
Capítulo 291
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
Que ironia, percebeu Sora.
Voz de ouro…
Era um nome que ela tinha desprezado desde o começo, principalmente pela confiança e calma com que a voz de Kaden sempre o pronunciava. Mas, com o tempo, durante suas provações conjuntas, ela se acostumou com o tom, com a serenidade que transmitia em meio ao mar de nevascas, e deixou de se incomodar com o som dele. E, mais tarde, ao final da provação… ela passou a gostar dele.
Profundamente.
Até mesmo o título que a Relíquia lhe dera, confirmando coisas que ela preferiria deixar de lado por orgulho, era algo que ela agora apreciava.
E, no entanto, agora, ao ouvir novamente aquele apelido vindo de Kaden — que sorria tão livremente, acenando com aquela mesma facilidade irritante — Sora não conseguiu evitar sentir seu coração se apertar de dor repentina.
Ela odiava isso. Odiava o que estava prestes a fazer, e esse conhecimento rasgou sua mente como estilhaços de vidro.
Ela temia esse dia há meses, rezando a Celeste para que nunca chegasse ou pelo menos fosse adiado bastante, tempo suficiente para que algum caminho milagroso se revelasse no meio do caminho.
Mas, como podem ver, suas preces não foram atendidas.
É assim que a vida funciona, infelizmente.
O homem que espera pelo futuro adia sua chegada. E aquele que teme… o chama até sua porta.
Sora o havia convocado.
E agora, ela tinha que assumir a responsabilidade.
Mas nenhum desses pensamentos turbulentos era visível. Ela apenas expirou profundamente, forçando um bufar arrogante enquanto encarava Kaden com sua expressão condescendente de sempre.
“Tarado de chantagem. Vejo que seu sorriso ainda é tão irritante como sempre,” ela disse, enquanto Kaden se aproximava, cada passo abafado pelo barulho ao redor.
Ele riu. "E eu que achava que você ficaria feliz em me ver de novo. Por que está me olhando como se ainda quisesse me matar?" ele brincou, parando no meio do caminho, seu tom ficando brincalhão e desconfiado. "Me garante… que não é isso, né?"
Sora mal conteve um sorriso e respondeu: "E se fosse?"
Kaden deu de ombros. "Então acho que você teria que vir atrás de mim de novo." Ele sorriu de brincadeira. "Mas aconselho a evitar, Voz de Ouro. E se você ficar muito acostumada a correr atrás de mim?"
"As pessoas podem entender errado," ele acrescentou zombando, fazendo os nós das mãos de Sora se fecharem até estalar.
Ela quase tinha esquecido o quão insuportável sua boca podia ser, mas agora se lembrou. E sabia que, se respondesse, só se enterraria ainda mais, então ela simplesmente bufou e virou a cabeça de lado, fingindo desprezo pelo rosto dele…
…um rosto que ela achava assustadoramente mais atraente do que antes.
'Sora! Não pense assim!' ela repreendeu a si mesma internamente. 'Ele é um bastardo. Um bastardo que chantageia, não um charmoso!'
Kaden abafou uma risada enquanto passava por ela, entrando no prédio. Atrás dele, os lábios de Sora se contorceram violentamente.
Assim que entrou, Kaden parou no meio do caminho, as sobrancelhas franzidas ligeiramente. A sala de recepção estava vazia. Não havia vozes, nem passos. Apenas algumas mesas e cadeiras tranquilamente paradas à esquerda e à direita.
Até mesmo as pessoas que atendiam no balcão tinham desaparecido. Lisa, se ela se lembrava bem do nome, também não estava lá.
Sua sobrancelha piscou, e ele resistiu à tentação instintiva de olhar numa determinada direção do hall.
Ele inclinou um pouco a cabeça para a direita. "Foi você quem fez isso, Voz de Ouro?" ele perguntou.
Sora tirou a máscara ao entrar, fechando a porta atrás de si. "Sim," ela respondeu, esforçando-se para não deixar o estresse transparecer na voz.
Ela mal conseguiu.
Quadrou mais do que esperava ao alugar essa sala por apenas uma hora. E, mesmo assim, só conseguiu alugar o hall de recepção, não o prédio inteiro. Ela não tinha essa força, não era rica ou poderosa o suficiente para fazer os alquimistas, ferreiros e rúnicos abandonarem seus trabalhos só porque precisava conversar com…
…não terminou o pensamento antes que a voz de Kaden rasgasse sua mente inquieta como uma faca na manteiga.
"Tem algo que quer me contar?" Kaden perguntou, avançando e sentando-se numa mesa de madeira, de frente para a Sora parada.
Ela de repente sentiu o peso do olhar rubro dele pressionando contra ela, mas mordeu o interior da lip, forçando seu coração inquieto a ficar calmo.
'É o único caminho,' repetiu para si mesma.
De fato, era o único que lhe restava.
Os meses passados tinham sido repletos de dificuldades e descobertas indesejadas. Ela tentou achar uma saída, qualquer coisa que a poupasse da sensação de estar traindo uma amiga, mas já era tarde. Como agora, seu irmão a via como uma verdadeira rival pelo trono.
No começo, ele não a considerava digna de atenção, mas isso mudou assim que ela conseguiu o apoio dos Fireborn.
Aquilo deixou Sirius profundamente perturbado, especialmente porque ele mesmo tinha tentado conquistar o apoio dos Fireborn e falhado.
Agora, ele tinha a lealdade dos Moonborn, o clã de sua mãe, enquanto Sora tinha o dos Fireborn. Dois dos peso do império, divididos entre dois herdeiros.
