
Capítulo 287
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
Já fazia meses que Zaki havia se integrado à Ordem Orion. Ele não entrou sozinho, porém; seus amigos haviam o acompanhado.
Assim, receberam imediatamente o status de Rank A dentro do Jogo Underground da Liberdade, conquistando o privilégio de morar nas acomodações reservadas aos membros da Ordem Orion. E isso significava viver com liberdade suficiente para ir onde quisessem dentro do Underground.
Mas as regras não haviam mudado. Ainda era preciso jogar.
E agora que ele estava entre os Orion… os jogos haviam se tornado ainda mais letais e cruéis.
Não era mais uma disputa entre jogadores miseráveis em busca de liberdade, nem aqueles que ansiavam pela adrenalina de tingir as mãos de sangue… não, isso não existia mais.
Agora, eram jogos travados por recursos, para acumular poder, expandir influência. Jogos em que Ordens lutam para subjugar outras. Jogos que envolvem diretamente os interesses dos Mestres.
E sempre que interesses estão em jogo… o mundo vira mais sanguinolento.
Agora, Zaki estava irremediavelmente envolvido nesse mundo. Mas ele não se importava com quão sangrento o caminho pudesse ficar. Ele não se importava se suas mãos estivessem tingidas pelo sangue daqueles que participavam dos jogos.
Ele simplesmente faria seu trabalho.
E isso significava honrar o sacrifício de Maryam… garantindo que tudo tivesse um propósito.
E teria.
"Está ouvindo, Sky?"
Uma voz profunda cortou os pensamentos turbulentos de Zaki, forçando-o a sacudir a cabeça para dispersar a névoa em sua mente e focar em quem falava.
Era Scarred, com sua pele obsidiana, cabeça calva e uma barba que parecia ter sido incendiada por chamas rubras. Ele vestia a mesma roupa de caçador preta, que delineava perfeitamente sua silhueta musculosa.
A mesma roupa que Zaki usava agora.
Com seus olhos vermelhos celestiais e cabelos que brilhavam como estrelas, Zaki era marcante, bonito de um modo que chamava atenção demais. Seus traços angelicais o tornaram uma sensação entre as mulheres da Ordem Orion.
Don Juan, o chamavam.
Ele acenou para Scarred, olhos calmos. "Estou ouvindo," respondeu de maneira breve.
Estavam numa sala de escritório, com paredes cobertas por peles de bèstias e cabeças montadas exibidas como troféus. O chão era forrado por camadas sobrepostas de pele, tão macias que pareciam luxo sob os pés.
Sentaram-se frente a frente, ao redor de uma mesa de mármore preto, lisa como a pele de um recém-nascido.
Ao fundo da cadeira de Scarred, pendurava uma grande pintura de um magnífico arco preto, com palavras gravadas abaixo:
Obediência pela medo do arco.
O lema da Ordem Orion.
Scarred olhou-o com atenção. "Você agora está no Rank A. Os jogos que enfrentará daqui pra frente serão bem diferentes do que você já viveu." Seus dedos batiam no mármore em ritmo constante. "Mas lembre-se, você ainda está no nível dos Despertados. Por mais forte ou especial que seja, no momento em que entrar nesse tipo de jogo… você está morto."
Ele fez uma pausa para que as palavras se assentassem. Então, sem desviar o olhar, continuou.
"Você conseguiu um rank Lendário, não conseguiu?" perguntou, embora soubesse a resposta.
"Consegui," respondeu Zaki de forma direta.
"Está pronto para começar sua missão?"
"Estou."
"Então pegue e comece. Assim que concluir, treinaremos você… do nosso jeito."
Ele pausou novamente, olhos refletindo o brilho tênue das tochas ao longe da mesa. "Nosso lema é: Obediência pelo medo do arco."
Logo, como se as próprias palavras carregassem poder, o ambiente dentro da sala se afinou, cortando o ar como uma flecha silbante.
