método de Aranha era interessante. Usava sua seda para tecer obstáculos invisíveis por todo o espaço ao redor deles, dizendo às crianças que se aproximassem dele sem tocar um único fio.
Uma tarefa difícil, para dizer o mínimo, mas que o menino pálido, agora chamado de Branco, parecia gostar bastante. Seu sorriso se alargou enquanto evitava com facilidade cada fio.
O treinamento continuava, e seu talento era evidente. Alguns deles demonstravam claramente grande potencial.
"O que você quer dizer?" finalmente perguntou Vaela, os olhos se estreitando um pouco.
O Antropólogo sorriu levemente, os olhos fixos à frente enquanto segurava seu chá fumegante na mão direita. Não respondeu imediatamente, como se procurasse as palavras certas, mas eventualmente falou.
"Você sabe", começou ele, "que tenho uma pequena história para te contar. Claro, se me der a honra de seus ouvidos."
O lábio de Vaela se curvou em um sorriso fino por trás da máscara manchada de sangue. " Não seria tola de não ouvir alguém que meu querido chamou de Antropólogo."
Ele riu baixinho. "Nome bastante apropriado, preciso admitir. Deveria agradecer ao Ceifador por isso." Ele fez uma pausa breve, então seu tom ficou mais sério.
"No distante passado", disse, "em um império abençoado pela Celeste, nasceu um jovem herdeiro."
"Ele era talentoso, seus olhos dourados eram quase perfeitos espelhos do sol acima, e tinha a ambição de se tornar esse próprio sol para seu povo. Também tinha um coração gentil, conhecido por dar barras de chocolate a toda criança que encontrava quando era pequeno." Ele riu levemente.
A atenção de Vaela se aguçou. Ela se endireitou um pouco.
"Sem dúvida, tinha tudo para ser imperador. Mas aqui está o problema, Oráculo… o jovem herdeiro não estava sozinho. Tinha um irmão mais velho — igualmente dotado, como toda sua linhagem era abençoada pela Celeste — contudo com olhos que brilhavam ainda mais intensamente que os dele."
"E aí estava o desafio. Dois sóis haviam nascido. Mas nunca poderia haver dois sóis no mesmo céu, na mesma vista… então um tinha que cair."
"Seu pai, incapaz de escolher sem desencadear o caos entre seu povo, decidiu não carregar o peso da decisão. Em vez disso, deu a ambos a mesma autoridade… para fazer o que fosse preciso para se tornarem imperadores."
O sorriso do Antropólogo escureceu. "Uma jogada covarde, se você me perguntar. Mas uma que eu compreendo."
"Eles se mataramm?" perguntou Vaela, intrigada.
O Antropólogo balançou a cabeça. "Nem exatamente. O irmão mais velho tinha todas as vantagens… mais maduro, mais experiente e melhor colocado para herdar a coroa. Já tinha forjado alianças e construído influência enquanto o mais jovem ainda estava comendo chocolate."
"Ao ouvir isso, você deve imaginar que ele virou imperador, certo?"
Vaela assentiu simplesmente.
"Ele teria, se o irmão mais novo não tivesse uma vantagem. Uma vantagem bem desagradável, aliás."
Ele fez uma pausa, deixando Vaela assimilar o peso das palavras.
"Uma vantagem?" ela repetiu. "Qual tipo?"
O Antropólogo sorriu de forma estranha. "Um pouco parecida com você", disse. "A habilidade de enxergar além do presente. Além do que nos é permitido perceber."
Os olhos de Vaela se arregalaram em compreensão, depois se estreitaram, mas o Antropólogo ainda não havia terminado.
"E, no entanto, era diferente de você. Você consegue ver o futuro — às vezes aleatório, às vezes buscado — mas saber o futuro não significa necessariamente conhecer o caminho certo, não é?"
"Essa é a diferença entre vocês duas. O jovem herdeiro tinha uma estrela-guia que poderia mostrar o caminho… o único caminho para se tornar Imperador. Um caminho que nunca falharia se seguisse."
