
Capítulo 261
Me Matou? Agora o Seu Poder é Meu!
Eles estavam perdendo. E sabiam disso.
A combinação dos exércitos de Thornspire e Warborn não conseguia resistir a tamanha diversidade de forças ao seu redor.
Mas esse não era o único problema.
Não era apenas que os exércitos inimigos eram numerosos, com habilidades tão variadas que se combinavam de forma tão perfeita que até mesmo os Warborn às vezes sentiam um arrepio frio percorrer a espinha ao serem atacados.
Era evidente que alguém altamente inteligente e experiente tinha organizado essas habilidades com a melhor compatibilidade possível para eliminar seus adversários de forma eficiente.
E estava dando certo.
Porém, o problema ia ainda mais fundo. Porque, entre os exércitos de Thornspire… havia traidores.
Traidores que não hesitavam nem por um instante em apunhalar pelas costas as próprias pessoas com quem lutaram ao longo daquele tempo. Aquelas que os haviam salvo de uma morte certa. Aquelas que haviam rido com eles antes mesmo de a guerra começar.
E, oh… Thornspire estava cheia de traidores.
Em pouco tempo, os exércitos de Thornspire e Warborn estavam sendo devorados não apenas pelos inimigos, mas também por aqueles que acreditavam serem irmãos de armas.
"P-Por quê?" gaguejou um soldado destruído, um jovem de cabelos brancos e olhos azuis suaves, com sangue escorrendo pela garganta. Ele estava de joelhos, uma adaga cravada no peito onde seu coração descansava.
A dor era insuportável. Ele ia morrer. Mas ainda assim, levantou a cabeça e fixou seus olhos doloridos na mulher diante dele.
Ela era a própria beleza.
Mesmo com o sangue dos caídos no rosto e na armadura, era claro que ela era alguém deslumbrante. Seus cabelos, que antes eram brancos, estavam penteados para trás, manchados de sangue. Seu rosto era delicado, com um nariz afiado, lábios rosados e olhos dourados que ainda pareciam reter um traço de pureza. Ela vestia uma armadura branca leve, feita para movimentos rápidos.
Ela ainda segurava a adaga que perfurara o coração dela…
"…meu amor", ela conseguiu sussurrar, sentindo o frio da morte começar a dominar Sayid, seu amante.
"P-Por quê? Por que, Annie? Por que nos traíste? Por quê fez isso conosco?" Sayid lutava para falar. Quanto mais tentava, mais sentia a sua morte crescendo dentro dele.
O campo de batalha ao redor deles desapareceu. Restaram apenas os dois, de pé sobre um oceano de sangue, recheado de entranhas e intestinos de irmãos e inimigos igualmente.
Annie ajoelhou-se diante de Sayid, com seus olhos dourados cheios de dor indizível. "Foi você… ou foi minha família", ela confessou.
"Foi ou eu te matava ou eles matavam minha família, Sayid. Não tive escolha. Você não sabe quantos traidores existem dentro de Thornspire. Sayid, são muitos. Até mesmo… até mesmo…" Ela tentou falar mais, confessar mais, mas o medo a dominou, e ela não conseguiu dizer.
"Por que você não me contou?" gaguejou Sayid, com a respiração ofegante.
Annie o puxou para mais perto, pressionando sua cabeça contra o peito como ele sempre gostara. Lágrimas começaram a correr mais rápido enquanto ela sentia o corpo do amante ficar mais frio a cada segundo.
"Eles me ameaçaram. Têm olhos sobre todos nós. Não pude. Queria acreditar em nós, Sayid. Queria acreditar na força de Thornspire." Ela sacudiu a cabeça, de pena.
"E eu também acreditei no começo. Mas estávamos lutando contra uma batalha perdida. Os Cerveau nos controlam. Estamos sob suas mãos. Não temos escolha… não temos." Ela continuou falando, até que começou a chorar.
