
Capítulo 271
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
Não era só isso. Daela também não parava de perguntar como ele havia desaparecido da última vez e como tinha se encontrado naquela sala estranha com Brain.
Curioso, e sentindo que algo não estava certo, perguntou a Daela se ela tinha visto, naquele dia, algum rato nadando no mar de sangue, mas ela balançou a cabeça, certa de que nenhuma visão assim tinha cruzado seus olhos.
E isso… isso era motivo de preocupação.
Porque, se ele fosse a única pessoa capaz de ver aquela rata amarela, então ou ele estava perdendo a cabeça, ou alguma coisa estava em jogo. A primeira hipótese era tão ridícula quanto dizer que a vida na Terra nasceu do acaso.
Então… a segunda hipótese, então.
Kaden suspirou profundamente, cansado. Ele já tinha que se preocupar com o Devora-Almas e o Alquimista Proibido, não precisava de mais uma intervenção de um rato sanguinário que sempre o guiava para lugares onde acabava morrendo ao menos uma vez.
'Aquela coisa maldita deve querer me matar…' pensou, seu rosto se contorcendo numa carranca baixa que logo se dissolveu na expressão neutra habitual, enquanto Daela insistia para que ele respondesse sua pergunta.
Naquele momento, ele apenas deu de ombros, lançando para ela seu típico discurso melodramático de que um Herói sempre sabia como se colocar em situações onde, depois, seria reverenciado como tal.
Claro, ele dizia aquilo num tom de brincadeira, com um sorriso incomumente largo, o nariz apontado para o céu como se desprezasse a visão do areia amarela abaixo, olhos fechados em um gesto teatral. Mas Daela não levou a sério, acreditando em cada palavra que o irmãozinho dizia, sem hesitar.
O resto da jornada foi repleto de Daela fazendo perguntas incontáveis sobre como ele tinha derrotado Brain… mas, principalmente, sobre a canção que ele havia cantado no final.
Não era a primeira vez que Kaden ouvia aquela pergunta.
Vários dos habitantes de Waverith já lhe imploraram para escrever a canção e entregá-la a eles. Queriam aprendê-la — fazer dela a canção oficial que celebrasse o dia em que a batalha acabara e um sol radiante voltasse ao céu, beijando a fortaleza destruída de Waverith.
Uma batalha chamada A Batalha de Sangue, realizada em 1º de Outubro do Ano 1002, marcando a ascensão do Filho do Sangue ao seu novo lugar como Senhor do Sangue.
E no deserto, onde outrora acontecera a luta entre os Steelbeasts e Waverith, e onde as feras haviam sido derrotadas, aquele lugar agora se via inundado por um mar de sangue.
Passou a se chamar O Mar Vermelho.
Um lugar onde o sangue dos caídos fluía em um padrão estranho, circular, com cerca de dois quilômetros de extensão, a apenas cinco quilômetros de Waverith, na direção sudeste.
O Mar Vermelho estava envolto numa névoa carmesim tão densa quanto pedra, absorvendo toda a região, enquanto ecos da batalha — o clangor de espadas, os gritos, os clamores de dor e desespero — ainda podiam ser ouvidos de longe.
Tornou-se um lugar proibido.
Um local onde ninguém ousava entrar.
Mas boatos já circulavam, dizendo que somente o Senhor do Sangue poderia adentrar ali sem arriscar a sanidade ou ser corrompido pela ira dos mortos.
E não era só isso.
Além de Kaden, surgiu entre o povo uma outra história rumorosa, sussurrada de geração em geração: a de um grupo de seres vestidos de vermelho que teria ajudado a evitar a destruição total de Thornspire.
Dizia-se que Eliot Thornspire, Patriarca da família Thornspire, fora salvo da morte certa por eles. Apesar de seu estado ainda ser grave, com a morte sussurrando boas-vindas aos seus ouvidos.
Nos dias seguintes, as pessoas passaram a descobrir diversos Ninhos do Cerveau. E dentro de cada Ninho, invariably havia uma mensagem — escrita nas paredes, no chão ou no teto — uma dupla de olhos chorando sangue, e palavras inscritas abaixo deles:
"O Ceifador."
As pessoas começavam a se perguntar quem eram aqueles seres de vermelho, o que significava "Ceifador" e por que eles tinham ajudado.
Várias hipóteses surgiram. Alguns afirmavam que eram inimigos do Cerveau vindos de terras distantes. Outros diziam que eram demônios punidores dos culpados. E ainda outros inventavam histórias — reconfortantes, ridículas e estranhas — que pessoas contavam para si mesmas para se acalmar e se distrair num mundo que mal podiam compreender.
Mas, ao final, tanto nobres quanto plebeus optaram por deixar o assunto de lado. Afinal, era sempre mais fácil focar nas coisas visíveis e compreensíveis do que na busca pela verdade de algo invisível.
E assim…
Foi assim que realmente terminou a Batalha de Sangue, depois que Kaden e Daela massacraram o restante do Cerveau e finalmente retornaram a Waverith.
…
Passaram-se dias e a dor tomou conta dos vivos.
Kaden permanecia diante da janela de seu novo quarto, construído por um elemental da terra vindo de Elamin, oferecendo uma visão direta do centro de Waverith e do abismo que ele criara.
Seu quarto era simples, com paredes e chão de terra marrom lisa. Havia uma cama de madeira média ao extremo direito, e o mobiliário necessário para ficar ali por um tempo, esperando para entender como Waverith funcionaria dali para frente.