A partir de agora, o trono só poderia ser decidido pelo mérito, força e popularidade entre o povo. Afinal, os cidadãos do império tinham voz nesse jogo de tronos. São eles os que sofreriam sob um governante ruim, e nenhum deles estava disposto a votar às cegas.
Mas, por enquanto… Sirius tinha o apoio do coração popular.
Ele era o mais velho, o mais forte, já com o rank de Grande Mestre. Sabia falar, sabia brilhar perante uma multidão. Fazia aparições não só na capital, mas também nas três grandes cidades sob domínio do império — Cidade Prateada, Cidade Estrela da Manhã e Cidade Verde — todas governadas por Cruzados de Asterion, cavaleiros cujo poder rivalizava com as Coroas de Prata e até a Coroa Vermelha de Waverith.
Depois dos Fireborn e Moonborn, esses cruzados eram as influências mais poderosas do Império, tendo o potencial de desequilibrar a linha de sucessão.
Boatos diziam que Sirius tinha conseguido conquistar o apoio do Lorde Prata de Cidade Prateada, junto à lealdade de seu povo, aumentando ainda mais sua popularidade.
De todos os aspectos, Sora estava em desvantagem. E, ao lembrar do que seu pai lhe disse… ela sabia que perder esse jogo pelo trono significaria perder seu caminho para realizar seu sonho.
Luminária e Sirius garantiriam isso.
Então…
'Não tenho outra escolha. Preciso de meu artefato mítico para enfrentar Sirius. Apoio só não basta, e, mesmo assim, já estou perdendo.'
O pensamento a pressionava como um mar agitado. O peso dele era sufocante, mas ela abriu os lábios e cruzou o olhar com Kaden sentado.
"Sabe, já ouvi falar da sua família antes, chantagista," ela disse com uma risada sem humor. "Mas a coisa mais recorrente sobre sua família é que vocês são um pessoal complicado."
Ela caminhou lentamente até Kaden e se sentou na mesma mesa que ele, um pouco mais distante.
Ambos fixaram o olhar no mesmo vazio, como se por um acordo silencioso de não se olharem. A cena, de forma estranha, lembrou-os daquele momento na masmorra, naquela caverna fria, onde só havia eles dois, uma fogueira tremeluzente entre eles para aquecimento e para cozinhar.
Sora ainda se lembrava da comida de Kaden. Foi uma afronta ao seu paladar real, refinado por iguarias que os plebeus acreditariam ser feitas só para anjos e, de algum modo… ela sentiu vontade de provar aquilo de novo.
Mas sabia que era melhor não.
"Minha família?" Finalmente respondeu Kaden, com a voz carregada de confusão. "Bom, somos bastante conhecidos por sermos problemáticos." Ele terminou com uma risada suave.
"Mas também ouvi falar que você é conhecido pelo seu honra," Sora acrescentou, batendo os dedos ritmicamente na mesa, sem som, com intenção, como o leve batido de um coração inquieto. "Que você não se envolve com politicagens mesquinhas, que não é hipócrita de se ferrar com os outros por ganho, nem um ladrão que toma o que não é dele."
Aqui, Kaden já percebia que algo estava errado. Não, ele sabia desde o começo, mas só agora a ideia começou a sussurrar em sua mente.
Um sussurro. Ainda nada concreto.
Por isso…
"De fato, não somos nada disso. Podemos ser muitas coisas, mas não trair a palavra ou roubar," ele sorriu de leve. "Mas não me considere o melhor exemplo de um Guerreiro Nascido. Talvez eu seja o menos Guerreiro Nascido de toda a nossa história."
"Sobre isso, eu não duvido," Sora tentou rir, embora com dificuldade.
Depois, ela parou, procurando as palavras certas, algo que não soasse muito rude ou ameaçador. Mas era inútil. A sutileza não era seu forte.
Isso era coisa do irmão dela.
Ela não era de palavras complexas.
Para ela, a verdade era sempre melhor dita como ela era.
"Então, Kaden… por que seu irmão, Dain Warborn, roubou algo de nós?"
Por um breve segundo — rápido demais para nomear — Sora quase caiu ao chão quando um desejo assassino sem limites explodiu pelo salão com uma intensidade e crueldade tão bruta que o próprio mundo parecia sangrar carmesim, os gritos dos mortos ecoando pelo ar.
Mas aquilo não durou nem um segundo.
E, ainda assim, suor escorria pela coluna de Sora. Suas chamas douradas incitavam-se instintivamente à vida, seu corpo se posicionando de forma perfeita, preparado para um golpe mortal contra Kaden.
Ao seu redor, diversos soldados de armadura dourada surgiram, suas espadas reluzentes apontadas para Kaden em formação de ataque.
Olhos dourados ardentes de Sora fixavam nele, cheios de choque e um assustador sussurro de horror.
Kaden, por sua vez, apenas sorria para todos eles.
Um sorriso morto, vazio.
"Desculpe," ele falou, com uma calma cruel, completamente impassível diante da intenção assassina que sufocava o cômodo. "Perdi o controle da minha intenção por um momento."
Depois, com um tom gentil que fazia a pele de Sora arrepiar, ele inclinou a cabeça ligeiramente.
"Mas pode repetir de novo, Voz de Ouro?"
Ele se inclinou um pouco para frente, apoiando a mão na mesa, veias serpenteando sob a pele como cobras de fúria reprimida.
"O que meu irmão fez mesmo?"