
Capítulo 298
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
O peito de Meris subia e descia de forma descompassada, o vapor de sua respiração escapando dos lábios enquanto ela apoiava as costas na parede congelada da caverna pequena que conseguira encontrar durante sua fuga.
O que aconteceu após sua decisão instintiva de salvar o gato foi algo que Meris não conseguiu colocar em palavras. Ela simplesmente agiu por instinto — algo que sempre fez — e quase foi morta pela serpente de gelo por causa disso.
Era uma serpente de nível Grande Mestre, afinal.
E isso é que tornava tudo estranho. Como uma criatura de Grande Mestre pôde entrar naquele local, que ela chamava de Refúgio de Gelo, sendo que ninguém jamais ousou cruzar seus limites antes?
Meris não sabia ao certo o que tinha mudado, exceto por uma coisa: a serpente estava perseguindo um gato, obstinada em capturá-lo.
O mesmo gato que agora…
Meris lentamente abaixou a cabeça e olhou para a criatura que estava sentada tranquila na sua frente, completamente impassível. Seu pelo tinha um tom luxuoso de violeta, reluzente com um brilho régio, e seus olhos prateados — pupilas estreitas, brilhando como vidro — eram tão belos e puros que Meris sentiu uma pontada de ciúmes. Pareciam dois espelhos de gelo polidos, refletindo o mundo com precisão perfeita, deixando escapar nada que não fosse visto.
Neles, Meris pôde ver claramente seu próprio reflexo, e era algo que ela não gostaria que Kaden presenciasse.
Ela parecia uma vadia abandonada, uma garota sem lar que vagueava pelas ruas há anos.
Ela balançou a cabeça, afastando o pensamento. Agora não era hora de se preocupar com sua aparência. Ela tinha uma missão a completar e, por alguma razão estranha, Meris sentia que finalmente tinha encontrado algo que poderia conduzi-la ao verdadeiro caminho de sua busca.
Ela sorriu docemente para o gato, que parecia nem ao menos reconhecer o ato de salvar sua vida.
“Olá, gatinho,” ela disse, com um tom suave.
O gato não respondeu, apenas levantou uma sobrancelha… se é que isso era possível para um gato.
Meris coçou a cabeça de forma constrangedida. “Hum… talvez você não me entenda. Então, como é que eu falo com você? Existe uma língua para gatos?” ela murmurou baixinho, e então, como alguém iluminado por uma ideia genial, seus olhos brilharam.
Ela sorriu de canto e parted seus lábios.
“Miau?” ela tentou, com um sorriso confiante, como se fosse uma mulher convencida de sua própria genialidade.
A cobra estremace em puro horror, os olhos prateados arregalados.
Meris percebeu e, interpretando completamente errado, achou que ela finalmente tinha entendido. Motivada, continuou ansiosa: “Miau miau? Miau—!”
“Parem-eow!” de repente, o gato gritou, com terror evidente, enquanto olhava para Meris com extremo repúdio.
A voz… era feminina.
Meris congelou, chocada ao ouvir palavras humanas saindo da boca de um gato. Seus olhos prateados travaram contato com o olhar prateado da criatura.
A gata fez um som com a língua. “Por que fui eu quem enviaram para buscar você-eow?” ela resmungou.
Claramente, ela não queria perder mais um segundo na companhia de Meris. A pata da gato começou a brilhar com uma luz prateada profunda. Ela a ergueu e a bateu contra o chão, e instantaneamente, uma enorme formação rúnica floresceu sob eles, reluzindo com uma luz ofuscante.
Enquanto a luz os engolia, o gato falou pela última vez para Meris, que ainda estava boquiaberta.
“Pequena felina do Elamin, você foi chamada. Bem-vinda à Cidade dos Gatos.”
A luz os envolveu completamente e eles desapareceram da caverna, deixando para trás apenas o eco da voz perplexa de Meris:
“Esse gato acabou de me chamar de filhote?”
…
Meris não era a única passando por uma quest estranha de evolução. Inara também enfrentava a mesma situação, embora o motivo fosse diferente.
Ela ainda estava no Cemitério dos Monstros, onde O Desejo a tinha gerado inicialmente e onde encontrou o legado de Echidna.
Na verdade, ela não fazia ideia de onde ficava o Cemitério dos Monstros em Fokay. Perguntou para sua mãe, para outros membros da Coroa de Prata, até para a Coroa Vermelha… mas ninguém nunca ouvira falar daquele lugar.
Isso a deixou apreensiva e um pouco desconfortável por estar em um lugar que ninguém conhecia, mas, ao mesmo tempo, uma sensação estranha de euforia a invadiu. Pensou: e se eu conseguir acabar com o que quer que seja esse lugar e torná-lo meu?
Não seria, basicamente, um território próprio? Um que Waverith até poderia usar, caso houvesse recursos raros escondidos aqui?
Ela tinha certeza de que o Herói ficaria feliz e orgulhoso dela.
Mas tudo isso era um sonho que passou antes de ela aceitar sua missão lendária. Porque, depois de aceitar, aquele sonho começou a se dissolver como fumaça levada pelo vento que agitava seus cabelos verdes.
