
Capítulo 280
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
"Para que serão usadas essas crianças?" perguntou o antropólogo, sua pele castanho-rosada reluzindo suavemente sob o sol artificial da masmorra.
Ele vestia uma túnica preto-branca, drapeada sobre todo o corpo, parecendo um daqueles velhos sábios que renunciavam aos desejos e viviam em temperança.
Algo que certamente ele não fazia.
Sentado com as pernas cruzadas numa cadeira de pedra polida, sorvia uma xícara de chá que exalava um aroma suave de ervas, algo entre folha de mel e verdes frescos.
Ele fez a pergunta enquanto olhava para Vaela, que permanecia de pé em sua roupa habitual: uma túnica carmesim e uma máscara ensanguentada que escondia o rosto.
Às suas laterais estavam Abominação e Estragado. Um pouco mais distante, Aranha se contorcia no campo gramado, cercada pelas crianças.
Elas estavam subindo nas costas dela, rindo e gritando como se a criatura fosse um brinquedo. Ela parecia levemente irritada, mas, contra todas as expectativas, tolerou a farra e, no final, decidiu fechar os olhos e dormir.
Vaela ficou em silêncio ao ouvir a pergunta do antropólogo. Lentamente, virou a cabeça, observando as crianças brincando.
Tinha sido trabalho teleportá-las todas para Fokay. Ela precisou fazer várias viagens entre lá e Darklore, e o processo havia sido exaustivo, especialmente porque as crianças ainda não estavam acordadas.
Gostaria de deixá-las viver vidas normais de crianças… mas isso era impossível. Além da questão do segredo, era óbvio para qualquer um que essas crianças já estavam quebradas.
Elas sorriam e riam enquanto brincavam com Aranha, mas não havia luz em seus olhos… nenhuma emoção por trás daqueles sorrisos.
Eram vazias. Quebradas.
Vaela balançou a cabeça suavemente, uma tristeza-relâmpago passando por trás da máscara dela.
A primeira vista, as crianças estavam divididas em quatro grupos.
Um era liderado por um menino de pele pálida, com um sorriso suave, quase imperceptível… que dava a impressão sinistra de um psicopata sussurrando "eu te amo" enquanto te matava.
Outro grupo seguia uma garota de cabelo carmim e olhos combinando, com um sorriso largo estampado no rosto, brincando de forma selvagem com as demais.
Uma terceira criança — uma menina alta, de cabelo cinza e olhos calmos e recatados — ficava à parte, uma das duas únicas que não participavam das brincadeiras.
E, finalmente, havia um menino de pele negra, careca, com olhos pretos profundos, seu corpo pequeno e musculoso tenso enquanto observava os membros da Véu Carmesim, ao invés de brincar com as outras crianças.
Cada uma tinha cerca de oito ou nove anos, ainda não idosas para despertar. Isso só poderia acontecer aos dez.
Vaela soltou um suspiro suave. "Já recebi minhas instruções sobre o que fazer com elas," disse, com voz gentil. "Mas preferiria esperar que Meu Querido agisse."
Ruinado franziu a testa por trás da máscara. Nunca tinha gostado do modo como a Vidente se referia ao seu Senhor. Era demais para seu gosto.
Abominação, reclinada preguiçosamente no seu cavalo morto-vivo, cujos olhos ardiam com chamas roxas, soltou uma risada baixa. "Seu Querido?" ela repetiu, com diversão escorrendo de cada palavra.
"Sim," respondeu Vaela com firmeza, voltando o olhar primeiro para Abominação, depois para Ruinado. "Tem problema com isso?"
Abominação levantou as mãos em sinal de rendição cínica. "De jeito nenhum. Mas você deve ser bem próxima dele para ousar chamar o Ceifador de seu Querido." Ela riu. "Eu, pessoalmente, nunca teria coragem. O poder do Mestre é demais para eu falar tão casualmente."
Por trás da máscara, os lábios de Vaela se curvaram com orgulho. Ela assentiu repetidamente, satisfeita por Abominação entender o quão próxima ela estava de Kaden.
Ruinado não se incomodou em falar. Se o seu Senhor repreendeu a Seer por sua familiaridade, ele não tinha direito a reclamar. Só podia engolir sua insatisfação.
O antropólogo observou a troca e balançou a cabeça lentamente. "O que são vocês?" perguntou secamente. "Um grupo de devotos do Ceifador?"
Os três o olharam com olhares mortos.
"Não era óbvio? Eu sou a maior devota do Mestre," disse Abominação, inclinando a cabeça.
"É o meu Senhor," rosnou Ruinado. "Sou a primeira devota dele."
Vaela deu de ombros. "E eu sou a líder do clube dos devotos, viu?"
O antropólogo piscou, um olho ticando. Ele teve vontade de discutir, mas achou que não valia a pena brigar com um grupo de fanáticos. Então, redirecionou a conversa: "E as crianças?" perguntou, olhando para elas.