"Mas você sabe, Oráculo", ele sorriu levemente, "nenhum poder vem sem preço."
Ele virou a cabeça para Vaela, e ela pôde perceber a compreensão surgindo em seus olhos. "Da mesma forma que você perde um pedaço da sua visão toda vez que usa sua habilidade de vidente, aquela estrela perdeu sua própria vida toda vez que guiou o jovem herdeiro ao trono."
O corpo de Vaela tremeu, seus olhos imediatamente ficaram frios. "Como você sabe?"
Ele riu. "Vivo há muito tempo, criança. Conheço bem o motivo pelo qual os Videntes são raros", disse. "Todos eles acabam de maneiras diversas que eu preferiria não mencionar. E um dos sinais mais comuns é sempre o mesmo… eles começam a perder a visão."
"Eu te observei", murmurou. "Tenho notado que seus olhos têm ficado desconcentrados ultimamente. Você tem usado sua habilidade demais."
"E daí?" Vaela retrucou, encarando o Antropólogo. "Não importa se perco a visão, contanto que possa ajudar meu querido. Existem muitas formas de ver sem enxergar."
O Antropólogo assentiu lentamente. "Por que o sacrifício?" perguntou. "Porque, se você acha que perder a visão é algo simples…" Ele balançou a cabeça. "Então você está profundamente enganada."
"Eu o amo", disse Vaela friamente. "Eu o amo, e é por isso que não importa. Não sou mais uma criança, Antropólogo. Já vivi tempo suficiente para saber que não será fácil ficar sem olhos, mas não vou ficar aqui inútil só por causa das desvantagens do meu poder."
Ela olhou fundo nos olhos dele. "Eu não vou", repetiu.
"Sua família também te amava", contrargumentou o Antropólogo. "Por que você não demonstrou a mesma devoção?"
O rosto de Vaela tornou-se uma careta selvagem. "Amor?" ela rosnou como uma fera, os olhos neon brilhando. "Eles não me amavam! Só me viam como uma ferramenta para seus objetivos, sem se importar comigo!"
"Esse era o amor que poderiam te dar", disse Calmamente o Antropólogo, impassível diante da fúria dela. "Eles te amavam como uma ferramenta, sim. Mas era amor, não era?"
Vaela apertou os punhos até as knuckles ficarem brancas.
"Eles te amavam da forma como um homem ama seu carruagem preferida, pela viagem que ela pode proporcionar. Esse era o tipo de amor que eles podiam te dar, e te deram. Então por que não escolheu ser, como uma carruagem, e levá-los onde quer que desejassem sem reclamações?"
"Isso não é…", Vaela começou, sua raiva crescendo de modo irracional. "Não é o amor que eu queria", ela disse ao fim.
"Eu não queria ser amada como uma ferramenta. Queria ser amada por quem eu sou, como uma pessoa que pode dar mais do que informações, mais do que um caminho possível rumo ao futuro."
"E por isso escolhi o Ceifador. Porque—!"
"Ele te deu o amor que você acha que merecia", completou o Antropólogo, sorrindo de leve, assentindo em sinal de reconhecimento. "Verdade." Ele sorriu novamente. "Aceitamos o amor que achamos que merecemos, Oracle."
Vaela inclinou a cabeça, os olhos ainda entrecerrados de raiva. "Qual é a relação disso com a história que você estava contando?"
Ele sorriu com um sorriso estranho e inquietante. "Tudo, Oracle. Tudo."
"Do mesmo modo que você aceita o destino eventual da cegueira pelo homem que te deu o amor que acha que merece… é assim que a estrela escolheu queimar intensamente até se apagar, guiando aquele que lhe deu o amor que acreditava merecer."
Vaela pousou a expressão feia, ainda sem entender completamente. "Então, o jovem herdeiro virou Imperador?"
"Ele virou, sim", assentiu o Antropólogo. Depois, "Mas você não sabe…?"
"Uma espada pode te matar uma vez, mas a culpa te mata de novo e de novo."
Os olhos de Vaela se arregalaram. "Ele morreu?"
