
Capítulo 279
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
Escuridão.
Era tão densa, tão absoluta, que Kaden sequer sabia se seus olhos estavam abertos ou fechados, e duvidava que saber isso fosse lhe ajudar de algum modo. Encontrou-se em pé em um palco estranho, seu corpo — se é que era realmente seu — parecia diferente.
Havia algo mais nele. Algo além, mas também algo menor.
'Onde estou?' pensou Kaden, e então…
Claridade.
Não era a luz doce e quente do verão que entra pela janela e acaricia seu rosto enquanto dorme… não.
Essa luz era ardente, cegante, como o brilho de uma estrela recém-nascida, e Kaden amaldiçoou internamente enquanto a dor perfurava diretamente seus olhos.
Ele piscou rapidamente, a visão clareando pouco a pouco até que formas começaram a se formar. Quando isso aconteceu, ele congelou.
Ele se viu.
'Ele mesmo…?'
Esse pensamento atravessou sua cabeça como um raio. Instantaneamente, ele olhou para baixo, tentando absorver seu — ou melhor, seu — corpo.
Um arrepio invisível percorreu sua espinha como veneno.
'Estou tendo alucinações?' pensou, com uma inquietação corroendo os limites de sua consciência. Já não tinha mais seu próprio corpo. Ao contrário, pelo que podia ver, ele habitava o corpo de uma mulher.
Uma mulher mais ou menos da idade de sua mãe, pelo que arriscava dizer. Sua pele era cinza e lisa, reminiscentemente do mar no espaço mental de Luke, envolta numa túnica cinza tão vasta que parecia capaz de cobrir toda Waverith e ainda derramar para fora.
Parecia pronta para cobrir o mundo.
Ela — ela — estava sentada em um trono, cuja superfície era suave e macia, como a pele de um recém-nascido, como seda que grudasse nos sentidos.
O ambiente assemelhava-se a uma igreja, embora com partes fragmentadas, com paredes cinzentas e um chão rachado que se desenrolava diante dela em uma simetria assustadora. Um bosque de pilares cinzentos a cercava, cada um com cerca de dois metros de altura, coroados por pequenas chamas cinzentas que queimavam silenciosamente no topo deles.
Kaden ficou paralisado, incapaz de compreender o que via. Mas não tinha tempo de refletir, porque logo…
Ele falou.
Não, ela falou.
A mulher cujo corpo ele habitava.
"******"
Palavras que ecoaram como um trovão pelo espaço silencioso, e ainda assim, Kaden não conseguiu entendê-la. Era um som, uma pronúncia antiga, tão alienígena que fez o ar tremer.
Além da sensação desorientadora de ser um espectador dentro do corpo de outra pessoa, Kaden não conseguiu captar o significado do que fora dito.
Ele tentou ver quem a mulher estava falando e o que viu congelou seu coração.
Luke Thornspire.
Ele estava ajoelhado diante dela, vestido com uma túnica de sacerdote cinza, o capuz do seu cargo pendurado solto nas costas. Estava de quatro, a cabeça pressionada no chão frio, como se quisesse beijá-lo, postura carregada de submissão e reverência. Cada movimento transparecia dedicação.
Em algum momento na conversa, a mulher — Kaden — levantou a mão direita. Era alongada e elegante, as unhas afiadas e brilhantes, uma aliança preta repousava no dedo médio.
A aliança pulsava com uma luz cinza.
Algo se materializou no ar à sua frente, então, com um movimento casual de dedo, ela lançou-o em direção a Luke.
Era um pergaminho cinza, semelhante a cinzas, cheio de inscrições rúnicas negras. Instintivamente, Kaden aplicou toda sua inteligência, vontade e percepção nas marcas, forçando-se a decorar cada traço.
Ele tentou ler as runas, depois escaneou o local com percepção para entender por que aquilo parecia tão familiar, mas então…
Escuridão.
Kaden foi novamente engolido pelo preto, até que uma luz brilhou segundos depois. Desta vez, ele estava levemente mais preparado, a queimação nos nervos oculares atenuada pela expectativa.
Ele abriu os olhos em um lugar úmido e sombrias, onde o cheiro de podridão e metal pairava no ar, paredes de aço se erguiam ao seu redor e uma poça rasa de água tocava seus pés.
Mais uma vez, seu corpo não era seu, embora ele não sentisse menos nem mais do que antes, e ainda assim, o peso entre as pernas parecia estranho, leve demais. Ou talvez fosse só ele.
Seus pensamentos foram interrompidos por uma voz que conhecia demais.
"Agora sim, isso é interessante." Brain apareceu como se surgisse do nada, abaixando o capuz que escondia seu rosto, seus olhos azuis analisando Luke com uma leve diversão.
"Quem diria que você viria procurar por mim pessoalmente. Quer mesmo matar seu irmão desse jeito, Luke?" Sua voz era zombeteira, desdenhosa, como se Luke fosse um mero plebeu sem valor.
Kaden assistia, com o cérebro tentando juntar sentido da cena.
"Se fosse você, Brain, não ficaria tão convencido," respondeu Luke, indiferente. "Não se esqueça, você precisa de mim para sua ideia funcionar."
'Ideia? O plano superhumano?' a mente de Kaden trabalhava rápido, pensando nas possibilidades. Luke sabia dele?'
