
Capítulo 275
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
Alma… Comer…
Comedor de almas?
A expressão de Kaden aprofundou-se tanto que quase parecia que uma fenda se formando entre suas sobrancelhas. Seu rosto escureceu, as palavras do curandeiro ecoando dentro de sua cabeça de forma incessante, como um disco arranhado.
"A alma dele está sendo devorada?" conseguiu pensar Kaden, seu coração batendo forte contra as costelas como um prisioneiro desesperado para escapar da cela.
A atmosfera na sala tornou-se pesada, inundada por uma sensação de inquietação. A sensação de que a qualquer momento algo poderia estourar persistia no ar como uma serpente enroscada pronta para atacar.
Meris e Inara, de pé atrás de Kaden, permaneceram em silêncio. Suas expressões ficavam mais sombrias, seus rostos deslumbrantes envoltos pela escuridão que lentamente cobria o céu acima de Waverith.
Ninguém dizia nada. Nem mesmo Eliot falou. Parecia que ele havia usado toda a energia restante para proferir aquelas últimas palavras.
Kaden continuava pensando na situação, seus pensamentos tecendo lentamente um manto de raciocínio sombrio. O conceito de comer almas pode ser estranho para outros, mas não para ele. Ele próprio consumia almas.
Não as almas dos vivos, como a visão terrível diante dele, mas as almas dos mortos… e o uso delas era para nutrir a sua própria essência.
Ele não tinha controle direto sobre o processo, e ainda assim, mais do que nunca, Kaden desejava ter esse tipo de poder. A única coisa que possuía que se aproximava de manipulação de almas era seu traço, Soulbrand. Mas mesmo isso era destinado a matar e rastrear.
Não a curar.
No entanto, a situação ainda não era desesperadora. Havia sua chama negra — o poder que podia devorar mana, linhagem e expectativa de vida. Então, logicamente, se as runas que devoravam a alma de Eliot funcionavam em algum desses três aspectos, talvez ele pudesse salvar a situação antes que fosse tarde demais.
Ele agiu imediatamente.
Estendeu a mão direita e pressionou-a contra o peito de Eliot. Kaden reprimiu um calafrio ao sentir seus dedos encontrarem a superfície fria e úmida de uma pele coberta por veias pulsantes e escorregadias que se moviam como vermes vivos sob seu toque. O instinto de recuar latiu dentro dele, mas ele cerraram a mandíbula e forçou a mão a permanecer ali.
A chama negra piscava de forma intermitente ao redor de sua palma antes de se espalhar pelo corpo de Eliot como um sudário funerário tecido para os mortos.
Todos presentes testemunharam a cena em silêncio, sem dizer uma palavra, nem um sussurro. Todos sabiam do peso do poder de Kaden.
Exceto, claro, Medusa e Inara, que nunca tinham visto esse poder em primeira mão. Mas mesmo sem tocá-lo, elas podiam sentir a natureza aterradora daquela chama.
Para Inara, os monstros que moravam dentro dela começaram a se contorcer inquietos, suplicando à mãe que se afastasse de Kaden.
Ela os ignorou.
Mesmo assim, a expressão de Kaden não se suavizou.
Enquanto a chama negra envolvia Eliot, Kaden conseguiu examinar sua condição com mais cuidado. Sentiu o ritmo lento do coração dele, o atraso dos pulmões, a dor mais profunda do que carne, o tormento que ia além de qualquer sofrimento físico. Foi então que ele compreendeu plenamente o que Eliot estava passando.
E, com apenas um sussurro daquela dor tocando sua mente, Kaden só conseguiu descrever de uma forma…
Era como se ele estivesse vivo enquanto monstros desumanos, com dentes mais afiados que uma lâmina de Soulforger, o dilaceravam membro por membro… saboreando o gosto enquanto o devoravam vivo.
E, ainda assim…
Eliot sentia algo muito pior.
Mas sua surpresa ainda não tinha acabado.
Passo a passo, cuidadoso para não machucar Eliot, Kaden procurou a mana responsável por aquela calamidade. Interceptou uma das veias negras que saíam da runa, tentando devorá-la completamente.
Não funcionou.
Ele rangeu os dentes, o estresse crescendo sob a pele como uma febre. Negando-se a desistir, tentou outra veia, pensando talvez — só talvez — que era apenas aquela. Ainda assim, nada deu certo.
O silêncio que seguiu na sala estreita e rochosa era o silêncio dos mortos, do luto. Era como se todos ali presentes, inconscientemente, já estivessem começando a se preparar para o inevitável.
Porque Kaden percebeu algo aterrador. A runa negra não funcionava com mana. Não funcionava com intenção, também, ele teria percebido naquele momento.
Sem dúvida, não era Will.
Então… o que era?
Kaden não pôde refletir muito tempo sobre isso. Mas mesmo sem entender completamente o mecanismo, ele já tinha uma ideia. Voltou a cabeça em direção aos seus pais, cujas expressões normalmente relaxadas e calorosas agora estavam obscurecidas por uma preocupação profunda.
Não por Eliot. Mal se importavam.
Mas por Kaden. Porque eles sabiam o que aquilo significaria para ele, ficar ali assistindo à morte do pai da mulher que ele havia prejudicado.
Esse era o verdadeiro peso do momento.
Kaden já carregava a culpa por não ter conseguido Rea, não só como parceiro, mas como o homem que buscava consolo nos braços de outras mulheres às escondidas dela. E agora, além disso tudo, ele teria que testemunhar a morte do pai dela?
Era um pensamento que preferiria não alimentar.
