Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!

Capítulo 288

Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!

A prova para se tornar um Acólito Choramingante era difícil e dolorosa, mas não para Rea. Com sua nova distinção como Pássaro Doloroso e sua compreensão renovada do Medo, ela teve facilidade em passar pelo teste.

E ao fazer isso com uma graça tão artificial, aliada à sua Origem, moldada para prosperar dentro da Igreja do Luto, Rea chamou atenção.

E por atenção, não entendia apenas a curiosidade dos seus colegas Acólitos Choramingantes, mas também os olhos vigilantes dos Discípulos do Luto, e até... do próprio Sacerdote Luminoso.

Com esse súbito reconhecimento, veio uma escolha. A decisão de permanecer neutra ou de se alinhar a uma das facções governadas pelos Discípulos.

Aqui, Rea se viu numa encruzilhada.

Ficar sozinha significaria um começo mais difícil. O início seria uma fornalha de isolamento e hostilidade, especialmente agora que todas as figuras influentes da Igreja começavam a avaliar seu valor. Mas se ela aguentasse, se sobrevivesse à primeira tempestade... o caminho para se tornar Santa estaria aberto para ela. Então, ela poderia formar sua própria facção, reunir seus seguidores, construir seu poder.

No entanto, havia um problema... ou melhor, vários.

Sua entrada na Igreja não tinha sido apenas mérito próprio. Ela tinha recebido sua iniciação como Acólito Choramingante graças à Mãe Esmere, e a Mãe Esmere era uma devota serva do Discípulo da Perda, uma mulher famosa não só por seu poder, mas também por sua astúcia política.

Negar a ela equivalia a desafiar a mão que a tinha elevado até ali.

Algo perigoso, pois Rea sabia exatamente o que de infernal aguardava aqueles que viravam as costas para favores na Igreja do Luto.

Se ela negasse essa aliança, não ficaria sozinha. Cada passo seu seria vigiado de perto, cada aliado poderia ser transformado em um espião. Até mesmo o sonho de criar sua própria facção se tornaria quase impossível.

Rea lutou intensamente com essa decisão.

Ela poderia sofrer no começo, trilhar sozinha e dolorosamente o caminho sem apoio ou recursos, até ficar forte o suficiente para se sustentar...

Ou ela poderia abaixar a cabeça agora e obter acesso fácil ao poder, influência e proteção, apenas para depois se enroscar nas próprias correntes da facção que escolher servir.

Afinal, cada Discípulo do Luto era uma candidata ao cargo de Santa.

"Isto... isso é problemático," sussurrou Rea para si mesma, sentada na simples sala que a Igreja lhe providenciara, uma sala que tinha aroma tênue de cera de vela e incenso, paredes pintadas de cinza sem vida.

Deram a ela uma semana para decidir. E hoje era o último dia.

A Mãe Esmere tinha vindo visitá-la várias vezes, chamando-a com o mesmo tom maternal, mas Rea sempre encontrava uma desculpa — fingia uma doença, meditava ou rezava.

Sem dúvida, a mulher suspeitava de algo.

Por enquanto, Rea não se importava. Precisava de silêncio. Precisava realinhar seus pensamentos e decidir, de uma vez por todas.

Seu objetivo era claro. Ela queria se tornar a Santa do Luto.

Dizer isso era subestimar sua magnitude, pois o caminho para a santidade era um labirinto onde inúmeras almas se perderam em tristeza e dor.

Mas, se ela quisesse dar um passo verdadeiro em direção a esse trono, precisava de direção. Precisava de um caminho.

E havia apenas duas opções.

Cada uma difícil, cruel.

No final, ela só precisaria escolher a dor que estivesse disposta a suportar, o preço que estivesse pronta a pagar.

E ainda assim... ela hesitou.

Medo se enroscava ao redor do seu coração como uma serpente, apertando seu laço a cada momento que passava.

Se ela se ajoelhasse agora, viveria confortavelmente, mas morreria na sombra de outra pessoa, usada como degrau para o sonho de alguém.

Se resistisse, poderia ser destruída antes mesmo de começar, usada como aviso — um exemplo para quem ousar caminhar sozinho.

Ela estava presa entre o frio da Antártida e o calor do Inferno.

'Mas você tem que escolher, Rea... você tem que escolher,' sussurrou para si mesma, forçando-se a encarar o inevitável.

Mordeu o lábio com força a ponto de sentir sangue, depois levantou lentamente o olhar para o teto, rumo à vastidão cinza sem vida acima, onde a figura pintada de uma mulher chorando olhava para ela com tristeza eterna.