Luke continuou, sorrindo, "Tenho aqui o Grimório do Alquimista Proibido. Vai precisar dele se quiser ter sucesso. Além disso, vai precisar de mim para inscrever aquelas formações rúnicas por toda Waverith no grande dia."
Ele deu uma risada. "Ou acha que consegue fazer isso sozinho? Fica à vontade." Ele encolheu os ombros, indiferente.
Os olhos emprestados de Kaden se arregalaram na revelação. Luke… inscrevendo a formação rúnica? E o grimório do Alquimista Proibido? Que diabo de cena era aquela?
A face de Brain escureceu. Ele olhou fixamente para Luke, suas íris pulsando com uma luz estranha, visível seu descontentamento.
"Antes de discutirmos o que você quer, tenho uma pergunta," disse Brain, com os olhos azuis brilhando como círculos de plasma na treva. "Como você sabe dos nossos objetivos? Quem te contou?"
Luke riu alto. "Quem me contou? Deuses… Brain, esse é o seu tipo de gente. Vocês se acham mais espertos que todo mundo." Ele deu um passo à frente, chegando perto, a voz carregada de veneno.
"Vocês sempre presumem que todo mundo é idiota. Você realmente acha que só vocês têm espiões?"
Seu sorriso assumiu um tom malicioso, os olhos vermelhos brilhando de maldade.
"Se é assim que pensa, é um tolo. Para de achar que só você foi abençoado pelos deuses com inteligência, senão vai acabar enterrado sob a terra que despreza, entre os cadáveres apodrecidos de plebeus, antes de realizar algo que valha a pena."
Sua voz ficou fria, e por um instante seu rosto se suavizou numa expressão quase divertida, depois ele se recolocou.
"Agora," disse Luke, abrindo as mãos, "me diga seu método para dividir consciências, e eu lhe darei o método para dividir almas. Além disso, quero seu peão para destruir minha família, assim matar meu irmão fica mais fácil."
"Você pede demais," respondeu Brain.
"Estamos falando do Grimório do Alquimista Proibido," encolheu Luke. "Talvez eu seja até o que perca aqui."
"Perder?" zombou Brain. "Quem você acha que está enganando? Eu sei que você já tem uma cópia escondida em algum lugar."
O sorriso de Luke se alargou. "Você não é tão tolo, né?"
Brain bateu a língua e tirou algo do anel de espaço: um livro de capa azul com os selos do Cerveau estampados na capa. Entregou a Luke.
Luke, por sua vez, tirou um livro do próprio anel… antigo, desgastado, com capa vermelha e rasgada, uma boca sorridente pintada na frente com dentes afiados sob ela, a tinta pulsando com uma luz negra imaculada que dava a impressão de vida própria.
Kaden estremeceu dentro do corpo emprestado ao ver aquele livro.
"Você não me conhece," disse Luke, empurrando o grimório para Brain. "Você achou esse livro em uma Fokay, em uma masmorra."
"Não foi, Brain? Que achado, hein?"
Brain ficou em silêncio, aceitando o volume com olhar neutro, até que finalmente abriu os lábios.
"Por quê?" perguntou. "Quais são suas motivações?"
Luke inclinou a cabeça, com a voz brilhando de falsa inocência. "Claroo, quero ser Patriarca e conduzir a família à grandeza."
"Você não me engana," respondeu Brain. "Você não faz isso para restaurar uma família caída."
Luke ergueu as mãos em um gesto de rendição irônica. "Você me pegou, Brain. Mas acha que vou te contar minhas verdadeiras intenções?" Ele riu.
"Não me importo muito," disse Brain. "Mas se seu plano contraria o meu…" Seus olhos azuis ficaram gelados. "Então, não espere misericórdia nessa jogada."
Sorriso de Luke permaneceu intacto. "Você se preocupa à toa, meu caro." Ele fez uma pausa, depois soltou as palavras com uma calma mais fria ainda…
"Só quero meu irmão morto."
"Por quê?" perguntou Brain. "E sua sobrinha?"
O sorriso de Luke se expandiu até parecer o sorriso do próprio livro, selvagem e faminto. "É por causa dela que preciso matá-lo."
"O—!"
Escuridão.
Claridade.
Os olhos de Kaden se abriram lentamente. Desta vez, a luz do mundo foi mantida à distância pelos dois rostos imponentes de duas mulheres deslumbrantes.
Elas o olhavam com preocupação, e no instante em que perceberam que ele se mexia, que seus olhos sanguinolentos se abriram novamente…
"Está bem, meu amor?"
"Por meus ossos! Você me assustou, herói!"
Elas falaram ao mesmo tempo, antes de se virarem instinctivamente uma para a outra, encarando-se com força.
Enquanto isso, Kaden permanecia ali, sua mente ainda recusando-se a processar o que acabara de testemunhar. E, como se isso não fosse suficiente…
"Mestre! Mestre! Encontrei algo!"
A voz de Little Rory cortou a pesada tensão entre as duas mulheres, chamando a atenção de imediato.
Kaden virou a cabeça com esforço, ainda apoiado no colo de Meris e Inara, e olhou em direção a Little Rory, que voava até eles com algo bem apertado no bico.
…um livro.
Os olhos de Kaden se arregalaram.
"Por Deus…!"