
Capítulo 270
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
Em Waverith, Kaden tinha levado a guerra ao seu fim ao matar Brain e interromper suas ridículas conspirações. Mas não foi só em Waverith que a guerra acabou.
Na Tribo Orobus também, a guerra havia chegado ao fim.
Se antes, o assentamento das cobras mal servia para bestas sem verdadeiro gosto por arte viverem nele, agora não era mais um lugar sequer para essas bestas habitarem. Agora, era apenas um lugar para ser lamentado.
Claro, se valesse a pena ser lamentado. Mas não valia.
A terra estava lamacenta de sangue, não vermelha como a de humanos, mas escura, verde venenosa, ainda exalando um leve fedor de podridão que se espalhava pelo ar. Dentro desses bolsões de sujeira verde, corpos de cobras jaziam espalhados, um horror que não era feito para corações sensíveis.
Cadáveres sem cabeça, membros jogados pelo chão como uma tela grotesca de sangue, globos oculares olhando para o céu como se buscassem a misericórdia dos deuses, mas não encontrando nenhuma, intestinos torcidos e inumanos de tão monstruosos que nem dá para descrever, entrelaçados com os corpos dos mortos em ângulos obscenos.
Outros ainda tinham os corpos inteiros, mas cobertos por bolhas roxas de miasma borbulhantes por toda parte. Alguns tinham a carne derretendo como aço sob uma chama ardente, e outros estavam chamuscados de preto, como se raios tivessem caído infinitamente sobre eles.
Era uma visão horrenda. Mas isso era apenas o destino das cobras comuns. O destino dos seus líderes, aqueles que fizeram Medusa e Inara escaparem e voltarem, era muito pior.
Nem vamos nem levar em conta Waly e Old Naka. Medusa não era uma mulher de misericórdia, mas diante de Inara e Meris, ela seria considerada uma recém-nascida em questões de tortura e crueldade.
Ela apenas derreteu lentamente as entranhas de Waly e Old Naka, permitindo que eles sentissem a terrível experiência de suas próprias vísceras, intestinos e órgãos liquefeitos dentro deles.
Era doloroso.
Mas o destino de Bety era muito pior.
Ela, se é que ainda podia ser chamada assim, jazia no chão cercada por manchas de gelo e neve, e poças de sangue negro profundo que exalavam um cheiro horrible. Seus olhos tinham sido arrancados e substituídos por picadores de gelo afiadíssimos, que penetravam fundo em suas órbitas, quase tocando seu cérebro, mas não completamente. E isso, claro, era intencional.
Sua boca tinha se transformado em uma arcada assustadoramente desproporcional, inflando-se como uma criatura marinha de pesadelo, com dentes em forma de agulha em um anel circular. Era grande demais para seu rosto, tornando a cena já miserável ainda mais insuportável.
Mesmo assim, uma lança de gelo, translúcida como vidro, foi cravada fundo em sua boca, atravessando sua garganta e alojando-se em seu estômago.
O restante de seu corpo era uma grotesca junção de vários monstros — vindo da terra, do mar e até do céu — dando-lhe uma forma assombrosa, profana.
Mas isso nem era a parte mais perturbadora dessa cena de horror. Pois Bety, ou o que tinha sido Bety, estava posicionada com as pernas abertas bem largas, e através da mutação controlada de Inara, suas partes íntimas ficaram intocadas, exatamente como eram quando ela ainda era ela mesma.
Mesmo assim, estavam abertas e gotejando como uma fossa usada diversas vezes. Algo que tanto Meris quanto Inara acharam adequado. Meris então criou espadas de gelo e as cravou justamente naquele local, enquanto Inara convocava criaturas verdes semelhantes a vermes para rastejar por dentro e devorá-la de dentro para fora.
E diante dessa cena perturbadora, elas estavam sentadas… Meris na sua cadeira de gelo, e Inara sobre seu lobo de duas cabeças, ambas intocadas pelo sangue venenoso ao redor, observando calmamente enquanto o corpo mutilado de Bety se contorcia.
"Vamos matá-la?" perguntou Inara, com os olhos vazios de calor ou piedade, enquanto a cobra verde enrolada ao seu pescoço lambia sua face, fazendo-a soltar um risinho suave.
"Matar?" ecoou Meris, com a voz enganadoramente doce e brincalhona. "Por que deveríamos matá-la?" Ela riu suavemente.
"Devemos deixá-la assim pelo maior tempo possível."
"Então o corpo dela? O que fazer com essa obra de arte?" perguntou Inara antes de prosseguir, "Meus monstros e minha mãe foram bastante perspicazes. Mataram quase todas as cobras da tribo, sobrando só os velhos e os jovens, fracos demais pra se protegerem, quanto mais pra lutar. Com eles, não podemos ficar aqui nessa parte da floresta. É perigoso."
"Então, definitivamente não podemos deixar isso…" ela fez um gesto de descaso na direção de Bety com um movimento de mão.