O Antropólogo riu, um som como pedras rolando pelo chão. "Não, Oracle. Não. A morte é misericórdia. Ele ficou muito pior."
Ele encarou profundamente os olhos azuis dela, levantando a mão livre e apontando com o dedo torto para sua cabeça. Sua voz ficou suave, deliberada.
"Ele ficou louco. Tornou-se algo completamente diferente após perder sua estrela-guia. Tornou-se mais cruel, irracional, sem benevolência, mas também mais forte do que se consegue compreender. Na época do seu reinado, o sol não brilhava mais dourado, mas de um vermelho profundo. Ele se tornou…"
Ele fez uma pausa, virando lentamente a cabeça numa direção distante.
"…o Imperador Sol Louco."
…na direção do Império Celestial.
…
Fokay — Asterion
"Ainda está bravo com minha decisão?" Mahina perguntou, vestindo seu vestido branco de noite rendado de azul, olhando calmamente para Luminary sentado na cama, de costas para a moldura, lendo um livro dourado com olhos entediados.
Claramente, ele não estava gostando.
Mahina não pôde deixar de sorrir internamente ao seu marido. Ele sempre gostava de fazer coisas que odiava, como pescar, ou até ler. Ele não nasceu para isso, era impaciente e cabeça quente demais para hobbies tranquilos.
Mas ainda assim fazia isso todos os dias, mesmo odiando cada segundo.
Ela gostava disso nele.
Sem tirar os olhos do livro, Luminary respondeu calmamente para sua esposa: "Estou parecendo bravo para você?"
"Sim." A resposta de Mahina foi rápida. "Você está lendo há duas horas. E nunca passa de meia hora sem estar bravo."
"Talvez eu tenha começado a gostar de ler", ele disse, sem se incomodar em levantar o olhar. "Agora faça-me sentir orgulho e fique quieta. Estou lendo."
"Você não vai questionar minhas ações ultimamente?" ela perguntou novamente, ignorando completamente a ordem dele.
Se fosse qualquer outro, o Luminary teria reagido com um toma lá dá cá, mas Mahina era sua esposa. Ele já estava acostumado.
"Você sempre age nas sombras, Mahina", disse. "Você adora arquitetar planos e manipular as coisas para conseguir o que quer. Conheço isso em você, e aceitei."
Ele então elevou lentamente os olhos dourados e cruzou o olhar com os azuis de Mahina.
"Mas você nunca fez nada que colocasse este império em risco e, por isso, não me preocupo em pensar sobre isso."
"Nem mesmo se quisesse, você conseguiria saber", disse Mahina com um sorriso frio e brincalhão.
O Luminary sorriu de volta. "Talvez", disse. "Mas eu posso certamente queimar esse lugar horrível até colocar suas conspirações na cara do mundo. Não acha?"
"Ou você acha que pode me impedir, Mahina?"
"Claro que não", ela respondeu. "Você virou o Sol por uma razão. Você tem o porte e a arrogância de um. E é por isso que também deve estar ciente…"
"…Sora não nasceu para o trono." Sua voz ficou firme. "Ela pode ter orgulho, mas não tem a determinação ou a fome de carregar o peso do império nas costas. Conheço minha filha."
"E você acha que eu não conheço a minha?" disse Luminary. "Ela é falha, de fato. E é verdade, Sirius é o escolhido. Ele tem os olhos, a arrogância, a confiança, e herdou sua astúcia. Sim, ele é perfeito para o trono."
Ele fez uma pausa, suavizando o tom. "E eu teria dado minha vaga a ele de bom grado, mas você sabe…"
"Ele é o Herdeiro da Lua", completou Mahina.
Luminary deu de ombros. "Ele é. E será que preciso te explicar por que só o Sol deve governar? Por favor, não me obrigue, estou ocupado lendo."
"Você sabe de tudo isso, e mesmo assim se casou comigo?", sorriu Mahina. "Sabia que isso poderia virar um problema. Então, por que contrariou os desejos dos seus pais ao se casar com uma Lua e depois fez nossos filhos se enfrentarem?"
