
Capítulo 272
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
Faziam-se dias desde que Inara e os outros retornaram a Waverith, dias desde que descobriram o colossal poço no centro da fortaleza, e o aroma doce porém macabro da perda que grudava ao forte como um amante obsessivo… tudo isso enquanto ouviam a história de como o mais jovem dos Guerreiros-Borboleta matou Brain.
Faziam dias desde que ela tentava encontrá-lo… algo não particularmente fácil, dadas as condições atuais de Waverith e, sobretudo, pela atenção quase obsessiva que Meris tinha dedicado a ela.
Além disso, fazia dias também que ela se perguntava o que exatamente diria a ele, uma vez que finalmente estivesse diante dele. Mas, por esse pensamento… seria realmente só poucos dias? Não era.
Já se tinham passado cinco anos desde que Inara se perguntava como deveria agir com ele. Deveria ser ela mesma? Ou adotar outro lado, para não parecer estranha diante dele?
Deveria agradecê-lo por ter salvado sua vida, já que nunca tinha tido a oportunidade de fazê-lo? Ou simplesmente… agir como—? Droga! Ela não sabia.
Tantos pensamentos a deixavam tão estressada e ansiosa que até mesmo seus monstros começavam a se perguntar o que estava acontecendo. Mas, mesmo nervosa, Inara queria ver Kaden, desesperadamente.
Então, quando Meris estava com sua mãe para uma questão importante relacionada ao seu lar, e Kaden coincidiu de estar livre, Inara imediatamente dirigiu-se ao seu quarto.
Não foi uma tarefa fácil. Kaden agora era considerado alguém valioso e vital para a nova Waverith, que havia desmoronado, então as pessoas estavam sempre de olho em seu aposento. E, na frente de sua porta, permanecia, como sempre, sua criada, a silenciosa e fiel Sabine.
A criada não disse uma palavra ao ver Inara. Ela simplesmente se afastou, abrindo caminho para que entrasse.
Inara avançou, trajando calças pretas coladas ao corpo, com botas altas que chegavam até o joelho e uma camiseta verde simples que destacava sua cintura fina. Seus cabelos verdes, como fios de folhas de esmeralda entrelaçadas, caíam atrás dela como um tapete jade não enrolado.
Seu habitual olhar de serpente verde desapareceu de seu pescoço, assim como todos os seus outros monstros. Ela não queria parecer estranha diante dele.
Parou em frente à porta, levantou a mão para bater, mas parou no instante exato em que seus nós se aproximaram de uma polegada da superfície de terra marrom.
Seu coração batia forte, como o estampido ensurdecedor de elefantes enfurecidos, e ela tinha certeza de que a ama ao seu lado podia ouvi-lo. Sua respiração era irregular, agitada.
'Não sou mais a mesma. Sou Inara, Mãe dos Monstros. Mudei!' ela gritou internamente, tentando estabilizar a turbulência em seu peito… mas sem sucesso.
Ela era como uma fã dedicada prestes a encontrar seu maior ídolo. A adrenalina, o nervosismo, o estresse de parecer desajeitada, de gaguejar, de fazer papel de boba… tudo isso invadiu os sentidos de Inara numa onda tão avassaladora que até seus monstros, que compartilhavam suas emoções, ficaram inquietos.
Os parasitas dentro dela mexeram-se desconfortavelmente, perplexos com o que sentiam de sua mãe. Ela nunca tinha sido assim desde o dia em que nasceram.
Porém, o que eles não sabiam era que aquilo era um vislumbre de quem Inara já fora, antes de se tornar a Mãe dos Monstros, quando ela era simplesmente…
"Vai ficar aí de pé, choraminga? Sua amiguinha chorosa?"
Uma voz vindo de dentro da sala tocou seus ouvidos, fazendo-a estremecer de surpresa. Ela imediatamente reconheceu quem era.
'Chorona, huh…' ela pensou, lembrando daquele dia embaraçoso em que chorou diante dos lobos, depois sorriu levemente e finalmente entrou na sala.
Assim que entrou, seus olhos verdes, semelhantes a uma serpente, foram diretamente ao jovem à sua frente.
Cabelos negros como fios de escuridão, olhos vermelhos que brilhavam levemente com diversão enquanto a olhava. Ele usava roupas descontraídas: uma camisa preta e calças pretas, com os braços cruzados sobre o peito.
Inara imediatamente reconheceu-o. Seu rosto podia ter mudado ao longo do tempo, tornando-se mais claro, mais afiado, mais bonito, mas era inconfundível. Aquele jovem que lhe salvará.
Kaden também observava Inara. E, naquele momento, ele não pôde deixar de querer fazer uma pequena reverência ao destino.
Como poderia a garota-serpente que uma vez salvou, no meio do nada e sem motivo aparente, ter não só voltado até ele, mas também se tornado alguém de tão destaque?
Era impressionante. Era assustador.
Kaden ouvira falar da filha de Medusa, Inara Serpente, a quem controlava monstros como uma marionete puxando as cordas de suas próprias criações. E agora, ao revê-la, sentia o olhar de inúmeras criaturas observando-o.
Sua percepção era afiada o suficiente para detectar sua presença perfeitamente. Todas estavam dentro de Inara, em algum reino interior estranho, criado para mantê-los.
'Uma controladora de monstros… incrivelmente poderosa.' ele admitiu internamente, então lançou-lhe um sorriso tímido.
"Parece que você assimilou bem minha sugestão, chorona," ele disse, rindo baixinho.
