
Capítulo 268
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
Foi horrível. Mas, de outro jeito, era realmente uma cena de tirar o fôlego. O espaço era amplo, com altas colunas pretas elevando-se de cada lado de uma câmara quadrada, fazendo o teto parecer impossivelmente alto.
O ambiente era sombrio, quase sem luz, como se quem tivesse criado aquele lugar desejasse mergulhá-lo numa escuridão perpétua. Cercando a sala, em um padrão circular, havia celas amarradas com inúmeras correntes — pequenas, delicadas até — parecendo feitas para restringir crianças, não adultos.
E eram mesmo.
Este era outro Ninho do Cerveau. Mas não era mais deles. Continuava sendo um ninho, sim… porém, agora pertencente a uma criatura bem diferente. Teias de aranha cobriam cada centímetro do espaço, entrelaçando-se e se sobrepondo até formar um tapete deslumbrante de fios reluzentes.
No alto, acima do teto, vários casulos, do tamanho de um humano, pendiam como estrelas em um céu escuro.
Perto deles, uma aranha enorme, com dentes afiados e limpos como lanças, flutuava lentamente, suspensa por seus próprios fios. Sobre suas costas vermelhas, estavam cerca de uma dúzia de crianças, com olhos arregalados, fixos no mundo ao redor.
Você pensaria que elas estariam com medo, tremendo ao ver a aranha monstruosa, mas estava longe disso. As crianças, com cerca de oito ou nove anos, observavam com admiração o tapeçúcar cintilante da teia.
"Aranha Grande! Aranha Grande! Como você faz isso?" uma menina corajosa chamou, seu cabelo cinza e olhos aveludados brilhando sob a luz tênue. Ela exibia um sorriso largo, torto. Seus lábios esticados de forma artificial, seus olhos mortos e secos, como a garganta de um homem desidratado perdido no deserto.
A aranha não respondeu. Não porque quisesse, mas porque ainda não podia falar. Algo que a garota talvez não entendesse ou simplesmente não se importasse, já que ela se recusava a fechar a boca. Na verdade, ela parecia odiar silêncio, falando apenas para afastá-lo.
Suas companheiras sentiam o mesmo, tagarelando sem parar com a aranha, sem se importar se ela respondia ou não. Suas vozes quebradas enchiam o ar até que a aranha, visivelmente irritada, começasse a levantar seus fios para selar suas bocas. Mas justo nesse momento, algo brilhou vermelho vivo no pescoço dela — um colar em forma de olho sangrento.
Ela parou.
Então seu rosto monstruoso se torceu, formando algo semelhante a um sorriso, enquanto ela se recolhia em direção ao portal de teletransporte e desaparecia do Ninho, deixando para trás apenas aqueles ainda presos em suas teias imutáveis, com sua vida, energia e mana sendo lentamente, agonizante, drenadas para alimentar a aranha.
Eles estavam vivos. Ainda conscientes.
Conscientes o suficiente para saber que o Cerveau tinha perdido.
…
Se o outro Ninho havia sido mesmo um esconderijo para uma aranha, então este era uma toca dos condenados.
No centro da sala, sobre um trono feito de ossos rasgados, intestinos amarrados, corações pulsantes e órgãos quebrados, estava um homem corpulento, envolto em uma túnica carmesim e uma máscara ensanguentada. Uma perna dobrada, a outra estendida sobre o trono grotesco, uma enorme espada descansando ao seu lado, com a lâmina constantemente gotejando sangue vermelho.
Ele se sentava numa poça rasa de sangue, onde dezenas de crianças pequenas estavam — seus pézinhos escorregadios e lamacentos, tingidos de vermelho.
Eles olhavam ao redor, olhos arregalados, não em horror, mas em pura alegria. Seus lábios contorciam-se para cima enquanto encaravam os corpos destruídos daqueles que, um dia, os torturaram.
"Grande Senhor! Grande Senhor! Ensine-nos!" dizia um garotinho com pele, cabelo, sobrancelhas e olhos todos pálidos como fantasmas.
Seu rosto era pequeno e fofo, do tipo que um dia se transformaria em algo marcante. Mas seus olhos pálidos eram frios e afiados como equelas de gelo.
Ele ficava na frente dos outros, claramente o líder. Ruined olhava para ele com olhos azuis duros, estudando cada detalhe do menino.
"Você tem família?" perguntou, com voz áspera e rouca, como a de um homem doente há muito tempo. A questão não era só para o garoto, mas para todos eles.
As crianças inclinavam as cabeças, confusas, uma expressão de dúvida cruzando seus rostos. "Família…?" sussurraram, com vozes trêmulas de incerteza. Suas sobrancelhas franzidas como se tentassem recordar algo que sabiam que tinham, mas que não conseguiam mais alcançar, algo enterrado bem fundo.
O menino pálido sorriu. Se estivesse na Igreja da Dor, talvez fosse escolhido como um Santo. Para uma criança de sete anos, até o coração enegrecido de Ruined vacilava em pena.
Naquele momento, ele já sabia a resposta. Mas, mesmo assim, o menino respondeu…
"Não temos família, Senhor!" disse com brilho excessivo nos olhos.
Voz alegre, mas vazia. Seus lábios se comprimiram numa linha fina, dura, antes de se abrir novamente para falar, só que o colar ao redor do pescoço dele brilhou vermelho. Ele parou, fechou a boca, e murmurou calmamente:
"Hora de voltar."
Num instante, ele reuniu as crianças com seu poder e desapareceu do ninho destruído.
Deixou para trás um rio de sangue e uma montanha de cadáveres mutilados. Um banquete para os corvos. Mas não havia corvos.