Ela não queria perder a família, por isso matou seu amante. Mas agora, ao sentir o aperto implacável da morte tomando-o, seu coração se desfazia em pedaços bem ali, na linha do tempo.
Todos ao redor, o campo de guerra continuava: irmãos traindo irmãos, amantes apunhalando um ao outro, irmãs puxando cabelos.
Era o caos total.
E, no meio de tudo isso, os inimigos avançavam, suas formações intactas, sua vontade inabalável… mas como poderiam quebrar?
Eles já não tinham vontade de lutar. Eram escravos sem mente que não sentiam nada, mesmo ao matar pessoas que uma vez conheceram.
E Annie, sentindo a dor insuportável que consumia toda ela, desejou poder ser como eles. Desejou não sentir nada. Desejou não ter vontade alguma. Desejou esquecer o que fizera.
E o pior…
"S-Sua família… por cima de mim…?" Sayid esboçou um sorriso pequeno e partido. "Troca justa…"
Parecia que alguém estivesse sufocando os pulmões de Annie. Seus olhos se arregalaram ao ouvir a ausência de ressentimento na voz dele.
Sayid pegou algo de seu anel de espaço. Era uma pequena caixa metálica branca, cuidadosamente embrulhada com uma fita dourada. Era óbvio que alguém a preparou com carinho.
Os olhos de Annie se arregalaram. "Não… não… não faça isso comigo, por favor. Por favor, não, Sayid. Sayid…" ela gaguejou, chorando. As lágrimas caíam enquanto a caixa se abria, revelando um anel. Um belo anel branco com sigilos dourados gravados nele.
O anel que ela tinha dito a Sayid que queria, quando ambos começaram a perceber que eram feitos um para o outro.
"Eu… queria me ajoelhar, mas…" ele sorriu fraquinho, os olhos escurecendo, o coração desacelerando. Estava morrendo.
Mas se obrigou a dizer uma última palavra. Ah… talvez não fosse uma só palavra, afinal.
Foram três palavras. Oito letras.
E, naquele momento, o peso delas poderia destruir o mundo.
"Eu… te amo…" Sayid conseguiu quase sem fôlego, e então seu corpo ficou frouxo nos braços de Annie.
Ele a amara até o fim. Ele a amara mesmo quando ela perfurou seu coração que só pulsava por ela. Ele a amara mesmo quando ela escolheu sua família ao invés dele.
Mesmo que tivesse abandonado o mundo e todos nele, só por um sorriso dela.
Ela foi sua luz. Ela foi sua vida. Ela foi tudo.
E ele morreu entregando a ela a única coisa que desejava que ela se lembrasse dele… seu amor incompreensível.
"ARGHHHHHHHHHHHHH!"
Annie gritou em agonia pura. As lágrimas embasaram sua visão de vermelho. Ela tomou o corpo frio de Sayid, inclinou o rosto contra o dele e o beijou nos lábios gelados, sentindo o peso da morte dele se instalar no peito.
Era pesado. Era insuportável.
"Eu também te amo… Eu também te amo… Eu…" ela não conseguiu terminar. Era tão angustiante que achou que seu próprio coração estaria sendo despedaçado. Mas não era uma metáfora. Estava realmente sendo despedaçado.
Um soldado inimigo, sem piedade, rasgou seu coração em pedaços, e, sem sequer olhar para o corpo dela, continuou sua carnificina.
O corpo de Annie caiu sobre o de Sayid. A dor no coração deveria estar em outro nível, mas a dor física de ver seu coração sendo destruído não se comparava à dor que ela sentia com a morte do amante, causada por suas próprias mãos. E, mesmo assim, ela sorriu em meio a essa dor.
Porque…
'Vou com você… meu amor. Você… vai me perdoar? Eu —!'
Ela não conseguiu concluir seus pensamentos enquanto morria sobre seu amado.
Ela não conseguiu terminar. Mas o significado ficou claro.
Eu te amo.