Ele precisava de uma saída…algo, qualquer coisa. Então falou, sua voz mais fria que gelo.
"O traidor…"
"Onde ele está? Onde está Luke Thornspire?"
Ele exigiu, sua mente consumida por uma tempestade de ansiedade e fúria.
Antes que seus pais pudessem responder, Meris o fez. "Ele está acorrentado no poço", ela disse, colocando a mão no ombro dele, seus dedos tocando suavemente.
Kaden exalou de repente, o calor do toque dela o trazendo de volta ao presente.
Abominação não matou Luke, ele ainda pertencia à família da dona dele, afinal. Então ela matou os outros e o deixou lá, cercado pelas evidências irrefutáveis de sua traição.
Aquela época, Kaden não sabia quem exatamente entre eles tinha ajudado Thornspire, mas quem quer que fosse, ele estava pronto para dar um beijo ensanguentado naquela pessoa.
Inspirou fundo e fechou os olhos brevemente antes de falar novamente.
"A alma dele é o problema, mãe, pai", disse, alterando o olhar entre eles e depois para Mayari. "Precisamos de uma maneira de impedir que a alma dele seja completamente consumida por aquela runa."
Fixo o olhar neles, olhos vibrando com urgência contida. "Vocês conseguem fazer isso, né?" Seus lábios formaram um sorriso torto. "Só o suficiente para ganhar tempo", insistiu.
"Vamos conseguir", disse Serena firmemente. "Vamos, meu bebê."
Sem mais palavras, Kaden se levantou e caminhou em direção ao poço, seus olhos vazios.
Ao seu lado esquerdo e direito, Meris e Inara o acompanharam, lado a lado.
Quando saiu lá fora, uma coruja caiu em sua cabeça como uma pedra pesada.
"Mestre! Mestre! Para onde você vai?!" Charlie, o pequeno Rory, piou, seu bico tocando suavemente a orelha esquerda de Kaden, olhos vermelhos brilhando de animação infantil.
Inara levantou uma sobrancelha, sua Origem despertando instintivamente ao ver a coruja. Ela franziu a testa, mas não disse nada.
Kaden ficou em silêncio por um instante, então murmurou, sua voz baixa e firme,
"Vou encontrar um traidor."
…
Fokay — Floresta de Esmeralda.
Quente.
Huff, huff, huff
O som de respiração pesada era tão alto quanto um jovem, vestido com roupas azuis esfarrapadas que grudavam ao corpo, sangue seco escorrendo pelo rosto, cabelo e olhos azuis cansados, caminhando por uma estrada queimada de rochas e grama.
O sol amarelo de Fokay brilhava furiosamente, criando uma névoa tão densa e brilhante que parecia que você poderia quase tocá-la.
A estrada estava cercada por fileiras de árvores de esmeralda, formando uma paisagem verde demais para o jovem cansado caminhando por ali.
Fazia dias que ele entrara naquele lugar, andando em círculos em busca do Reino dos Elfos, mas nada se-avistava. Apenas bestas como macacos gigantes, pássaros místicos e lobos persistentes o cercavam, incomodando-o sem parar.
Elas eram fracas, mas demais para alguém que tinha escapado da morte apenas pela misericórdia dos deuses vigilantes.
"Pelo cérebro, onde está aquele maldito reino?" amaldiçoou ele, a voz carregada de irritação. Não aguentava mais. Seu corpo começava a falhar, e logo deixaria de se mover totalmente.
Decidindo evitar esse final, suspirou e desabou sob uma árvore. Sua costas esfregou na casca áspera, sentindo tanto desconforto quanto alívio ao mesmo tempo.
"Precisando de um fôlego… Preciso aproveitar para respirar!" disse, com as narinas e boca abertas, tentando puxar o ar ao redor como um aspirador.
Depois, fechou os olhos, pensando em dormir, cansado demais para se importar com sua segurança.
Essa decisão lhe custou caro.
Nem um segundo depois, sentiu o toque frio do ferro contra seu pescoço.
Aposto que era a ponta de uma flecha.
Ele congelou.
Seus olhos arregalaram, prestes a abrir, mas se fecharam novamente ao ouvir uma voz sem emoção reverberar fundo em seu crânio.
"Quem é você? O que está fazendo aqui?" A voz era feminina, suave e calma, como o chiado das folhas acima dele. Mas o homem não sentia nada disso, só a ponta fria e afiada da flecha ameaçando perfurar sua garganta com um golpe só.
Engoliu em seco, a garganta seca como terra em seca, e gaguejou, "Eu… Desculpe, mas estou apenas procurando o Reino dos Elfos."
A flecha pressionou ainda mais contra sua pele. Uma fina linha de sangue escorreu. Seu corpo tremeu, ele segurou um grito de dor.
"Quem é você?" A voz ficou mais fria desta vez.
Medo e urgência turvaram seus pensamentos. A morte estava bem ali, e ele precisava completar sua missão antes que algo pior acontecesse. Ele passou o dedo pelo anel espacial no dedo.
"Eu — estou aqui para ver meu jovem mestre!"
Disse, então, com mais força…
"Estou aqui para ver o jovem mestre Nuke Cerveau!" ele gritou, e a mulher, de cabelos prateados, olhos castanhos e orelhas pontudas, arregalou os olhos ao ouvir o nome que ele pronunciou.
"Você… Está procurando o consorte da princesa Aurélia?"
Silêncio caiu como uma lâmina.
O homem congelou, estupefato. Instintivamente, abriu seus olhos azuis e olhou para a elfa com uma expressão de espanto. Então, com uma voz trêmula e exausta…
"O-que?"
—Fim do Capítulo 275—