As crianças, que estavam sentadas nas costas de Aranha, agora olhavam com atenção.
Vaela espelhou o olhar delas.
Entre eles não havia barreira de runas ou som. Eles não tinham nada a esconder. Todos podiam ouvir cada palavra.
Ela queria esperar por Kaden para que enfrentassem isso juntos, mas talvez fosse melhor começar a seguir suas ordens.
E assim…
"Agora que vocês respiraram ar de verdade," disse Abominação, sorrindo, "e sentiram uma dose de liberdade correndo nas suas veias…" Seu sorriso se afinou. "…vamos falar de negócios, pequeninos."
Vaela tomou a palavra.
"Nosso Mestre, o Ceifador, deu a vocês duas opções," ela afirmou, levantando dois dedos. Sua voz perdeu a suavidade habitual, assumindo uma tonalidade fria e autoritária.
As crianças ficaram em silêncio. Seus sorrisos falsos desapareceram. Queriam saber…
Escaparam de uma jaula de aço, apenas para entrarem em outra dourada?
E não esperaram muito pela resposta.
"A primeira opção," disse Vaela com calma. "Vocês podem conquistar sua liberdade."
Seus olhos se arregalaram. Surpresa tomou conta de seus rostos pequenos.
"Mas…" continuou ela, "vocês primeiro farão um juramento de sangue diante do próprio Ceifador, para jurar que não dirão uma palavra que possa nos colocar em perigo. E se fizerem…"
Sua voz diminuiu, congelando o ar.
"…nos encontraremos. E quando isso acontecer, a Cerveau parecerá santa em comparação a nós."
Até Aranha se mexeu por baixo deles, seus muitos olhos brilhando como ameaças silenciosas.
O olhar de Vaela se endureceu. "Entendem o que estou dizendo?"
Todos assentiram em uníssono.
"Agora, a segunda opção," disse ela, suavizando novamente a voz. "Fiquem conosco. Alimentaremos vocês, daremos abrigo, treinaremos. E, ao completarem dez anos, cada um receberá uma pedra de despertar para começarem suas jornadas."
As crianças escutaram, curiosidade e expectativa crescendo em seus corações ainda incertos.
"Depois, vocês serão testados," continueva Vaela, "e, dependendo de suas habilidades, serão enviados para missões diferentes pelo mundo."
Sorriso surgiu nos lábios dela.
"Resumindo: vocês se tornarão agentes do Véu Carmesim. Propagarão a glória e a misericórdia do Ceifador a todos que puderem ouvir, ver e pensar."
As crianças sorriram, com olhos brilhando — não com inocência, mas com um fervor aterrorizante. Já tinham sido salvas uma vez pelo Ceifador. A gratidão há muito se tornara parte delas.
E, embora a liberdade as tentasse, no fundo, sabiam que não poderiam mais voltar atrás. Não eram mais crianças normais, capazes de fingir ignorar a crueldade do mundo.
Eram diferentes. Torcidas. Mas também… salvas.
E assim…
"Queremos espalhar a grandeza do Ceifador pelo mundo," disse o menino pálido primeiro. Os outros três asumiram, firmes e convictos.
Vaela e os demais sorriram largos, a satisfação refletida nos olhos.
"Perfeito!" disse Abominação, radiante.
"A partir de agora," começou Vaela, seu sorriso se alargando conforme os deles refletiam o dela,
"…vocês são aprendizes do Véu Carmesim. Se provarem seu valor, poderão se tornar agentes de verdade. E…"
Sua voz caiu, baixa e sedosa como seda, mas suficiente para fazer os pequenos arrepiarem.
"…sejam únicos, excepcionais, e terão reconhecimento oficial do próprio Ceifador."
O sorriso de Vaela se aprofundou. "Estão prontos para isso?"
Por um momento, silêncio.
Então…
"VIVA O CEIFADOR!"
"VIVA O CEIFADOR!"
As crianças gritaram, suas vozes tremendo de alegria, entusiasmo e devoção pura.
Vaela, Abominação e Estragado sorriram, satisfeitos.
O antropólogo observava, uma expressão estranha cruzando seu rosto de pedra.',
'De fato,' pensou, os olhos brilhando com uma luz afiada e perspicaz. 'Não estava errado.'
…
Fokay — Império Celestial.
Em um restaurante luxuoso, bem no coração de Asterion, que parecia derreter-se em brilho, onde ouro e vermelho se misturavam para pintar toda a fachada numa cena deslumbrante.
Este era o Fish'O'Gold, o restaurante mais popular em frutos do mar. Dizem que os proprietários foram marinheiros que cruzaram o grande mar do leste, rodearam o Reino élfico, e aprenderam os segredos das profundezas por si mesmos.
E lá dentro, numa mesa de madeira polida e ouro vermelho, estavam Kenan e Lisa, de frente um para o outro.
