
Capítulo 277
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
O corpo de Kaden ficou frouxo. Sua silhueta balançava como de um bêbado, prestes a cair no chão, até que foi pego ao mesmo tempo por Meris e Inara.
Elas se olharam por um momento, suas almas travando um breve confronto de olhos. O olhar de Meris era frio e irritado, com geada parecendo arranhar a borda de seus olhos prateados, enquanto os lábios de Inara se curvaram numa expressão que parecia uma provocação.
Seu duelo silencioso durou pouco. Ambas voltaram sua atenção de volta para Kaden, que jazia inconsciente, de olhos fechados, respiração superficial. Então, suas cabeças se moveram em perfeita sincronização em direção a Luke e o encontraram estirado sobre o chão rochoso, com olhos vazios e sem vida.
"O que está acontecendo?" perguntou Inara, com um tom mais curioso do que preocupado.
Meris deu de ombros. "Pergunte a ele." Ela indicou Kaden com um leve gesto de queixo.
O olho de Inara piscou de surpresa. "Nossa, Meris... você não é uma gênia? Por que não pensei nisso antes?" Sua voz carregava um tom de zombaria, repleta de sarcasmo.
Meris a ignorou.
…
O mundo escureceu. Por um instante breve demais para ser contado, Kaden teve a sensação estranha de estar sendo engolido por algo. Algo tão assustador que fez sua mente ficar vazio, seus pensamentos pararem, a respiração desacelerar…
…a própria vida parecia pausar.
Tudo que ele conseguia sentir naquele momento era medo e tristeza atravessando seu coração de uma forma que nenhuma flecha jamais poderia alcançar.
E então…
Luz.
Os olhos de Kaden se abriram com um estalo agudo. Instintivamente, ele olhou ao redor, tentando assimilar o que via.
A cena diante dele era arrepiante.
Ele estava sobre uma pequena jangada cinza, mal grande o bastante para sustentá-lo, flutuando no meio de um mar sombrio e cinzento. Ao seu redor, até onde seus olhos alcançavam, as águas se estendiam infinitamente, fundindo-se com o horizonte em um vazio sem cor.
Acima, o céu — cinza como o mar abaixo — estava carregado de nuvens densas e negras. Não havia sol, nem lua, nem qualquer corpo celestial conhecido pelo homem.
Kaden franziu a testa.
"O que é isso?" murmurou, com as pernas firmemente enredadas na jangada, com medo de cair no mar — algo que ele preferiria muito evitar, pois podia sentir uma aura sufocante emanando dele.
Não, não era só o mar. Era o lugar inteiro, apertando sua garganta, fazendo seus pulmões doerem só de tentar funcionar.
Sua Vontade acendeu instintivamente, reagindo a um perigo que nem sequer conseguia perceber claramente.
Notícias ruins.
"Será que esse é mesmo o local da mente de uma pessoa?" ele falou consigo mesmo, ainda confuso. Ele tinha vindo aqui para olhar as memórias de Luke, para entender um pouco mais aquela runa preta.
Achou que era uma boa ideia. Luke não parecia disposto a conversar, e Kaden não tinha tempo a perder com tortura. Além disso, poucos podiam igualá-lo em questões de Vontade. Na verdade, ele acreditava que só o Escravo poderia.
Pelo menos por enquanto.
Com confiança, ele entrou na mente de Luke sem o menor cuidado. Foi uma decisão imprudente, principalmente após o incidente com Calix, no Domínio dos Condenados, com Alea, mas já era tarde demais para resentir ou pensar nisso com frustração.
Ele levou sua percepção até o limite, tentando entender mais claramente aquele lugar angustiante.
A jangada sob seus pés estava imóvel, não se movia. Isso era estranho, ele comentou. Sua testa se franziu ainda mais enquanto seu olhar passava além da jangada, em direção ao mar, e só então percebeu algo que não tinha visto antes…
…o mar… o mar não se movia.
As águas não estavam fluindo. Permaneciam em uma imobilidade perfeitamente antinatural. Sem ondas, sem ritmo, nada. Havia apenas um reflexo perfeito dele mesmo na superfície lisa como vidro, parecendo polida pela mão de um perfeccionista.
Essa percepção o deixou mais atento ao seu entorno.
Nada se movia.
O vento não soprava. As nuvens acima pareciam pregadas ao céu, incapazes de se mover sequer um milímetro.
Até ele mesmo.
A respiração desacelerou, uma sensação sufocante escarrapachando-se por dentro dele. Seu coração vacilou, lento, como um cavalo arrastando-se na lama. Seu corpo começou a congelar numa imobilidade mais profunda do que qualquer coisa que já tinha imaginado.