A Deusa do Luto.

Ela sorriu levemente. "...Ah, como eu queria ter alguém para conversar," sussurrou, um sorriso triste curvando seus lábios.

Ansiava pelos conselhos do pai. Desejava as verdades duras do seu noivo.

Talvez, com eles ao seu lado, ela enxergasse o caminho à sua frente com mais clareza. Talvez, com eles, o futuro não parecesse tão envolto naquela névoa cinza, sem vida, que ameaçava asfixar sua respiração.

Sim... talvez.

Mas eles não estavam aqui. E ela não tinha amigos aqui. Ela não tinha ninguém.

Então, ela caminharia sozinha. Escolheria sozinha. E estaria pronta para engolir as consequências que viessem.

Com esse pensamento final, Rea lentamente voltou a se deitar na cama, suas pálpebras pesadas após uma semana de noites sem dormir e pensamentos inquietos. Sua respiração ficou suave, ritmada, enquanto mergulhava na paz do sono.

Lá, ela voltou a estar diante da mulher chorando, mas desta vez, seu rosto parecia mais real do que nunca. Rea a encarava como alguém que está acostumado demais com aquilo. Seus olhos também choravam, lágrimas negras escorrendo com força por sua face pálida.

Rea sorriu, era um sorriso partido, louco. Sua decisão estava se cristalizando, mais clara do que nunca.

"Você não vai conseguir o que busca de mim," disse à mulher chorando.

"Garanta isso..."

Seu sorriso se alargou, seu rosto torcendo enquanto suas lágrimas negras caíam mais rápido, queimando a escuridão entre elas.

"...Você não vai."

Porque eu vou te levar para o Inferno comigo, se precisar.

Darklore — Waverith

Kaden saiu de Waverith, vestido com suas roupas de fogo vermelho e ouro, tecidas por seu próprio poder. As mãos nos bolsos, Rory preguiçosamente empoleirada na cabeça dele como se fosse um ninho, enquanto Meris e Inara caminhavam a seus lados.

Seguiam tranquilamente pelo ar noturno, passos calmos, vozes se entrelaçando em uma conversa suave. Era um raro momento de harmonia, com Kaden falando de vez em quando, apenas paquereando enquanto escutava as duas garotas conversando.

Inara estava seu jeito usual, animada, de fala afiada, expressando seu entusiasmo com palavras carregadas de palavrões a cada duas frases. Kaden já se acostumara com esse lado dela há tempos.

Meris, por outro lado, era calma, com olhos prateados suaves, mão entrelaçada à dele, sorrindo com carinho para ele, sem vergonha de demonstrar seu amor abertamente.

A noite era pacífica. As ruas estavam vazias, o povo de Waverith voltara para suas casas, trocando palavras com a família ou mergulhando nos sonhos.

"Quando você vai voltar para Fokay, herói?" perguntou Inara ao terminar o passeio silencioso, parando próxima à borda do Abismo.

A escuridão ao redor era profunda, pesada, mas mesmo assim, eles conseguiam enxergar claramente os olhos um do outro.

O olhar rubi de Kaden ardia como sangue inflamado. Os olhos verdes, inclinados, de Inara brilhavam com a luz predatória de uma fera em silêncio na caça. E os prateados de Meris refletiam ambos, polidos e perfeitos, como um espelho do mundo.

Três seres belos. Tão belos que parecia até injusto.

"Fokay?" repetiu Kaden, seus olhos vermelhos brilhando delicadamente sob a luz fraca. "Ainda não. Preciso me acostumar com alguns poderes meus e esperar Waverith voltar a se erguer, firme novamente."

"Ah, então você ainda vai estar aqui quando eu voltar!" exclamou Inara, animada, quase com medo de sentir sua falta quando partisse.

"Voltar?" Kaden inclinou a cabeça, olhando de lado para ela.

"Vou voltar para Fokay para me tornar uma Mestre!" ela declarou com orgulho, sorrindo de um modo desafiador. "Não posso aceitar que você esteja na frente de mim."

Kaden riu, num som baixo e divertido. "Sempre estive à sua frente, chorona. Você acha que isso vai mudar agora... ou mesmo depois?"

Meris deu uma risadinha suave ao lado dele, enquanto os lábios de Inara se contorciam de irritação.

"Você está subestimando minha força," murmurou Inara, cabisbaixa, logo após fazer cara feia.

Meris sorriu abertamente, com expressão de brincadeira, uma zombaria silenciosa que fez os lábios de Inara fraquejarem ainda mais, até que finalmente...