Kenan vestia terno vermelho e gravata preta, com uma aparência irresistivelmente charmoso, enquanto a túnica dourada de Lisa brilhava com elegância, a bainha tocando seus tornozelos. Ela estava deslumbrante.
À sua frente, uma seleção de pratos quentes — salmão, camarões dançantes, caranguejo-aranha e polvo — dispostos lindamente, sua apresentação por si só já fazia o estômago de Lisa roncar.
Ela queria atacar imediatamente, mas…
levantou o olhar da comida tentadora e olhou para Kenan.
Ele estava lá, com a colher na mão, encarando o alimento de forma vazia, murmurando a mesma palavra repetidamente.
"Cinzas."
Não era a primeira vez que saíam num encontro, embora Lisa não gostasse de usar esse termo, mas ela já o conhecia bem. Conhecia seu humor, seus hábitos e exatamente como ele ficava quando alguma coisa o incomodava.
E, neste momento, algo claramente o pesava.
Ela respirou fundo. "O que há de errado?" perguntou, seus olhos castanhos fixos nos dele, escuros como uma noite sem lua.
Kenan sorriu de forma constrangedora. "O que quer dizer? Nada de… cinzas errado." Ele vacilou um pouco, forçando um sorriso para aliviar a tensão.
"Ainda não começou a comer? Que estranho. Você sempre devora a comida assim que ela chega à mesa," comentou Kenan, tentando levantar o astral com um sorriso.
Lisa franziu o cenho. Isso era verdade. Ela sempre comia primeiro, sem preocupação, mas hoje, de alguma forma, não conseguiu fazer. Não depois de ver Kenan assim, apático. Afinal…
"Está quieto hoje. Você sempre adora falar sobre tudo e mais um pouco quando estamos juntos," insistiu. "Só que hoje você praticamente não falou desde que nos encontramos."
Kenan coçou a cabeça de maneira constrangedora. "Cinzas… Ainda tenho muito que crescer, né? Nem consigo esconder minhas preocupações." Ele suspirou fundo.
"Então tem algo te preocupando?" perguntou Lisa suavemente. "Algo que daria para contar para uma garota simples, de uma vila distante?" acrescentou.
Kenan ficou desesperado. "Q-que? Não! Você sabe que não olho para você assim!" ele gaguejou, com a voz carregada de indignação.
Lisa riu, um calor sutil brilhando nos olhos castanhos. "Sei que não. Mas é realmente verdade, e não me incomodo. Fiz as pazes com minha situação."
'Desde o incidente com Lady Meris… Sei exatamente onde estou,' pensou silencio.
Kenan exalou, relaxando um pouco os ombros. "Sim… Não posso te contar."
Queria fazer uma confissão, conversar com alguém, mas não com ela. Era sobre sua família, sobre Asterion. Não queria envolver Lisa nessas coisas.
Na verdade, começava a pensar que devia evitá-la completamente. Ela era apenas uma garota fraca de vila distante.
Ninguém hesitaria em matá-la se soubessem que isso poderia fazê-lo vacilar.
Esse pensamento pesava nele, e Lisa percebia isso.
"Quer me contar alguma coisa?" perguntou novamente, com a voz surpreendentemente suave.
Kenan não respondeu imediatamente. Então, lentamente, assentiu. "Sim."
Lisa o olhou, esperando, com os olhos pedindo que ele falasse.
Depois de alguns segundos, reuniu coragem. No fundo, sabia que Lisa não se ofenderia. Mas era ela quem hesitava, quem tinha começado a gostar mais da companhia dele do que planejava.
'Cinzas… Sou tão patético,' lamentou interiormente.
Ele balançou a cabeça levemente e voltou a focar nela.
"Bem," começou, com tom suave, "sei que tenho insistido para que você saia comigo nos últimos meses. Mas agora…" sorriu suavemente, seu rosto bonito refletindo a luz dourada do restaurante, "vou parar com isso, Lisa."
O corpo de Lisa parou, o choque passando por ela toda.
Kenan percebeu, mas interpretou mal, então acrescentou rapidamente, sua voz ainda calorosa apesar da turbulência no peito,
"Não se preocupe, vou te dar ouro suficiente para você não trabalhar por anos," disse com um sorriso brilhante, fazendo um sinal de positivo e piscando de brincadeira.
Ele esperava que Lisa sorrisse de felicidade, risse como sempre fazia quando ouvia falar de ouro.
Mas não.
Em vez disso…
Ela simplesmente ficou lá, olhando para ele com um daqueles olhos castanhos que pareciam conter a misericórdia da terra, inundados por uma sensação que ele nunca imaginou que Lisa pudesse carregar.
E antes que pudesse reagir…
Lisa repentinamente se levantou da cadeira, derrubando-a com um estrondo, e saiu correndo do restaurante.