Os olhos de Kaden se arregalaram de choque ao finalmente perceber o nó de pavor que apertava seu peito. Ele tentou se mover, mas, caramba, parecia que o próprio ar tinha se transformado em aço reforçado e se enroscava ao redor dele milhões de vezes.
Seu corpo estava pesado. Sua mente, pesada.
Seu ser inteiro ia à deriva, afundando numa espécie de pausa eterna. E, apesar disso, ele não conseguia se livrar da tristeza que crescia na sua garganta.
Sentia vontade de chorar, e sabia que era apenas sua Vontade que impedia suas lágrimas de escaparem e que o mantinha resistindo à sufocante quietude.
'Agora… agora é algo,' pensou Kaden com enorme esforço. Mesmo pensar tinha se tornado uma tarefa difícil.
Ele não sabia o que estava acontecendo, ou que tipo de lugar era realmente a mente de Luke, mas precisava sair antes que tudo piorasse.
Ele nunca conseguiu.
Porque, no instante em que esses pensamentos atravessaram sua mente, muito mais lentamente do que de costume, as nuvens acima começaram a se mover.
Nesse mundo de imobilidade, aquele movimento único chamou toda a atenção dele. Com o esforço de um bebê tentando empurrar um homem feito, ele ergueu a cabeça na direção do céu e viu uma cena que fez seus olhos se arregalarem em câmera lenta, preenchidos de assombro e pavor ao mesmo tempo.
Lá em cima, entre as nuvens negras, começou a se formar o rosto de uma mulher. Mesmo sendo formado por nuvens, seus traços eram detalhados o bastante para que Kaden sentisse sua beleza instintivamente. Seus lábios, seu nariz, seu cabelo — tudo exalava uma graça impossível.
Mas seus olhos…
Kaden reprimiu um calafrio.
…Lágrimas.
Seus olhos estavam chorando.
Lágrimas negras escorriam pelas bochechas do rosto da mulher gigante antes de cair na superfície imóvel do mar cinzento.
O mar não se mexia. Não refletia ondas. Permanecia congelado, como tudo mais neste mundo… tudo, exceto o rosto lá em cima.
Kaden sentiu-se como um mortal diante de algo distorcido. Algo divino.
Os olhos chorosos da mulher fixaram nele, e num piscar, a imobilidade se aprofundou, o esmagando sob um peso invisível. Seu olho esquerdo congelou no lugar, preso à existência, incapaz sequer de tremer. Era apenas o começo. Logo, todo o lado esquerdo dele ficou enraizado… enraizado na jangada, no mar… enraizado no próprio tempo.
Kaden não sabia o que aconteceria se ele se tornasse uma estátua naquele lugar, mas não tinha muita vontade de descobrir.
Porém, sua mente ficava lentamente opaca. O próprio ato de pensar começou a parecer uma tarefa que ele preferiria evitar. Simplesmente, ficou ali, olhando fixamente para o rosto da deusa…
'…Deusa?' Kaden quase conseguiu captar esse pensamento antes que fosse engolido pela maré crescente de tristeza que o deixou incapaz de sequer piscar.
O rosto da mulher começou a descer lentamente em direção a ele. E, se Kaden estivesse um pouco mais atento, perceberia que, dentro do seu olho esquerdo, chorando, ajoelhava-se uma figura, de mãos juntas em oração, imóvel, como se congelada em uma reverência eterna.
Era Luke Thornspire.
O dono daquele cenário mental.
Mas Kaden não sabia de nada disso, enquanto seus olhos vermelhos sangrentos começavam a escurecer nas bordas e…
Lágrimas.
…Lágrimas negras começavam a escorrer de seus olhos, traçando-lhe as bochechas antes de fazerem barulho suave à queda sobre a jangada abaixo.
Nenhum pensamento se formava em sua cabeça. Seus órgãos internos tinham praticamente parado de funcionar, restando apenas uma leve respiração para mantê-lo vivo.
O rosto chorando agora estava a poucos centímetros dele, com a boca aberta em um sorriso assustador, do qual emergia um buraco sem fundo, ecoando choros de dor e tristeza… choros capazes de fazer até o coração mais endurecido se derreter em lágrimas de impotência.
A boca aberta daquela face monstruosa começou a engolir Kaden inteiro, metade de sua cabeça já desaparecendo na escuridão.
E foi nesse instante…
"KADEN!"
A voz de Reditha, amplificada por toda a intenção que Kaden tinha dominado, ressoou como trovão em sua cabeça. Instantaneamente, seus pensamentos voltaram a se mover, sua mente se agitou por um breve e precioso ritmo antes que a imobilidade tentasse novamente prendê-lo.
Mas aquele instante fugaz, nascido de um medo profundo e desespero, foi suficiente para Kaden.
Neste curto espaço de tempo, ela lhe salvou, com uma voz mais fria que a morte e carregada de uma determinação assassina, ele falou:
"Síntese."