
Capítulo 281
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
Lisa se encontrava caminhando rapidamente pelas ruas agitadas de Asterion. Seres de todas as idades, formas e cores passavam por ela, cada um absorto em sua própria vida… alguns sozinhos, outros rindo com amigos ou amores, outros resmungando ou bufando baixinho enquanto avançavam.
Acima, o sol dourado e cegante que normalmente aquecia a cidade já tinha se recolhido ao pôr-do-sol, deixando que a lua azul se erguesse e banhasse todo o território com seu brilho prateado.
Estava em paz.
Mas Lisa não se sentia assim.
Ela mordeu o lábio e acelerou o passo, esbarrando em uma ou duas pessoas pelo caminho, o que lhe rendeu alguns impropérios e olhares de reprovação.
Logo atrás, ela conseguia ouvir ao longe a voz de um homem chamando pelo seu nome, mas o barulho da rua cheia e o número de corpos entre eles a escondiam completamente de vista.
Ela não se deu ao trabalho de responder. Em vez disso, apressou-se, virando à direita em uma encruzilhada que a levava a outra rua. Essa era mais tranquila, menos movimentada. Filas de casas ladeavam ambos os lados, intercaladas com pequenas lojas fechando para a noite.
Quando chegou a outra esquina, virou à esquerda, andou mais dois ou três minutos e, finalmente, se viu em uma parte completamente diferente da cidade, onde nada a cercava além de paredes de pedra simples e uma única porta de madeira adiante.
Ela se aproximou, puxando uma pequena chave de cobre do bolso — anéis espaciais estavam muito além do que poderia pagar — e a encaixou na fechadura. Um clique suave ressoou, e a porta rangou ao se abrir. Ela entrou, tirou a chave do bolso e a guardou, fechando a porta atrás de si.
Dentro do espaço fechado havia um pequeno jardim, não maior que um quarto modesto — cerca de dez por doze pés — carpetado com dezenas de flores douradas que brilhavam suavemente, sua luz difusa preenchendo o ambiente apesar da sombra do teto.
No momento em que viu aquelas flores, os ombros tensos de Lisa relaxaram. Ela caminhou até um canto onde suas ferramentas e materiais de cultivo estavam cuidadosamente dispostos ao lado de seu uniforme.
Começou a se despir lentamente, removendo as roupas luxuosas que Kenan tinha comprado para ela.
Seus dentes morderam o lábio inferior ao pensar nele. Raiva e indignação passaram por seus olhos castanhos por um instante breve antes de se dissolverem em uma tristeza silenciosa.
Depois de dobrar suas roupas finas de lado, ela trocou de roupa: uma blusa marrom de manga comprida e calças combinando, tudo afivelado em botas resistentes feitas para arar o solo e terrenos duros.
Então, colocou as luvas, caminhou até as flores, agachou-se e começou a cuidar delas.
No começo, seu rosto era duro e carregado de tristeza. Mas, com o passar do tempo, seus movimentos desaceleraram, sua respiração se estabilizou e, aos poucos, um leve sorriso começou a surgir nos seus lábios.
As flores douradas chamavam-se flores de Jearuwy. Eram plantas com caules finos e duros, dourados, cujas pontas se transformavam em discos achatados que brilhavam como moedas antes de cair suavemente para os lados. Era um tipo de flor que só podia crescer em ambientes fechados, totalmente sem luz solar. O solo também precisava ser rico em minhocas e sal para que florescessem.
Não era fácil para Lisa cultivar essas plantas, mas ela gostava do processo. Gostava de como elas brilhavam… de quão douradas eram.
Ela economizou seu salário por três anos para comprar não só esse pequeno espaço, mas também as sementes e todos os materiais necessários para cuidar delas. Tudo isso, sem esquecer que trabalhava todos os dias até tarde da noite… exceto aos domingos. Então, todas as noites ela vinha aqui cuidar delas, sabendo que esse era o melhor momento para seu crescimento.
Ela tinha investido tanto dinheiro e esforço…
…por algo que nunca lhe daria nada em troca.