Inara não respondeu imediatamente. Ainda estava absorvendo o fato de estar finalmente diante do homem que sempre desejou ver. O homem que fez seus dentes rangerem e que a impulsionou a seguir adiante. O homem cujas palavras, em parte, moldaram quem ela se tornara.
A fraqueza é um pecado.
Palavras tão simples. Tão triviais, que até um velho semianalfabeto poderia contar para seus netos à noite.
Era tão óbvio… no seu mundo.
Por isso, se qualquer outra pessoa tivesse dito aquelas mesmas palavras, Inara duvidava que elas pudessem ter algum significado. Mas Kaden era diferente.
No fundo, ele tinha a mesma idade dela, mas possuía um poder além de sua compreensão. E ele a salvou sem pedir nada em troca, sem se gabar, sem expectativa—como se tivesse feito simplesmente… porque.
E agora, ao olhá-lo, ela percebeu que era do mesmo jeito que ele salvou sua própria fortaleza.
Esse pensamento antigo ressurgiu em sua mente. 'Herói, hein…' ela pensou internamente, antes de sacudir a cabeça e focar novamente em Kaden.
"Você não mudou. Ainda continua saindo por aí salvando pessoas," ela disse, permanecendo em frente à porta agora fechada.
"O que é, algum tipo de herói?" ela acrescentou, com uma voz levemente provocativa.
Kaden riu. "É assim que me chamam aqui." Ele balançou a cabeça. "Mas, sabe, chorona, eu não sou herói."
Inara não pareceu se importar com o título que Kaden lhe deu. Um título que, se qualquer outro tivesse ousado usar, teria acabado como uma fusão de monstros.
Mais à vontade, ela começou a caminhar na direção dele, sob o olhar vermelho intenso dele. Seus lábios se contorceram levemente, seus passos hesitaram, e seus olhos não podiam segurar os dele por muito tempo.
Mas, eventualmente, ela ficou ao seu lado, observando o forte destruído através da janela.
Kaden também virou-se, assistindo à cena ao lado dela.
Por um tempo, ficaram em silêncio, apenas admirando as ruínas como se houvesse algo digno de admiração.
E havia.
Era a simples percepção de quão frágil a vida realmente era. Como um dia você acorda e tudo parece estar bem, com o céu ainda azul, o ar ainda limpo, a água ainda quente e seus entes queridos próximos. Então, em outro dia, você acorda, e o céu continua azul, o ar continua limpo, mas algo mais te atinge, como um avião se chocando contra você…
A morte de um parente, a rejeição a uma promoção tão aguardada, uma doença repentina, uma separação…
Tudo isso eram coisas que ninguém podia controlar. Mesmo um ser tão poderoso quanto Brain não conseguiu escapar da morte. Como alguém fraco, não acordado, poderia sequer sonhar com isso?
Viviam em um mundo onde os poderosos faziam o que quisessem, simplesmente pelo fato de poderem. Nada mais. Nada além disso.
Nesse mundo, onde a vida e a morte flertavam perigosamente, nascer sem poder para se proteger talvez fosse o destino mais cruel de todos.
E, ao olhar para o destino dos fracos, Inara não pôde deixar de lembrar quem fora quando jovem. Quem ela era antes de conhecer Kaden, antes de conhecer Echidna.
Ela não era nada. Não era ninguém.
Mas tudo isso mudou por causa de palavras simples.
Palavras.
Ah… que poder horrendo, mais uma vez. Elas tinham uma força tão grande que dava até medo.
Da mesma forma que a canção da garotinha lá fora suavizava a dor dos enlutados, palavras também poderiam dar alguém uma razão para viver… ou, de repente, uma razão para morrer.
E, ao fazer essa reflexão, Inara só pôde dizer…
"Obrigada," ela falou suavemente, a voz trembling sob o peso da emoção.
Fazia tempo que Inara não chorava, desde o dia em que herdou seu poder. Mas, naquele momento, seu corpo deixou de obedecer, como se precisasse liberar tudo de uma vez.
Sem consentimento, o mundo tornou-se turvo.
Kaden ficou em silêncio ao ouvir suas palavras, depois sorriu fracamente.
"Foi difícil, não foi?" ele perguntou.
"Foi… foi."
"Mas valeu a pena, não foi?"
"Sim. Valeu."
"Você faria de novo?"
"Faria."
Ele sorriu mais amplamente.
"Então está perfeito. Desde que continue sua jornada sem medo, isso já é mais do que suficiente para mim," ele riu baixinho.
Os lábios de Inara se contorceram de forma calorosa com as palavras dele, e ela também tentou rir.
"Devo te chamar de herói agora?" ela provocou.
"Eu te disse, não sou herói."
"Mas pra mim você é."
"Isso é…", Kaden começou, coçando de forma desajeitada a bochecha esquerda, e um sorriso travesso surgiu em seus lábios.
O sorriso de Inara cresceu ainda mais, divertida por ver esse lado raro e envergonhado dele. Com isso, sua decisão foi tomada. Seus olhos verdes brilhavam intensamente, e ela falou.
"Nós não temos mais casas na floresta," Inara começou. "Minha mãe tentará encontrar um modo de viver dentro desta fortaleza. Podemos ser bestas, mas, como você pode ver, não parecemos uma."
Kaden assentiu, ainda sem entender completamente para onde aquilo iria.
Seus Olhares se cruzaram.
Verde contra vermelho.
Jade contra sangue.
"Acredito que não vão nos aceitar, a menos que façamos um juramento de lealdade," ela continuou, fazendo uma breve pausa antes de concluir,
"Não me sinto confortável em jurar lealdade a este forte. Mas, se precisar…"
Sua esperança se expandiu.
"… quero jurar lealdade somente a você, Kaden Guerreiro."