Seria, então, um banquete para os vermes ensanguentados.
…
Vaela observava o corpo frágil do pai, caído no chão, apoiado fraco na parede, respirando ofegante ainda. Ele ainda não tinha morrido. Era apenas um aleijado, como era o destino que ela lhe dera.
Não porque ela não quisesse matá-lo, mas porque queria que ele sofresse, que experimentasse a mesma agonia que ela sentira ao vê-lo matar sua mãe diante de si — deixando seu corpo, um peito vazio e sem coração, para o mundo testemunhar.
Aquele momento a moldou naquilo que era hoje. Aquele horror foi o que a levou a criar um artefato que ligou sua vida à daquele que viria a amar. Porque, se ela perdesse essa pessoa de novo, preferiria morrer e acompanhá-lo na morte.
Para Vaela, a vida só valia a pena quando seus entes queridos estavam ao seu lado. Ela não tinha ambição de ser forte por si mesma. Desejava força apenas para proteger sua única amiga… Kaden.
Então, deu um passo, depois outro, e mais um. Cada passo parecia o tique de um relógio marcando o fim. Nur Cerveau olhou para ela, seus olhos azuis — que antes brilhavam — perderam seu brilho, seu rosto ressecado como um trapo ao tempo.
Seu núcleo tinha sido destruído, sua patente retirada, impossibilitando-o de se mover.
Vaela parou a um centímetro dele, agachou-se, fixando seus olhos azuis nos olhos apagados do pai. Nur sorriu de canto, de forma torta.
"M–Matá-lo, garotinha?" murmurou, com a respiração fraca e rouca.
"Vou te matar do mesmo jeito que você matou minha mãe," disse Vaela, com uma voz fria. Ela estendeu a mão direita e pressionou contra seu peito, logo acima do coração dele.
Começou a pressionar. O som de ossos quebrando e músculos rasgando-se soou estranhamente na sala. Vaela se moveu lentamente, dolorosamente devagar, tornando tudo ainda mais insuportável, enquanto os olhos de Nur se arregalavam de terror. Ele tentou falar, mas só saíram bolhas de sangue de seus lábios trêmulos.
"Já não tenho mais pai," sussurrou Vaela, enquanto sua mão aprofundava no peito dele.
"Não sou mais Cerveau."
Nur começou a espasmar. Tentou rastejar para longe, mas sua força já o abandonara, e ele ficou preso, encurralado entre a parede e Vaela.
"De agora em diante, não sou Vaela Cerveau." Sua voz era suave, mas aterrorizante, enquanto ela entrava fundo no peito do pai, segurando seu coração frágil.
Ela se inclinou, sorrindo com deleite enquanto assistia à agonia dele… Seus olhos dilatando, seu corpo convulsionando, como se raiosestivessem rasgando suas veias.
Ele mal conseguia abrir os olhos, mas conseguiu. Através da mistura de lágrimas e sangue, uma imagem se formou: era de um demônio sorridente, enviado por um deus para punir.
Vaela se aproximou ainda mais, com os lábios perto da orelha dele, como se tivesse medo de que ele não pudesse ouvir.
"De agora em diante, sou Vaela Crimson, os Olhos do Véu Vermelho, a Oráculo da Morte." Sua mão apertou seu coração enquanto as últimas palavras ecoavam na mente dele, enquanto ela finalizava:
"E vou garantir que encontre meu sobrinho Nuke… para sacrificá-lo ao Kaden Warborn, minha família."
Os olhos de Nur se arregalaram de horror e o sorriso de Vaela se ampliou ainda mais, antes de…
CRAC—!
O som de carne se despedaçando ecoou quando Vaela esmagou seu coração, lançando sangue e órgãos por todo lado.
Ela permaneceu por um momento, imóvel, após a carnificina, antes de lentamente retirar a mão ensanguentada do coração dele.
Então, ela se levantou. Tranquila. Silenciosa. Sua mão direita reluzente de sangue até o cotovelo.
Ela ergueu a máscara ensanguentada e a colocou de volta, então começou a sair do cômodo, para salvar as crianças, como seu amigo havia pedido.
O som de seus passos ressoou suavemente pelo carpete, deixando um rastro tênue de sangue pingando de sua mão. Sangue do próprio pai. Era proposital, um marco de que seu morte estava selada, e do nascimento de seu novo nome.
Vaela Crimson.
O Oráculo da Morte.
Os Olhos do Ceifador.
E…
"Um demônio! Um demônio carmesim!" gritou uma criança de repente, uma menina de cabelos e olhos vermelhos brilhantes, sua voz quebrando o silêncio enquanto todas as demais se voltaram para ela.
Vaela sorriu por trás da máscara. "Oi, crianças," ela disse, com um tom doce, contrastando com o horror de sua aparência. "Sou o Oráculo da Morte do Véu Vermelho. O Ceifador, meu mestre, enviou-me para salvá-los."
Ela estendeu a mão ensanguentada em direção a elas.
"Apeguem-se a ela, e vamos partir."
As crianças hesitaram por um instante, apenas um instante, antes de estenderem as mãos ansiosas para o dedo diabólico de máscara, seus lábios se contorcendo em sorrisos largos e tortos.
Elas preferiam segurar a mão de um demônio pela liberdade do que apodrecer ali e se tornarem criaturas sem mente, como os amigos que perderam.
O sorriso de Vaela se abriu ainda mais. Seus olhos neon azuis brilharam com uma intensidade cegante.
"Vocês serão perfeitos."
De repente, o colar ao redor do pescoço dela brilhou em um tom vermelho profundo, e, num instante seguinte, ela desapareceu com as crianças.