Kaden não se incomodava com a simplicidade do ambiente. Seus pensamentos estavam longe dali… no preço da guerra.
Muitos havia morrido. Não, dizer "muitos" seria vago demais. Milhões tinham sido mortos. Tanto civis quanto nobres. Alguns em ataques aleatórios, outros simplesmente por serem participantes do conflito.
A terra de Waverith fervia de sangue e cadáveres, emaranhada com o entulho das construções destruídas.
Mesmo de onde ele estava, com sua percepção aguçada, podia ouvir os gritos daqueles que perderam seus entes queridos.
Gritos de uma mãe chorando pela perda do filho. De um irmão, que perdeu o irmão… de um amigo, que perdeu o amigo… de um marido, que perdeu a esposa… de um amante, que perdeu o amor… e de uma criança, que perdeu os pais.
Do lado de fora, via-se pessoas ajoelhadas diante dos cadáveres, cabeças baixas, roupas rasgadas e manchadas de sangue, lágrimas caindo incessantemente como se seus corpos fossem vasos de um oceano sem fundo… tudo enquanto fixavam seus olhares nas formas inertes daqueles que um dia conheceram.
Mas agora, aqueles mesmos corpos eram mortos.
Alguns enterrados sob montanhas de pedra quebrada, seus corpos reduzidos a algo que só um cão acharia prazer em encarar. Outros mutilados ao ponto de não parecerem mais humanos, enquanto pessoas desesperadas tentavam reunir membros espalhados e carne dilacerada, tentando juntar seus entes queridos outra vez.
Era repulsivo.
Mas humanos não eram as únicas vítimas. Até os animais, especialmente cavalos, sofreram enormemente nesta guerra. Seus corpos também jaziam entre os mortos, infestados de larvas e devorados por corvos.
E, mesmo com toda essa dor diante de seus olhos, mesmo olhando para essa cena horrenda, que parece digna de uma galeria de demônios, Kaden achou a morte do mestre mais dolorosa do que a dos milhões de combatentes.
Porque seu mestre era alguém com quem tinha criado um vínculo. Alguém que o ensinou. Alguém que ajudou a dar origem à Vontade que lhe permitiu vencer a guerra.
Sim, foi por compartilhar sentimentos genuínos com a Escrava. Mas com Waverith? Era difícil admitir… porém, Kaden mal se importava com eles. Por isso, a morte de todas aquelas pessoas, para ele, era apenas… estatísticas.
Estatísticas que seriam lembradas ao longo da história como prova da vilania na Batalha de Sangue. Mas nenhum desses números faria justiça à densa nuvem de desolação que agora cobria toda Waverith.
Mas, mesmo assim…
Kaden talvez não sentisse compaixão, mas sua empatia era inquestionável.
Sorria de leve enquanto via, de longe, Eimi ajudando uma jovem que segurava o corpo da mãe morta, lágrimas escorrendo como o mar de sangue que fluía no Mar Vermelho.
A mãe tinha encontrado paz na morte. Mas a menina… ela não encontraria paz tão facilmente. Viveria sofrendo, vítima de uma guerra nascida da arrogância dos poderosos.
"Quando a guerra acaba… só os mortos estão em paz," Kaden murmurou de repente, palavras que penetraram fundo em seu interior.
Ele fechou os olhos e deixou sua percepção vaguear. Forçou-a ao máximo, pois queria vê-los. Queria senti-los. Queria entendê-los.
E, de certa forma… queria consolá-los.
E parecia que os deuses ouviram esse desejo, pois, exatamente diante dele, onde o abismo sem risposta permanecia impassível, uma jovem começou a cantar enquanto se deslocava pelos seus arredores irregulares.
Era uma menina de pele escura, com cabelos vermelhos tão carmesim quanto o sangue que escorria de sua testa rachada. Seus olhos eram do mesmo negro profundo de sua pele.
Ela ficou ao lado do abismo, com os pés descalços dançando sobre as rochas quebradas, sangue escorrendo de suas plantas, mas ela não se importava. Apenas sorriu, movendo as mãos como Kaden fizera ao criar o dragão.
E ela cantou.
E ela cantou a Canção do Fogo e do Sangue.
Todos — os destruídos, os que choravam, os que soluçavam — começaram a se calar, ouvindo a linda voz da jovem que acalmava os corações angustiados apenas com sua canção e seu sorriso radiante, um sorriso que parecia dissipar a pesada nuvem de desespero ao seu redor.
Ela fez tudo isso… mesmo com os olhos embaçados e a chuva ameaçando cair.
Kaden a observava, o olhar involuntariamente caloroso. Fechou os olhos e escutou a canção.
Por algum motivo, ele gostava mais quando essa jovem cantava.
'Embora, a voz dourada ainda seja melhor do que a nossa,' pensou internamente, admitindo a superioridade de Sora em sua própria canção.
Mas seu momento de paz foi interrompido ao perceber a presença de alguém logo fora de seu quarto.
Aquela pessoa parecia relutante em entrar, o coração acelerado, a respiração desigual. Ele sorriu de leve, já sabendo quem era. Então, abrindo os lábios, falou:
"Vai ficar aí parado por muito tempo…"
Pausou, depois acrescentou suavemente…
"…chora bebê."
—Fim do capítulo 271—