Eu te amo, mesmo quando rasguei seu coração. Eu te amo, mesmo quando escolhi minha família ao invés de você.
Eu te amo, Sayid.
E…
Me perdoe.
…
"Cough… toss…"
Eliot ofegou ao se levantar lentamente, seu corpo dilacerado em vários lugares, sangue jorrando livremente. Seus olhos estavam turvos, os membros exaustos, mas ele ainda sorria.
À sua frente, jazia o cadáver de Matthew, atingido por espinhos que o corroíam de dentro para fora, deixando apenas uma casca oca.
Eliot não tinha mais escolha além de usar a Faceta de seu Épiteto para vencer, surpreendendo Matthew.
O uso de seu Épiteto o exauriu, mas pelo menos a batalha tinha acabado.
'Só preciso de três minutos de descanso. Luke vai conseguir liderar os soldados à vitória…'
Pensou enquanto começava a se abaixar, quando de repente ouviu o som de passos esmagando as pedras, aproximando-se.
Ele virou a cabeça rapidamente e viu um homem alto, com cabelos brancos presos numa rabiola, olhos vermelhos brilhando na penumbra. Seus traços lembravam bastante os de Eliot.
Era seu irmão, Luke Thornspire.
Eliot franziu a testa, confuso, com a expressão cansada. "O que você está fazendo aqui? Você deveria estar liderando os soldados à vitória," ele falou com a voz seca de exaustão.
Já tinha tomado uma poção de cura, mas não adiantou. O esforço de usar seu Épiteto ultrapassa muito o mana.
Luke, por sua vez, apenas sorriu e fez um gesto de descaso com a mão. "Sem preocupações. O resultado desta batalha já está decidido."
Os olhos de Eliot se arregalaram levemente de surpresa. "Que ótimo. Não esperava menos de você," ele disse com um sorriso, aproximando-se do irmão e batendo no seu ombro.
Ele estava realmente impressionado. Chegara a pensar que, mesmo com a ajuda dos Warborn, seus exércitos perderiam de vez ou sobreviveriam apenas com perdas catastróficas. Mas, se Luke tinha vencido…
Não pôde deixar de admirar a capacidade de liderança do irmão mais novo. Com um sorriso irônico, Eliot deixou escapar um pensamento que carregava há anos.
"Você poderia ter sido um Patriarca melhor se tivesse nascido antes de mim." Ele falou abertamente, sem ciúmes. Apenas uma verdade que sempre acreditou.
Porém, após suas palavras, um silêncio demasiado estranho caiu.
E então, foi interrompido.
O som de carne, ossos e tendões quebrando ecoou juntamente com um rune preta que surgiu repentinamente no peito de Eliot.
Por um momento, ele não reagiu. Sua mente demorou a compreender o que tinha acontecido. Lentamente, abaixou a cabeça e viu a mão de Luke pressionada contra seu peito. Então, levantou novamente o olhar… e congelou.
Os olhos vermelhos de Luke brilhavam com uma luz sinistra enquanto ele o encarava sem uma gota de calor, como se Eliot fosse nada mais do que uma pedra no seu caminho.
"Você está certo. Eu deveria ter sido Patriarca. E agora, serei," Luke sussurrou enquanto os lábios de Eliot começavam a escorrer sangue. Ele se inclinou mais perto, a voz roçando seu ouvido.
"Descanse em paz, irmão. Vou fazer de Thornspire a potência que ela sempre deveria ser."
"Eu. Não você. Nem minha sobrinha Rea."
Seu olhar era frio, distante, totalmente desprovido de kinship.
"Eu, Luke Thornspire. Então vá, irmão, e saiba que foi uma derrota… tanto como líder quanto como pai."
Então, por um breve momento, um estranho lampejo de algo desconhecido tocou o sorriso de Luke.
"Mas não como irmão."
Com essas palavras, Eliot desabou como uma marionete partida.
—Fim do Capítulo 261—