Essas flores eram completamente inúteis. A única coisa que podiam fazer era brilhar de dourado e irradiar um leve calor. Isso era tudo. Mas Lisa tratava-as como se significassem tudo para ela.
E, de certa forma, significavam.
Naquela capital onde ninguém se importava com ninguém, onde cada pessoa era fria e envolta em seus próprios problemas, era difícil encontrar calor humano.
Para uma garota que vinha de uma vila pequena, onde todos se conheciam e se apoiavam, Asterion era um lugar sufocante… um que ameaçava apagar a última centelha de seu coração.
Seu trabalho, por si só, era sufocante, obrigando-a a sorrir e ser gentil com todos dia após dia. Isso afetava sua mente.
Por isso, ela desejava um marido rico.
Embora agora essa ideia tivesse morrido após o incidente com Meris, depois que ela se viu reduzida a uma escrava.
"Heh…" ela riu baixinho, com a voz tremendo ao surgir a memória, os olhos começando a brilhar.
Ela só queria uma vida boa. Como todo mundo neste mundo.
E virou escrava por causa disso.
Por causa do quê?
Porque Meris podia. Porque ela era uma plebéia. Porque ela era fraca.
Achava que tinha feito as pazes com aquilo, que tinha enterrado e seguiu em frente… mas não.
O que aconteceu hoje com Kenan trouxe tudo de volta.
Lisa suspirou com um sorriso triste.
Justo quando ela começava a se acostumar com ele. Justo quando finalmente se sentia confortável ao seu lado, ouvindo ele falando de tudo, vendo seu rosto desajeitado, seu sorriso irônico, seu hábito constante de usar "Cinzas" em todas as frases…
Justo quando Lisa pensava que, neste mundo frio e indiferente, poderia existir alguém que gostasse dela apesar de tudo…
…essa mesma pessoa apareceu hoje para terminar tudo.
Ela mordeu o lábio com tanta força que sangue escorreu e deslizou pelo queixo. "Não vim te procurar…" ela murmurou, a voz trêmula. "Não fui eu quem tentou ficar com você. Não fui eu quem insistiu para sairmos juntos, assistirmos peças ou passearmos…"
Os ombros dela tremeram. "Não fui eu… foi você, Kenan… foi você…" ela arfou.
"E agora… agora você decide acabar tudo após me dar ouro?"
Ela riu de forma amarga, o som vazio e trêmulo.
Será que ele achava que ela só se importava com dinheiro?
Ela também era humana. Tinha sentimentos. Era mulher também, que desejava carinho.
Sim, ela amava ouro, não havia dúvida. Essa era a razão pela qual aceitou seus convites em primeiro lugar.
Mas ouro é frio. Ouro é sem vida. Ouro não consolaria ela ao se partir por dentro. Ouro não a seguraria quando o mundo apertasse demais, quando tudo parecesse desmoronar e afogá-la em um mar de desesperança silenciosa.
Ouro… não sorriria para ela como se ela importasse.
Seus joelhos vacilaram, afundando na terra repleta de minhocas. O peito se apertou de emoções que ela não conseguia nomear, que não podia suportar.
Ela não entendia.
Por quê?
Por que toda vez que ela achava que tinha finalmente agarrado algo precioso, aquilo escapava?
Por quê?
Ela não merecia ser feliz?
A visão de Lisa ficou embaçada. O mundo ao redor dela se dissolveu em névoa enquanto lágrimas rolavam livremente… lágrimas que ela segurava há anos, por sua família na aldeia, pela força que se obrigava a manter.
Ela estava cansada. Estava exausta. Estava… sozinhas.
Logo, Lisa se deitou no chão, o corpo encolhido como uma criança buscando calor, os olhos inchados e molhados.
As flores douradas ao redor dela brilharam mais intensamente, seu brilho se aprofundando na tonalidade, como se pudessem sentir sua dor e tristeza.