"Vou também," acrescentou Meris, com tom tranquilo, mas sorriso vitorioso. "Já sou intermediária há tempo e estou pronta para virar Mestre." Ela aprofundou o sorriso e acrescentou: "E, aliás, ganhei uma Pedra Lendária da minha mãe dessa vez, então espere por mim, meu amor. Vou ser rápida."

"Espere por mim também," afirmou Inara rapidamente, recusando-se a ficar para trás.

Kaden virou a cabeça para esquerda, depois para direita, observando as duas com um sorriso calmo e discreto.

"Não posso prometer nada," disse com sinceridade. "Tenho coisas a fazer também. Mas... fico aqui e espero por vocês o quanto puder."

As duas sorriam juntas.

Rory, como se de repente tivesse uma clareza, bateu as asas e levantou voo, circulando alto acima de Waverith, seu corpinho pequeno brilhando suavemente sob a luz da lua.

Como se aquele ato simples fosse uma deixa, Meris se aproximou de Kaden, com a respiração embevecida, colocando as mãos suavemente sobre as bochechas dele. No instante em que sua pele tocou a dele, ela tremeu.

Seu corpo estava escaldante. Tão quente que ela sentiu como se sua carne pudesse derreter, como se fosse um pedaço de madeira no fogo santo, destinado a consumi-la por completo.

Porém, ao invés de recuar, Meris se aproximou ainda mais. Abraçou aquele calor, deixou que a consumisse por inteiro, derretesse seus ossos enquanto seus lábios encontravam os dele.

Kaden percebeu tudo — cada tremor, cada hesitação — e poderia tê-la evitado mil vezes, mas não o fez.

Sorriu levemente e aceitou seu gelo, sua frieza que não conseguia rivalizar com a magnitude de seu fogo interior.

Seus lábios se tocaram. Não foi um beijo profundo ou longo, mais parecia um beijo suave, quase uma botada de leve na boca, mas foi suficiente. Suficiente para Meris, suficiente para provar algo.

Quando ela se afastou, sua respiração foi curta, o coração acelerado, mas seus olhos brilhavam de satisfação. Ela olhou por cima do ombro de Kaden e viu Inara congelada, com o rosto vermelho, as mãos cobrindo a boca enquanto espiava entre os dedos com um olho só.

Ela estava mortificada.

Meris sorriu de canto, uma expressão confiante e vitoriosa, antes de sussurrar no ouvido de Kaden, alto o bastante para Inara ouvir: "Sou sua favorita, né?"

O sorriso de Kaden se curvou num sorriso torto. "Sou um homem justo. Amo igualmente."

Uma fuga limpa.

Meris fez um som com a língua, mas ainda assim se encostou nele, derretendo-se no seu calor.

Inara, após alguns segundos de silêncio embaraçado, finalmente quebrou sua vergonha e se aproximou timidamente, agarrando-se ao braço de Kaden, com as bochechas ainda coradas, sentindo aquela mesma sensação de calor ao tocar sua pele, e começou a também se derreter.

Kaden exalou com um sorriso irônico.

Meris rosnou levemente. Inara retrucou com um rosnado.

Cada mulher segurava um lado dele, esquerda e direita, encarando-se como duas gatos ciumentos brigando pelo afeto do seu mestre.

Kaden não reagiu. Se tivesse entendido o que se passava, sua expressão seria inalterada.

Ele apenas levantou o olhar para o céu, para o escuro dos céus de Darklore, e percebeu que naquela noite...

...era uma noite estrelada.

Um sorriso tênue se formou nos seus lábios, quase invisível. Mas as duas mulheres ao seu lado o perceberam de imediato, e sem falar nada, seguiram seu olhar.

Juntas, observaram o infinito mar de estrelas, espalhadas como diamantes na escuridão, brilhando suavemente como almas distantes assistindo de longe.

E naquele singelo momento, nenhuma delas falou. Nenhuma pensou. Apenas ficaram ali, corpos quentes, corações em paz, mentes calmas, contemplando silenciosamente o mundo acima delas.

Era um raro momento de tranquilidade.

E somente ali, sob aquele véu celestial, todas perceberam... que a vida, por mais difícil, cruel ou pesada em sofrimento, nem sempre é sombria.

Assim como o mundo pode afundar na escuridão... sempre haverá luz capaz de te guiar na tempestade.

Era difícil, indiscutivelmente.

E ainda assim, apesar de tudo…

A vida era…

"…bonita," sussurrou Inara.

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