O corpo de Zaki tremeu involuntariamente. Por um breve instante, sentiu como se um caçador invisível estivesse observando-o, pronto para soltar uma seta em sua cabeça ao menor movimento.
O medo rastejava até seu coração como uma criatura viva.
Mas ele mordeu forte o lábio, seus olhos vermelhos brilhando com uma luz divina enquanto sussurrava em sua mente:
'Eu não temo. Não temo o que não posso ver.'
De imediato, seu tremor diminuiu, e seu corpo ficou imóvel como uma rocha. Seu rosto ficou frio, como uma escultura de gelo. Mas ele ainda não tinha terminado.
"Eu sou gelo."
Disse com convicção e crença suficiente para que, por um breve momento, a temperatura ao redor deles caísse drasticamente. Geada tocou o ar enquanto a expressão de Zaki se endurecia, seu rosto transformando-se numa pintura celestial de gelo em si.
Scarred o observou com um sorriso, com os dentes tão brancos que pareciam quase artificiais. "Sky, você é formidável. Não conheço sua Origem, e não vou perguntar, mas deve ser algo de peso para suportar o nosso lema como um Despertado."
Zaki não respondeu. Era gelo.
Naquele momento, poderia ser uma estátua, e ninguém perceberia a diferença.
Scarred soltou uma risada, divertindo-se, cada vez mais convicto de que tinha feito a escolha certa ao colocar Sky sob sua liderança.
"Nossa Ordem treina com o arco. É nossa arma," disse. "Mesmo assim, não estou pedindo que abandone suas adagas." Notou o gelo nos olhos de Zaki se aprofundar, então continuou, "Mas você precisa aprender o caminho da Flecha. Porque, para nós, obediência…"
"Obediência pelo medo do arco," completou Zaki calmamente.
Scarred sorriu. "Você aprende rápido, Sky. Agora pegue sua missão."
Silenciosamente, Zaki acenou, puxando a Pedra Lendária. Olhou para ela por um momento, lembrando como a havia obtido. Seus nós se apertaram ao redor da superfície lisa até que sua pele frágil se rasgou, espalhando sangue sobre a pedra.
Um brilho dourado resplandecente inundou a sala, e linhas de texto apareceram diante dele, escritas em letras douradas brilhantes, adornadas com penas brancas etéreas flutuando pelo painel.
DING!
{Condições cumpridas para uma Missão de Evolução.}
{Zaki Caelion, O Filho dos Céus.}
{Você é Portador do Mito, e ser Mítico será seu Destino enquanto trilhar seu caminho.}
{Até agora, você foi indigno do peso do seu talento, e perdeu várias vezes.}
{Retome sua Honra. Reivindique o que o mundo deve a você.}
Então, A Vontade fez uma pausa. O coração de Zaki começou a acelerar.
{Você recebeu sua Missão, Ó Filho dos Céus.}
{Mate um membro de Rank Mestre da Ordem Draco.}
{Prazo: uma semana.}
{ Seja digno de seu sangue, ou morra sem mais vergonha aos céus.}
Zaki olhou para os painéis brilhantes por um longo momento silencioso antes de partilhar os lábios. A voz que saiu dele gelou toda a sala.
"Organize um duelo fatal com um membro de Rank Mestre da Ordem Draco, por favor," disse, sorrindo levemente.
"Se quiser que eu seja útil pra você, é claro."
A palavra favorita…
O Underground ainda não testemunhou o horror de um Portador de Mito.
Mas eles testemunharão.
Logo, basta.
…
"Não tenho outra opção, Rome?" perguntou Sora, sentada na ponta de sua cama luxuosa, com o rosto enterrado nas mãos. Seus cabelos dourados caíam como uma cachoeira, escondendo seu rosto como a cascata cobre a entrada de uma caverna secreta.
Ela não queria lutar pelo trono, mas o mundo parecia decidido a forçá-la a esse caminho.