A sala ficou mais quente, mais suave, e lentamente suas trembling se acalmaram, a respiração se estabilizou e ela finalmente adormeceu em paz, com suas flores como únicas companheiras.
E tudo isso enquanto lá fora, um jovem de cabelo laranja procurava pelas ruas de Asterion a noite toda, os olhos arregalados de preocupação, chamando seu nome repetidamente, até que sua família o encontrou ao amanhecer e o arrastou para casa, com a voz ainda rouca, o coração ainda inquieto.
…
Darklore — Waverith, A Fossa.
Kaden sentou-se no chão, encarando o livro vermelho à sua frente, suas ideias girando em círculos vertiginosos enquanto tentava processar tudo que tinha acabado de descobrir.
Mesmo sem considerar o fato de que absorvera uma rastros de divindade da Trilha da Tristeza — algo que ainda nem compreendia — as memórias que viu na mente de Luke eram impressionantes.
E ele ainda lutava para digerí-las.
Porém, algumas coisas estavam claras.
Primeiro: Brain tinha mentido para ele. Ele não tinha encontrado a herança do Alquimista Proibido em Fokay, Luke tinha dado a ele. E Luke fez isso em troca de um jeito de dividir sua consciência, o que só podia significar…
O olhar de Kaden se desviou lentamente para o corpo deitado no chão… Luke Thornspire, olhos vazios, parecendo uma marionete quebrada, cujos fios haviam sido cortados.
"Ele ainda não morreu," pensou Kaden, franzindo a testa.
"Está tudo bem, herói?" perguntou Inara, do seu lado esquerdo, com o tom carregado de preocupação.
Meris estava à sua direita, com a cabeça repousando suavemente em seu ombro, oferecendo calma e aconchego silencioso.
Ela percebia que Kaden estava abalado por algo, mas sabia que era melhor não forçá-lo a falar. Inara, por outro lado, não tinha tanta paciência. Odiava vê-lo em silêncio e precisava saber o que havia de errado antes de poder ajudar.
Kaden esboçou um sorriso fraco, Rory empoleirado na cabeça mordiscando minhocas castanhas. "Não é nada," disse. "Só… estou mentalmente exausto pelo que aconteceu."
Ele fez uma pausa, depois acrescentou com um sorriso pequeno: "Aliás, com esse livro, podemos finalmente achar uma forma de salvar Eliot. Não é ótimo?"
"Claro," continuou com humor, "quase me meti numa coisa que prefiro não comentar, mas…"
Ele deu uma leve encolhida de ombros. "Vitória é vitória."
Meris e Inara trocaram um olhar e, de repente, tiveram risos juntos, repetindo em uníssono: "Vitória é vitória!" Elas se aproximaram mais dele, o riso misturado com alívio.
O peso que os pressionava parecia menor. Eliot poderia ser salvo.
Kaden sorriu com elas, embora, no fundo, uma ideia sombria permanecesse…
'Ele nos enganou completamente. E queria matar Eliot por causa da Rea… mas por quê?'
Seu olhar suavizou enquanto refletia sobre as meninas, ocultando a turbulência sob sua expressão calma.
'Preciso descobrir. Mas…'
"Vamos, rápido! Ainda temos pouco tempo!" disse Inara, reencontrando sua energia.
Kaden concordou de leve, levantando-se, seus pensamentos focados numa única questão assustadora…
'Onde está aquele maldito Luke?'
…
Enquanto isso, bem longe de Waverith, dentro de um reino envolto em névoa cinza, um homem encapuzado de repente parou no meio do caminho.
Um sorriso, distorcido entre dor e diversão, se espalhou por seus lábios.
"Oho! Ele durou mais do que eu esperava," murmurou, sorrindo suavemente.
Depois, deu uma língua de lado.
"Que pena. Queria recuperar o livro." Ele suspirou, com os ombros subindo e descendo preguiçosamente. "Espero que tenha sido destruído junto com aquela porcaria patética."
Balançando a cabeça, voltou a caminhar, sua silhueta desaparecendo lentamente na névoa que se movia.
—Fim do Capítulo 281—