Meris concordou. "Tudo bem, então. Vou deixá-la na nossa prisão familiar. Ou…" ela sorriu, e pela primeira vez, Inara viu algo além do sorriso inerte habitual, "ou talvez eu possa contar pro meu Kaden. Tenho certeza que ele ia adorar ver como eu arranquei os olhos de alguém que se atreveu a me olhar errado."
Ela de repente começou a se contorcer de alegria, os olhos turvos de felicidade insana. "Ele vai ficar feliz, né?"
Inara olhou para Meris como quem encara uma estranha. 'Kaden Warborn…?' ela repetiu mentalmente, imediatamente intrigada com aquele nome.
E essa curiosidade fez ela lembrar de algo que tinha ignorado bastante por causa da urgência da situação quando conheceu Daela.
Ela não sabia por quê, mas ver Daela tinha despertado alguma coisa dentro dela. Algumas memórias. Seus cabelos negros, seus olhos vermelhos…
…essas características eram assustadoramente parecidas com as do jovem homem de olhos vermelhos que uma vez a salvou dentro daquela mesma floresta.
Ela fixou seus olhos verde-semelhantes a cobras em Meris, então abriu os lábios, sua voz agora carregada de uma sutil nota de nervosismo que nem percebeu, enquanto a compreensão começava a se iluminar…
"Seu namorado com certeza vai ficar feliz, Meris," ela disse primeiro, depois acrescentou, "Mas tenho uma pergunta."
As palavras dela fizeram Meris concentrar-se nela, o rosto ainda sorridente com expectativa de reencontrar Kaden. "Sim?"
Inara ficou um momento em silêncio, deixando o silêncio ficar, enquanto o sangue sob seus pés continuava a escorrer, e o corpo de Bety se contorcia com gritos de dor inaudíveis enquanto o frio cortante do gelo de Meris ameaçava enlouquecê-la. Se é que ela já não estava louca, é claro.
Depois de alguns segundos de silêncio…
"Encontrei Lady Daela Warborn, e seus traços me lembraram alguém que eu conheci quando tinha dez anos."
'Mas também fraca', ela quis acrescentar, mas não o fez.
Meris confirmou com um leve franzir de testa, confusa, sem entender exatamente para onde Inara queria chegar.
"Então, queria saber se, por acaso, ela tem um irmão que possa estar mais ou menos na nossa idade? Um jovem, com cabelos negros como uma corvo, olhos vermelhos como uma poça de sangue, e…" ela parou lentamente, percebendo os olhos de Meris ficando cada vez mais frios a cada palavra. Um sorriso torto surgiu em seus lábios enquanto o que ela temia começava a se desenrolar.
'Kaden Warborn, hein. Então esse é seu nome?' ela pensou, embora fosse mais uma dúvida retórica do que uma pergunta real.
"Como você conhece Kaden?" perguntou Meris, com a sua usual falsidade calorosa desaparecida.
Inara entendeu o motivo. Uma pontada pequena de dor surgiu no peito ao ver isso, mas depois de passar algum tempo com Meris, ela havia aprendido a entender melhor ela. Podia adivinhar o que ela tava sentindo.
Mas ainda assim, ela estava preocupada por nada. Tudo que ela queria era ver novamente aquela pessoa que mudara sua vida com palavras burras e clichês sobre fraqueza.
Ela sorriu inconscientemente, recordando daquele episódio… um sorriso que Meris nem gostou tanto assim.
"Eu disse," começou Meris, enquanto a temperatura ao redor deles caía drasticamente, formando flocos de neve no ar, "Como. Você. Conhece. Ele." Ela pronunciou cada palavra com uma intenção fria e profunda.
"Como eu conheço ele?" repete Inara.
Ela fez uma pausa, depois sorriu e deu de ombros. E naquele momento, Medusa e Lari começaram a caminhar na direção deles, chamando para que voltassem a Waverith.
Mas a resposta de Inara já tinha ficado gravada na mente de Meris, fazendo-a relaxar sua intenção de matar em relação à sua nova amiga.
"Ele me salvou quando eu não passava de um verme no mundo das cobras."
'De certo modo, ele é um tipo de herói,' acrescentou Inara internamente, rindo enquanto se levantava e estendia a mão para Meris ajudá-la a se levantar.
Meris hesitou por um segundo, depois pegou a mão, franzindo o cenho para Inara. "Ele é meu. Já temos alguns."
Inara levantou uma sobrancelha.
"Quantos?"
"Dois."
"Só dois? Posso ser a terceira."
"Quer morrer?"
"Mataria sua nova amiga por um homem?"
"Com prazer." তাঁ
"Não fale palavrão, mãe diz que é rude."
Meris a encarou com um olhar que gritava 'Vadia, você falando sério?'
Mas antes que ela pudesse responder, Medusa as chamou novamente, forçando Meris a estalar a língua enquanto Inara simplesmente ria.
Agora, ela estava ansiosa para reencontrar o de olhos vermelhos—!
Sua ideia foi interrompida abruptamente.
Ops.
'Kaden Warborn.'
Sim… esse era o nome dele.
—Fim do Capítulo 270—