Todo cenário além daquilo parecia impossível. Seu pai tinha certeza disso.
Rome, de pé bem diante dela, abaixou a cabeça com respeito e devoção. "Minha Senhora, a escolha está em suas mãos," disse, com voz baixa e respeitosa. "Você tem a inteligência, a sabedoria para decidir o melhor para si."
"Mas e se eu não souber?" Sua voz saiu mais suave que o normal. Fraca, até.
"Não quero o trono. Já disse isso tantas vezes que até os surdos ouviriam. Mas não posso abandonar meu sonho. E meu pai nunca me permitirá segui-lo, a não ser que aceite sua ordem, que aceite assumir após ele e lutar pelo direito de governar meu irmão."
Ela prendeu o queixo, resistindo à vontade de amaldiçoar o mundo.
Por que não podia simplesmente deixá-la em paz?
Ela só queria cantar. Fazer o que amava. Por que isso era tão difícil?
Ela não conseguia entender.
Mas não havia nada para entender. Era simplesmente o peso de seu sangue. Sora nasceu para ser o Sol… e não tinha escolha senão ser o Sol do Império.
Ela só podia aceitar seu destino.
E aceitar seu destino significava ir contra Kaden.
Esse pensamento sozinho a enchia de temor.
Não só porque ele era forte demais, muito mais forte do que seus pais poderiam imaginar, mas também porque…
'Um amigo…' Sora sussurrou dentro da mente. Ela tinha vergonha demais para dizer em voz alta, mas não podia evitar. Não conseguia parar de vê-lo como tal.
Aquele que guiou seu caminho.
O único que conhecia seu sonho e não a desprezava por isso. Ao contrário, dava-lhe clareza, direção, motivação.
Ele era o escolhido. Era seu amigo, mesmo que fosse um canalha chantageador.
E agora…
Para realizar de vez o sonho que ele a ajudou a acreditar, ela teria que entregá-lo ao pai, sabendo bem que as consequências não seriam boas.
Sora suspirou fundo.
Mordendo o lábio até ele ficar branco, depois vermelho, enquanto sangue começava a escorrer de seus lábios rosados.
Rome percebeu e entrou em pânico. "Minha Senhora! Por favor, não se machuque!" implorou, embora não se mexesse do lugar, ciente dos limites do seu posto.
Sora não respondeu. Apenas abaixou a cabeça por vários minutos, com pensamentos altos e inquietos, até que…
"Os Fireborn aceitaram meu irmão?" ela perguntou, enfim.
"Pelo que ouvi," respondeu Rome, "ainda não aceitaram. Mas confiar em boatos é perigoso, minha Senhora. Melhor ouvir com um ouvido só."
Sora concordou, lentamente levantando a cabeça, com olhos dourados brilhando como o sol acima do Império Celestial.
"Rome, chame-os pra mim," ela ordenou, depois hesitou e balançou a cabeça. "Não. Eu mesmo irei até eles. Organize."
Rome ficou surpresa por um instante, então perguntou com cuidado: "Minha Senhora, perdoe minha ignorância, mas… isso quer dizer que você vai participar do jogo pelo trono?"
Sora sorriu… um sorriso pequeno, dolorido.
"Tenho escolha, Rome? É isso… ou abandono meu sonho."
"E eu não seria mais Sora Asterion sem ele."
Mas, mesmo sem Kaden… ela ainda era Sora Asterion.
Assim, sua decisão estava tomada.
"Seguirei suas ordens, minha Senhora," disse Rome ao final, fazendo uma reverência e saindo para executá-las.
Sora permaneceu sozinha em seu cômodo ornamentado, embora, naquele momento, não parecesse mais uma sala.
Parecia uma gaiola dourada. Uma prisão linda, feita para aprisioná-la e silenciar sua voz.
Ela precisava quebrá-la. E, se isso significasse perder um amigo…
Esboçou um sorriso tenso.
"Desculpe…"
—Fim do Capítulo 287—