"Por quê, meu amor?" Luminary riu. "Há algo além do amor que faria um homem cometer a maior tolice de todas?"
Mahina segurou um sorriso. "Até porque sou astuta, como você gosta de dizer?"
"Principalmente porque você é astuta."
Mahina suspirou com um sorriso nostálgico, então fechou lentamente os olhos.
"Vai interferir?" ela perguntou por fim.
"Não", respondeu Luminary. "Vou apenas orientar minha filha inicialmente. E sei que ela encontrará o impulso se realmente desejar realizar seu sonho. Farei com que se tornar Imperatriz seja o único caminho para isso. Mas se, mesmo assim, meu filho vencer…"
Ele fez uma pausa.
"Se uma Lua governar o Império, assim será. Ele governará porque o povo escolheu, e eles arcarão com as consequências dessa escolha. Eu, Luminary Sun Asterion, cumpri meu dever."
"Mantive este Império acima de inúmeros poderes neste mundo. Fiz dele uma força que ninguém ousa desafiar, com você, minha astuta esposa, como minha sombra."
"Não posso governar para sempre. E não tenho desejo de carregar esse peso até morrer. Então, que lutem, contanto que não se eliminem como meus antepassados, aí terei cumprido meu dever de imperador e pai."
Ele ficou em silêncio, retomando a leitura, franzindo imediatamente ao deparar-se com a enxurrada de palavras diante dele. Deu um gemido interior, mas continuou.
Mahina sorriu para ele.
Seu marido sempre a surpreendia. Estava tão próximo dela, e ao mesmo tempo tão impossivelmente brilhante.
Era como o Sol... arrogante e indiferente. Calmo e caloroso com todos, desde que não se aproximassem demais.
Mas também por ser o Sol, ele sabia quando levantar, quando se pôr e quando deixar que outros ocupassem seu lugar.
Luminary... ah, Luminary.
‘Seu pai sabia por que te nomeou assim,’ pensou Mahina, então falou em voz alta, sorrindo de leve: "Talvez o Imperador Sol Louco devesse ter aprendido umas lições com você."
O Luminary sorriu. "Ele deseja." virou uma página preguiçosamente. "Por que enviou o garoto lá?"
Mahina deu de ombros. "Por Sua Alta Vontade."
"Você sabe que ele pode morrer lá, não é? A Loucura do Imperador Sol Louco não é coisa para um garoto, mesmo que ele tenha uma Vontade tão alta."
"Ele não vai morrer, desde que não se aproxime do núcleo do reino", disse Mahina. "E não vai, se realmente desejar salvar o irmão da punição."
O Luminary fez uma pausa, abaixando o livro um pouco. "Você tem alguma parcela na questão do artefato roubado?"
Mahina sorriu. "Você conhece sua esposa, Luminary. Você me conhece."
Ele sorriu de volta.
"Ah, eu conheço", disse. "E é por isso que sei que você quer algo da Casa do Louco. Algo que talvez eu não saiba. Algo que você acha que aquele garoto pode te ajudar a recuperar, por algum motivo."
O sorriso de Mahina vacilou por um breve instante, depois voltou ao normal. "Adivinhação de tolo."
"Ah, veremos", respondeu ele de forma seca.
Mahina não respondeu. Ficou em silêncio por alguns segundos, então simplesmente apagou a luz, mergulhando o cômodo na escuridão densa antes de se deitar confortavelmente na cama.
"O que está fazendo?" Luminary perguntou.
"Está na hora de dormir."
"Eu estava lendo."
"Pare de fingir e venha pra cama."
"Você está me mandando?"
"Não", ela disse suavemente. "Estou te pedindo com jeitinho, marido, venha e aqueça sua esposa."
O Luminary fez um barulho de relutância de brincadeira. "Você tem sorte que eu gosto de fazer meu dever de forma impecável. Até mesmo o de um marido."
No escuro, Mahina rolou os olhos.
"Claro, marido. Claro. Agora venha."
E ele veio, sempre lembrando Mahina de que não era por vontade própria.
Era só dever.
Apenas o peso dele como marido.
—Fim do Capítulo 294—