Depois de tudo…
{O Cemitério dos Monstros é apenas uma pequena porção de terra pertencente ao domínio das Ordens.}
{Echidna, Mãe dos Monstros, escolheu você como herdeira, sucessora que deve manter seu legado e reavivar no mundo o terror dos monstros.}
{Crie seu primeiro monstro de nível Mestre e consiga a lealdade de um monstro de nível Grande Mestre nesta sepultura.}
{Construa seu poder. Prepare-se, pois sua existência logo será conhecida pelas Ordens, e a barreira que bloqueia este cemitério logo deixará de existir.}
Dizer que Inara ficou chocada seria o mesmo que afirmar que a cor branca é realmente branca. Mas, ao mesmo tempo, ela não ficou completamente surpresa. Echidna havia lhe dito desde o começo que aceitar seu legado significava aceitar seus inimigos e suas batalhas.
Ela tinha concordado, ciente de que nenhum grande poder vem sem um pequeno espinho para picar e fazer sangrar.
Mas só agora ela percebia que seus inimigos estavam muito mais perto do que imaginava, mantidos afastados por uma barreira que logo desmoronaria.
Seu coração começava a acelerar, compreendendo a gravidade da situação. Mas não havia tempo a perder com pensamentos inúteis.
Ela precisava subir de patente e desbloquear mais de suas habilidades. E, para isso…
"Crie um monstro. Um de nível Mestre." ela murmurou, sentada no chão frio, com as costas apoiadas na lápide onde conheceu Echidna.
Criar um monstro era fácil para ela. Mas ela nunca conseguiu criar sequer um monstro de nível Intermediário, quanto mais de nível Mestre.
Então, essa tarefa era difícil, dolorosamente difícil, e ela vinha pensando nisso há dois meses, enquanto tentava ganhar a lealdade de um dos monstros de nível Grande Mestre no cemitério.
Ela tentou. Mas nenhum deles sequer dirigiu-lhe um olhar.
Claro que eles não a mataram — seu status a protegia — mas para eles, ela ainda era digna de desprezo e devia provar seu valor primeiro.
Inara tentou explicar que talvez essa oportunidade nunca surgisse, se eles permanecessem teimosos, mas monstros não se convencem facilmente.
Após uma negociação fracassada, ela fez o que melhor sabia: —Maldições.
Ela cursed a todos eles, chegando a amaldiçoar seus antepassados. Os monstros ficaram furiosos, mas nada puderam fazer além de rosnar e ignorar a Inara insolente.
E agora…
Ela bufou, com raiva ardendo nos olhos. "Aguentem aí, seus bichos desobedientes. Eu não me esqueço de vocês, e quando voltar, vão se ajoelhar ou virar alimento para outros, para que fiquem mais fortes."
Ela murmurou friamente, as palavras carregadas de veneno, causando um frio cortante em todos os monstros de nível Grande Mestre que lhe recusaram até então.
De repente, ela interrompeu seus insultos ao sentir algo se mexendo em sua bochecha esquerda. Seus olhos se deslocaram por suas órbitas até encararem o que tinha ali, e ela viu seu amorfo sanguessuga favorito, o gordo que chamava de Faty, com carinho.
Faty agora tinha uma tonalidade castanha na pele escorregadia e verde, destacando-se entre seus irmãos.
"Com fome?" ela perguntou, mas Faty balançou a cabecinha e comunicou-se com sua mãe na língua silenciosa e estranha que só eles entendiam.
Inara inclinou a cabeça. "Você encontrou uma lápide estranha, enterrada no chão?" ela perguntou, curiosa. "Onde?"
Ela imediatamente se levantou e seguiu as instruções de Faty, parando em seguida, fitando um pequeno buraco, do tamanho de uma moeda.
Ele tinha sido criado por Faty, que era o escavador do grupo.
Inara levantou a perna direita, lentamente uma luz verde a envolveu até o joelho. Então, ela a atingiu com força no buraco, fazendo a terra desabar completamente.
Ela se afundou no solo por causa disso, mas não por muito tempo. Logo, alcançou o solo firme, e ali, na sua frente, estava uma lápide.
Era realmente estranho: viscosa, úmida e, de alguma forma, só de olhar, parecia estar se mexendo… como se algo estivesse rastejando lá dentro.
A lápide brilhou suavemente de um tom azulino, uma tonalidade que Inara associava ao nível Grande Mestre.
Dando um beijo de rápida despedida em Faty — que se contorceu feliz, antes de correr para gabarregar com os irmãos — Inara pressionou a mão, coberta por mana verde, contra a lápide. Ela brilhou intensamente, e, no instante seguinte, se viu completamente em outro lugar.
Já estava acostumada com isso, então se concentrou rapidamente e olhou ao redor. E, então, recuou instintivamente ao diante de uma cena assustadora.
Mofos. Milhões… não, bilhões de moluscos pretos e brancos, se mexendo e retorcendo juntos em uma massa grotesca, horripilante, preenchendo completamente seus olhos verdes.
A serpente em seu pescoço sibou violentamente, demonstrando seu desprezo.
Inara apenas observou enquanto, lentamente, com sua presença, os mofos começaram a se reunir, formando uma figura humanoide, cujo rosto era uma tapete vivo de carne retorcida.
A criatura sorriu, e alguns mofos caíram de seus lábios até o chão. "Honro a herdeira do Ventre dos Monstros", ela disse, com voz enganadoramente doce, inclinando a cabeça para Inara.
Inara permaneceu em silêncio por um momento, até que seu sorriso se deformou em algo desumano. Seus olhos mudaram, tornando-se uma mistura de todos os monstros que carregava por dentro.
Ela abriu os lábios, e uma voz monstruosa, composta de camadas, saiu de sua boca.
"Você", ela falou, com um sorriso que se abriu até parecer rasgar seu rosto ao meio, "eu quero você."
—Fim do Capítulo 298—